Moonlight
5 Entreato
Notas iniciais
CAPÍTULO QUATRO: Entreato
— Você não devia ter crescido?
E lá estava ela: Leah Clearwater.
A pele amorenada brilhante, braços longos cruzados sob o peito e uma cabeleira preta ajeitada em uma trança. Usava um simples suéter preto e jeans, com lindos adornos indígenas ampliando sua beleza. Colares, pulseiras e um par de brincos coloridos. Em sua pose cheia de altivez, exibia, no mínimo, 1,80m de altura.
Bella Swan, baixinha e pálida, colocou as mãos nos quadris antes de retorquir:
— E você não deveria ter parado de crescer?
Leah sorriu de canto, mordendo os lábios: uma risada rouca escapou antes dela abrir os braços, puxando a outra garota para um abraço apertado. Bella retribuiu alegremente o toque, sentindo o peito encher-se daquela alegria típica de amizades: ânimo, esperança, humor.
— Droga, como eu senti sua falta! — Leah afastou-se, fitando o rosto de Bella. — Bem, sendo honesta, você até ficou bonitinha.
Bella revirou os olhos.
Era final de tarde, começo de noite. Ela e Charlie tinham saído de casa um pouco antes do combinado, compensando o tempo na espera da tal torta artesanal. A viagem até a Reserva era rápida, principalmente quando o Chefe de Polícia usava de todos seus truques e poderes para usar atalhos. Na sala, havia uma tensão de homens empoleirados nos sofás: Harry Clearwater servindo cervejas, Charlie resmungando alto a respeito do árbitro (claramente corrupto) que havia marcado um pênalti, o ancião Quil Ateara advogando a favor do time e Joshua Uley rindo baixo do debate, separando cartas para a próxima rodada de truco. Aquela partida de futebol inglês estava distante do americano que eles planejavam olhar, mas, como homens de meia-idade, eles possuíam opiniões fortes a respeito de todas as modalidades atléticas.
A cozinha do chalé, anexada próxima a sala, estava quente: Sue Clearwater comandava o fogão, esquentando óleo para fritar os peixes e, simultaneamente, vigiando uma panela borbulhante contendo uma geleia desconhecida por Bella. Ela não parecia se incomodar com o burburinho masculino e sim interessada em suas próprias atividades: no cantinho do cômodo, ela assistia alguns pedaços de uma novela em uma televisão pequena.
Bella tinha se preocupado com o cenário, sentindo-se um tanto esquisita e oferecera ajuda a Sue, que apenas riu e acenou dizendo um “não se preocupe, querida! Harry cozinha o resto da semana”.
— 3 anos — refletiu Leah em voz alta.
— É bastante tempo — assentiu Bella.
— Temos muito o que atualizar.
— Com certeza.
Nem um pouco contrariada, Bella seguiu Leah até o quarto. Ela adentrou o espaço, observando as paredes rosadas, os pôsteres, os livros didáticos espalhados no carpete e a penteadeira de madeira. Entre os cartazes de Carly Simon (No Secrets) e Helen Reddy (Imagination), Bella notou buracos na tinta, como se tivesse sido arrancada com fita adesiva. E, Leah, com aqueles olhos espertos, entendeu na hora:
— Quer saber o que houve?
— Se você quiser contar, claro.
— Sam Uley — Leah se jogou na cama, ajeitando duas almofadas embaixo do pescoço. Bella virou-se, fitando-a com dúvida. — Você lembra dele? Usava um topete ridículo, metido a inteligente. Cretino. Nós namoramos por quase 2 anos até que ele começou a andar com aqueles esquisitos do outro lado da Reserva. A próxima coisa que vi, ele estava ficando com a minha prima.
— Qual delas?
— Emily — Leah suspirou.
O queixo de Bella caiu um pouquinho, chocada com a informação.
— Emily? — ela ecoou.
Ela lembrava daquela garota grudada em Leah, dividindo roupas e planejando aventuras.
— Uhum.
— Sinto muito, Leah.
— Eu tô bem agora — ela garantiu. — Puta com o Sam? Claro. Mas não consigo odiar a Emily, não como eu queria.
Bella se aproximou do colchão, deitando-se ao lado de Leah quando a garota indicou o espaço vazio. Ela cruzou as mãos, de barriga para cima, observando as estrelinhas brilhantes presas ao teto. Nada havia mudado e, ao mesmo tempo, tudo estava diferente. A decoração lutava, mostrando resquícios de uma antiga pré-adolescente agora mulher. Ambas estavam em silêncio, absorvendo a presença uma da outra. Sem interlúdios, sem uma mensagem trocada naqueles anos, sem uma única ligação. E, mesmo assim, a intimidade e sincronia continuava ali: intacta, viva. O tempo não parecia ter passado, apesar dos diferentes corpos que dividiam o espaço.
— Enfim — Leah anunciou depois de poucos segundos. — Eu tinha enchido as paredes de fotos dele, fotos de nós dois… Acabei arrancando tudo e as paredes ficaram cheia de falhas.
— Ficaram… Estilosas.
— Mentirosa — Leah riu com amargor. — E você? Já arranjou alguém?
Bella crispou a boca.
Ela gostaria de ser extremamente honesta com Leah Clearwater, da mesma maneira que era antigamente. Adoraria revelar àquela garota como nunca tivera tempo para namorar, pois quando começara a florescer sexualmente, sua magia estava totalmente madura. E que agora, com um talento em mãos, precisava entender suas afinidades e dominar suas fraquezas. Necessitava empregar o tempo de diversão, de paqueras, em leituras em latim, em montar rituais, em não ser alvo de outra criatura sobrenatural. Invés de um longo desabafo sobre os contras de ser uma bruxa, Bella simplesmente disse:
— Nah.
— Bom para você! — vibrou Leah. — Bom para você! Isso tudo é perda de tempo.
— Claro — Bella soltou uma risada baixinha.
— É verdade. Acredite em mim.
— Não estou duvidando.
— Você realmente é péssima em mentir.
— Você nunca mais vai namorar, então? — provocou Bella.
— Não — ela respondeu. — Eu vou me esforçar no vestibular e sair dessa maldita cidade antes que o musgo me engula. Virar uma advogada fodona, milionária, comprar toda essa Reserva e despejar o Sam.
— Isso é muito específico.
Houve um segundo de contemplação antes que as duas explodissem em risadas.
Leah levantou rapidamente, puxando uma caixa de CDs debaixo da cama: ela apoiou o papelão na perna, mexendo nervosamente na infinidade musical. Entre tantas opções, encontrou exatamente o que procurava: Carole King. Tapestry. Inseriu o disco no aparelho de som, deixando que o suave e alegre piano de I Feel The Earth Move preenchesse o quarto. Bella sorriu longamente, novamente sendo abençoada com aquela sensação de conforto: elas ouviram aquele álbum milhares de vezes antes. E ainda soava perfeito.
— Eu achei que as coisas estariam um pouco diferentes — admitiu Bella quando Leah voltou para o seu lado. — Talvez algum gelo entre nós. Quer dizer… Foram 3 anos.
— Nós não somos assim, somos? — comentou Leah. — Vamos admitir que foi uma burrice mútua nunca termos trocado contatos, e-mails ou, sei lá, cartas. Por que diabos nunca fizemos isso?
— Eu não sei!
— Certo, é exatamente isso que estou dizendo!
— Pré-adolescentes são idiotas.
— Não há como negar — Leah esticou o braço, pescando um celular flip de uma cômoda baixa. Ela alcançou o dispositivo para Bella. — Espero que você tenha um telefone próprio senão teremos problemas.
— Claro que eu tenho — defendeu-se Bella, salvando o próprio contato no celular de Leah. — Você ainda tem aquele álbum da Tiffany? — e devolveu o aparelho para a morena.
— Qual?
— Tiffany, você sabe. O primeiro.
— Aquele com I Think We’re Alone Now?
— Uhum.
— Deve estar em algum lugar do quarto — garantiu Leah.
— Pode me emprestar um dia? Finalmente aprendi como copiar um CD no laptop.
— Dinossauro. — acusou Leah.
Um beliscão estalou no braço de Leah.
— Ai! — ele reclamou.
— Seja boazinha.
— Eu sou! — Leah bufou. — Um pouco.
E ela se levantou de novo, iniciando uma investigação superficial pelo quarto. Havia outras caixinhas de acrílico espalhadas pela penteadeira, entre os livros na pequena cômoda e até mesmo entre as peças de algodão no roupeiro. Tiffany, ela pensou. Não via aquele CD há um tempo, mas não lembrava de tê-lo trocado ou vendido.
— Bella? — travado no corredor, uma voz suave se projetou.
A garota se sentou de súbito: com olhos brilhantes, Jacob Black a encarava. Ele tinha mudado muito desde a última vez, mostrando-se esquisitamente alto para um garoto de 15 anos. Os cabelos, antes longos, agora eram curtos e levemente espetados. O que era um corpo magrelo agora era preenchido de músculos. Bella acenou, um tanto constrangida ao lembrar-se da conversa que tivera com Charlie de manhã no carro, e Jacob deu um passo em direção a ela:
— Nem fodendo que você vai entrar no meu quarto, Black — e Leah se posicionou na porta como um paredão.
Uma risada surpresa e ansiosa escapou dos lábios de Bella.
— Ah, qual é, Leah! — ele exasperou. — Você não pode alugar a Bella só para você!
Leah escorou uma mão no umbral de madeira.
— Por que você não reúne os seus brinquedinhos e vai passar um tempo com o Seth, hum? — sugeriu ela. — O berçário é do outro lado do corredor.
Jacob respirou com dificuldade, escondendo o rosto entre as mãos. Pelo estresse que tremia pelo corpo dele, Bella entendeu que aquela não seria a primeira vez que eles teriam uma discussão daquelas. E nem a última. Jacob parecia exausto.
— Você é insuportável. — ele anunciou em um tom irritado antes de sair pisando forte.
Não demorou instantes para que o som de synth surgisse e logo fosse abafado por uma porta fechando e reclamações masculinas. Assovios eletrônicos tomaram conta do ar e Bella soube que Seth, que nem havia se apresentado ainda, e Jake estavam jogando videogame. Leah virou-se com um sorriso vitorioso:
— Vê? Funcionou.
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