Moon Society: The lighthouse.

5 Capítulo três: Apenas outra garota suicida.


Notas iniciais
A história trata de transtornos mentais, exposição a grandes traumas, situações de crise, abuso de substâncias e álcool, não recomendado para o público mais sensível ou para pessoas com histórico de transtornos PODE APRESENTAR GATILHOS.

Depois de longos tempos tendo pesadelos horríveis e acordar pingando de suor frio, com a garganta ardendo em chamas eu decidi por aceitar a "ajuda" também conhecida como Zoloft e Lexotan aplicados dos onze aos doze anos, então Lexapro e Xanax, digamos que eu tenho um longo relacionamento com os Benzodiazepínicos, obviamente depois de ter tomado muitas pílulas a mais do que deveria, só o que me lembro daquele dia, é que eu comi panquecas e que eu estava de pijama quando eu cheguei ao hospital, meu pijama favorito rosa com borboletas, eu gosto muito de borboletas, eu estava consciente, porém meu coração estava batendo muito rápido, minha boca ficou muito seca junto com uma náusea horrorosa e uma confusão mental, os procedimentos necessários foram tomados e os meus pais ficaram ainda mais paranóicos e eu não falei por três meses, os medicamentos foram suspendidos, mas o acompanhamento psiquiátrico continuou...

O que não significou nada, porque eu ainda sentia que eu estava completamente sozinha mesmo rodeada de gente que nem me deixava respirar sozinha, eu ainda sentia como se não pertencesse a lugar algum, ainda sentia culpa por Melinda, por Joseph, tia Ayden e tio Benji, eu deveria ter cuidado dela, eu lembrava o que aconteceu mais do que os garotos, eu tinha pesadelos todas as vezes que eu fechava os olhos, minha cabeça era uma bagunça e a dor da alma, o que está acontecendo dentro da sua cabeça...

Você pode interagir com as pessoas o dia inteiro e tudo ficará bem, mas em algum momento você ficará sozinho, em sua mente e é o pior lugar para se viver, é como se tivesse uma versão diabólica de você te puxando para o abismo escuro, eu sentia vontade de gritar, esmurrar as paredes, arranhar o meu rosto até sangrar, fazer qualquer coisa para sentir qualquer coisa, era como se eu estivesse gritando em plenos pulmões em uma sala cheia das pessoas que me amavam, mas nenhuma delas pudesse me ajudar ou não conseguissem me ouvir, eu estava gritando "É o inferno aqui dentro de mim" e ninguém pudesse ouvir, nenhuma criança deveria passar por isso.

Então era um fim de tarde de sexta-feira e Lucylla a nossa governanta estava de olho em mim, eu disse que precisava usar o banheiro, ela me olhou desconfiada e me deu exatos sete minutos, eram muito mais do que eu precisava, eu já havia pensado em tudo, eu sabia onde os meus pais haviam escondido os remédios que eu tomava e Malloney estava fora com os meus pais.

Então eu fui até o quarto dos meus pais e usei a cadeira para subir na pia e alcançar em cima do armário o que eu estava procurando, que meu pai mantinha fora do meu alcance e nem imaginava que eu sabia onde estava, uma caixa de lâminas e os remédios controlados.

Eu peguei os meus remédios e o Rohypnol que minha mãe usava quando tinha crises de enxaqueca muito fortes, fui até o meu quarto que naquela época era no primeiro andar, me tranquei no banheiro, me sentei no chão com todos aqueles remédios e a lâmina de barbear e respirei fundo um monte de vezes, sabe aquele frio na barriga em antecipação quando algo importante vai acontecer? Esse é o sentimento que você tem segundos antes de fazer... Eu segurei os comprimidos de Xanax e Rohypnol com a minha mão trêmula e os levei até a boca e os engoli, não senti nada nos primeiro segundos, eu sabia que precisava fazer antes de perder a consciência, então usei a lâmina para cortar os meus pulsos com toda a força que eu tinha naquela hora, dois cortes em cada um.

Eu achava que fazendo aquilo, finalmente pararia de sentir angustia e dor, que sentiria uma paz nos últimos momentos e todas as situações horríveis pelas quais eu passei se explicariam que eu finalmente seria livre, que eu veria as coisas felizes que vivi com as pessoas que eu amo, como um filme, minha vida inteira passando diante dos meus olhos, mas não foi o que aconteceu... Quando meus pulsos começaram a sangrar e jorrar pelas minhas roupas, o chão, manchando tudo perto de mim, eu entrei em desespero e as pílulas começaram a fazer efeito, lágrimas escorreram pelo meu rosto, estava tão difícil de respirar e eu estava sentindo uma dor excruciante no peito... Não teve nada de libertador, eu apenas estava sentindo mais dor, muita dor antes de perder a consciência.

Eu não me lembro de absolutamente nada depois de perder a consciência, sei o que os médicos me disseram, o que Mason e Sarah me disseram, sei o que ouvi meus pais dizendo e esses pequenos momentos criaram um quadro geral na minha mente.

Depois de perder a consciência sei que Lucyla veio atrás de mim, que me procurou pela casa e que ficou batendo na porta e como eu não respondia ela foi atrás de uma chave reserva e que ela abriu a porta e que ela foi a primeira a me ver, sei que ela rapidamente ligou para a emergência e para os meus pais que já estavam chegando a casa.

No hospital fizeram uma lavagem estomacal e carvão ativo e sim, o procedimento é tão ruim quanto o nome sugere, eu sei que fiquei em coma por um mês e meio, sei que nem todos podiam me ver, mas todos eles passavam lá todos os dias para saber se eu havia acordado, sei que Lucyla e minha mãe se revezaram com o meu pai para ficar ao meu lado, mas eles precisavam insistir muito para que minha mãe saísse de lá.

Eu sei que Lucy e minha mãe rezavam todos os dias no meu quarto de hospital e que elas jejuaram e fizeram promessas por todo aquele tempo em que permaneci no hospital.

Milagre eles disseram, que foi um milagre eu ter sobrevivido, que eu sou um milagre por não ter tido nenhuma sequela, que eu deveria me sentir abençoada... A verdade é que eu apenas me senti inútil, eu só queria acabar com isso, só queria me juntar a Melinda aonde quer que ela esteja e a vida é tão frágil, a dela foi tirada tão facilmente, que eu realmente achei que o mesmo aconteceria comigo quando eu tirasse a minha própria vida, achei que seria fácil, mas não foi e eu ainda estou aqui tentando me encaixar em um mundo onde nada faz sentido.

Eu não sou a melhor das pessoas, mas Melinda sim, ela era boa e gentil com todos, ela tinha paciência em lidar com as pessoas e amava todas as formas de vida, ela amava até mesmo os insetos nos quais as pessoas pisam... Ela podia fazer do mundo um lugar melhor, ela tinha que estar aqui e não eu.

Quando eu acordei foi horrível, porque todos estavam lá, e eu esperava que meus pais gritassem, e que me dissessem que eu era uma estúpida e uma garota rica mimada e que meus amigos não falassem mais comigo e fossem embora porque assim eu não poderia machucar eles.

Mas não, eles apenas ficaram lá sorrindo e dizendo o quão felizes estavam por eu ter acordado e como sentiram medo de que algo acontecesse comigo, o quanto eles me amavam e queriam que eu ficasse boa e fosse para casa logo e isso foi ainda pior, fez eu me sentir pior ainda, me matou mil vezes, doeu mais do que cortar os pulsos e engolir aquela quantidade de pílulas.

Eu estava tendo o mesmo pesadelo de novo, e de novo, eu estava afundando e afundando e ninguém pode me ajudar, é desesperador e faz eu me sentir ainda pior, é como se eu fosse desaparecer a qualquer momento e nada do que fazem para me ajudar e nenhuma ação minha é suficiente ou faz eu me sentir segura... Ninguém irá chegar a tempo e todos os meus gritos são completamente vãos.

Eu mal conseguia respirar, é só um pesadelo, isso vai acabar, eu vou acordar e tudo vai ficar bem.

Despertei um antes de me inclinar para fora da cama e esvaziar meu estômago, um líquido amarelado e mal cheiroso foi expelido do meu estômago enquanto minha cabeça latejava e minha visão estava turva, mas consegui ver minha irmã parada à porta.

― Mamãe! ― Malloney gritou em plenos pulmões.

Eu só me lembro de me deitar de novo e apagar.

Acordei depois dolorida em todo o corpo e confusa com minha mãe passando uma toalha úmida por meu rosto.

― Hey bela adormecida ― Minha mãe disse sorrindo e passando seus dedos por meu cabelo bagunçado.

Eu gemi de frustração, se tem algo pior do que alguém vendo você esvaziar todo o conteúdo do seu estômago, é ser comparada com uma ordinária princesa da Disney.

― Como se sente? ― Perguntou minha mãe ― Você está com um pouco de febre ― ela divagou.

― Eu... Na verdade estou faminta ― menti descaradamente.

O sorriso da minha mãe se alargou consideravelmente.

― Vou preparar o seu café da manhã, Malloney vai ficar por aqui caso você precise de algo ― Ela disse sorrindo daquele jeito doce que faz eu me sentir incrível.

― Está realmente bem? ― Malloney perguntou estreitando os olhos.

― Na verdade estou com dor de cabeça e o estômago revirando ― Admiti.

― Sabia, é ressaca, sabe... O que está sentindo ― Ela disse acusadoramente ― April estava me evitando, mas arranquei coisas dela e de Kaleb essa manhã, não foi de forma muito nobre ― Malloney admitiu.

― E-Essa manhã? ― Perguntei confusa.

― São duas da tarde... Mamãe achou que você estava

― Morta... Uau, belo voto de confiança hein ― Brinquei.

― Ela veio checar você umas três vezes, aliás, por que está dormindo aqui embaixo? Não gosta mais do sótão vampira? ― Malloney riu.

― Mamãe me fez dormir aqui e pare de me chamar assim ― Briguei com ela ― Espera... April e Kaleb disseram tudo o... O que aconteceu ontem?

― Sim, até a parte em que você vomitou o carro do William e irmãzinha, tenho que te agradecer por essa.

― Kale e April são uns traidores ― Xinguei franzindo meu nariz.

― Não fique brava com eles, não queriam te dedurar, só que eu sei coisas de mais e melhores amigos tem prioridades ― Ela disse rindo ― Regra básica de amizade ― Explicou.

Eu ri.

― Vocês são inacreditáveis ― Falei sorrindo enquanto ia em direção ao banheiro ― Sobre o William... ― Falei já com minha escova de dente com pasta nas mãos.

― April me disse ― Falou simplesmente.

― Não vai me contar nada? ― Joguei de volta.

― Não, não agora, não é importante ― Ela explicou quando eu fiz careta.

― Não achei que fosse me contar mesmo ― Falei ofendida ― Eu sou a sua irmã, sabe...

― O que quer dizer com isso?

Eu voltei para o quarto com uma toalha secando minhas mãos e meu rosto.

― É só que... Eu... Você sabe que eu... Ahnm... Eu

― Eu também, você sabe disso ― Malloney disse ― Não sabe? Eu sei que eu não digo sempre e ahnm... Faço da sua vida um pesadelo, mas é o que os irmãos fazem e você também não facilita a minha ― Ela disse sorrindo e socando meu braço de leve.

― É só que... Eu conversei com William, a noite toda e percebi que April, Kale, até William que é um completo estranho para mim conhece você mais do que eu conheço e isso está acabando comigo ― Falei sentindo uma lágrima escorrer pela minha bochecha ― E-Eu não quero que a gente seja esse tipo de irmãs ― Falei soluçando.

Malloney estava me olhando com seu lábio inferior mordido e os olhos cheios de lágrimas, que ela em outra ocasião jamais deixaria estragar a maquiagem perfeita.

― Eu também não quero, vem cá ― Falou me envolvendo em um abraço, que foi tudo o que eu esperava nesses anos todos, quente e tinha cheiro de lar ― A gente vai passar mais tempo juntas, prometo, me desculpa pirralha, eu sou uma irmã de merda, como eu fui deixar você sentir que não me conhece? Que merda ― ela disse chorando.

― Está tudo bem agora ― Falei secando a bochecha dela com o polegar.

― Você está meio verde, pirralha, eu não quero que saia bebendo por aí.

― Eu sei disso, mas depois do que houve e você Lucas e Joseph brigando por minha culpa eu só queria sair e esquecer-me de tudo o que aconteceu ― Falei.

― Álcool não ajuda em nada, sabe disso, não sabe? Mason e Sarah já não falaram disso?

― Eles falaram, eu... Você tem falado com Emi?

― Não, eu mandei mensagem de texto, mas ela não me respondeu ainda ― Falou.

― Pode pegar, por favor, o meu laptop? ― Pedi.

Malloney fez o que pedi, saindo do quarto e indo até o meu quarto no terceiro andar, voltando rapidamente com meu celular e laptop eu imediatamente liguei o aparelho e me sentei melhor na cama, eu não checava e-mails há tempos e geralmente quando queriam falar comigo as pessoas ligavam para casa ou para meus pais e irmã, então eu não tinha muitos motivos para usar frequentemente o meu celular.

Havia muitos e-mails com propaganda, muitos mesmo, assim como alguns e-mails da tia Emily e alguns de Mirella e Morgana que foram com os pais passar as férias em Paris pela primeira vez.

Elas são as minhas únicas amigas, na maior parte das vezes somos apenas nós três e Paul, Ky e Joel.

From:emilymurphbrien@EmailGObox.com

To: brieanna.evbrown@EmailGObox.com

Hey Brie, querida.

Desculpe-me por não ligar para avisar-lhe que cheguei a Dublin em segurança, acabei me ocupando com coisas por aqui.

Eu conversei com seus pais e disse para eles te darem um espaço e eles pareceram entender, na medida do possível, porque eu ainda não sei fazer milagre, ainda, como ficaram as coisas com Joseph e os garotos?

Responda assim que vir isso, dê um beijo em todos diga que logo volto para um fim de semana.

S

e cuide Boo butterfly, eu amo você.

Beijos Em.

Revirei os olhos com aquele apelido, a família é algo que acaba com sua reputação, alguns apelidos deveriam ficar no passado junto com seus pijamas de bichinho, sua mamadeira, o VHS do rei leão e a sua chupeta, mas esse apelido parece me perseguir, maldição.

As maiorias dos e-mails de Morgh eram sobre como Paris é tão linda quanto eu tinha dito, que realmente valeu a pena ter ido, como ela havia tirado fotos esplêndidas, que tinha visitado os museus que eu indiquei, mas outra parte estava preocupada e impaciente por respostas minhas.

From: morganamonroedriguez@EmailGObox.com

To: brieanna.evbrown@EmailGObox.com

BRIEANNA EVELIN BROWN...

Se não estiver morta, vou matar você

Por que você nunca atende meus telefonemas? Ou responde aos meus e-mails? Qual o problema com seu telefone celular? Com a linha telefônica da sua casa? Por um acaso você está de castigo? Algo assim? Estou começando a ficar preocupada.

Mas tudo bem perdoo você, se me deixar te levar presentes, estou tão animada com seu aniversário chegando, eu sei que acha os aniversários uma droga, mas acho que a vida precisa ser celebrada, então... Como estão os planos por aí?

Esteja viva e inteira quando eu chegar aí, ou você estará muito encrencada, acredite.

Eu vou levar muitos presentes, sei que já esteve em paris, mas eu vi coisas que você realmente irá amar, responda ou me ligue assim que vir isso.

Se cuide, sempre e mande beijos à todos, eu amo você,

Morgh Rodriguez.

Terminei de ler seu e-mail com pesar, sinto tanto a falta delas, Mirella e Morgana são as melhores pessoas e parecem décadas desde que elas saíram de férias.

Mith havia escrito um e-mail hoje de manhã, nele dizia:

FROM:MIRELLAMOROEDRIGUEZ@EMAILGOBOX.COM TO:BRIEANNA.EVBROWN@EMAILGOBOX.COM

BRIEANNA...

Eu sei que com todas as coisas que tem acontecido, a última coisa na qual você está pensando é em socializar online, porém... Acredito que as suas duas melhores amigas, que por um acaso somos minha irmã e eu, merecemos saber se você está viva, respirando, você sabe coisas simples, Morgana está arrancando os cabelos e comendo os dedos, já que as unhas foram-se há algumas semanas...

Ao menos se lembre de recarregar o seu celular, ou atender ao telefone de casa, porque ou seus pais não querem que fale conosco ou todas as vezes que ligamos você está com os garotos, então...

Por favor, recarregue o seu telefone celular, responda-nos assim que ler isso.

Espero que não estejam se divertindo muito sem nós, me sentirei melhor assim, de um abraço em todo mundo e não faça nada que eu não faria amo você cara pálida.

Love Always Mitchez.

Eu queria muito falar com ambas as irmãs Rodriguez, porém nenhuma das duas estava conectada, então eu deixaria um e-mail para Morgana e ligaria depois.

From:brieanna.evbrown@emailgobox.com

To:morgana.monroedriguez@emailgobox.com

Mith e morgh,

Desculpem-me por não respondê-las antes, confesso que me distraí bastante por aqui, sabem que os meus pais amam vocês, eles jamais fariam isso.

Estou feliz que estejam gostando de Paris, é realmente uma cidade maravilhosa, as coisas aqui continuam iguais, é Wexford nada de interessante acontece.

Não se preocupem comigo, eu e os garotos estamos morrendo de saudades, temos que fazer uma daquelas sessões de cinema quando voltarem.

Morgana, por favor, não faça isso comigo, nada de roupas, minha mãe já irá me fazer comprar roupas novas logo, e sem presentes de aniversário,

Honestamente eu não tenho nenhuma vontade de celebrar minha vida, uma vez que não há nada assim tão interessante para ser celebrado sobre mim... Acho,

Mas provavelmente algo acontecerá vocês conhecem mamãe e malloney, elas dão tudo por organizar uma boa festa com muito desperdício de tempo e dinheiro...

Estou com saudade, voltem logo,

Eu... Vocês sabem, voltem logo.

Brie.

Desliguei o meu computador e me inclinei para pegar meu celular e o carregador no criado mudo, tentei me lembrar da última vez que havia usado o celular e... Uau, já faz algum tempo.

Eu realmente precisava ouvir Morgh e seus conselhos inteligentes, ouvir Mith rindo daquele jeito engraçado e me contando aquelas piadas ruins e maldosas com seu sarcasmo costumeiro.

Deveria ser bem tarde quando a minha mãe voltou com um Brunch digno de hotel cinco estrelas.

― Por que ela ganha café da manhã na cama quando dorme até as 02h00pm da tarde? Eu não ganho café na cama nem no meu aniversário ― Minha irmã protestou.

Eu mostrei língua para ela.

― Não implique com a sua irmã, Malloney.

― Onde está o meu pai? ― Perguntei a mamãe enquanto eu enfiava uma colher de Porridge na boca.

― Brown's ― Mamãe e Malloney falaram juntas.

― Hoje? Mas é sábado ― Falei frustrada.

― São só algumas horas ― Minha mãe disse ― E ele precisou receber alguns estudantes de intercâmbio.

― Eu acho muito legal papai empregar estudantes de intercâmbio e os estrangeiros, às vezes as pessoas só precisam de uma chance e o país delas não as ajuda com isso ou é um lugar ruim.

― É mesmo legal ― Malloney disse sorrindo de lado.

― Não existem lugares ruins, as pessoas, no entanto... Os lugares são o que fazemos deles ― Minha mãe disse ― Está se sentindo melhor? ― Minha mãe perguntou.

― Só com um pouco de dor de cabeça, vou tomar um banho e vai passar.

― Oh baby Boo ― Malloney zombou

― Vai se

― Olhe essa sua boca ― Mamãe repreendeu.

― Você vai sair? ― Perguntei a minha irmã enquanto comia waffles.

― Não fale com a boca cheia ― Ela disse torcendo o nariz.

― Você vai? ― perguntei depois de engolir a comida.

― Vou para a casa da April, por quê?

― Preciso de uma carona até a livraria ― Falei.

― Que livraria? ― Perguntou mamãe desconfiada.

― CCGB algo assim, ouvi dizer que é muito boa ― Joguei de volta.

― Não é boa.

― Vai sozinha? ― Minha mãe pediu.

― Vou pedir para os garotos me encontrarem lá, vai me dar carona?

― Não tem outra livraria? ― Malloney perguntou.

― Está tudo bem mamãe pode me levar ― Insisti.

― Não, eu levo ― Malloney disse nervosa ― Eu levo, esteja pronta dentro de vinte minutos, lá embaixo ― gritou saindo do quarto.

― O que deu nela? ― Mamãe perguntou desconfiada.

― Mãe, é sigilo entre irmãs, não posso te falar assim.

― Sigilo entre... Ah sei ― Ela disse rindo ― Esse sigilo é bonito?

― Eu não sei, eu não... Não prestei atenção, mas é muito inteligente, você sabe, não parece um babaca.

― Certo, eu acho.

― Vovô e vovó vêm para esse feriado? ― Perguntei.

― Provavelmente não, vovô viajou a negócios e a sua avó não gosta de pegar a estrada sozinha.

― Ah Mamma pede a ela para vir de trem, eu estou com saudades ― choraminguei.

― Ligue para ela meu amor ― Minha mãe disse acariciando o meu cabelo ― Quem sabe se você pedir ela venha.

― Eu vou ligar.

― Já acabou? ― Perguntou apontando para bandeja.

― Sim, senhora, obrigada estava ótima.

― Às vezes você fala tão engraçado amor ― Ela disse sorrindo-me.

Eu encolhi os ombros e ela sorriu antes de sair do meu quarto fechando a porta atrás dela.

Eu peguei o meu celular e disquei o número de Morgana junto a toda aquela infinidade de prefixos de uma chamada internacional, eu esperei pacientemente enquanto chamava e estava quase desistindo quando ouvi a voz rouca da Morgh.

― Hey Brie, como está? ― Perguntou alegremente.

― Estou bem ― Menti ― Como estão às férias? Eu li seu e-mail, Eu disse que paris é linda, sabia que você iria gostar.

― Sim, quase tudo saiu como eu planejei, é claro que fomos para bem menos museus do que eu gostaria, porque Mirella reclama de dor nas pernas e acha tudo velho e chato, ela demorou horas escolhendo roupas, eu estou quase colocando ela em um caixote e a mandando para casa ― Disse divertida.

Morgana falou sobre cada museu e galeria de arte e exposição que foi, até mesmo dos artistas de rua que mais gostou, falou das coisas que não gostou, porque, sim, ela encontrou em paris algo que ela desaprovou.

Morgh tem um senso crítico afiado e o tipo de inteligência perspicaz e inovadora, que me deixa tonta quando ela se empolga, ela é o tipo de pessoa com quem você pode conversar basicamente todos os assuntos e ela terá uma opinião sobre todos eles e fará a sua cabeça girar com toda aquela informação, às vezes fico imaginando a verdadeira idade dela, porque ninguém pode ser tão brilhante sendo tão jovem.

Talvez a teoria dela de que vivemos mais de uma vida seja verdadeira, só tal coisa explicaria tanto conhecimento.

Eu apenas sorria bobamente com todo o discurso dela.

― Ah, sinto sua falta ― Deixei escapar.

― Ah meu amor, eu também, estamos quase voltando, tudo o que é bom dura pouco, o hotel aqui é ótimo, mas nada como a casa da gente, não é mesmo? ― Falou rindo ― Conte-me o que estão aprontando por aí.

Eu tagarelei sobre tudo o que havíamos feito desde que ela foi viajar, falei da nova namorada de Joseph e que eu preferi não contar da minha crise de ansiedade, contei-lhe também sobre a festa que eu fui com Kaleb, inclusive a parte do Ácido acidental, porque não havia nada que eu não contasse a Morgh.

― Eu nunca te convidei para festa alguma, porque você era nova demais, e nunca achei que fizesse o tipo festeiro, eu pessoalmente só vou graças ao Nathanael, a maior parte das pessoas que vão a estas festas acabam bêbadas e dando vexame, não é algo bonito de se ver, não vejo alguma graça em beber até cair, além do mais é péssimo para a saúde, você precisa tomar cuidado com o que vai ingerir nessas festas, mesmo que esteja acompanhada por pessoas que você, tecnicamente confia você entende que quero dizer querida?

― Eu acho que sim, eu... Fiquei feliz que April estava lá, caso contrário seria eu com dois garotos... ― Falei baixo ― Mesmo que eu conheça bem Kaleb...

― Estou feliz que April a ajudou, precisamos ficar juntas, já existe um mundo inteiro reforçando a ideia de que somos inimigas, precisamos nos unir e mudar essa porcaria, e me lembre de agradecê-la.

― Okay, eu... Gostaria de falar com Mith, ela está por aí?

― Olha, se você adivinhar o que ela está fazendo, eu reconsidero a ideia do caixote e a mando para Wexford no próximo vôo.

― Ela está dormindo ― Não foi uma pergunta.

Mirella é uma das pessoas que eu mais aprecio em minha vida, porém, ela é uma dorminhoca profissional, é difícil separá-la da cama, a não ser com coisas que ela realmente esteja ansiosa sobre, ou compromissos muito importantes, ela não acorda, mesmo se a casa desabar.

Ela dorme tanto que acorda cansada de dormir e precisa dormir para repor as energias... Palavras da mesma, se é que faz algum sentido.

Eu e Morgana ficamos por algum tempo fazendo piada sobre Mirella e seu sono profundo, claro que exageramos para chateá-la, mas toda brincadeira tem um fundo de verdade...

Mirella é uma garota muito divertida, sendo extremo oposto da irmã, ela é grosseira, aventureira, às vezes inconsequente, quando Morgh é uma jovem Lady, ela faz piadas sarcásticas e de humor duvidoso, mas tem o coração de ouro.

Minha ligação com Morgana terminou com risadas e piadas durando ao todo quase uma hora.

― Eu realmente preciso ir agora ― Morgh desabafou.

― Eu também, Malloney vai me dar carona e deve estar furiosa, eu disse que demoraria vinte minutos e já se passaram uma hora.

― Corra então ― Morgh disse divertida.

― Nos falamos depois, volte logo, aqui é muito sem graça sem você Morgana das fadas,

― Vou me lembrar disso Evelin Brown.

Eu peguei minhas coisas e subi até o meu quarto tropeçando pela escada, entrei no quarto já tirando o meu pijama e seguindo para meu banheiro.

Depois de dez minutos eu estava calçando meus sapatos e uma Malloney furiosa irrompeu pela porta adentro.

― Eu disse vinte minutos, você é surda ou louca, estou atrasada por sua causa, já fazem uma hora e meia que banho foi esse? ― Falou irritada.

― Eu estava falando com Morgana, me desculpe atrasar você, não precisa gritar comigo assim.

― EU... AH Brieanna! ― ela berrou saindo ― Cinco minutos lá embaixo, ou você vai de bicicleta, ou a pé, não me importo ― ela disse voltando à porta do meu quarto.

― Que nervosismo, eu hein.

Quando terminei de me arrumar e desci as escadas Malloney estava saindo.

― Ei, me espera, né ― Reclamei, mas a porta se fechou antes.

― Seu pai está chegando e me pediu para que você ficasse ― Minha mãe disse.

― Mas eu já...

― Brieanna, seu pai te deu uma ordem.

― Sim senhora ― Falei indo para a biblioteca.

Ele saiu antes de me acordar, quando o sábado é o dia em que fazemos coisas juntos, depois me manda ficar em casa quando eu já havia feito planos, às vezes é difícil acompanhar o raciocínio dos pais.

Caminhei até a biblioteca e me sentei ao piano, tenho que admitir que toda a noção do tempo fora perdida alternando entre várias músicas até a minha mãe vir atrás de mim.

― Por Deus Brieanna, você precisa sempre tocar essas marchas fúnebres? Só você e seu pai mesmo para gostar deste tipo de peça ao piano ― Falou se sentando ao meu lado e me olhando ― Ei, está chorando? O que você tem hoje? ― Perguntou passando a mão pela minha bochecha.

― Eu só... Eu me lembrei de umas coisas... Tocando piano.

― Então pare de tocar coisas tristes, eu não quero que você chore, venha me ajudar com algumas coisas no escritório ― Pediu se levantando.

Eu levantei e caminhei atrás dela secando as minhas bochechas nas mangas do meu casaco.

Mamãe estava fazendo uma pequena faxina em documentos, os organizando em pastas e caixas etiquetadas, logo uma montanha de coisas dispensáveis foi se formando.

Meu pai chegou algum tempo depois parecendo transtornado e me mandou para o meu quarto, eu realmente fiquei confusa com isso, uma hora ele diz que eu estou crescendo e outra me manda para o meu quarto como quando eu tinha cinco anos e não comia os legumes... Não faz nenhum sentido.

Decidi ajeitar as coisas em meu closet e procurar por meu colar especial que Em me deu de aniversário, eu havia o deixado cair por algum lugar no meu último dia de aula e esperava encontra-lo em casa, nesse processo de arrumação acabei encontrando coisas que havia escrito há muito tempo e só me fizeram me sentir péssima, eu era uma imbecil egoísta quando Melinda estava viva, eu teria feito tudo diferente se eu soubesse que era a última vez.

Eu esperei ansiosamente para a hora do jantar descendo as escadas muito antes do horário e oferecendo ajuda a minha mãe simplesmente porque eu não queria ficar sozinha comigo mesma e todos aqueles pensamentos dolorosos.

Kyle e eu vamos sair de madrugada, eu havia recebido uma mensagem de texto dele, me convidando para o Skate Park no Gorey, Kyle gosta de praticar de madrugada quando não tem crianças na pista para atrapalhar suas manobras.

Eu estava sem vontade nenhuma de comer, para ser sincera, meus pais e minha irmã estavam falando sobre assuntos que eu nem mesmo me arrisquei a entrar porque estava mentalmente exausta.

― Você está bem? ― Minha mãe me perguntou.

― Sim, senhora, eu estou bem ― Falei pela 10ª vez.

― Tem algo que queira conversar? ― Meu pai perguntou.

― Qualquer coisa ― Mamãe disse me olhando de soslaio.

― Ahnm... Eu... Acho que não, eu não sei ― Falei entediada.

― O que você vai fazer amanhã? ― Papai perguntou ― Pela tarde?

― Eu acho que vou convidar Kyle para fazer um passeio, Lucas e Joseph tem artes marciais.

― Eu vou com April a Waterford, vamos ao cinema e fazer compras, gostaria de ir? ― Malloney perguntou solicita.

Eu dei um sorriso sem graça para ela.

― Eu posso sair com April outra hora, de qualquer forma ― Minha irmã deixou claro.

― Você pode ir, é só que fazer compras não é bem o meu programa para um domingo ― Falei.

― Nós vamos trabalhar amanhã de tarde até a noite ― Meu pai falou.

― Eu não quero que você fique aqui sozinha ― Minha mãe disse dando de ombros.

Eu respirei fundo.

― Eu... Eu não vou fazer de novo ― Falei.

Meus pais ficaram tensos imediatamente e a Malloney deixou deus talheres caírem no prato fazendo um tilintar soar pela sala de jantar grande de mais para quatro pessoas.

― Eu não supus que você iria ― Minha mãe disse tensa.

― Eu posso ficar sozinha ― Falei ― Eu estou bem agora ― Falei.

― O que houve quando a sua irmã a deixou sozinha ontem?

― Aquilo... Foi diferente... Eu... Eu sei que vocês me amam ― Falei irônica ― Que estão fazendo isso para o meu bem, aprecio que estejam tentando cuidar de mim, mas eu preciso de espaço agora... Ficar me perguntando 365 vezes por dia se eu estou bem não ajuda em nada ― Resmunguei ― Eu nunca vou ficar melhor se vocês me tratarem como algo que pode quebrar a qualquer momento.

― Amanhã nós vamos à igreja pela manhã ― Mamãe informou mudando de assunto.

Eu abri a boca para protestar.

― Isso é todos nós ― Ela disse.

― Eu realmente preciso? Por que temos que ir lá? ― Perguntei frustrada.

― Porque é importante, todas as famílias vão, somos uma família, e eu fiz uma promessa.

― Mas

― Brieanna ― Meu pai repreendeu-me olhando nos olhos.

― Eu não gosto, não é minha promessa, eu nem mesmo.

― Não termine essa frase ― Minha mãe disse se levantando.

― Por quê? É a verdade.

― Já chega, vá para o seu quarto ― Minha mãe disse.

― Por dizer o que eu penso? O senhor me ensinou a fazer isso ― Eu disse ao meu pai.

― Brieanna, já chega ― Meu pai disse cansado.

― Pai você concorda que temos que ir lá?

Meu pai sobre todas as coisas era uma das pessoas mais inteligentes que eu conheço, ele é bom em absolutamente tudo, poderia certamente ter cursado física, medicina, matemática.

Minha irmã estava entre chocada e prendendo o riso.

― Eu concordo que você deveria obedecer às ordens da sua mãe e ir para o seu quarto.

― Eles odeiam os gays, abusam de criancinhas e queimavam pessoas e dizem que todo mundo vai para o inferno ― retruquei.

Minha irmã deu uma risada alta, cheia, que ecoou pela sala de jantar inteira e foi interrompida quando foi repreendida por meus pais.

― Essas opiniões só mostram que você não presta atenção no que é dito quando você vai lá, as pessoas fazem essas coisas ruins, Deus é bom e justo e permitiu que você pudesse estar aqui hoje quando eu achei que perderia você... Aquilo foi o inferno ― Minha mãe disse.

― Não acha que se Deus existisse e fosse bom e justo Melinda merecia estar aqui e não eu ― Eu disse sem olhar para eles.

― Já chega Brieanna, vá para o seu quarto ― Minha mãe disse ― Só saia de lá quando estiver pronta para se desculpar por repetir essas bobagens.

Eu bufei e sai da sala de jantar batendo a porta atrás de mim