Moonville
1 Prólogo.
Notas iniciais
E foi como uma parede que ações, que te impediam de respirar.
E continua sendo como os entulhos, que te soterraram até sua força ser maior que o desespero".
Sant'Millen — 1757
Chuva atrás de chuva. Nuvens densas e escuras que desabavam sobre o topo das construções da vila de Sant'Millen. Mas nada apagava a fúria dos cidadãos.
Homens armados, nem que fossem com instrumentos de trabalho. Tochas que acendiam e apagavam incansavelmente. A força de vontade parecia superar o frio, o sono e o cansaço que todos tinham após um dia inteiro de trabalho, naquele lugar esquecido por tudo e todos.
Após uma ligeira colonização — ou se é que podiam chamá-la assim, pois foi totalmente deixado pelos "oficiais" e nem sequer tinham notícias de fora -, o lugar foi esquecido à beira do abismo. Ninguém queria morar ali. Todos os documentos foram jogados ao mar, todos os líderes se mudaram as pressas, o lugar teve de ser administrado por pequenos povos, famílias tão minúsculas, por um povo tão farto de sua própria vida, que faria qualquer coisa que pudesse lhe dar uma folga, ou trazer-lhe algo novo com que se preocupar, diminuindo assim a pressão do trabalho injusto, da vida sofrida, das mortes familiares por doenças desconhecidas e a situação precária em que foram deixados.
15 anos atrás, gêmeos nem tão parecidos nasceram. Um menino e uma menina. A menina era a cara da mãe, e o menino, do pai. Mas os dois nasceram loiros de olhos claros, mesmo tendo as duas partes da família morena. As atitudes tomadas por sua aparência diferenciada não foi nada perto do que os cidadãos acharam certo fazer, quando estes jovens começaram com o comportamento estranho. Eles sabiam o que acontecia ali. Eles já tinham vivido isso antes. Histórias corriam pela mistura de raças que sofreram nos últimos séculos. A que mais chamava a atenção, era a de um garoto.
O jovem ruivo de olhos azuis como safiras, se tornou instável, insano para a cultura de sua aldeia. Era dito como um perigo a todos. Ele foi caçado, quando o povo se cansou de tanta bagunça em sua própria moradia. Mas não conseguiram pegá-lo. Ele fugiu. Correu mais do que todos. Mais do que todos os poucos que tiveram a coragem de segui-lo. Suas roupas antes brancas tornaram-se sujas. Alguns encontraram a parte de cima de sua vestimenta totalmente rasgada, com pedaços espalhados pelo que poderia ser o caminho para achar o tal garoto. Sua família tinha sido condenada a pena de morte na sua frente, por bruxaria. Foram responsabilizados por algo que nem mesmo ele tinha culpa. E tudo o que passava por sua cabeça era a vingança. Era o ódio guardado por perder o que lhe era mais importante, e nem mesmo saber o motivo de tanta condenação.
E os que lhe caçavam, realmente achavam que estavam um passo a frente e o chamavam das piores palavras por ter deixado seu rastro. Realmente achavam que não havia sido de propósito.
Ao atravessar o campo, ouviram uivos. Eram como se duzentas pragas selvagens tivessem sido soltas a céu aberto, mas na verdade, o que se viu foram dezesseis homens e quatro mulheres adultas cercando um jovem. O jovem. E começou.
_Nos entregue a besta! — Um dos homens levantou uma estaca de madeira, feita com a maior atenção que conseguia, com uma ponta preciosa de metal aquecida. Poderia deixar uma marca eternamente dolorida na pele do maior dos brutamontes da época.
_Besta? Vejo apenas um garoto. Um jovem o qual vocês torturaram! — Gritou uma das mulheres do bando. Ou melhor, da matilha.
_Cale-se! Como uma mulher ousa tomar tais ordens? Junte-se aos seus filhos e proteja-os desse perigo! — Outro homem, grisalho, não tão de idade, mas judiado pelo tempo. Este jogou uma tocha na direção da mulher. E se surpreendeu, a ponto de cambalear para trás, quando esta pegou a tocha com a mão e jogou no chão, fazendo o fogo se acender em certo ponto no mato. Uma clareira se formou, e logo a fumaça indicaria o local.
_Aqui todos somos um, velho. — Ela respondeu no ato, dando uma risadinha e puxando o garoto pela mão para trás — Mas logo você verá o porquê, de um lugar bem mais confortável.
_Para trás, Tiana — A fala que surgiu entre os dentes de um homem alto e forte, de cabelos e olhos escuros, pareceu acompanhado de um rosnado, mas não teriam certeza do que ouviram, nem muito tempo para associar. — Pessoas como ele, são nossas riquezas.
Um tapa foi dado. Oras um tapa? Nem encostara um dedo no rosto do homem, mas este caiu segundos depois. A causa foi clara a todos: Dedos não se encostaram ao rosto, mas unhas no pescoço. Não eram exageradamente longas, eram apenas unhas de quem passava algum tempo sem cortá-las. Mas ele não tinha uma desse tamanho antes, e agora tinha uma tão aparentemente forte quanto diamante. Quanto um diamante vermelho.
Eles tentaram correr, mas foram cercados novamente. E dessa vez, o menino estava junto. Ele era protegido e parecia proteger. Ele sabia das fraquezas. Do quanto estavam cansados, do quão pouco pensavam logicamente pelo desespero. Do instinto que tinham em sofrer o menos possível.
Ao cessar, os outros homens encontraram poucos sobreviventes. Ninguém estava ali, nem mesmo o tal garoto procurado. Não havia nem mesmo um fio de cabelo vermelho ali. Nem um sinal dos olhos azuis brilhantes que tanto choraram por seus feitos.
Voltaram as pressas, mas nenhum conseguiu ser salvo. Lendas começaram a correr, mesmo com todos tentando driblar ao máximo todas as famílias e amigos daquelas vítimas. Ninguém estava preparado. Ninguém nunca está. Todos se iludiram pensando estar.
As autoridades fugiram com o medo, abandonando Sant'Millen na ponta do precipício. Nada nunca mais aconteceu em 60 anos. Até agora.
A chuva parou. Isso significaria vitória para uns, perigo para os gêmeos. A casa antiga e solitária, afastada, porém nem tanto, começou a ser invadida por sons distantes de homens enfurecidos a caminho. E se revirar na cama para tentar dormir se tornou uma tarefa difícil, pois não sabia se era mais um pesadelo. Não custava nada tirar a dúvida. Custou para Kiara apenas alguns segundos tomando coragem. Ela foi até uma abertura na parede tampada com madeiras, uma janela, e um leve tecido rendado por cima, uma cortina, e olhou. Luzes poderiam ser claramente vistas se aproximando cada vez mais em meio a névoa que a chuva deixara. Arrastou a barra da saia de seu vestido levemente branco, com uma fica dourada marcando abaixo dos seios, no chão apressadamente enquanto ia retirar um dos potes de barro de uma das goteiras e jogar no rosto de seu irmão. Sabia que quando ele tentava dormir, era dificílimo acordá-lo. Como responsável pelos dois, suas horas de sono eram sua única fuga, e Kiara sabia disso.
_Airan! — Gritou, recolhendo o que podia. Coisas que a lembravam de sua família. Duas pinturas de carvão de seus pais. Sua mãe morreu no parto, e seu pai sumiu, se entregou para que seus filhos pudessem ter mais algum tempo. Sempre que alguém de cabelos e olhos claros sem sentido algum nascia, era privado o direito de viver, pois podia ser mais um deles– Airan! Acorde! — Chacoalhou seu irmão pelos ombros, fazendo seus cabelos cheios e lisos tão loiros que pareciam brancos, caírem em seu rosto. Ele acordou assustado. Mais um pesadelo.
_Eles... Eles... — Ao perceber o olhar de Kiara, Airan se levantou em um pulo e correu até a janela. Eles estavam mais próximos. Pegou uma faca no que usavam como cozinha, e a mão de sua irmã, puxando-a o mais rápido que podia para os fundos da casa. Uma palavra descreveria o lugar. Lama — Onde está Judite? — Judite os criou. Era sua tia, irmã mais nova de seu pai. Ela o ajudou a fugir e cuidou de seus sobrinhos como seus próprios filhos. Era como uma mãe para eles. Eles amavam-na e se entregariam para aquele povo por ela, mas um queria salvar o outro e honrar os pais dos gêmeos. Era uma questão que não podia ser esclarecida com um simples pensamento. Era uma questão que não foi esclarecida em 15 anos.
_Eu não sei. Ainda não a vi.
_Ela não passou após eu adormecer? — Airan parou subitamente e apertou a mão da irmã. Sabia o que Kiara estava pensando. Sabia que poderia ter ocorrido. Eles pegarem-na por terem cuidado deles, e torturarem-na até que falasse onde podiam encontrá-los.
_Não, desculpem — Os rostos de medo e preocupação foram substituídos pela surpresa e alívio, que duraram pouco, como esperavam — Agora vamos, vamos, vamos! Preciso tirar vocês dois daqui rápido — Judite tinha cabelos castanhos longos em uma trança que caia em suas costas. Olhos negros redondos que nunca deixavam passar uma só insegurança dos seus protegidos. Vestia um vestido verde simples com saia trançada e volume nas mangas.
_Por que não apareceu anteriormente? Ouvimos falar que eles viriam, podia ser só mais um dito vazio, porém sabe como nós ficamos de preocupação — De vez em quando, Airan parecia rugir contra eles. Mas os três sabiam que nunca nutriram nenhum sentimento indiferente a eles. Sabiam que a mãe daria a vida por eles, se uma das duas mulheres ali, Judite e Kiara, tivessem filhos, certamente fariam isso por eles. Se Airan tivesse filhos, certamente se entregaria por eles. Entregar-se-ia pela irmã e pela tia, aliás, sem pensar duas vezes.
_Não pude. Eles me procuraram. Mas sabem como sempre respeitam as jovens desafortunadas — Ela deu um risinho nervoso. Nunca foi sem qualidade de vida, mas tinha que fazer certas cenas para não correr riscos, ainda mais depois de esconder os sobrinhos. Não queria que eles se afastassem, mas sabia que mais dia menos dia teriam que fugir. E esse momento era agora! — Vamos por aquela trilha. Mas não tenho certeza. É noite e época de caça, vamos ter que dar a volta. — Apontou para a floresta onde geralmente caçavam. Nem sempre iam até o lugar, a menos que fosse a época em que os animais todos se aglomeram em certa área a fica extremamente fácil de achá-los. Mas como sempre saem à noite, qualquer árvore ou mato se movendo, qualquer mísero som de galho quebrando era digno de um tiro. À volta, era barro, barro e mais barro, até um campo. O campo tinha capim alto, algumas ervas e flores rasteira. Era um lugar esburacado e cheio de ervas daninhas.
_Mas é um caminho mais longínquo — Kiara tentou controlar, mas estava tremendo — Além disso, é o mesmo caminho por onde aqueles caras de seis décadas passadas... — Foi diminuindo a voz no passo que lembrava o que ouviu vagamente uma vez. "Dizem que o a marca que o fogo deixou na grama não se apagou. Que nenhuma mata cresceu em substituição a marca. Que ainda pode-se perceber o cheiro desagradável da fumaça daquela noite".
_Kiara. Eles devem ter mudado. As provas enchem os olhos dos que querem ver o que realmente ocorreu. Isso se tornou uma lenda tragada pelo medo, mas sabemos a verdade.
_É Judite. Mas o que nós somos? — Airan soltou a mão de Kiara e passou ambas no cabelo. Um mandado sem resposta para que a dor de cabeça parasse. Agora as duas sabiam que ele estava extremamente preocupado. Airan não podia estar à flor da pele. Não aconteciam boas coisas — Dessa parte as lendas não falam!
E é verdade. Nunca ninguém soube o que o garoto era, nem o que ele fazia para aquelas pessoas estranhas que se comportavam de forma tão selvagem. Eles apenas conseguiam enxergar e intuir além do que a mais hábil das pessoas. Sonhar e ouvir além. Sempre conseguiam dizer a coisa certa para quem precisava. Tiravam dores, mas um piso em falso com o próprio emocional, e toda a dor era devolvida, a quem quer que fosse que estivesse por perto. Mas isso não destruía os séculos que carregavam nas costas. 60 anos nutrindo o desespero das famílias, a rebeldia dos jovens, a desproteção das crianças e o temor que todos tinham. Era como se não quisessem deixá-los perceber o que realmente sentiam por eles — mesmo estando mais do que visível — e ao mesmo tempo planejar formas e mais formas de capturá-los e tentar saber o que realmente eram.
_O plano é — Judite pareceu ignorar as perguntas por alguns momentos, nunca soube como responder quando eram perguntadas. Antes eram frequentes, depois foram diminuindo até reduzirem a pó. Tinham a impressão e de certa forma, esperança, de nunca saberem — Vocês vão por ali. — Apontou, empurrando-os. Uma mão nas costas de cada um, olhando frequentemente para trás — O povo tem medo de vocês, porque pessoas como vocês são procuradas por renegados como aquelas pessoas que falaram — Não teve nenhuma sequela em "pessoas como vocês", mas sim em "aquelas pessoas" — Não deixem ser encontrados, nem levados. Talvez se conseguirem ultrapassá-los, provem para essa aldeia que vocês não são assim! Essa é uma oportunidade, e me escutem! Sua esperança de viver uma vida normal — suspirou. Do jeito que falava, até parecia fácil — Não se entreguem — falou pausadamente.
_Mas e você? Vai simplesmente ficar para trás? Você vai vir junto, não vai? Sabe o que eles farão com vocês caso te peguem! — Kiara aumentava a voz, e ao mesmo tempo tentava abafá-la para não ser ouvida.
_Vou chegar até vocês, prometo. Mas preciso me certificar que eles vão se atrasar um pouquinho. — Já tinham discutido sobre isso meses antes, quando a situação começou a ficar difícil. Airan se descontrolava um pouco fácil demais, e as pessoas a sua volta começaram a adoecer, ou a perder animo e o culpavam, o que trazia ainda mais consequências. Kiara não tinha boas intuições com algumas pessoas, e quando o pior acontecia, era culpada também. Como se fosse praga deles.
_Você terá mesmo tempo de por fogo na nossa casa e na sua? Aliás, na Colheira inteira! — Airan sempre achou esse nome estranho. Falavam colhera em frases como "Fulano colhera os grãos", mas acrescente um “i” e o nome da região onde moravam se forma. Sant'Millen era separado em três lugares. O Centro de Cedro. Nome dado às plantas que haviam lá, onde os comerciantes e poderosos moravam, o Campo, onde os trabalhadores moravam, onde existiam as plantações e áreas verdes mais bonitas e que mais rendiam. E a Colheira. Onde havia uma floresta de caça, casas onde pessoas insignificantes e ignoráveis ou de pequeno porte o bastante moravam, onde eram deixados os animais doentes e as carnes machucadas para não poluir o resto do vilarejo, e onde rodavam os piores mitos. Mas também era a parte mais segura, já que quase ninguém ousava chegar perto em boa vontade.
_Não só terei tempo, como ainda rirei da expressão que eles farão. E espero que vocês já estejam longe, assim tenho tempo de pegar meu cavalo e os de vocês.
Kiara sorriu francamente, pela primeira vez na fuga. Ela amava os cavalos. Praticamente cresceu com quem lhes deu a luz e os viu nascer. Pareciam ser seus únicos amigos fora Airan e Judite.
_Espero que não esteja somente nos deixando tranquilos. — Airan para e se vira para olhá-la nos olhos — Espero que esteja nos falando a verdade. Sabemos as consequências — Ela sorri e assente com a cabeça, então os dois se viram de volta e correm. Correm tanto que nem se dão conta de Judite correr para outro lado a procura de algo que iniciasse o fogo. Correm tanto que nem parece mais estarem sendo seguidos por vários homens com coisas que os destroçariam em minutos.
A floresta onde ocorre uma caça, porém é mais rápida, ou um campo medonho e longo, que é mais seguro? Segunda opção. Nunca se opuseram a Judite, muito menos agora. Confiar nela é a ultima coisa que lhes resta.
Deram a volta na floresta da forma mais rápida que podiam, mas suas pernas travavam, e o ritmo da corrida só estava veloz o bastante para que não voltassem correndo para trás e caíssem no colo de sua tia, como se tudo fosse mais um pesadelo. Como se a vida dos dois até agora não passasse de horas e horas de um sono mal dormido. Escuro. E sim, havia uma lua ali. No céu quase limpo depois de tanta tempestade. Arriscaram olhar para trás uma vez e viram um ponto de fumaça. Ótimo. Não poderiam mais classificar voltar para casa como uma opção, o que na verdade nunca fora. Ótimo. Se uma já está pegando fogo, a próxima está a caminho, e então a Sant'Millen terá mais problemas com que se preocupar e os deixariam escapar em paz.
Deram as mãos e apertaram. Um pouco, bem pouco, de alívio percorreu as mãos de um para outro no aperto, e um leve sorriso levantou o canto de seus lábios sem que percebessem. Em pouco tempo, estariam livres.
O final do campo estava próximo, pelas suas contas, Judite estava terminando de tocar o fogo, que se alastraria como vento e correria até seu estábulo antes que este fosse tomado pela fumaça. Os cavalos poderiam estar um pouco tontos pela névoa, mas sabiam que um atraso ocorreria de qualquer forma, já que não é assim tão fácil por fogo na Colheira inteira, com um tanto de pessoas a caminho. Ela os alcançaria mais rápido, mas eles precisavam correr o máximo que podiam em linha reta, até estarem seguros para dormir, então colher alguma fruta e esperar por Judite. Mas Kiara não conseguiu dar nem mais um só passo. Congelou. Estava realmente gelada, não só pelo tempo frio, mas pelo que sentiu. Airan não perguntaria o que era, nem obrigaria a irmã correr. Esperaria ela falar. Esperaria seu sinal de "Vamos sair. Não é uma intuição falsa. Eles realmente estão aqui". Esperaria. Mas ao contrário, sacou a faca que carregava e enlaçou a irmã com um braço, rodeando, tentando enxergar alguma coisa que não fosse sombras.
_Você sabe — Kiara mais soletrou sílabas do que falou. Chacoalhou a cabeça e apertou os olhos algumas vezes até ter certeza da completa atenção — Temos que fazer isso.
_Será um pouco difícil depois de ela ter tocado fogo um palmo a frente do nariz deles.
_É só dizermos que fazia parte do plano. Um confronto final e ponto.
_Eles diriam que não temos confiança nos oficiais.
_Eles sabem que não temos. Eles mesmos não tem em nós.
_Você sairá viva.
_Vocês dois sairão — E doze cascos de cavalo bateram no chão enlameado e afundaram nas poças, em especial, um branco extremamente encardido montado — Eu disse para vocês saírem correndo. Era para estarem além do campo!
_Desculpe. Mas temos que ir depressa! — Kiara rodeou um dos cavalos, caminhando a mão em seu curto pelo marrom e subiu com facilidade.
_Mas... Então eles...
_Sim. Eles querem a nós. Vamos ter que te tirar dessa — Airan fez o mesmo, em um cavalo um pouco mais claro, quase bege, se não fosse pela sujeira.
_Não. Meu dever aqui é protegê-los. Eu sou a mais velha. Eu mando e vocês obedecerão as minhas ordens.
E o som das cavalgadas dos três cavalos pareciam não ter fim. Chegaram aonde queriam. Não tiveram nenhum confronto com eles. Por um momento, suspiraram de alívio. Era uma intuição falsa. Mas nem tanto. Simplesmente se desesperaram a correr com dobro, se não o triplo de velocidade. Mas os tais uivos se tornaram mais frequentes, do que no começo não passava de um assovio. E os três cavalos caíram.
Tudo ficou escuro para os gêmeos. Não conseguiam enxergar nada que não fosse aquele céu sem estrelas, com nuvens cinzentas de mais pancadas de chuva forte encobrindo uma lua amarela. Até ouvirem um grito, e acordarem.
_Judite! — Kiara tentou encontrá-la, mas soltou um grito quando passou a mão pelo cavalo e ele estava sem batimentos. Não encontrava sua tia.
_Kiara! Judite! — Airan reservou suas forças para levantar, e então praticamente se arrastou até Judite. Ela tinha uma mancha vermelha úmida de sangue em seu braço.
_Um deles... Um deles me... Um deles me mordeu... Um deles me mordeu. Eu fui mordida por um deles! — Ela pareceu não medir as próprias palavras enquanto olhava paralisada para o próprio braço, mas se aterrorizou, olhando por todos os lados. Estavam sozinhos.
_Mordeu? — Kiara se levantou e tateou a mão até a ferida. Tentou pensar em coisas boas e curá-la. Mas nada reagia — Eu não consigo. Não consigo!
_Meu corpo está latejando.
_E vai continuar, até ter a sensação de pedras roçando em sua bela pele — Uma voz masculina chegou até eles, e então alguém com a boca manchada, apareceu limpando-a com a costa da mão. O que só serviu para mancha-la mais. Um moreno, de olhos e cabelo escuro o bastante para ser facilmente misturado à noite — E seus dentes e unhas arderão. Menos, mas arderão. E você se sentira extremamente leve após algumas semanas de transição.
_Transição? — Gaguejou Kiara.
_Ele é um deles, Kiara! — Arqueja Airan, com o olhar mais forte que conseguia, queria poder estourá-lo apenas com isso.
_Exatamente. A moça precisará de mim se não quiser ser uma praga ainda maior que vocês. Aliás. Vocês.
_Praga? — A voz de Judite estava rouca, realmente parecia um rosnado.
_Parece que vocês só conhecem o mal da história. Preciso de vocês. Minha matilha precisa de vocês. É realmente um caso de sobrevivência.
O estranho não era eles estarem tentando sobreviver indo para a morte certa. O estranho era eles concordarem ir, após a tia ter sofrer convulsões inconscientemente. Pois ela seria parte deles, e também a causa de sua vida correr perigo. O seu perigo precisava deles. O plano não contava mais. Nada além de salvar Judite contava. Não importava mais o povo que tanto os amaldiçoou. Eles estariam encrencados em qualquer das hipóteses.
_O que nós somos? — Repetiu Airan. Com os olhos fixados nas mãos, que se agarraram a da irmã e da tia.
_Guardiões. Conselheiros. Não sabemos a palavra ao certo, mas só sei que estaríamos perdidos desde o início se não fossem pessoas como vocês. Seguimos vocês, não importa se por bem ou mal. Como foi o caso dos 60 anos anteriores. Mas Marvel morreu — Marvel. Esse era o nome do garoto ruivo de olhos incrivelmente azuis — então alguém tinha que nascer. E olhe só! Gêmeos! — Ele parecia se divertir — Posso saber os nomes das pessoas que não deixarão meu povo ir à decadência? E, da novata integrante da matilha?
_Airan e Judite Sheen'neva. Fui nomeada Kiara — Responde com rispidez.
_E o de nosso sequestrador e manipulador? — Devolve Airan, com o mesmo tom. Sem tirar aquele olhar do rosto.
_Anthony. Da matilha dos Ghranoon. Existem várias. Solitários, junção de líderes e bandos. Eu sou o único líder do meu, desde que meu pai morreu e até que eu tenha um filho. Meus irmãos faleceram em prol da insanidade de Marvel.
_E por que nós temos que salvar sua vida?
_Porque sempre damos um jeito de cruzar com o caminho de vocês. E seus dons são os únicos que nos ajudam a controlar. Existe uma lua a cada 50 anos chamada de cruento. Ela realmente parece ficar vermelha, e não conseguimos nos controlar. Na verdade conseguimos, mas fica muito difícil para os novatos. Normalmente transformamos aqueles que estão a beira da morte ou nossos filhos irresponsáveis, que ainda não dominaram. Mas ainda sim é difícil para nós. É diferente quem nasce, e quem se torna, temos que nos trancar em tumbas cavadas no chão com armadilhas e nos enfraquecer com ervas e bebidas fortes misturadas com uma planta que pode nos matar. Só que nem sempre temos acesso a isso, já que nos mudamos muito para fugir de povos como os de vocês, e poder viver em paz. — O tal Anthony, joga Judite nos ombros, assim que ela perde a consciência.
_Então. Nós somos a única esperança e a ameaça, de nossa única esperança e ameaça? Parece que estamos igualados. — Kiara olha para Judite com carinho e, bem, insegurança quanto a quem lhe carrega — Não surgirão outros?
_Confiem em mim. Surgirão outros. Até o fim dos tempos.
Notas finais
Essa história foi enterrada debaixo dos tapetes.
Mas quem muito procura, acha.
E três jovens dos tempos atuais, são curiosos o bastante para iniciarem a nova era.
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