Ashlee

Encaro Selene, surpresa por sua coragem em conceber aquele plano maluco. Por um momento, estou tão chocada que nem consigo falar.

— Tem certeza disso, Selene? — Pergunto enfim.

Seus olhos verdes parecem cheios de sombras enquanto ela assente devagar, resignadamente.

— Não vejo outra opção. — A morena declara baixinho. — Se eu pudesse, faria de outra forma, mas ...

— Você a feriu bastante. — Eu a lembro gentilmente. — Katerina vai levar algum tempo para se recuperar. Use esse tempo para tentar pensar em alguma outra opção.

Selene suspira, parecendo aliviada, e chega mais perto de mim. Eu a abraço pela cintura, sentindo quando ela deita a cabeça em meu ombro. Acaricio seus cabelos, tentando acalmá-la, sem me importar com a obviedade de seus sentimentos por Katerina. Afinal, quando o momento chegou, foi a mim que ela escolheu.

— Talvez haja um jeito. — A morena diz afinal. — Ou melhor, alguém. Katerina tem uma irmã, talvez Eva possa ...

— Tem certeza de que é uma boa ideia envolver mais alguém?

— Não tenho. — Ela admite. — Mas acho que é a melhor alternativa. Posso pelo menos tentar fazer Kat mudar de ideia.

— Bem, a decisão é sua. — Beijo o topo de sua cabeça, abraçando-a com mais força. — Mas, o que quer que decida, estou do seu lado.

Selene

Ashlee já foi há algum tempo, e estou deitada sozinha em minha cama. Meu celular está ao lado do travesseiro, ainda não tive coragem de fazer a ligação.

Penso na Katerina que conheci, na garota por quem me apaixonei. Mesmo que ela tenha se entregado ao seu lado sombrio, amar alguém não funciona assim. Quanto mais se ama, menos racional se consegue ser.

A tela do meu celular se ilumina, me fazendo pular de susto. Para minha surpresa, quem está ligando é Evanora. Corro para atender.

— Eva! — Exclamo. — Eu ia ligar para você.

— Eu sei. — Ela responde e, pelo seu tom de voz, posso quase ver o sorriso malandro em seus lábios. — A intuição de uma vampira é uma coisa poderosa. Então me diga, que tipo de caos minha irmãzinha anda criando?

— Por que você acha que isso tem a ver com a Kat?

— Ora, e por que mais você ligaria para mim? — Evanora ri, aquela gargalhada diabólica cheia de malícia da qual senti tanta falta. — Então vamos lá, Sel, pode contar tudo.

Fico tão feliz com o apoio de Evanora que antes mesmo que perceba me vejo contando tudo, cada detalhe do que aconteceu desde que Katerina voltou. A única coisa que não menciono é Ashlee, pelo menos ainda não. Esse não é o tipo de conversa para se ter por telefone com a irmã mais velha de uma ex namorada.

— Isso agora é assunto de família. — Evanora declara quando termino de falar. — Espere. Eu estarei aí em dois dias. Deixe que eu tente lidar com a minha irmã.

Evanora

Dois dias depois

Quando chego ao Lune Coffee, vejo Selene no estacionamento, encostada no capô de seu carro. Toda a sua postura relaxa ao me ver e ela abre um largo sorriso.

— Eva! — Ela exclama. — Caramba, é bom te ver!

Assim que me aproximo, sou envolvida num abraço apertado. Fico surpresa por um momento. Mesmo sendo apenas humana, seu abraço é forte o bastante para me tirar o fôlego.

— Também senti sua falta, garota. — Respondo. — E aí, alguma novidade?

— Não, não que eu saiba. — Ela me solta e se afasta. — Escute, Eva, eu não contei tudo pelo telefone. Tem mais coisas que você precisa saber.

— Tudo bem. — Respondo simplesmente. — Então pode começar a falar.

Selene abre a porta do carro e nós duas entramos, sentando lado a lado, recostadas ombro a ombro nos bancos confortáveis enquanto ela me conta a verdade que descobriu sobre sua família.

Selene

Quando termino de falar, Eva está me encarando de olhos arregalados. De repente, sua expressão relaxa num sorriso de fascinação quase infantil.

— Deixa eu ver se entendi isso direito. — Ela diz. — Você não é só descendente de um dos clãs de caçadores mais antigos da Romênia, mas também tem sangue de bruxa? Isso faz de você tipo ... Uma super humana?

— Mais ou menos isso. — Eu não consigo não rir. Só mesmo Evanora para me fazer rir numa hora dessas. — Sou mais rápida e mais forte do que a média. E, claro, ainda nem sequer sei do que meus poderes são capazes.

— Lennya saberia. — Minha amiga declara. — Depois que resolvermos isso, podemos procurar. Aposto que há alguma coisa útil nos grimórios dela.

— Grimórios? — Repito, surpresa. — Mas ... Pensei que cada bruxa tivesse apenas um, seu Livro das Sombras pessoal.

— A maioria. — Eva responde, dando de ombros. — Mas minha mãe não era uma bruxa normal. Ela era a Grande Sacerdotisa, a líder do coven dessa cidade. Toda vez que uma bruxa morre sem uma sucessora, ou é banida por algum motivo, seu Livro das Sombras fica em poder da líder do coven ao qual ela pertenceu. Lennya os protegeu com um feitiço, para garantir que jamais seriam usados novamente.

— Se ela fez isso, então como pretende pegá-los?

— Desfazendo o feitiço. — Minha amiga sorri. — Não se preocupe, ela me ensinou como fazer. E tenho certeza de que minha mãe gostaria que ficassem com você, para ajudá-la.

— Obrigada, Eva. —Jogo meus braços ao seu redor, abraçando-a com força mais uma vez. — Obrigada por tudo.

— Não me agradeça. — Ela rebate. — Eu não fiz nada. Ainda.

Ashlee

Já é quase noite quando finalmente entro no quarto de Selene, encontrando-a acompanhada por uma mulher alta e elegante que mais parece uma super modelo.

— Então você é a famosa Ashlee. — A desconhecida de cabelos castanhos diz maliciosamente assim que me vê. — Selene me falou tudo sobre você.

— Eva. — Selene tenta repreender, embora sua intenção seja estragada pelo riso. — Pegue leve.

— 'Tá bem, certo. — A desconhecida ri, estendendo uma das mãos para mim. — Sou Evanora, irmã da Kat.

— É bom conhecê-la. — Também estendo a mão, segurando seu pulso enquanto trocamos o cumprimento típico entre vampiros. — Meu nome você já sabe.

— É, eu sei. — Evanora abre um sorriso cheio de malícia, inclinando-se como se pretendesse me analisar mais de perto. — Selene, você não disse que a sua Ashlee era tão bonitinha. Ela parece uma boneca de porcelana.

Desvio o olhar. Sei que deveria estar grata pelo fato de Evanora não ser hostil, considerando as circunstâncias, mas não consigo decidir se talvez a hostilidade não seria melhor do que esse constrangimento.

— Relaxe, bonequinha. — A vampira de cabelos castanhos solta uma sonora gargalhada, obviamente se divertindo. — Estou só brincando com você.

— Eva. — Selene interfere novamente. — Isso não é hora para brincadeiras. O assunto é sério.

— Tudo bem, tem razão. — Evanora se acomoda de pernas cruzadas sobre a cama, ao lado de Selene. Me acomodo ao seu lado, nós três formando um semi círculo. — Precisamos dar uma lição naquela minha irmã desmiolada. Selene?

— Precisamos mesmo. — Minha garota concorda. — Mas quero evitar feri-la, se possível.

— Bom, eu não. — A irmã de Katerina declara. — Deixe a parte da violência comigo.

— Eva, é sério. Sua irmã precisa mesmo de ajuda, não de uns sopapos.

— E por que não os dois? — A vampira de cabelos castanhos rebate de imediato. — O que me diz? Podemos tentar uma ... Terapia de choque. Dar um susto que aquela cabeça dura nunca vai esquecer.

— Credo, Eva, você é a pior!

— Ah, não seja assim. — Evanora passa um braço pelos ombros de Selene, puxando-a para si e lhe dando um beijo estalado na bochecha. — Você sabe que me ama, garota. Admita.

— 'Tá bem, tá bem. — A morena se desvencilha, rindo. — Eu admito. Mas e aí, que tipo de susto você tem em mente?

A vampira mais velha se recosta confortavelmente, seus lábios distendidos em um sorriso malicioso enquanto nos conta seu plano.