Moon Society: The lighthouse.

14 Capítulo doze: Quase sem sorte.


Notas iniciais
A história trata de transtornos mentais, exposição a grandes traumas, situações de crise, abuso de substâncias e álcool, não recomendado para o público mais sensível ou para pessoas com histórico de transtornos PODE APRESENTAR GATILHOS.

Hoje é terça-feira, eu tenho que ir ao consultório do Mason, ele prescreverá a mesma medicação, porque segundo à minha mãe nós não temos tempo suficiente para pesquisar uma medicação com menos efeitos, porque eu estou "sem controle" o que na verdade eu não estava, mas ninguém mais daria ouvidos a qualquer coisa que eu tenha a dizer, essa é uma das coisas sobre depressão e suicídio, as pessoas param de acreditar em você, mesmo que digam que elas jamais fariam isso.

― Bom dia, como está se sentindo essa manhã? ― Minha mãe pediu me olhando atentamente, por todo meu rosto, braços e especialmente meus pulsos.

― Bom dia para quem? Eu estou me sentindo sufocada ― Falei.

― Alguém não tomou...

― Sério? ― Perguntei à minha irmã.

― Nunca perde a graça ― Ela admitiu.

― Malloney! ― Meus pais repreenderam.

― Perdeu a graça a três anos ― Falei me sentando.

― Sabe o que mais perdeu a graça a três anos? Ser parte dessa família... Tudo, sempre é sobre você, toda atenção, os planos, eu não aguento mais essa merda ― Minha irmã gritou.

― Não está se descrevendo? Porque isso é tudo o que vejo nossa mãe fazendo por você, então o que sobra é para a filha menos brilhante...Eu não peço por nada disso ― Gritei de volta.

― Mas também não faz nada para mudar isso, não é?

― Foda-se ― Falei me preparando para sair da mesa.

― Você, fique bem aí, o que vocês duas tem na cabeça? ― Minha mãe disse incrédula.

― Acham que vão gritar uma com a outra assim nessa casa? ― Meu pai perguntou ― Quero que se desculpem uma com a outra imediatamente.

Eu revirei os olhos, não iria fazer isso, não mesmo, ela quem começou.

― Eu não quero que você faça isso ― Minha mãe disse apontando o dedo no meu rosto.

― Não vou pedir desculpas por dizer o que eu penso Minha ― irmã disse.

― Eu também não.

― Vocês duas vão pedir desculpas porque até morrermos essa casa ainda pertence a sua mãe e eu e vocês são menores, moram aqui e são nossas responsabilidades, fazem exatamente o que eu disser, o que está acontecendo com vocês? ― Meu pai falou exasperado.

As palavras dele me atingiram de uma forma que ele provavelmente não queria, agora eu tinha as palavras " Vocês são nossas responsabilidades" rondando minha cabeça, então... Era isso que eu e minha irmã éramos... Apenas responsabilidades.

― Se chama crescer...

― Bom está fazendo isso errado ― Minha mãe disse.

― Eu posso ir para o meu quarto?

― Peça desculpas à sua irmã ― Minha mãe disse.

― Ela começou.

― Eu não quero saber quem começou Brieanna, quero que as duas se desculpem agora...

― Me desculpa ― Malloney falou sem nem tentar parecer que se importava.

Eu ri.

― Tem razão, não importa quem começou, me desculpe por estragar a sua vida perfeita, mas eu não pedi para nascer, até tentei consertar sua situação duas vezes... Quem sabe na próxima não é?

― Brieanna ― Meu pai repreendeu.

― Podemos apenas ir?

― Você precisa comer ― Minha mãe falou.

― Eu perdi a fome ― Falei.

Às 01h00pm estávamos em frente ao consultório de Mason, essa era a primeira vez que eu levaria meus pais comigo para uma consulta com meu psiquiatra, realmente não sabia o que esperar, eu tinha coisas de mais rondando meus pensamentos.

― Hey careca ― Falei meio desanimada.

― Hey Bri ― Ele disse sorrindo fracamente ― Richard, Olivia ― Ele cumprimentou meus pais apertando a mão deles ― Se ambos estão aqui, quer dizer que teremos uma consulta mais complexa, sim?

Eu dei de ombros.

― Eu já falei sobre isso ― Minha mãe disse.

Mason deu uma risada e nos pediu para seguir ele.

― Onde você quer que seja? Lá em cima no estúdio ou naquela sala do outro dia?

― Eu não sei.

― Quer um minuto para decidir? Podemos tomar um café enquanto isso.

― Eu acho melhor que seja aqui por baixo, não? ― Minha mãe sugeriu a mim.

Eu mordi meu lábio sem saber o que fazer.

― Hey! ― Mason chamou minha atenção ― É sempre sua escolha, tudo é sobre você, sim?

― Eu não sei se quero tocar hoje ― Falei .

― Então você não tem, okay? Mas você sempre pensa melhor quando tem um piano por perto ― Ele brincou.

Eu apenas assenti.

Nós entramos no elevador, alguns segundos depois Mason abriu o estúdio dando passagem a mim e minha mãe.

― Que lugar bacana ― Minha mãe falou sorrindo.

Eu concordei andando devagar até o piano, mas sem me sentar.

― As crianças gostam dessa sala imagino ― Meu pai observou.

― Estúdio ― Corrigi.

― Estúdio ― Ele concordou.

― Fiz pensando em Brieanna, imaginei que se a música a ajuda a externalizar os sentimentos, poderia ajudar outras crianças.

Eu assenti.

Eu estava sentindo todos os acontecimentos daquele mês, do anterior, desde que retornei à Wexford me tomarem, junto com minha respiração alterada, minha cabeça cheia de pensamentos, meu coração batendo desesperado... Ansiedade, ansiedade, ansiedade...,

― Eu posso...

― Sempre, o que você quiser tocar ― Mason falou.

Eu fui até o aquário onde a bateria ficava e peguei as baquetas em cima da caixa, eu nunca me classificaria como baterista, mas eu estava com raiva e precisava descontar toda ela em alguma coisa.

Eu comecei a tocar, lembrando de todas as merdas que estavam deixando minha cabeça e meu corpo tão exaustos e deixei elas deslizarem para fora.

Quando eu terminei de tocar eu estava chorando e respirando ofegante, sentia o suor escorrendo por minha testa e pelas têmporas.

Eu fiquei alguns segundos dentro do aquário regularizando minha respiração, depois me juntei aos meus pais e Mason, eu me sentei no piano de costas para eles, com Mason sentado com um Eagle ao meu lado, dedilhando calmamente.

― Foi uma bela forma de externalizar, viram do que eu estou falando? ― Ele perguntou aos meus pais.

― Você tem todos esses sentimentos presos e você não consegue falar conosco... Eu gostaria de poder ajudar... Eu estou fazendo algo errado? Eu preciso saber como ajudar você ― Meu pai falou.

― Eu não sabia que você sabia tocar bateria... Quando você aprendeu?

― A senhora não sabe um monte de coisas sobre mim ― Cuspi sem me dar ao trabalho de olhá-la ― Também como poderia... Você só quer que eu seja normal... Como a Malloney... Só que eu nunca vou ser... Eu estou quebrada ― Falei antes de começar a tocar silence, Mason me seguiu no violão imediatamente, ele era muito bom, preciso admitir.

― Não se afogue, continue falando enquanto toca ― Mason pediu.

― Eu tive uma crise... Na verdade, alguns problemas... Não sei quanto você e minha mãe conversaram ― Falei ácida ― Me desculpa por não querer ver você naquele dia.

― Sempre é sua escolha ― Mason me lembrou ― Por que supõe que eu e sua mãe conversamos?

― Porque vocês conversam... Não é? Sobre... Mim... Formas de me ajudar...

― Por que seus pais estão aqui hoje?

― Porque acham que eu me corte.

― Não achamos, nós sabemos que você o fez ― Minha mãe falou irritada.

― Olivia ― Meu pai protestou.

― Você o fez? ― Mason perguntou curioso ― Mesmo depois de tudo? Depois de lutarmos para você voltar?

― Você foi o único que me perguntou isso ― Falei mudando de peça.

― Elegy? Sério ― Mason sorriu seguindo-me ― Você o fez?

― O que? ― Perguntei sem parar de tocar.

― Cortar, machucar a si mesma novamente...

― Não... Eu não sei... Não consigo me lembrar... Eu me lembro de estar triste... Especialmente depois de Emily ir embora... Eu me lembro que meu coração nunca esteve tão acelerado e que eu não conseguia focar em uma única coisa, porque haviam pensamentos demais em minha cabeça... Eu sinto como se eu estivesse enlouquecendo... Estou cansada e tendo aqueles blackouts novamente, mas eu não quero voltar para aquele lugar ― Falei.

― Por que seus pais estão aqui hoje? ― Mason insistiu.

― Eu já disse eles acham que eu...

― Isso é só um dos motivos... Vamos lá.

― Eu não se...

― Você não quer dizer!

― Eu não...

― Tudo bem se não quer admitir, não é nada maduro, mas...

― Foda-se isso Demétrio!

― Brieanna ― Minha mãe repreendeu, mas eu nem liguei, minha relação com Demétrio Mason era assim mesmo.

Mason riu.

― Tudo bem se não quiser me...

― Estão aqui porque não consigo conversar com eles, feliz? Você está ficando chato e velho e careca ― Falei socando as teclas do piano.

― Finalmente, você está muito resmungona para dizer a verdade ― Demétrio reclamou me cutucando com o braço do violão ― Por que não consegue falar com seus pais?

― Não é sempre... Eu consigo falar com meu pai... Algumas coisas... Não quero ser... Um peso sempre...

― Você não é...

― Louco, porque essa manhã você resumiu eu e minha irmã à responsabilidades...

― E Emily?

― O que tem ela?

― Só fale sobre ela.

― Ela e mais uma amiga do que minha tia... Ela não é como todos os outros adultos... Ela realmente... Entende... Sabe?

― E é isso o que você quer? Ser entendida?

― E não queremos todos?

― Tem seu ponto... Por que Emily é importante?

― As vezes só quero entrar em um buraco na terra como aqueles animais...

― Os suricatos?

― Esses mesmo, eu só queria entrar em um buraco e morrer lá, mas... Emily sabe como fazer eu me sentir melhor... Por isso é tão difícil quando ela vai embora, sabe.

― E sua mãe?

― O que tem ela?

― O que ela faz você sentir?

― Eu não quero...

― Você tem!

― Inadequada.

― Em que sentido?

― Nada é bom o suficiente, nada do que eu faço porque... Malloney é perfeita, ela tem os amigos certos, ela sorri o tempo todo, sai com a minha mãe e elas compram coisas, e eu não sou assim, nunca vou ser e eu não sei o que fazer ― Falei ― Eu gostaria de ser normal como a Malloney, então comprar saias e vestidos e bolsas e maquiagens, então eu seria normal, Malloney não teria que mudar de escola, meus pais não teriam que se preocupar comigo todo o tempo, mas eu... Eu estou quebrada, não tenho conserto.

― Por isso você se cortou de novo?

― Eu não sei ― Falei depois soltando um longo suspiro ― Eu me senti sufocada... Eu só queria que toda a dor escorresse para fora, é muito mais fácil viver com a dor física do que a dor na alma... Se sentir corrompida... Sentir como se houvesse sempre uma nuvem escura pairando sobre você... A culpa... Eu sei o que as pessoas falam... Mas é a minha culpa, eu quis ir para o lago ― Falei.

Eu já havia parado de chorar, estava me sentindo anestesiada há tempos.

― O problema é muito mais complexo do que realmente parece, demoram anos até que as pessoas consigam parar com a automutilação... Tem pessoas com 30 anos que ainda o fazem, é como uma válvula de escape... Quando a dor emocional é tão forte que a pessoa precisa de alguma atitude drástica para pôr fim a aquele sofrimento, aquele tormento, é o que acontece com Brieanna.

― Como podemos fazer isso parar? ― Minha mãe perguntou.

― É complicado, as variações de humor... são parte da condição dela, de quem ela é, o que podemos fazer é administrar a medicação adequada, junto à terapia e isso já tem benefícios imensos.

― Eu não quero ter aqueles efeitos...

― Vamos ficar com Lexotan, 25mg e Prozac 20mg, Okay?

Lá estava eu novamente no trem dos Benzodiazepínicos.

Meus pais tiveram uma emergência em um dos hotéis em Dublin, precisaram ir as pressas para lá por todo o fim de semana me deixando sob os cuidados de Lucyla e Malloney... Eram as mesmas regras de quando eu tinha cinco anos.

Nada de portas fechadas, minha irmã tinha que ficar de olho em mim por horas, até eu ter uma crise de raiva e mandar ela sair porque preferia ficar com Lucyla, Malloney foi para o cinema com um cara chamado Ravin, que parecia ser um belo babaca, honestamente eu preferia William, mas não era minha escolha.

Eu decidi que queria ir a uma festa com meus amigos, já que acabei vendo na Internet que hoje dariam uma festa no parque mais afastado das casas.

Eu vesti botas, meu vestido verde e minha jaqueta de couro, esperei alguns minutos pela confirmação de Mirella e Morgana virem me buscar e desci as escadas sorrateiramente.

― Seus pais sabem que você está saindo? ― Lucyla perguntou.

Eu revirei os olhos.

― Não, eles estão muito ocupados ― Falei ajeitando minha mochila com todos os. Meus pertences ― Vai ficar tudo bem, okay? Volto as 11h00pm ― Eu disse.

― Brieanna, se algo acontecer com você é minha responsabilidade ― Ela falou temerosa.

― Nada vai acontecer ― A tranquilizei ouvindo a buzina de Morgana na frente de casa ― Te vejo amanhã ― Falei beijando a bochecha dela e saindo antes que ela dissesse algo.

― Viu na frente ― Gritei para Mirella que tentava se sentar no banco da frente.

Eu entrei no banco do carona ao lado da Morgana sorrindo.

― Caralho... Lucyla te deixou sair na boa? ― Mitchie perguntou.

― Mais ou menos, falou que eu tenho que estar em casa às 11h00pm.

― Okay então ― Morgh falou ― Quando seus pais voltam?

― Na segunda ― Respondi.

― Legal, vamos nessa.