Moonlight
2 Sobrenatural
Notas iniciais
Capítulo Um: SOBRENATURAL
Bella Swan despertou com um miado alto.
Perto da janela, arranhando as cortinas de bebê, um gato laranja, gorducho, tentava alcançar os pinos da janela. Ele era inteligente demais, ela sabia bem, e todos os truques que havia lhe ensinado apenas piorava a situação. Ele era mandão, cheio de pose e quase falava, soltando grunhidos eloquentes e fazendo caretas. Bella apertou os olhos, lutando contra o sono. A mudança havia sido tão curta e tão longa, tão rápida e tão exaustiva… Deus, desejava dormir até as 10 horas! 12 horas! Talvez até as 14 horas.
— Peyote… — Bella deu dois tapinhas na cama.
O gato esticou o pescoço, parando de miar por um instante.
Ela o encontrara perdido no deserto do Arizona, deitado entre os cactos e com mais pulgas que seu peso aguentaria. Era mais uma daquelas tardes longas, ela lembrava. O clima árido e o céu alaranjado, caminhadas sem fim e uma ansiedade descontrolada. Andar, sem trilhos, acalmava-a. Nas areias, era possível descarregar um pouco daquela energia.
— Peyote, por favor… — ela bateu no colchão de novo.
Peyote, como o cacto em que ele estava escorado. Desidratado, abafado de vermes. Agora era gordo e mimado, um gato gigantesco para os braços pequenos de Bella. Eles cresceram juntos, ela sabia, ele fisicamente e ela mentalmente.
A garota virou-se nos lençóis, puxando o celular da pequena cômoda: hora de levantar, era inevitável. Ela virou o rosto, encarando Peyote olhá-la com firmeza. Por que um despertador quando se podia ter um gato? Bella levantou-se em um suspiro e o animal pulou da escrivaninha, satisfeito que sua jornada por barulho tivesse gerado frutos. Esfregou-se nas pernas de Bella, ronronando. Inteligente demais.
Eles desceram as escadas juntos, já familiares com a casa.
Em Phoenix, a casa tinha um andar. E tantas janelas, tantas janelas, que era quase impossível ter um pouco de privacidade. Aqui, as paredes de madeira cobriam tudo. A cozinha, Bella notou, parecia um pouco enxuta, como se estivesse diminuindo gradativamente. Ela ignorou a sensação esquisita, aquele ondular no estômago, e tornou-se para Peyote, atendendo-o: misturou um pouco de sachê de cordeiro com a ração seca, pousando o pratinho de porcelana no chão. Peyote inclinou-se, lambendo a boca em satisfação.
— Você é tratado como um lorde, sabia? — ela sorriu pequeno, alisando-lhe a pelagem ruiva.
Seguiu para o segundo andar, usando o banheiro rapidamente antes de retornar ao quarto. Ainda estava bagunçado, com caixas a serem abertas. A decoração, referente a uma Bella recém-nascida, ainda permanecia. Ela estava ansiosa para tirar aqueles adesivos de florzinhas e cobrir as paredes com livros e pôsteres. No canto leste do quarto, encontrou uma bagunça de CDs. Stevie Nicks, Mylène Farmer, Kate Bush, as clássicas favoritas da mamãe. Ela bagunçara aquela caixa na esperança de encontrar um pacote de incenso esquecido, algo além daquele cheiro enjoativo de sálvia. Fora uma confusão, ela bufou. Perdera alguns itens no caminho à Forks. O tarô estava órfão de Imperador e, com certeza, aquilo não significava algo bom.
Bella atravessou a bagunça, buscando o suéter creme e sua saia de brim favorita. Meia-calça, uma botinha. Itens de higiene. A mochila, meio vazia, arrumada. Zarpou para o banheiro e saiu meia-hora depois, ajeitada. Peyote, com a elegância de um rei, esperava no alto das escadas. Mais uma vez, eles desceram juntos.
O humor de Bella começou a despertar enquanto ela fritava um par de ovos, misturando-os com sal e pimenta. O café, morno, havia sido preparado por Charlie: na geladeira, um bilhete de desculpas por não estar presente no desjejum. Com o estômago cheio, a menina sentiu-se… positiva.
Não estava transbordando alegria e confiança, mas, sem dúvidas, estava pronta para começar o dia. Forks, ao contrário de Phoenix, não devia ser tão caótica. Naquela terra vermelha, todo tipo de criatura brotava. Mas Forks era diferente, ela se assegurou. Sem uivados a noite, sem cânticos, sem sangue derramado. Se tivesse sorte, seria extremamente entediante.
Bella caminhou até a escola.
Sentia-se segura, o coração cada vez mais aliviado. Conheceu rapidamente o centro da cidade, vendo lojinhas, restaurantes e uma pousada recém-inaugurada. Meninas de cabelos negros trançados atravessavam a rua, rindo. Um homem pendurava uma nova placa, substituindo a velha comida pela chuva. A pet shop apresentava variedades de coleiras e brinquedos pela janela, exibindo hamsters ansiosos ao fundo. Normal.
No meio do caminho, Bella abriu o seu guarda-chuva transparente.
Em mais alguns minutos, estaria na escola.
[...]
— Você não devia ser… Tipo… Bronzeada? — era o terceiro período e Bella estava sentada à carteira, mastigando um chiclete enquanto esperava o professor de Trigonometria.
— Acho que sim — admitiu Bella. — Não sei o que acontece, sendo honesta. Sou clinicamente pálida.
— Que inveja! — Jessica Stanley, ao lado, bufou. — Eu fico parecendo um camarão toda vez que pego sol.
— Você sempre parece um camarão, Jessica — Lauren Mallory riu baixo, apontando para o moletom cor-de-salmão que a garota usava. Jessica inclinou-se por cima da mesa, beliscando a loira. — Ai!
— Cale a boca, Lauren! As roupas todas estão na lavanderia, você sabe! — chiou.
Mike Newton, que primeiro questionara a palidez de Bella, revirou os olhos.
— Ignore elas — pediu ele.
— Ignore nada — Lauren meteu-se novamente. — Afinal, Bella, você vai ganhar um carro do seu pai ou o que?
Bella arqueou as sobrancelhas, surpresa com a pergunta.
— Pare de ser metida! — sibilou Mike.
Era um grupo diverso de adolescentes, ela observou em silêncio. Diferentes personalidades se exibiam, contrastando.
— Eu gosto de caminhar — Bella deu de ombros.
— Eu posso te dar uma carona, se você precisar — Mike sorriu convidativamente, as orelhas avermelhando.
— Aposto que você ia adorar… — Jessica resmungou baixo.
— Ah, não se preocupe — disse Bella. — Eu vivia fazendo caminhadas em Phoenix, realmente não me importo em ter que caminhar.
— Caminhadas? — os olhos de Mike brilharam. — Uau… Meu pai tem uma loja de artigos esportivos! Se você quiser, tipo, podemos caminhar um dia… hum… Tipo… fazer trilha e tal.
Bella engoliu um sorriso de gratidão quando uma professora entrou pela sala, reclamando que seria a substituta do dia e que não estava para brincadeiras. Salva pela crise de enxaqueca do professor. Mike, um pouquinho chateado, virou-se na cadeira, abrindo o caderno com preguiça.
Os períodos se seguiram com exemplos de poliedros e uma professora de Inglês explicando as leituras do mês. Na hora do almoço, não houve surpresa nenhuma quando Bella encontrou Mike Newton em posto, esperando-a na saída da sala. “Precisava” guiar ela pela escola, ele lhe dissera. Sendo a pessoa cordial que era, Bella aceitou o convite. Convite.
Bella o ouvia com cuidado, sentindo uma espécie de felicidade. Era meio-dia e, oficialmente, nada de esquisito havia se apresentado. Nenhum incidente, nenhuma energia pesada. A chuva forte era irritante, mas suportável. Bella passou os dedos pela linha vermelha em seu pulso, lembrando-se que era um juramento de Renée: sorte e uma promessa de amor fraterno. Não queria exagerar nas emoções, mas sentia confiança subindo pelo seu corpo, abraçando-a.
— … Eu não gosto muito da pizza daqui, sabe… — nem notara e perdera o fio da meada, abandonando Mike na sua tagarelice. — Mas eu com certeza recomendo o macarrão com queijo. Caramba. Você gosta de macarrão com queijo?
— Claro — Bella riu. — Quem não gosta?
— Exatamente! — ele vibrou. — Quer dizer, tem gente que …
Bella, de propósito, permitiu-se desligar daquela conversa. Não seja positiva demais, ralhou mentalmente. Não seja boba! Ah, mas não aguentava… Sentia os cosmos trabalhando a seu favor. Sem uivados a noite, sem cânticos, sem sangue derramado. Apenas desordem humana.
O aconchegante caos dos seres humanos, ela sorriu, entrando contente no salão de almoço. Mesas redondas estavam distribuídas igualmente, e na direção sul, um simples buffet para os alunos. Uma funcionária de toquinha aguardava na ponta, monitorando. Mike, animado, guiou Bella até uma mesa onde Jessica, Lauren e mais um grupo de adolescentes os esperava.
Uma garota de óculos e cabelos castanhos apresentou-se como Angela e, ao lado, um garoto de pele negra sorriu enquanto acenava para outro alguém e se dizia Tyler. Eric, que mexia ansiosamente na câmera de Angela, tentando encaixar alguma peça frouxa, deu uma piscadela.
— Cortesias do primeiro dia — Mike puxou a cadeira para Bella.
A menina virou os olhos em tom de brincadeira e se sentou, ouvindo o suave estalar de talheres e copos. Risadas ecoavam, de uma mesa no fundo. Bella espiou com certa curiosidade, vendo um grupo de góticos jogar baralho. Alguém havia perdido feio e agora entregava, por debaixo da mesa, um maço de cigarros.
— Nós sempre pegamos comida depois — Jessica explicou. — A fila é muito grande essa hora.
— Eu vi — assentiu Bella. — Não tinha notado que eram tantos alunos assim.
— É, parece menos quando estamos em sala — concordou Jessica. — Mas é uma confusão aqui. Não pegue a pizza, aliás. É horrível.
— Tem gosto de sapato — acrescentou Angela.
Bella soltou um sorriso.
Embarcou um pouco mais naquele interesse saudável. O grupo de góticos estava se quebrando, com alguns garotos buscando comida e as meninas de cabelo escuro fofocando com as líderes de torcida na outra mesa. Para a esquerda, noutro grupo de pessoa, Bella identificou um rapaz conversando com seriedade, gesticulando enquanto apontava o colar com pedra de quartzo em seu pescoço. Ah, ele era fofinho, mas nada sobrenatural. Uma proteção inofensiva e boba, Bella sentiu-se contente de novo.
Os olhos de Bella continuaram a varrer a cantina, encontrando uma garota enjoada sobre um pudim de chocolate e alguns atletas comendo frango e uma espécie de raiz. As vozes se misturavam, o volume ia crescendo conforme mais bandejas eram recheadas de comida.
— Eu ainda acho que …
Além do assunto de Lauren, Bella sentiu um alarme despertar em sua cabeça. Sem aviso prévio, sem estômago revirando, sem arrepios: uma luz vermelha apitou em sua mente, como um grito ao ouvido. Ela crispou a boca. O que estava acontecendo? Mexeu-se inquieta, virando o rosto.
E, em um segundo… A gravidade fugiu-lhe em um tropeço.
Lá estava ele.
Cabelos cor-de-cobre, maxilar forte, olhos topázio.
Bella piscou com dificuldade, incrédula.
Não.
Mas lá estava ele, repetiu a si mesma. Alto mesmo que sentado, uma postura estressada. Era lindo, como se Apolo tivesse pousado em Forks. Lindo… E perigoso.
Bella franziu o cenho.
Já conhecera vampiros antes, por meio de livros… Por meio de suspeitas, devido ao banho de sangue que acontecia nas noites de Phoenix. Mas… Deus… Aquela criatura era mais bela do que qualquer literatura poderia descrever. Mais enganadora que qualquer lenda da vovó Swan poderia traduzir. Bella exasperou, de repente, notando a mesa cheia de vampiros. Não um, mas um clã inteiro. Um clã inteiro.
— Quem são eles? — Bella virou-se para Mike.
— Ah — ele suspirou, decepcionado. — Os Cullens.
— Eu sabia que a Bella não ia resistir aos Cullens — Lauren gargalhou. — Afinal, para que existe fofoca senão para compartilhar?
Jessica se animou.
— Eles são os filhos adotivos do Dr. Cullen — Bella fixou os olhos na mesa pouco distante. — A loira, você sabe, com jeito de modelo europeia, é Rosalie — descreveu Lauren. — O garoto loiro é Jasper, o irmão gêmeo dela.
— Irmão gêmeo? — Bella indagou.
Soava… Esquisito.
— Parece que a Sra. Cullen é alguma espécie de santa — Jessica debochou. — Então, imagino, não quis separar os dois.
Bella concordou, em silêncio.
— Rosalie namora o Emmett, um moreno — comentou Mike. — É bizarro, eu diria. Irmãos adotivos ainda são irmãos, certo? Eu nunca conseguiria namorar minha irmã, credo! De qualquer maneira… Ele não está aqui hoje. — terminou Mike ao virar parcialmente o pescoço para espiar.
— A baixinha é a Alice — disse Lauren. — Ela é meio esquisitinha, mas inofensiva. Angela adora ela.
— Lauren. — Angela revirou os olhos.
— O que? É verdade.
— Eu só não acho ela estranha — ela disse.
— Ela namora o irmão também — disse Mike. — Jasper, o gêmeo de Rosalie.
Bella mordeu os lábios.
O que diabos um bando de vampiros estavam fazendo no Ensino Médio? Discretos como raposas no galinheiro, ela pensou.
— Edward é o único solteiro — Lauren continuou o papo. — Ele é o ruivinho. Loiro arruivado? Eu não sei como descrever os cabelos dele, enfim.
— Ele é um charme. — afirmou Jessica.
Com certeza era.
Mais charmoso que qualquer vampiro deveria ser e, sem dúvidas, mais hipnótico.
Algo em Edward serpenteava, como uma onda de calor. Ondulava, ondulava, alcançando Bella em sua cadeira. Era como se ele estivesse cantando para ela, atraindo-a em uma melodia. A garota mexeu a cabeça com brutalidade, tentando cortar aquela conexão nova, desconhecida. Desviou o olhar.
— Acho que é cobre — Bella deixou escapar.
Lauren arqueou a boca.
— Acho que você está certa.
Certa irritação tomou Bella.
Lá estava ele.
Lá estavam eles, corrigiu em sua mente.
E, em um segundo, o sonho de pura humanidade acabou.
Em um átimo, visivelmente incomodado, o rapaz de cabelo acobreado se levantou. Edward. Bella Swan acompanhou com o olhar enquanto o vampiro se retirava da cafeteria, sendo seguido pelo loiro Jasper. Bella sentiu o ímpeto de se levantar e investigar o que estava acontecendo, tomar alguma providência.
Providência.
Deus, mal sabia o que conjurar naquela situação!
Segurando seus instintos, Bella segurou-se ao chão e voltou-se para seus novos amigos:
— Eles estudam aqui há muito tempo? — indagou.
— Alguns meses — respondeu Angela. — Eles são tão inteligentes… Faz uns meses que tento superar as notas de Rosalie em Matemática e as de Alice em Inglês, mas é impossível!
— Imagino. — a voz de Bella tornou-se inaudível.
[...]
Na saída da escola, Bella estava tendo dificuldades em manter as formalidades.
Tentou manter as aparências, despedir-se adequadamente do grupo. Saiu andando com pressa, trotando com o material escolar nas mãos. Parara de chover e o calcário estava úmido. Bella seguiu para casa, quase correndo. Estava confusa, ansiosa, enjoada. Precisava andar, andar muitos quilômetros para anuviar a mente. Precisaria caminhar até a Lua, se possível, e retornar com calma.
Mais rápido do que esperava, com a mente pesada, chegou em casa. A porta abriu-se em um solavanco esquisito antes que Bella tocasse na maçaneta. Fechou-se sozinha quando a garota entrou, correndo para os degraus. Peyote estava na cama dela, lambendo as patinhas.
Bella ofegou, largando os livros e tirando os sapatos.
Jogou-se pelas caixas, tirando roupas, sapatos, CDs, livros. Parecia estar sendo engolida por um mar de objetos, muito distante do que precisava. Enfiou as mãos na quinta caixa que abria, encontrando alguns bichinhos de borracha. Peyote aproximou-se, levando na boca um ratinho de pelúcia.
O chão, tomado de uma variedade de coisas, ganhou um pouco de espaço quando Bella abriu a última caixa, empurrando as roupas para um canto e sentando-se no meio da bagunça. Com as mãos suadas, alcançou, finalmente, o livro azul. A capa de couro envelhecido, cheio de rachaduras apesar do cuidado imenso. As folhas douradas. Bella respirou fundo, enchendo os pulmões de ar antes de se dobrar sobre o antigo grimório da vovó Swan.
Na floresta, um trabalho teria que ser feito.
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