Moon Society: The lighthouse.
25 Capítulo vinte e três: Liberte-se.
Notas iniciais
Depois de terminar de comer eu recebi meus uniformes de educação física e fui até o vestiário guardar tudo Jonah e Wilhelm obviamente não podiam me acompanhar e esperaram na entrada.
O vestiário estava vazio e escuro, depois de fechar meu armário eu senti alguém me puxar e empurrar contra o armário, um grito morreu no fundo da minha garganta quando eu abri os olhos e vi Eros cobrir minha boca.
― Achei que você não iria vir, Deuses! ― Eros disse sorrindo.
Eu quis gritar com ele, quis bater nele até o cérebro dele escorrer pelos ouvidos, se é que ele tinha um, queria xingar ele, mas Wilhelm e Jonah estavam no lado de fora e... Eu não conseguia pensar em nada para dizer.
― Que porra é essa? Tire as suas mãos de mim ― Falei .
Ele afastou as mãos e sorriu.
― Por que... Como sabia que... Deus! Isso é insano para caralho.
― Meu bilhete chegou a você rápido, só... Bem rápido.
― Que? Que bilhete? Não tenho ideia do que está falando...
― Não precisa fazer charme, eu só...
― Eros, vai se foder, okay? Não recebi droga de bilhete nenhum.
Ele fez uma cara confusa.
― Se não recebeu meu bilhete e nos encontramos no lugar que eu queria, significa que o destino está dando uma mãozinha ― Falou divertido, me puxando para perto.
― Significa que você é a porra de um Stalker, Eros, a única mãozinha que você vai ter é a minha, na sua cara, se não manter suas mãos para você, eu só vim guardar meus uniformes de educação física ― Deixei claro.
― Briea...
― Eros... Você só pode ser fodido da cabeça, um bipolar fodido, você realmente achou que seria uma boa ideia espreitar uma garota num vestiário escuro? Especialmente eu, que estou sem dormir porque algum psicopata quer ferrar minha família me sequestrando... Você me assustou para caralho ― Eu disse respirando fundo.
― Me... Me perdoe, eu... Eu não pensei nisso.
― Não temos nada para falar, a menos que vá me dizer por que está agindo como um babaca, o que meu pai te disse e por que diabos você e Joseph andaram se socando, fique fora da porra da minha vida ― Falei andando até a porta.
Ele andou para trás, três passos e me olhou parecendo desolado, mas não importava.
― Ótimo Eros.
― Briea, por favor...
Ele disse baixo.
― Não, não pode me tratar daquele jeito e depois fingir que nada aconteceu, não pode ficar escondendo coisas de mim... Só...
― Não posso!
Eu não sabia se ele estava concordando ou me dando alguma pista, mas estava cansada daquelas frases soltas, de duplo sentido e cansada de mentiras.
Eros me puxou e me beijou, antes que eu usasse o meu braço bom para afastar ele, Eros o prendeu contra o armário ao lado da minha cabeça.
Ele me beijou de uma forma diferente da praia, era gentil e lento, eu queria afastar ele, mas beijar Eros era a única coisa que eu realmente queria fazer em toda essa semana caótica e estúpida.
― Eu aprovo o upgrade do seu uniforme, agradeça os responsáveis.
― Quem disse que preciso da sua aprovação?
― Tem seu ponto Brown.
Eu ri.
― Se afaste, não está desculpado, não totalmente, você não pode esconder coisas de mim e esperar que eu confie cegamente em você.
Ele suspirou e segurou meu rosto antes de me beijar e me deixar ir.
― Está tudo bem? Você demorou ― Jonah falou desconfiado, me dando minha muleta e me amparando nas escadas para sair do prédio de educação física.
― Tudo bem.
Ele me guiou até minha aula extracurricular de literatura, Paul estava me esperando na porta, olhou para meu uniforme um pouco descontente e negou firmemente.
― Onde estava? ― Perguntou rude.
― Estava guardando o me...
― Não importa, já para dentro ― Falou.
― Nossa que mal-humorado ― Falei ao me sentar ao lado da Mirella.
A aula foi divertida e eu consegui me distrair dos meus pensamentos, segui para o estacionamento com Mitchie e Morgh no fim do dia escolar.
Todos estavam se movendo pelo estacionamento apressados porque estava começando a chover, mas Eros estava parado ao lado do carro com Victoria, eu estava tentando me lembrar que deveria estar chateada com ele e não sorrir, mas estava falhando miseravelmente.
― Precisamos ir ― Mitchie falou me abraçando ― Ainda está sem telefone? De castigo?
― Sim, mas agora estou achando ótimo, não me sinto tentada a choramingar sobre meus problemas à vocês e Emily.
Elas riram.
― Você, se cuide e não se meta em encrenca ― Morgana disse.
― Pode deixar Morgana das fadas.
Ela riu.
Joseph atravessou o estacionamento e Jonah parou bem a minha frente.
― Não pode falar comigo? ― Ele perguntou confuso.
― Eu posso falar com quem eu quiser, eu NÃO QUERO falar com você ― Deixei claro.
― Por que?
― Você quer uma lista em ordem cronológica? Ou em ordem alfabética?
― É sobre Eron?
― O nome dele é Eros, e não, é sobre tudo, sua falta de limites, de educação, sua prepotência e arrogância e por achar que te devo qualquer coisa quando não te devo porra nenhuma e por achar que manda em mim ou tem qualquer direito de mandar nas minhas decisões ― Falei me sentindo exausta ao final ― Só... Estou tão irritada com você... Fique longe de mim.
― Quanta maturidade.
― Isso vindo de alguém que arranjou briga com um garoto que acabou de mudar para cá, por absolutamente nada, significa... Porra nenhuma ― Falei .
Joseph abriu e fechou a boca várias vezes e saiu fumegando de perto de mim.
Meu olhar voltou para Eros e meu sorriso morreu quando Julianne parou ao lado dele, então ele sorriu para mim e Julianne disse algo que ele assentiu, os olhos dela seguiram até mim e então ela se jogou nos braços dele, fazendo eu querer vomitar, mas fiquei feliz ao ver Victoria revirar os olhos.
Eu entrei no carro e coloquei meu cinto.
― Briea ― Ouvi a voz de Eros do lado de fora, segurando a porta para que ela não fechasse.
― Garoto, se afasta ― Jonah falou de forma ríspido.
― Cara, tira a mão de mim ― Eros falou.
Eu cobri meus ouvidos, como uma criança, eu não queria ouvir ele, só queria ir para casa.
Eu nunca dava a sorte de ver ambos os meus pais em casa logo depois de chegar da escola, mas hoje parece que o universo estava tentando me ferrar, e lá estavam eles quando passei pela porta.
― O que diabos houve com as suas roupas? ― Meu pai perguntou incrédulo.
Eu dei de ombros.
― Quero uma resposta verbal Evelin Brown ― Minha mãe disse ― Desde quando anda assim?
― Mitchie e Morgh andam assim, Mitchie fez isso no almoço... Todo mundo acha que ficou melhor ― Falei .
― Bom, eu não sou o pai de Mirella e Morgana, sou o pai de Malloney e Brieanna e eu não quero ver você vestida assim nunca mais e não quero que as pessoas vejam você vestida assim ou tirem fotos de você vestida assim ― Falou irritado.
― É só que... Não é muito... Você ― Minha mãe disse calmamente se aproximando, ela pedia calma ao meu pai com seus olhos e eu podia ver como ela conseguia acalmá-lo facilmente.
Percebi que eu estava irritada, com Eros, sendo um babaca, com Joseph por brigar com Eros, com Jonah por me esconder coisas, mas especialmente por meu pai porque ele é o responsável por fazer todo mundo esconder coisas de mim.
― Está me ouvindo? ― Minha mãe perguntou devagar segurando meu rosto e me fazendo olhá-la.
― Me desculpa... Eu não ouvi... Hoje foi um dia de merda...
― Olhe essa sua boca ― Meu pai falou.
― Eu percebi ― Minha mãe falou ― Quero que vá se trocar, você tem uma consulta com Mason em uma hora, depois eu e seu pai vamos sair para jantar com alguns amigos e você vai junto ― Falou.
Eu suspirei.
― É só... Eu não quero sair, foi um dia longo e cansativo.
Minha mãe suspirou.
― São algumas pessoas que eu quero que você conheça.
― Outro dia mãe.
Ela suspirou.
― Eu não sei o que está acontecendo com você, esse linguajar que você nunca teve, suas atitudes, suas roupas... Isso não é bom!
― Bom vocês se acostumam, se me dão licença ― Falei começando a subir as escadas com certa dificuldade.
― Brieanna Evelin Brown ― Meu pai disse ― Desça aqui imediatamente.
― Elea deixe-a ― Minha mãe disse.
― Quando chegarmos vamos ter uma conversa, uma longa conversa.
Eu fechei a porta com força e fui direto para o banheiro, eu já conseguia tomar banho sozinha, se eu ficasse sentada, porque minha perna ainda doía um pouco.
A água quente deveria me acalmar, mas apenas me senti mais irritada e quente, tudo invadiu minha mente ao mesmo tempo e eu tentei manter esse sentimento e os pensamentos que deveria colocar para fora com Mason.
Eu me vesti sozinha, tendo alguma dificuldade com meu jeans, mas não consegui amarrar meu sapato, já que eu só tinha uma mão disponível, pedi a ajuda da minha irmã no início do corredor.
― O que aprontou? Papai nunca foi de berrar daquele jeito com você ― Falou de joelhos à minha frente e amarrando meu tênis ― Deve ter sido das boas.
― Mirella deu um upgrade em meu uniforme ― Falei dando de ombros.
― OH... Ele deve ter dado o ataque.
― Eu não sei... Não fiquei para descobrir, só... Disse vocês se acostumam e subi.
Ela riu.
― Quem diria hein? A herdeira boazinha se rebelando contra o casal real, fugindo, beijando garotos e se metendo em encrenca.
― O que eles vão fazer? Me colocar de castigo? Eu já estou e isso aqui já é uma prisão.
Eu e minha irmã descemos as escadas, os carros estavam prontos e eu tive um lanche antes de ser rebocada e enfiada naquele blindado.
No caminho eu apenas fiquei em silêncio e tentei manter as coisas que precisava falar em mente.
O prédio de três andares de tijolos vermelhos estava muito mais quente do que o clima do lado de fora, anunciamos nossa chegada para o recepcionista e Mason logo me chamou, cumprimentou formalmente meus pais e quando chegamos ao estúdio Sarah e Mason se sentaram de frente para mim.
Eu franzi as sobrancelhas por alguns segundos, eu não via Sarah há tempos, se ela estava ali, se meus pais estavam ali só podia significar uma coisa...
― Vocês vão me mandar de volta? ― Perguntei descascando a pele dos meus dedos, depois apertando quando meu polegar começou a sangrar.
― Como? ― Mason perguntou.
― Vão me mandar de volta para Sant Catherine? Por isso Sarah está aqui? Por isso os meus pais estão aqui?
Meu coração batia rápido, eu sabia que não estava indo bem, mas eu tinha voltado à escola, Morgh e Mitchie estavam de volta, eu conheci William e Jack, eu trabalhava no hotel, eu tinha coisas em que me segurar e não queria ir embora.
― Você acha que precisa voltar? ― Sarah perguntou.
Eu tremi.
― Eu... Não sei... As vezes acho que sim... As vezes acho... Quero dizer... Todo mundo parecia melhor quando eu estava lá... Eu sinto... Como se eu estivesse estragando e atrapalhando a vida das pessoas que realmente importam.
Mason anotou algumas coisas e guardou seu bloco novamente para me olhar.
― Já conversamos sobre isso ― Falou meu psiquiatra.
Eu assenti.
― Eu sei.
― Você não atrapalha nem estraga a vida de ninguém ― Minha mãe disse.
― Todo mundo tem problemas, você é uma jovem...
― Brilhante e capaz ― Falei revirando os olhos ― Eu já falei que não consigo ver essa jovem brilhante no espelho?
― Pois deveria, vamos focar nas coisas que estão acontecendo... Fiquei sabendo que você fez duas visitas ao hospital nesses últimos dois meses, que sofreu um acidente, parece estressante... Quer me contar?
Eu suspirei andando entorno do piano, toquei algumas teclas e acabei optando pelo violoncelo, me sentei e respirei fundo algumas vezes antes de tocar.
― Quando meus pais foram à Dublin, eu fui a uma festa... Eu só... Eu estava triste e eu senti que iria me machucar se ficasse sozinha, minha irmã estava lá... Então... Morgana e Mirella me buscaram.
― Você queria se machucar e saiu para uma festa... A vontade de se machucar passou? ― Sarah perguntou se sentando ao piano e me acompanhando.
Eu dei de ombros parando um segundo esperando Sarah encontrar o tom.
― Suba mais ― Expliquei sobre a música.
― Seus ouvidos são muito bons ― Ela disse sorrindo.
Eu fiz uma careta.
― A vontade de me machucar não passou... Mas... Eu me distrai, Morgana é boa com distrações e ela tem... Essa aura calmante e ela é a minha pessoa favorita.
Meus pais se mexeram no sofá de couro, mas eu não queria olhar para eles me concentrei naquelas cordas.
― E minha amiga Arian estava lá... Ela trouxe os primos, eles acabaram de mudar, foi nessa noite em que conheci os O’Reilly... ― Falei para ninguém em específico.
― Algo estressante aconteceu nessa festa? Por isso está sendo específica sobre ela? ― Mason perguntou.
Eu olhei meus pais por um segundo.
― É só...
― Quer que seus pais saiam? ― Sarah perguntou sem hesitar, ela não ligava nenhum pouco para quem eram os meus pais, tão pouco Mason, se eles precisassem chutar a bunda deles para que eu melhorasse, eles o fariam sem pestanejar.
Eu neguei.
― Você bebeu muito nessa festa? Arranjou outra briga? ― Mason perguntou me cutucando com o violão.
Eu ri.
― Morgana não me deixaria beber, Malloney estava lá, eu não queria, por causa dos remédios, de qualquer forma.
― Eu gosto de ver você sendo responsável ― Sarah disse.
Eu dei de ombro e revirei os olhos.
― Vamos lá ― Mason incentivou.
Eu suspirei.
― Eros O’Reilly aconteceu ― Falei mordendo o lábio.
Mason sorriu satisfeito.
― Isso é uma boa notícia ― Ele disse.
Eu neguei.
― Não?
― Ele é um irresponsável, inconsequente e é o responsável por ela ter quebrado o braço e a perna se quer saber ― Meu pai disse insatisfeito.
Eu suspirei.
Mason me olhou.
― Ele só estava tentando salvar minha vida, se isso importa...
Mason franziu o cenho.
― Estou tentando seguir uma linha do tempo aqui, não me interrompa ― Falei chateada ao meu pai.
Mason riu.
― Então, nessa festa eu conheci os O’Reilly... Eros... E nossos amigos estavam lá... Nós dançamos, Morgana estava com Nathaniel, Eros O’Reilly e eu nos beijamos depois fiquei me sentindo uma idiota por isso ― Falei baixo.
Um silêncio sepulcral preencheu a sala.
― Então... Estão namorando?
― Não ― Falei rindo ― Nem perto disso, nós nos odiamos e não consigo ficar no mesmo ambiente que ele sem discutir.
Sarah assentiu tentando conter um sorriso.
― Por que quis compartilhar isso? Acha que esse acontecimento contribuiu para a sua... Recente oscilação? ― Sarah perguntou dedilhando o piano.
Eu pensei por um segundo.
― Não... Quero dizer... Eu fiquei confusa depois...
― Porque quis beijar ele e depois se arrependeu? ― Sarah perguntou baixo.
Eu neguei.
― Eu não... Só... Aconteceu e... Sou eu... Eu sou quebrada e um caos e instável... Ninguém quer... Isso ― Falei gesticulando para mim mesma.
Eu não iria conseguir mais tocar, então deixei o violoncelo de lado e abracei meus joelhos.
― Você é uma pessoa, não se coloque para baixo assim, você não está quebrada nem é um caos ― Mason disse ― Você só... Precisa entender que ninguém é estável o tempo inteiro.
― Você é.
― Haha não é não ― Sarah falou rindo.
― As vezes me esqueço que você é casada com esse careca irritante ― Admiti.
― Eu também ― Ela admitiu divertida e nós três rimos.
― Por que se sentiu confusa depois?
― Ele me chamou para sair no dia seguinte.
― Então você não é tão ruim quanto pensa hanm? ― Sarah sugeriu.
― Ele me chamou para sair no dia seguinte e começou a agir igual um babaca depois disse que deveríamos ser amigos... Que tipo de pessoa faz isso?
― Talvez ele realmente goste de você, só não saiba como demonstrar isso.
Eu suspirei.
― Morgana me disse para não aceitar atitudes idiotas de um cara com a desculpa de que caras não sabem demonstrar interesse ou sentimento.
― É um conselho inteligente.
― Morgana deve ser mais velha do que diz ser ― Falei ― Ela é muito mais madura do que quase todo mundo que eu conheço.
― Isso é bom, são dessas amizades que precisamos.
― Depois que nós saímos tudo começou a dar errado, nós ficamos algumas horas fora, meus pais e Joseph lotaram meu celular com mensagens, Lucy sabia onde eu estava e com quem eu estava e... Eu senti como se todos eles me tratassem como se eu tivesse dois anos, como se estivesse aprendendo a andar e fosse cair e rachar a cabeça a qualquer momento... Isso me deixou péssima eu só... Queria um pouco de espaço, meu primeiro encontro de verdade tinha sido um desastre e quando eu volto o que eu recebo é Joseph gritando comigo e com Eros como se ele tivesse algo a ver com minhas decisões e um castigo quando meus pais chegaram... Eu só... Não tem nada de normal na minha vida... ― Falei suspirando, eu não queria começar a chorar, porque não conseguiria parar e colocar o resto do que precisava para fora.
― Eu sinto muito querida ― Sarah disse tocando meu ombro.
― Por que acha que Joseph agiu dessa forma? ― Mason perguntou.
― Está colocando a culpa em mim?
― Não é o que quero dizer ― Mason falou confuso.
― Porque é o que parece.
― Por que acha que ele agiu daquela forma?
― Eu acho que ele tem medo... Eu não sou capaz de entender o que se passa na cabeça fodida dos outros... A minha cabeça ferrada já ocupa todo o meu tempo
Meus pais suspiraram por meu linguajar e isso fez Sarah rir.
― Do que acha que ele tem medo? De você namorar Eros?
Eu neguei.
― Não... De eu... Você sabem... Quando eu fiquei doente tínhamos brigado e meus pais deixaram ele me ver, ninguém além da família podia entrar, mas ele entrou, porque ficou com medo de eu morrer brava com ele... Acho que ele tem medo que eu...
― Diga as palavras... Você evita elas porque se lembra? Ou evita elas para não se sentir tentada a fazer de novo? Se ainda tem essa trava significa que há uma ponta que estamos deixando solta ― Sarah falou.
Eu suspirei.
― Você sempre me força ― Falei acusatória a Sarah.
― É... Sou sua psiquiatra, sou paga para te chatear ― Fala dando de ombros.
Eu ri.
― Eu não digo porque meus pais se sentem desconfortáveis com a palavra suicídio... Eu não... Acho que suicídio é uma palavra qualquer, apenas traz algumas lembranças desagradáveis, mas eu já posso lidar com elas... Joseph tem medo que eu tente me matar novamente ― Falei .
― Você tem medo?
― De que ele tente se matar? Não, ele é narcisista demais para estragar o corpo dele.
Ela riu.
― Pergunto se você tem medo de sentir vontade de se matar novamente ― Sarah falou.
Eu pensei um pouco.
― Não, eu penso nisso o tempo inteiro, eu já fiz três vezes e é algo com que vou ter que viver, não me assombra mais como antes.
Ela assentiu.
― Então acha que ele só agiu daquela forma por medo de que você tivesse sumido para se matar?
― Ele tem essa... Fixação de que deveríamos estar juntos... Ao mesmo tempo em que ele está namorando... Tipo... Ele não sugeriu isso, ele já tinha essa fixação antes, mas eu disse a ele que é... Uma ideia nojenta e que eu não tenho nada além de minha amizade a oferecer, ele chorou como uma garotinha... Eu não sei o que fazer com essa informação.
Sarah e Mason se olharam.
― Vamos focar em você ― Sarah disse ― Eu penso no que fazer com essa informação depois ― Falou se sentando perto de mim.
― Depois desse dia eu saí com Mirella, fomos à uma livraria, foi divertido, era tecnicamente minha primeira saída sozinha, então eu vi Eros com uma outra garota Julianne Townsend... Eu fiquei um pouco confusa e irritada, então eu foquei em outras coisas porque não queria lidar com aquilo
― Isso é algo que não deveria fazer, sabe o que acontece quando você não externaliza as suas ansiedades ― Sarah disse.
Eu suspirei.
― Eu comecei a trabalhar no hotel ― Falei animada.
― Isso é uma boa notícia ― Mason comemorou ― Já tem uma rotina, escola e trabalho no hotel.
Eu assenti.
― Eu comecei a trabalhar no hotel e foi incrível, eu realmente gosto de lá, gosto de trabalhar com Darwin, mas trabalhar no hotel desencadeou um outro problema que... Vocês vão ficar sabendo daqui a pouco eu chego lá... Enfim... Eu comecei a trabalhar no hotel e esqueci desses pequenos problemas, mas então eu tive uma folga e no domingo eu saí com os meus amigos e Julianne estava lá, com os meus amigos... Eu só... Fiquei pensando que... Talvez Eros soubesse que eu sou... Assim... E Julianne é normal e os pais dela são gente normal e ela tem amigos normais... Achei que ela talvez merecesse Eros e os meus amigos de uma forma que eu não mereço... Isso não faz sentido... Mas eu comecei a ter uma crise por isso.
Mason suspirou assentindo.
― Nesse mesmo domingo eu estava com Joseph e ele... Ele voltou à aquele assunto, ele estava bravo porque achava que eu estava namorando Eros, eu não consigo entender como isso pode ser da conta dele porque ele tem uma namorada e ele não deveria fazer esse tipo de coisas, entende?
― Eu acho que sim, entendo o ponto principal e... Não é justo ― Sarah falou.
― Eu sofri um pequeno acidente nesse dia... Eu subi em uma prateleira na dispensa quando estávamos na casa do Joseph e então eu cai e minha cabeça bateu no chão e eu... Meu nariz ele deslocou tinha sangue por toda parte e eu fiquei com um galo enorme ― Falei .
Sarah e Mason me olharam incrédulos.
― Não precisam me olhar assim também né... Só... Eu só precisei consertar o nariz e fazer uma tomografia... O que importa é que Morgana percebeu que havia um carro nos seguindo, Mustang GT azul e preto, mas ela não me contou logo de cara... Enfim... Três dias se passaram e eu... Eu fui dormir na casa da Morgana porque... Nós estávamos planejando ir em um lugar no porto.
― Que lugar? Você nunca me disse onde estavam indo quando aquele carro seguiu vocês ― Meu pai falou.
Eu corei.
― Eu não posso dizer.
― Ah pode sim e você deve, isso inclusive faz toda diferença para ajudar a descobrir com quem estamos lidando ― Minha mãe disse.
Eu hesitei.
― Morgana acha... Bom eu... Morgana acha que essas pessoas poderiam me ajudar com... Meus problemas para... Para... Lidar com... Coisas que eu... Como quando eu tenho black-outs... Era uma casa de orações... Tinham algumas pessoas mais velhas e Morgana vai sempre lá, eles são pessoas mais velhas e bem simples e... Eu não disse o meu nome a eles porque eu... Eu não queria que ninguém soubesse que eu fui até lá ― Admiti.
― Casa de orações? ― Sarah perguntou cética.
― Você foi a uma sessão espírita? ― Mason perguntou incrédulo.
― Eu só estava curiosa, quando estava lá pensei se você ficaria decepcionado por isso ― Admiti ― Você está?
― Eu? ― Mason perguntou.
Assenti.
― Eu não estou decepcionado, só... Surpreso.
― Na sexta-feira a noite? Era isso que estava fazendo? Indo a uma sessão espírita? ― Minha mãe perguntou exasperada ― E Morgana te levou lá?
― Você não vai brigar com ela, eu pedi a ela para me levar ― Falei .
― Como foi? ― Mason perguntou.
― Religião é uma instituição manipuladora e falida, só... Não mudou nada, é o que você disse, meu cérebro está exausto e fico tendo esses black-outs, nada além disso.
Mason assentiu.
― Esse carro não apareceu pelos quatro dias que se seguiram, então achei que estava tudo bem, deveria ser só um imbecil, eu fui até o parque andar de bicicleta e quando eu terminei de correr pelo parque ele estava lá, então... Eu estava perto da casa de Morgana e Mirella e pedi a elas para chamar a polícia porque eu iria para lá pela trilha e... Quando eu estava bem perto Eros colocou o carro dele entre mim e o Mustang e eu me distrai e voei pelos ares quando Eros freou... Ele salvou minha vida, mas eu não conseguia ver isso, fui uma vadia com ele, eu desloquei o joelho e o ombro, então eu fui para o hospital e lá eu contei aos meus pais o que tinha acontecido... Contrataram seguranças... Alguns dias depois outro carro estava em frente à casa... Ele tentou atropelar os seguranças e eles atiraram nele... Mas o carro era blindado e... Foi quando percebi que alguém investiu algum dinheiro em tentar machucar as pessoas entorno de mim... Mas estavam focados em mim por algum motivo e eu não entendia... Aqueles tiros... Eu sonhei com aquilo a noite inteira e foi quando eu assimilei que Eros realmente tinha salvado a minha vida... Eu descobrir que alguém queria a atenção dos meus pais e eu sou o alvo mais fraco...
― São muitas coisas para assimilar... Deve estar pirando ― Sarah falou.
Eu assenti.
― Quando minhas aulas começaram eu meio que... Estava em casa há semanas e não podia sair e eu só... Eu só queria respirar e Eros me levou para dar uma volta, isso deixou todo mundo furioso... Depois disso eu forcei eles a me contarem por que só eu era alvo, por que não meus pais, meu avós, minha irmã ou tia Emily... Minha mãe me disse que alguém tirou fotos minhas, de perto, na escola, mandaram elas ao meu pai, no mesmo dia em que eu e Eros saímos, aquilo fez todo mundo pensar que...
― Você tinha sido sequestrada ― Mason falou.
Eu assenti.
― Mas quando deram falta de Eros decidiram rastrear o celular dele... Eles nos acharam depois de umas cinco horas e eu fiquei de castigo de novo, mas... Me deixar de castigo não conserta as coisas não é?
Mason negou.
― Demorou algum tempo até Jonah e Ian serem honestos e me dizerem que pessoas demais tem interesse no que meus pais têm.
― Quem é Jonah?
― É meu chefe de segurança ― Meu pai falou.
Eu até havia me esquecido que eles estavam ali... Relembrar que eles estavam me preocupou, estava sendo honesta demais?
― Sabiam que tem apostas sobre quem será responsável por tudo quando vocês... Jonah e Ian disseram que as apostas em mim aumentaram quando eu comecei a trabalhar no hotel e... Eu estou tão assustada... Eu sou uma lâmina de dois lados que não consegue se mover sem machucar alguém ― Falei .
Eu desabei em uma torrente de lágrimas desesperada e soluços e eu não consegui parar, minhas mãos suavam e tremiam, meu corpo tremia, meu coração estava martelando.
Demorou cerca de uma hora e alguns comprimidos até Mason e Sarah conseguirem me acalmar.
Eu voltei para casa com Jonah e Wilhelm enquanto meus pais foram para o tal jantar, tive que insistir muito para que eles fossem jantar ao invés de irem para casa comigo.
Lucyla serviu meu jantar e Ian me levou escada à cima, me troquei e Lucy me deu meus remédios, apaguei logo que me deitei.
Acordei algumas horas depois, sentindo mais um cobertor ser colocado sobre mim, abri os olhos com dificuldade, vendo minha mãe e meu pai entorno de mim.
― Volte a dormir, só viemos cobrir você, está esfriando e acabamos de chegar ― Falou meu pai.
― Como foi seu jantar? Espero que eu não tenha estragado a coisa toda.
― Nenhum jantar é mais importante do que você, meu amor.
Eu suspirei.
― Quer conversar sobre as coisas que disse para Sarah e Mason?
― Não, só... Foi um dia cheio...
― Eu amo vocês e gostaria que não estivessem passando por isso ― Meu pai disse.
Fechei os olhos enquanto minha mãe sussurrava can’t help falling in love with you e acariciava meu cabelo.
Eu sonhei que estava sentada na cantina da escola, mas não tinha mesas como a cantina da escola, tinham os instrumentos da estúdio terapia, eu estava sentada no piano e todas as pessoas que eu conheço e com quem eu me importava estavam entorno de mim mas eu não estava tocando e seus rostos pareciam tristes demais... Meus pulsos estavam coçando e eu estava sentindo meus braços cansados demais, meus olhos estavam um pouco pesados, desviei meus olhos deles e do piano para os meus pulsos e eles sangravam, sangravam muito, não paravam, eu estava usando a roupa do Sant Catherine, ela estava manchada e eu não conseguia fazer meus pulsos pararem de sangrar.
Eu não me lembrava de ter feito isso de novo, eu queria ficar bem, estava tudo bem agora... Não estava? Eu tinha Morgh e Mirella, Joseph, Kyle e Lucas tinham melhorado, eu tinha Jack e William e minha irmã me disse que ela não podia mais ser filha única.
Comecei a gritar por ajuda, mas ninguém se movia, o aperto em meu peito aumentou e eu não conseguia respirar, minha boca estava ficando cada vez mais seca e meus olhos cada vez mais pesados, então o piano estava coberto pelas pequenas pílulas verdes e brancas que eu usei para silenciar a dor algumas vezes... Não, não, não.
Eu estava bem e eu não consigo entender por que de repente isso aconteceu... Eu não queria me machucar novamente.
Acordei suando frio e com minha mãe me sacodindo violentamente.
― Ei está tudo bem ― Falou ― Deus! ― Ela falou me abraçando.
Lucy estava parada na porta, minha irmã estava chorando e meu pai estava checando minha temperatura.
― Você não acordava ― Minha irmã sussurrou entre as lágrimas ― Só... Você nos assustou ― Falou se aproximando.
Eu demorei algum tempo para entender, eu não estava gritando quando acordei, eu só não acordei, como quando eu tomei um monte de pílulas e...
― Eu não consigo respirar só... ― Pedi um espaço e eles me ajudaram a sentar ― Eu posso tomar banho?
Minha mãe me ajudou a ir até o banheiro e eu bebi tanta água, estava com a boca tão seca...
Depois de vestir meu uniforme eu ajeitei ele do jeito que Mirella havia feito e desci as escadas devagar com a ajuda da muleta, preciso me livrar dessa droga, eu nem sinto mais dor na perna.
― Você decidiu usar o uniforme assim e o cabelo solto agora? ― Minha mãe perguntou ― De quem está tentando chamar atenção?
― De ninguém só... Quero usar desse jeito.
Meu pai tinha o rosto vermelho e respirava fundo, como se tentasse manter a calma.
― Ajeite suas roupas Evelin Brown.
― Eu quero ficar assim!
― Ajeite o seu uniforme, eu não vou repetir a terceira vez ― Ele falou.
Eu me irritei muito.
― Pai, só meu pescoço e os meus joelhos estão aparecendo!
― Ajeite as suas roupas agora mesmo não vou mandar de novo.
― Se eu não ajeitar o senhor vai me bater? Como Joseph fez com Eros?
Ele me olhou incrédulo.
― Deus, o que tem de errado com você hoje?
― Pergunte o que não tem de errado nessa droga de vida ― Fale.
― Está me punindo por te colocar de castigo por fugir com um garoto inconsequente que quase matou você? Por contratar seguranças para proteger você?
― Eu não precisaria de seguranças se... Pare de gritar comigo, eu não tenho culpa do que está acontecendo, nem de terem que contratar seguranças para proteger nossa família dessas pessoas doentes, só que não pode me impedir de viver, caso não tenham percebido eu cresci, não sou mais criança e afastar as pessoas de mim não vai mudar esse fato, são as coisas que estão escondendo de mim que estão estragando tudo.
― O que exatamente acha que estamos escondendo Brieanna? ― Perguntou se levantando e apoiando as mãos na mesa.
― Bom, é uma lista enorme até Jonah que acabou de chegar sabe mais de vocês, da minha vida melhor do que eu sei.
― Isso não é verdade ― Ele disse me olhando com seus olhos azuis em chamas.
― O senhor sabe que é verdade, estou cansada de vocês escondendo coisas de mim e isso... Vocês estão me sufocando ― Falei me levantando.
― Já chega, vocês dois ― Minha mãe disse alto se levantando também.
― Eu não escondi nada!
― Escondeu sim, por que não começa me dizendo o que disse a Petros e Eros naquela tarde? Porque pela forma como Eros me tratou, deve ter sido algo terrível, por que mandou Jonah não deixar ele se aproximar? Tem falado com Joseph? Sabia que ele agrediu Eros?
― Já chega Brieanna Evelin Brown!
― Não, por que eu tenho que ouvir tudo e não posso opinar sobre a minha própria vida?
― Eu disse que já chega, não vou admitir esse tipo de comportamento de você!
― Ótimo, isso esclarece muitas coisas ― Falei saindo da cozinha.
― Brieanna Evelin Brown, volte aqui nesse instante ― Ele berrou.
Eu sai da casa e Jonah abriu a boca para dizer algo mas meus olhos o queimaram e ele achou que o melhor a fazer era ficar em silêncio.
Eu sabia que era cedo demais para ir para a escola e usaria aquele tempo extra para colocar em dia meus trabalhos e matérias.
No caminho comecei a lamentar por ter gritado daquele jeito, nunca havíamos brigado seriamente e aquele era um sentimento terrível o que eu estava tendo nesse momento.
Minha mente agiu desobediente pelas vezes em que Eros já me fez chorar e talvez ele... Talvez meu pai estivesse certo, talvez ele apenas esteja querendo me proteger.
A confusão mental é um labirinto perigoso.
Fui golpeada com as imagens de Eros com Julianne, como ela abraçou ele, como a vida dela é simples e como ela sabe lidar com as pessoas e as situações sem ficar ansiosa e chorar, como ninguém tenta matar ou sequestrar você quando seu pai é o simples dono de uma loja de artigos de pesca...
Não, não, não, não tem nada de errado com a minha família ou comigo, para de pensar nisso.
Eu cobri meus olhos com as duas mãos tentando fazer as lágrimas pararem de escorrer.
Quando chegamos na Lun como no dia anterior Jonah parou o carro, Wilhelm e Ian desceram, ficamos dando voltas pelo estacionamento, depois voltamos até o prédio da biblioteca e Jonah estacionou, fez outra varredura e me ajudou a descer, Wilhelm pegou minhas coisas, Jonah estava alerta e Ian me apoiou pelo quadril e me ajudou a caminhar para dentro do prédio.
Harrington me fez sentar em uma mesa no fundo, de costas para uma parede e longe das janelas, segundo Jonah um atirador bom me acertaria de longe com aquelas janelas enormes da biblioteca da Lun.
Jonah não tirava os olhos da porta, como um cão de guarda, acabei rindo da imagem de um cão de terno, Jonah seria um Rusk e Ian um Rottweiler.
― Então... ― Falei para Jonah e Ian enquanto escrevia em meu caderno ― Vocês sempre quiseram ser... Como chamar? Seguranças? Guarda-costas?
― Chefe de segurança? ― Jonah sugeriu divertido.
― Sargento ― Ian sugeriu e Jonah bateu nele com o punho fechado, os dois riram.
― Hunm... Jonah o chefe ― Falei divertida ― Sargento Dorchester...
― Ao seu dispor, sempre ― Ian falou fazendo uma continência charmosa.
Ele riu, a risada dele era engraçada.
― Eu... Não é uma história interessante ― Falou indiferente.
― Conte a garota mouco! ― Ian zombou fazendo Jonah revirar os olhos.
Eu estreitei os olhos.
― Eu duvido ― Falei ― Qual é Jonah Harrington, aposto que sabe até meu tipo sanguíneo e as alergias.
Ele concordou.
― O+ tem alergia a nozes, abacaxi ― Falou orgulhosamente.
― E penicilina e derivados de morfina ― Ian acrescentou.
― Assustador e esquisito ― Falei incrédula ― Anda logo Jonah, abre o jogo... Se não me contar Dorchester vai.
― Eu nasci na Inglaterra ― Falou.
Eu assenti.
― Meu pai é... Era do exército, eu fui soldado
― Nos conhecemos no exército ― Ian disse orgulhosamente e Jonah bagunçou o cabelo dele.
― Qual é ― Ian falou pegando um pentinho do bolso interno e ajeitando os fios pretos novamente.
Eu gargalhei.
― Servimos na guerra do Irã e Iraque e... Fui para as operações especiais...
Ele fez aquele gesto nervoso e continuou.
― No Iraque eu sofri um... Perdi a audição do ouvido esquerdo ― Jonah falou.
― Perdi a sensibilidade do pé esquerdo no mesmo dia ― Ian falou divertido.
― Eu fui reabilitado, mas sofri com estresse pós-traumático e estresse de guerra ― Jonah disse sorrindo como se aquilo fosse engraçado ― Até ser enviado à S. Y. D. e de lá... Aqui estamos nós.
― Wilhelm falou algo sobre sua última missão... Ele estava falando do Irã ou Iraque?
Ele piscou e suas sobrancelhas se uniram firmemente.
― Coisas... ― Jonah congelou.
― Apenas saíram do controle ― Ian falou tocando o ombro do amigo.
― Você perdeu seus amigos?
Ele me olhou incrédulo.
― Vocês estão sempre olhando para Wilhelm e os outros como se o bicho papão fosse saltar e levá-los... Eu sei porque depois que minha melhor amiga morreu eu sempre penso que sou amaldiçoada e que algo vai continuar acontecendo com os meus amigos ― Falei .
Ele assentiu.
― Assustadora ― Ian disse jogando lascas de borracha em mim.
― Quantos anos você tem menina? ― Jonah falou divertido.
― 14 anos e você?
― 32 ― Falou rápido.
― Sou três meses mais jovem... Pode notar pela minha beleza diferencial ― Ian disse fazendo pose.
Eu os olhei incrédula.
― Vocês eram quase crianças quando enviaram vocês para aquele inferno.
Jonah deu de ombros.
Ian apenas concordou.
― Queríamos ajudar as pessoas.
― Vocês ajudaram ― Falei sorrindo ― Prazer em conhecê-los Sargento Dorchester e Harrington o...
― Primeiro sargento ― Ian sugeriu.
― Hunm... Primeiro Sargento Harrington e Sargento Dorchester... ― Falei apertando a mão de Jonah.
― O prazer é todo meu Senhorita Brieanna Evelin Brown ― Ele disse fazem uma reverência inglesa.
― Sargento Dorchester ― Falei cumprimentando Ian.
― Vivo para servi-la ― Ian disse beijando minha mão.
Nós três sorrimos e Ian e Jonah ficaram me fazendo companhia até eu terminar, a cada três minutos Jonah pedia uma atualização a todos os membros da equipe, minha família estava bem.
Eu suspirei depois de guardar minhas coisas, eu não queria encontrar Joseph, Eros ou Julianne hoje, mas sabia que precisava ser forte.
Jonah me fez ficar na biblioteca, longe das janelas e fora da linha de visão da porta enquanto Ian ia para fora e fazia outra varredura junto a Wilhelm antes de eu sair, logo Ian voltou e nós quatro começamos a caminhar para o prédio seguinte.
Havia uma neblina espessa pelo estacionamento, um cheiro esquisito, ainda estava parcialmente vazio, Wilhelm estava atrás de mim e Jonah e Ian a minha frente.
Alguma coisa de metal grudou embaixo da minha bota e o barulho de metal tilintando estava me agoniando e eu me abaixei para retirar.
Era uma flor, tinha crescido em uma rachadura no asfalto do estacionamento, era diferente de todas as flores que eu já tinha visto, parecia metal, as pétalas pareciam pás de ventilador salpicados de raspas de metal, mas ela era macia como ceda, seu centro parecia ter uma pérola negra.
Eu guardei no bolso, seria meu tesouro secreto, quando eu me levantei senti o chão tremer e me desequilibrei, me ajoelhando novamente, então algo passou zumbindo por meu ouvido esquerdo, ardeu muito e ouvi algo caindo pesadamente na minha frente e atrás de mim, me lembrou do barulho que os garotos fazem nos treinos quando eu ia assistir eles lutando, o barulho deles quando caem no tatame.
Antes que eu pudesse piscar Jonah se atirou sobre mim e me arrastou facilmente para trás de uma caminhonete do estacionamento.
― O que...
Jonah estava no telefone.
― Preciso de uma ambulância ― Jonah disse.
― Estou bem ― Falei confusa, mas então eu vi Wilhelm encostado no outro carro, seu ombro vertendo muito sangue, assim como o antebraço e a barriga, Ian tinha um pouco de sangue na camisa mas parecia bem.
― Apenas de raspão aqui ― Ian falou a Jonah que assentiu.
― Ah... Deus! Jonah ele está sangrando muito ― Falei desesperada ― Isso foram...
― Tiros, três, fique calma ― Ele disse segurando meu rosto e olhando em meus olhos ― Vai ficar tudo bem, não se mova um só centímetro ― Ele disse.
Ele nem precisava pedir isso, porque meus ossos viraram gelatina e eu estava completamente congelada.
Jonah pegou minhas mãos e colocou sobre os meus ouvidos.
― Feche os olhos ― Ian disse.
Eu não fechei, mas alertei meus dedos em meus ouvidos com força porque sabia o que Jonah faria.
Ele tirou a pistola do coldre e checou o caminho, então ele saiu e se apoiou em outro carro e os tiros começaram, vários, meu coração estava batendo muito rápido e eu nem conseguia respirar, Wilhelm continuava sangrando muito, ele não fechava os olhos, mas seus dentes estavam trincados e sua expressão era assustadora, parecia furioso.
Ouvi mais tiros e um carro acelerando, então alguns minutos e uma ambulância e um carro da polícia apareceram, Jonah me arrastou pelo prédio de inglês, até o banheiro.
― Fique aqui, tranque a porta e depois se tranque em uma cabine ― Ian falou.
― Coloque seu pés para cima, fique até eu voltar e mandar você abrir, entendeu?
Eu assenti nervosamente.
― Wilhelm...
― Ele vai ficar bem, ele já passou por coisas muito piores ― Jonah disse dando de ombros.
― O importante é proteger você ― Ian falou ― Tranque a porta, sim?
Eu assenti.
Eu fiz tudo como Harrington e Dorchester mandaram, demorou uma eternidade até Jonah voltar, nessa pequena eternidade percebi que as balas cravadas em Wilhelm provavelmente eram para que pudessem me levar, ou pior, me matar.
Meu ouvido ainda estava doendo e eu o toquei e minha mão encheu de sangue.
― Porra!
Eu não posso ter um tímpano perfurado? Posso? Eu consigo ouvir bem, peguei um papel toalha e pressionei o local por algum tempo e o sangramento parou depois de um minuto.
Então aquele zumbido estranho eram os tiros.
― Preciso levar você de volta para casa ― Jonah falou.
― Seus pais estão vindo... ― Ian avisou.
― Não... Jonah, você afastou eles, minha vida já está uma bagunça.
― Não posso proteger você aqui com tantas pessoas entrando e saindo Brieanna.
― Porra! Porra! Porra! Será que minha vida nunca vai ser normal? Monótona? Tranquila como a das pessoas normais?
― Sinto muito que esteja passando por isso ― Ian disse tocando meu ombro.
Jonah me arrastou até o prédio de administração, parei na metade do caminho, assimilando tudo.
― Vocês salvaram a minha vida.
Ele riu.
― É o meu trabalho Brie ― Jonah disse passando um braço por meu quadril.
― Você pode facilitar ele não parando no meio do estacionamento onde um atirador pode te acertar e caminhando para dentro do prédio ― Ian falou divertido.
Usei meu cabelo para cobrir a ferida em meu ouvido, quando entramos no prédio de administração meus pais pareciam desesperados.
― Brieanna ― Minha mãe disse me abraçando ― Você está bem? Está assustada? Eu imagino quão terrível deve ter sido ― Falou tocando meus braços, rosto e beijando minha testa.
― Mãe, eu estou ótima, é com Wilhelm que precisamos nos preocupar ― Falei tentando conter a ansiedade e mascarar o desespero dentro de mim ― Jonah e Ian foram muito rápidos e eu não tenho nenhum arranhão ― Menti.
― Nós vamos para Londres, essa noite, vou mandar buscar seus avós e Emily e...
― Não pai, minha vida está aqui, não vamos deixar esses imbecis levarem a melhor ― Falei ― Tem o meu aniversário.
― Está cancelado, não vê o quão perigoso é?
― Não se pode cancelar o dia do meu aniversário, tia Emily e meus avós estão vindo, meus amigos estão animados ― Falei.
― Você não entende que é perigoso? ― Minha mãe disse.
― Jonah ― Choraminguei.
Jonah fez aquele gesto nervoso.
― Ian...
Eu sabia que eles não queriam me decepcionar, mas também não podiam contrariar meu pai.
― Vamos ter que começar desde já... Checagem de antecedentes de quem for trabalhar na festa e...
Meu pai o olhou severamente e Jonah se calou.
― É muito perigoso ― Jonah disse.
― Ian...
― No entanto... Só se faz quinze anos uma vez, senhor ― Ian falou sorrindo.
― Viu, só uma vez e Ian e Jonah são totalmente capazes de cuidar de mim e já provaram isso mais de uma vez ― Falei sorrindo para eles que sorriram de volta.
Minha mãe pigarreou.
― Vamos para casa agora ― Meu pai decidiu.
Eu neguei.
― Mas... Eu tenho aula ― Protestei.
― Pode faltar hoje, já falamos com...
― Mas eu tenho uma prova ― Argumentei.
― Pode fazer em outro momento ― Meu pai falou.
― Eu... É uma prova em dupla e Mirella é péssima em cálculo...
― Tenho certeza que Mirella pode se virar sozinha ― Minha mãe disse.
― Você tem médico ― Meu pai falou.
― Meu médico é só depois da aula ― Falei ― Não podem me impedir de ir a escola, tenho certeza que existem leis contra isso ― Falei.
― Santo Deus, você quer me enlouquecer hoje ― Meu pai falou incrédulo.
― Jonah já tinha planejado meu dia, se quebramos os planos as chances de as coisas darem muito errado não são bem maiores?
Jonah deu um sorriso nervoso.
― Eu sei o que está fazendo, pare já com isso ― Meu pai disse.
― Mãe!
― Deus do céu, vocês dois precisam resolver o que quer que tenham para resolver porque eu não vou ser mediadora de uma guerra ― Ela disse ― Vá para a aula Evelin, vejo você às 05h00pm é melhor não sair um dedo da linha ou... ― Ela deixou no ar.
Beijei o rosto vermelho e furioso do meu pai, que muito contra a vontade de Jonah saiu dali sem escolta para deixar todos eles comigo e já que minha irmã tinha a segurança da Saint Patrick.
Sabia que olhos me seguiriam onde quer que eu fosse hoje e tive que trocar de lugar na maior parte das minhas aulas para ficar longe das janelas.
Ninguém queria correr o risco de chegar perto de mim, como se eles fossem explodir ou algo assim, no meu horário de intervalo nem consegui ficar com meus amigos e tive que comer no prédio dos professores, o que foi a experiência mais estranha da minha vida.
A sala dos professores ficava no prédio mais afastado do campus, é um prédio para onde os alunos nunca são convidados e acredite-me você não quer ser convocado para o prédio dos professores, se isso acontecer, você está muito encrencado e ou será convidado a se retirar permanentemente da escola.
E acredite-me você não quer ser convidado à se retirar da única escola laica da cidade, é extremamente difícil ser expulso da Lun, ela é a melhor escola de toda a cidade, se for expulso você está banido até a quinta geração, brincadeiras à parte, você não quer ser expulso.
Então lá estava eu, silenciosamente comendo meu lanche na mesa dos professores, na sala dos professores, que mais parecia o salão comunal da grifinória.
Todas as paredes são vermelhas, com adornos dourados, tem troféus, placas com nomes dos alunos importantes e prêmios acadêmicos e docentes por toda parte e algumas pinturas à óleo pelas paredes, entre elas o primeiro diretor da escola Victor O’Connor e da curandeira que viveu em Wexford quando os vikings ainda dominavam os portos há trezentos anos atrás.
Lun Evanic, ela era velha quando essa pintura foi feita, a história dela é confusa e um mistério, não se tem certeza de quando ela realmente viveu, mas existem registros dela em alguns documentos históricos e menções à seus feitos e agradecimentos.
― Brieanna... Querida ouviu o que eu disse? ― Rosemarie a enfermeira perguntou.
― Não, desculpa, estava distraída... O que você dizia?
― Essa é a primeira vez que isso está acontecendo com vocês? ― Pediu.
― Eu... Que eu tenho conhecimento sim, se aconteceu outras vezes... O meu pai não deixou eu e minha irmã sabermos
― Oh é verdade, me desculpa.
― Está tudo bem ― Falei sem graça sorrindo para ela.
― Acha que seu pai tem algum... Inimigo? Alguém que ele possa ter aborrecido? ― O diretor perguntou calmamente.
Eu franzi as sobrancelhas.
― Eu... Eu não entendi o que o senhor quis dizer ― Falei depois olhei para Jonah e Ian confusa.
― Certamente deve ser isso ― Ashford disse concordando com o diretor.
― Seus pais nunca tiveram sócios infelizes? Talvez seu pai tenha tido um antigo relacionamento...
Eu explodi.
― Olha aqui meu pai é o único dono de todas as coisas que ele tem e a minha mãe é a única mulher com quem ele já esteve na vida, então... Não vejo como isso pode ser da conta de qualquer um de vocês, com todo respeito ― Falei moderando meu tom de voz é respirando fundo tentando me acalmar.
― O senhor Brown é um homem de muitas posses, é responsável por muitas pessoas, está acima de muitas pessoas e mesmo que a família Brown seja discreta, todas as posses, dinheiro e atenção geram inveja ― Jonah falou.
― E a inveja meus senhores é um vírus mortal que tira a razão das pessoas, por que importunar uma garota de 14 anos sobre tais assuntos? ― Ian continuou.
― Perdão... Senhorita Brown, não fazia ideia de que estava sendo difícil para você.
― Vocês nem fazem ideia ― Concordei olhando para Jonah em seguida.
― Está pronta para ir Senhorita Brown? ― Ian perguntou.
― Sim, só me tire daqui ― Falei irritada.
Jonah, Ian e eu saímos de lá o mais rápido que podia.
― Não se importe com eles, o que eles disseram são só especulações ― Ian falou de mal gosto.
― Eles queriam que você deixasse escapar algo, você se saiu muito bem ― Jonah falou.
Eu sorri.
― Obrigada Jonah.
Fale com o autor