Notas iniciais
Olá, leitores! Obrigada pela enxurrada de comentários! Foi incrível! Aqui está, então, o ritual que revelará mais da natureza das garotas... Boa leitura!

CAPÍTULO NOVE: Ritual

― Se somos bruxas, por que não percebemos antes? Conheço a Alice há 70 anos e nunca senti nada de diferente ao tocá-la. ― de braços cruzados, Rosalie afastou Peyote com o pé e fitou Bella, que se aproximava do círculo.

A garota arqueou as sobrancelhas.

― Boa noite para você também, Rosalie. ― resmungou ela.

― Espero que tenha encontrado evidências que comprovem o que você fala.

Bella revirou os olhos.

― Eu pensei em algumas coisas, mas nada é o suficiente, entende? Eu poderia mostrar o grimório da minha família, mas que provas têm um livro de feitiços? Eu não posso conduzir um estudo genético e também não tenho testemunhas. ― enquanto explicava, Bella tirava o longo casaco e ficava descalça. Com os pés na terra, ela exibia um belo vestido de veludo. ― Vocês acreditam que eu sou uma bruxa, entretanto, não acreditam em si mesmas. Eu acredito… ― um ronronado alto subiu pelos ares quando o gato gorducho se aproximou de Alice, sentada ao tronco, esfregando-se alegremente nas pernas da baixinha. ― Nada é melhor que a prática. Decidi que o ritual do Sagrado Feminino é uma boa escolha: é como um batismo, uma iniciação. Eu conduzirei vocês e, caso minhas suspeitas estejam corretas, despertará o Poder de vocês.

O que?! ― a exclamação deu-se em uníssono.

― Você prometeu ao Jasper… ― iniciou Alice, incrédula.

― Não se preocupem, não existem riscos ― esclareceu. ― O Poder retorna ou não, simples. Indolor e rápido. ― com olhos brilhantes, Bella encaminhou-se até a matriarca do clã Cullen. Ela estendeu a mão. ― Me daria a honra?

Esme sorriu de canto.

― Claro, querida.

Quente e gelado se entrelaçaram.

― Uma vampira convencional! ― exclamou Bella cheia de animação, pulando nos braços de Esme sem nem registrar o que fazia. Beijou as duas bochechas da mulher, rindo consigo. ― Ah! Estou tão feliz que você não é uma bruxa também.

Esme exprimiu uma risada incerta: era um elogio ou uma ofensa?

― Obrigada?

― Obrigada digo eu! ― Bella soltou da mão de Esme.

Rosalie bufou furiosamente.

― Por favor, tente manter a linha.

― Onde estávamos? ― Bella franziu o cenho. ― Bem… Acredito que estou pulando fases. Alguém de vocês possui um dom? Como Edward, que consegue ler mentes.

― Eu consigo prever o futuro. ― respondeu Alice.

― Como? ― inquiriu Bella.

― Hum… De acordo com as decisões das pessoas.

― As visões vêm de maneira natural?

― Sim. São como… Vislumbres, flashes.

― Mas você consegue controlá-las?

― Talvez.

― Fale mais.

― Eu consigo vigiar determinadas pessoas ― disse ela. ― Se eu me esforçar, consigo ver diversos cenários. É como procurar em um baú antigo; se eu cavar o suficiente, encontro algo. Mas jamais consigo desligar meu dom; querendo ou não, interessada ou não, eu recebo diversas visões durante o dia.

Com uma expressão cuidadosa, Bella assentiu.

― E Rosalie? Você tem alguma habilidade que eu deva saber? ― diante da pergunta, a loira mexeu a cabeça em uma negação. ― Eu tenho algumas… Teorias. Vejam: bruxas não deveriam se transformar em vampiras ou lobisomens. Há quem deboche que é uma espécie de preconceito, mas são diversos problemas. Somos as mais fracas entre as criaturas sobrenaturais e nossos poderes se perdem facilmente; uma bruxa-vampira, por exemplo, tem seu Dom suprimido. Eu usei o verbo “perder” antes, não? Eu também acredito que quem está perdido, sempre pode retornar para casa. O Sagrado Feminino libertará o que está preso, guiará o que está confuso ― Bella moveu-se até seus pertences. ― Mas são tudo teorias, entendam. Não existem documentações a respeito da nossa espécie. Bruxaria é tradicionalista e eu sou sozinha. Minha mãe é humana, herdei os genes da mãe do meu pai. Nunca fui ensinada além dos grimórios e minha própria prática.

Com as pontas dos dedos, Bella retirou de uma bolsa três maçãs ainda verdolengas. Em passos de bailarina, moveu-se até as vampiras: entregou uma para Rosalie e outra para Alice. Retornou para a beira da fogueira, cantarolando em uma voz doce e grata e com uma paixão apavorante fez com que o fogo se erguesse em labaredas selvagens; invocadas, as chamas subiram e desceram.

― Eu não posso responder tudo, apesar de ter prometido clareza. ― Bella voltou-se para as outras garotas, oferecendo um sorriso tristonho. ― Observo agora, com o fato de Alice prever o futuro, que talvez os poderes se disfarçam mais para umas que para outras… Isso explicaria o porquê vocês nunca terem se identificado.

― Mas você me identificou. ― argumentou Rosalie.

― Sim ― assentiu Bella. ― Mas meus Poderes estão acordados, não há desequilíbrio de magia como entre vocês duas. Eu posso identificar mágica nas veias de um feto, cujos talentos ainda estão na deriva.

A expressão de Rosalie suavizou o pouco.

― Basicamente ― disse ela. ― Somos dispositivos quebrados com funções imprevisíveis, desconhecidas.

― Não por muito tempo ― garantiu Bella. ― Se tudo der certo…

Se.

― Não seja tão negativa, Rosalie ― comentou Esme.

Indiferente, Bella continuou sua explicação:

― Vocês têm a fruta do conhecimento em mãos ― ela apontou para as maçãs que as vampiras seguravam cuidadosamente. ― A maçã é capaz de reter uma partícula do Poder, o suficiente para que eu possa nomeá-lo. Eu imagino que Alice seja uma Vidente, é a resposta óbvia… Entretanto, Rosalie, sua natureza ainda é um mistério. Até onde entendo, você poderia ser uma Necromante.

― E você? O que você é? ― perguntou Alice.

― Tudo e nada ― riu Bella. ― Eu não tenho um Poder específico. Com estudos e as ferramentas adequadas, eu consigo fazer um pouquinho de cada coisa.

― Ferramentas ― ecoou Rosalie. ― Pode explicar mais?

― Por exemplo ― Bella jogou a maçã para cima, capturando-a com agilidade quando caiu. ― Eu posso ler o futuro em cartas ou interpretá-lo na borra do café. É claro que muitas mulheres, e até homens, tiram a vida dessa arte, mas o que eu faço não são enganações.

― Você… Tirou cartas, recentemente? ― Alice esticou-se em curiosidade.

― Infelizmente, não ― suspirou Bella. ― Na mudança, perdi algumas coisas.

― Sabe que não consigo ver o seu futuro? ― comentou Alice.

― Ah, eu imaginei! Tudo e nada, como disse. Eu também tenho acesso ao futuro… Poderes semelhantes se anulam. ― Bella guardou a maçã em um bolso do vestido. ― Acredito que falamos o suficiente, minhas caras damas. O que acham de começarmos a festa logo? Tirem os sapatos e meias e mantenham as maçãs com vocês.

― Por que tirar os sapatos? ― apesar de desfazer o cadarço da bota, Rosalie fazia uma careta azeda.

― Em respeito aos Espíritos, para nos conectarmos à Natureza ― explicou Bella. ― Logo vocês entenderão que muitos contos de fadas são, na verdade, acontecimentos bruxos. Garanto que já ouviram a história d’Os Sapatinhos Vermelhos? A menina vaidosa e egoísta que ganha um belo par de sapatos de princesa e não consegue mais parar de dançar…

― Exausta, ela pede que um carrasco lhe corte os pés ― disse Alice.

― Sim. E os pés continuam a dançar. E dançam até hoje. ― disse Bella. ― É claro que parte da história foi modificada, mas nós Bruxas sabemos que foi uma punição dos Espíritos por ela não ter tirado os malditos sapatos durante um ritual.

Sem pensarem duas vezes, Alice livrou-se da sapatilha que usava e Rosalie guardou as meias dentro das botinas.

Bella riu baixo.

― Sra. Cullen, peço que não se aproxime da roda depois que eu começar ― Esme assentiu no instante. ― Não tentem resistir ― pediu a jovem feiticeira, voltando-se para Rosalie e Alice. ― O Poder é orgânico, é parte de vocês… Não resistam como um galho ao vento. Vocês devem permitir o contato dos Espíritos. Eu não entendo perfeitamente as consequências do vampirismo no corpo, mas talvez vocês se sintam um pouco febris ou exultantes.

Rosalie engoliu a seco e Alice, curiosa como Peyote antes, sentiu-se fascinada:

― É bom? ― ela indagou.

Bella riu baixinho.

― A melhor sensação do mundo. ― assegurou.

― Bella? ― era Rosalie agora.

― Sim?

― Apenas quero lembrá-la que caso tudo isso dê errado, existem, no mínimo, dois vampiros que buscarão vingança.

― Ah, eu sei.

E o ritual inicou-se com o andar sinuoso de Bella. Circundando o coração enérgico da floresta, ela balançou-se enquanto evocava o poder feminino. Com uma bela voz de soprano, sussurrou e suspirou em satisfação, iniciando um cântico espiritual em uma língua sagrada, há muito tempo esquecida. Enquanto a doçura dramática da voz de Bella ecoava entre as árvores, um vento gelado e cortante se anunciou: durante uma pirueta suave, a saia de Bella rodopiou enquanto ela levantava os braços, girando-os. Folhas, grãos de areia e fragmentos de pinhas voaram, pendendo no ar. O lenço que segurava os cabelos dourados de Rosalie voou longe, desaparecendo na longuidão noturna.

A canção e a dança não cessavam enquanto o clima se amuava.

Alice, arrepiada da cabeça aos pés, respirava com dificuldade apesar de não necessitar. Sentia-se presa na cena que via, como se presenciasse o nascimento de um ser único e poderoso. Ela deu um passo para a frente, ouvindo à distância o som de sinos. Mais hipnotizantes que a voz de Bella, os sinos continuaram a badalar na mente da vampira, atraindo-a em direção ao calor e movimento.

Sem nada planejar, apenas atraída de maneira magnética, a canção agora compartilhava de duas vozes: igualmente elegante, Alice dançava igual a Bella sem notar o que acontecia. Sentia o corpo quente, como se lava lhe corresse pelas veias e logo jogava-se àquela coreografia, abraçada pelo frescor da natureza. Algo fluía pelos membros de Alice, tratando-a como um fantoche. Com alegria, ela cedeu a todas as sensações e logo dobrava-se alegremente como um elástico nas mãos dos Espíritos.

Tomada por um peso imenso, Rosalie caiu de joelhos na terra. Perdia-se nas cantorias de Bella e Alice, sufocada como se estivesse com a cabeça embaixo d’água: apoiou as mãos no solo, afundando os dedos na grama macia. Sentia o corpo inteiro dolorido, como quando humana; quando corria sem parar pelas ruas de Rochester, fugindo das expectativas de seu pai. Uma inquietação possuiu-a por completo. Algo puxava-a para a fogueira, algo tentava levantá-la do chão com uma teimosia insuportável.

Rosalie Lilian… ― uma voz aveludada tocou-lhe a orelha.

Rosalie mordeu a boca, levantando o queixo: à sua frente, havia uma mulher. De cabelos castanhos ondulados e até os joelhos, ela usava um robe de veludo como se fosse uma rainha medieval. A pele rosada, macia, mostrava marcas da idade. Tudo nela gritava familiaridade e o brilho púrpura dos olhos revelou sua identidade: tremendo, Rosalie reconheceu sua avó paterna.

― Vamos, criança ― a anciã sorriu. ― Não posso falhar com você de novo.

Como uma mãe hasteando um filho, Rosalie ficou em pé entre os braços da avó. Tentou falar, gaguejar alguma palavra, mas sentia o corpo derretendo como manteiga: a dança, por um instante, pausou e Bella moveu-se apressadamente em direção à elas, sorrindo entre gotas de suor. Vovó Hale disse algo, mas Rosalie sentia-se febril demais para compreender: sua mão foi depositada na de Bella e a garota ficou na ponta dos pés, tocando-a com gentileza na cabeça. A loira caiu novamente. Bella pousou os dedos no ar, poucos centímetros dos cabelos de Rosalie, e ondulou a mão, da esquerda para a direita e da direita para a esquerda. E o corpo de Rosalie acompanhou os movimentos, como se puxada por uma corda.

A música retornou, alta, ressoando como um terremoto.

De joelhos, Bella e Alice juntaram-se à Rosalie.

Quem cantava? De onde surgia aquele assoviar agudo?

Era Deus? Era o vento?

Não importava.

As três moveram-se no mesmo ritmo febricitante, agitando as cabeças e esvoaçando os cabelos. Quem saberia quanto tempo durou aquela demonstração de irmandade? Minutos, horas? Elas não sabiam. Mas depois ergueram-se, de mãos dadas, e espalharam-se ao redor da fogueira: em uníssono, voltaram a clamar junto dos Espíritos. E os minutos passaram-se como areia numa ampulheta: devagar, mas não o suficiente. Jamais o suficiente.

Enquanto rodopiavam, a melopeia atingiu seu ápice: entre os sinos, a gaita de fole, o coral sobrenatural, a floresta começou a queimar. Os pinheiros arderam enquanto o fogo os consumia, ecoando um crepitar violento. Elas não pararam. Um peso invisível pousou sobre elas, como um fardo sobre os ombros e uma última nota tocou enquanto elas vislumbravam do Sagrado Feminino: flocos grossos de neve desceram do céu, cessando as flamas, e centenas de mulheres invadiram a campina. Translúcidas, via-se apenas o brilho da alma e as saias coloridas. Hipnotizantes. Elas dançaram ao redor das três garotas, abraçando-as antes de sumirem.

Então, acabou.

Como o final do ato de uma peça, as luzes apagaram-se por um momento.

A pressão que as unia, por fim, desapareceu e as três caíram no chão.

― As maçãs! ― brilhando suor, Bella saltou como uma criança na manhã de Páscoa. ― Vamos, garotas ― ela cutucou Rosalie e Alice levantou, sentindo-se grogue. ― Apenas uma mordida para que eu possa ver o interno!

― Argh. ― de olhos fechados, Rosalie continuou deitada. ― Eu preciso engolir? Eu não aguento ter que comer uma maçã.

― Não, não. Apenas morder.

Como demonstração, Bella mostrou a própria maçã e deu uma mordida grande: ela cuspiu o resto e mostrou para Alice o conteúdo da fruta. A polpa cintilava tons de lilás, projetando uma luz leve como uma pequena lanterna.

― É uma espécie de estudo de cores ― ajoelhando-se, Bella aproximou a maçã de Rosalie. Contrariada, a loira se sentou e estudou, com surpresa, as tonalidades bruxuleantes. ― Quando pequenas, aprendemos que cada cor indica um tipo de habilidade. Roxo revela uma variedade de dons extrassensoriais.

Alice se agachou e com um estalar audível, dentou a fruta.

― Azul índigo! ― Bella sorriu largamente ao anunciar. ― Intuição profunda. Você é, de fato, uma Vidente.

― Surpresa agradável. ― riu a baixinha.

― Rosalie? ― todos os olhos se voltaram para a beleza de cabelos dourados.

Esme, entendendo que o ritual estava terminado, juntou-se às meninas.

Peyote, é claro, trotou até a cena.

Rosalie, que guardara a maçã no bolso do casaco, a retirou e arrancou um pedaço com a ponta dos dentes. Duas cores se apresentaram: feixes de rosa-claro e vermelho. ― O que isso significa? ― ela enrugou a testa, confusa.

Bella tomou a maçã de Rosalie, estudando-a com cuidado.

― Impulsividade, energia e amor, muito amor ― Bella encarou Rosalie. ― Você é uma Sirena, Rosalie.

― Sirena?

― Uma sereia em um corpo humano. ― disse Bella. ― É um Poder que vem da beleza. Inspira amor e ódio, mas também hipnotiza. Você canta?

― Não.

― Ela toca piano ― intrometeu-se Alice.

― Raramente. ― resmungou Rosalie.

― Por que raramente?

― Edward monopoliza o piano… ― disse Rosalie.

― Ela me disse uma vez que se sentia estranha quando tocava ― continuou Alice.

― Estranha como?

― Como… Como se fosse flutuar. Sempre acreditei que fosse ansiedade, nervosismo, e por isso evito tocar. ― respondeu Rosalie.

No solo, Bella depositou a maçã.

― Quando meus Poderes estavam aflorando, eu sentia que saíria flutuando por aí. Uma vez, pedi que minha mãe me amarrasse para que eu não pairasse ― revelou Bella. ― Então, eu comecei a andar pelo deserto. Longas e longas caminhadas. E depois cedi as minhas necessidades e comecei a performar rituais. Essa inquietude, Rosalie, nada mais é do que seu Poder tentando se libertar.

Notas finais
Então, o que acharam? Lisa x