Moon Society: The lighthouse.
9 Capítulo sete: Juntas até o fim.
Notas iniciais
Mamãe me deixou na casa dos Rodríguez meia hora depois com o aviso de “Nem sonhe em sair daqui sem permissão” e “Me ligue quando estiver pronta para ir para casa”
Quando a mãe dela abriu a porta e imediatamente me abraçou eu sorri até as minhas bochechas doerem.
― Meu Deus, que saudades, parece que não nos vemos à um ano ― Eu disse me apertando.
― Nem me fale, nós sentimos sua falta ― Ela disse separando o abraço para me olhar melhor ― Você está bem? Até engordou, parece estar ótima.
― É uma luta todo dia, só que eu estou levando a melhor em 6 de 10 ― Falei sorrindo.
― Que bom querida, fico feliz por você, eu imagino que depressão não é fácil, qualquer coisa que precisar estamos aqui, certo? Pode nos chamar para conversar, qualquer coisa, mesmo.
― Obrigada, senhora Rodriguez, vou me lembrar disso
― Pode subir querida, Morgana e Mirella estão desfazendo as malas.
― Obrigada ― Falei sorrindo e indo em direção às escadas.
O som de II Voleo enchia o segundo andar da casa onde os quartos ficavam, sorri porque isso fazia real o fato de que minhas melhores amigas estavam a uma porta de distância agora e não em outro país.
― Ei você voltou ― Falei parada na porta sentindo os meus olhos encherem de lágrimas.
Eu apenas havia visto Morgh e Mirella ainda na clínica, elas foram com Lucas e Kyle, uma semana antes de eu finalmente poder vir para casa, Morgh me contou animada sobre sua viagem em família.
Então eu pude ir para casa e elas passaram três meses numa tour pelos lugares mais legais da Europa, mas agora estavam de volta.
― Você sobreviveu as férias hein ― Mirella falou e Morgana deu uma cotovelada nela.
― Okay, sem piadas sobre bater as botas ― Mirella disse divertida.
Essa é minha melhor amiga, esfregando a merda na minha cara e sorrindo e me fazendo sorrir com isso.
― Por mim tudo bem, com a quantidade de vezes que eu quase bati as botas, eu acho que uma piadinha sobre isso não vai fazer mal a ninguém.
― Viu ridícula, eu falei que ela estava bem com tudo ― Mirella falou revirando os olhos para a irmã.
― Eu senti muito a sua falta, nossa, parece que se passou um ano ― Falei segurando as mãos da Morgana.
― Qual é, sou só eu.
― Não é só você, é… Você Morgana das fadas, agora todo mundo que eu amo está aqui e tudo vai ficar bem.
― Nossa, Oi Mirella, senti sua falta, como está? ― Mirella ironizou.
― Sabe que senti saudades de você ― Falei me juntando a ela na cama da Morgana.
― Você não vai acreditar nas coisas que eu aprontei nessa viagem, para ser perfeito só faltou vocês.
― Certo, certo, podem papear depois, vamos ao que interessa.
― Pelo amor de Deus quem ainda fala papear? ― Mirella protestou.
― Eu falo do jeito que eu quiser, tá? ― Morgh disse fazendo careta para Mith ― Me fale dos seus pesadelos o que você vê neles?
Eu fiz uma careta.
― Ah não vem não, abre o jogo, vocês duas sempre fazem segredinho ― Mirella disse ― Sabe quanto tempo essa desnaturada demorou para me contar o que estava acontecendo com você? Nada de esconder coisas.
Eu suspirei.
― Me desculpa, é que… Eu já tinha incomodado Morgh com isso, não podia deixar você preocupada também ― Falei baixo.
― Nem vem cara pálida, que tipo de amiga acha que eu sou? Sabe que eu não sou muito de ficar falando essas coisas frescas, mas eu sou sua amiga, nas horas boas e nas ruins, então não tente esconder de mim quando não estiver bem, se eu descobrir que tentou vou chutar sua bunda pálida e com muita força.
Eu assenti mordendo o canto dos lábios.
― São sempre… Confusos, tem muita luz… As vezes, só escuridão… São como um filme de terror no replay, durante toda a noite, a maioria deles não faz nenhum sentido, mas outros… São as memórias que eu fico ignorando sobre… Aquele verão, machucam tanto, não consigo parar de pensar nisso e se eu começar a ficar mal e tiver que voltar para aquele lugar Morgh? E se eu nunca conseguir seguir em frente? Ter uma vida normal..
― Já falou com alguém sobre isso? Seus pais? Joseph? Lucas?
― Não quero deixá-los preocupados, meus pais eles também tem os próprios problemas, Joe e Lucas estão melhorando, eu não quero estragar o progresso deles porque eu não consigo melhorar ― Falei secando uma lágrima no canto da minha bochecha ― Eu voltei a ver Mason, hoje tivemos uma ótima consulta, sabe... Ele não me trata mais como criança.
― Nada disso vai acontecer, olha para mim… Não vamos deixar isso acontecer, você precisa conversar com alguém sobre os pesadelos ― Morgh disse.
― Não, eu não posso, se eu contar sobre isso vão ter certeza de que eu estou ficando
― Louca, isso é loucura ― Mith deixou escapar.
― Sério? Mirella? ― Morgh disse brava.
― O que eu estou dizendo é que você deveria dizer isso a o seu psiquiatra.
― Minha mãe também acha, não me ouviu? Eu voltei a ver DR. Mason.
― Eu acho que isso é válido, é importante, se você for totalmente honesta quanto aos seus sentimentos e anseios, o tratamento vai dar certo, não estou dizendo que não fez isso antes, mas é que agora tudo será diferente, você é mais madura, você vai melhorar, tenho certeza querida ― Morgana falou acariciando minha mão com o polegar dela.
― E se o problema não for a forma de tratamento e se o problema for eu? E se eu não tiver conserto?
― Ei! Não existe isso de irrecuperável, sem conserto, você é maravilhosa, não há nada de errado com você, você é uma pessoa maravilhosa com quem coisas terríveis aconteceram, entendeu?
― Vamos mudar de assunto, certo, vamos focar nas coisas felizes, sim? ― Mirella falou.
― Mamãe espera que eu tenha uma grande festa de aniversário ― Deixei escapar ― E eu espero que vocês me ajudem com isso.
― Sério? Bom, eu adoro festas, estamos dentro ― Mirella falou.
― Agora você fala por mim? ― Morgana perguntou.
― Não, mas vai dizer não para a Brie? Olha essas covinhas ― Mirella falou apontando para o meu sorriso.
― É claro que te ajudaremos ― Morgh falou.
― Isso é bom porque, eu não entendo nada de festas, como vamos fazer isso?
Perguntei confusa coçando a nuca.
― Ah uma vez eu li sobre uma festa inglesa com o rito das 16 velas, você dá uma vela para cada pessoa importante da sua vida ― Mirella falou.
― Mas vou fazer 15 anos.
― Brie, me ajuda a te ajudar ― Mirella falou me acertando um tapa na cabeça.
― Ei, não precisa ser violenta com ela ― Morgana disse me puxando para o colo dela.
― Grossa pra caramba ― Reclamei passando a mão na minha nuca dolorida.
― É só fazer com 15 velas ― Mirella falou revirando os olhos ― As primeiras velas são para os pais, avós, irmãos e tios, padrinhos, melhores amigos e a última para um homem especial…
― Homem especial ― Falei revirando os olhos.
― Maldita cultura patriarcal ― Eu e morgh dissemos juntas depois nos olhamos e caímos na risada.
― Deus, vocês são insuportáveis ― Mith reclamou.
Não precisei ligar para mamãe ir me buscar uma vez que Morgh tinha um encontro com Nath então ela me levou de volta para casa em seu lindo El camino vermelho.
Estava muito frio, meus pés estavam tão inchados que parecia que eu havia esquecido eles na porta do elevador.
― Mãe! ― Gritei quando entrei pela porta.
― Biblioteca! ― Ela gritou de volta.
Eu caminhei até la jogando pelo canto o meu casaco e os tênis.
Mamá lia a minha cópia de Hamlet o que indica que ela havia entrado em meu quarto quando eu não estava, já que aquele livro estava embaixo do meu travesseiro.
― Bom livro ― Falei irônica.
― Realmente, encontrei quando fui mudar suas roupas de cama.
― Você costumava não gostar de lá ― Falei a ela enquanto me deitava no colo dela.
― É lá em cima e é muito escuro para um quarto de moça, é meio... Triste.
― Ele refletia muito meu humor de antes... Mas eu não me sinto mais… Assim, não o tempo todo.
Minha mãe prendeu a respiração.
― Não?
― Não ― Falei ― Você pode mudar, se você quiser
― Certeza?
― Sim, eu quero melhorar, logo ― Falei .
― Tem haver com sua conversa com Mason? Foi boa?
― Mamá
― Eu fico curiosa.
― Foi boa, ele me mostrou coisas que… De um jeito que eu não estava vendo ― Falei ― Anm… Mãe, que horas são? Onde está o meu pai?
― Oh, ele precisou a ir à Dublin a negócios.
― Que negócios?
Minha mãe entortou os lábios e arqueou as sobrancelhas.
― Por favor, eu me interesso, papai sempre me conta ― Menti.
Ela suspirou.
― Eu e seu pai já havíamos conversado sobre deixar vocês escolherem o que quiserem.
― Eu não estou escolhendo nada, só estou curiosa, qual é
Minha mãe suspirou.
― Ele foi para Dublin tratar de possíveis negócios ― Disse simplesmente.
― Ele não me disse que iria ― Falei fazendo careta.
― Brie, a esposa sou eu ― Mamãe brincou.
Eu dei uma risada e arregalei meus olhos, negoc
― Papai vai vender o Hotel? ― Perguntei confusa.
Ela riu.
― De que hotel você está falando, filha? Você sabe quantos são?
Eu pensei nisso por um minuto e… Nem idéia.
― Eu imaginei, então… Estamos com um dos Hotéis em Dublin que está em uma área em que a construção civil avançou com muitos prédios, então o barulho é infernal e os hóspedes estão se queixando, a vista também foi prejudicada ou seja, está gerando mais prejuízos do que lucros.
― As pessoas que trabalham lá, eles vão perder o emprego? ― Perguntei preocupada.
― É claro que não, meu amor, temos outras duas unidades apenas no centro de Dublin, vamos apenas remanejar os funcionários ― Mamãe disse ― Me emociona que você se importe, mesmo sendo pessoas que você nunca viu.
― São seres humanos, né, com filhos para sustentar, contas e hipoteca e tudo o mais.
― Você é exatamente igual ao seu pai ― Minha mãe disse tirando meu cabelo dos olhos e sorrindo com os olhos brilhando ― Ele se importa com o mundo e com as pessoas, e com fazer a parte dele para mudar o mundo, mesmo que apenas um pouco, foi por isso que eu me apaixonei quando o conheci, vocês dois tem isso em comum.
― Tenho certeza que o corpo saradinho, o cabelo ruivo e os olhos incrivelmente azuis não tiveram nada haver com isso ― Falei ironicamente.
― Ei garota! ― Mamãe protestou.
Eu comecei a rir alto.
― Talvez só um pouquinho, mas lembre-se a aparência só importa nos primeiros 30 minutos, depois você precisa ter algo mais a oferecer.
― Copiado ― Falei prestando continência.
Meu pai dificilmente me deixava sozinha com minha mãe depois de… Eram sempre ele e Emily a cuidar de mim, sempre me senti muito mais confiante com eles do que com minha mãe e Malloney.
Meu pai e tia Emi são… Diferentes.
Eu me ajeitei novamente estava começando a ficar sonolenta no colo da minha mãe no sofá onde estávamos encolhidas.
― Mãe, lê para mim? ― Pedi.
― Não está muito velha para isso?
― Claro que não, sou a filha caçula, ainda posso me dar a certos luxos ― Brinquei.
Minha mãe riu beijando minha cabeça.
Então ela começo a ler, eu amo a voz da minha mãe, não é doce como a da tia Emily, mas é centrada e forte.
― Eu gosto quando a senhora lê para mim, acho que senti falta disso ― Falei baixinho, sorrindo ainda de olhos fechados.
― Eu leio sempre que você quiser contanto que continue sorrindo assim ― Falou com a voz embargada me abraçando apertado.
Ela leu mais dois ou três partes e me mandou para a cama.
Depois de me deitar eu decidi ligar para o meu pai.
― Você não deveria estar dormindo? ― Ele perguntou logo que atendeu.
― Olá para você também senhor Brown
Ele riu.
― Como estão aí? Já jantaram? Ligaram o alarme? ― Pediu ansioso.
― Sim, sim e sim, somos moças crescidinhas, não se preocupe ― Brinquei.
― Sempre me preocupo ― Falou ― Elas já estão te enlouquecendo?
― Não, não e nada disso, bom… Mamãe me levou para ver o DR. Mason ― Fofoquei.
― Já? Ela é rápida ― Falou ― Achei que nós conversaríamos sobre isso antes de ela… Bom, não tem importância para você, Como foi?
― Normal, acho…
― Você não tem que ir se não quiser só para sua mãe ficar feliz, é sobre você, não sobre ela, lembre-se.
― Não senhor, foi bom ter ido, ele até que me ajudou com… Umas… Coisas.
― Se você sentir que não está ajudando não precisa fazer nada contra a sua vontade, muito menos ir á aquele psiquiatra charlatão careca que é Mason… Sim é Brieanna ― Meu pai disse a alguém que falava ao fundo, parecia Platen e a outra voz parecia bem mais jovem ― Vai fazer 15 anos ― Ele disse.
Eu dei uma risada.
― Sim senhor, mas não se preocupe, tudo está bem… Quem está aí?
― Só o Platen...
― Diga a ele para mandar lembranças a Connie e Emiliana
― Eu digo sim amor, agora vá dormir.
― Quando o senhor volta papá?
― Terça de manhã, não fique pensando nisso, vá dormir, boa noite, eu amo você.
― Eu sei, papá, volte logo e se cuide, sim? ― Pedi.
― Vou me cuidar, sou um mocinho bem crescido ― Ele repetiu minhas palavras ― Boa noite.
Eu estava correndo, minha pele estava grudando com o suor, mas o ar em torno de mim era frio, havia neve sob meus pés descalços, eu vestia um vestido branco, eu sentia o sangue escorrendo por minha barriga e a dor em um corte profundo que doía ainda mais quando eu tentava andar mais rápido.
Havia uma colina, estava noite, no pé da colina havia uma casa em chamas, eu mal conseguia respirar e tudo o que eu conseguia pensar era que eu precisava voltar, mas minhas forças estavam se esvaindo.
Meus joelhos, pés e mãos sangravam, havia uma voz em minha mente me mandando seguir em frente, não olhar para trás e ir para o mais longe possível daquela casa em chamas, mas cada passo que eu dava na direção oposta fazia meu coração sangrar, então eu refiz todo o caminho até as chamas.
Antes que eu seque alcançasse a casa em chamas, senti mãos em torno do meu pescoço e segurando meus braços, então havia um poço e um homem encoberto pelas sombras da noite.
― Por favor, não ― Eu gritei, mas não soava como a minha própria voz, era como um filme em uma língua estranha.
― Por que você voltou? ― O homem encoberto pelas sombras agora tinha seu rosto irreconhecível e ensanguentado apoiado nos braços, que eram erguidos por homens encobertos pelas sombras da noite.
― Por favor não ― Gritei tentando me soltar, mas o aperto em minha garganta, trancando minha respiração como ligas de ferro só se tornava pior me deixando sem ar.
Senti meu peito arder, como se estivesse em chamas, junto com minha garganta seca e as lágrimas descendo descontroladamente por meu rosto.
― Por favor, não… Não, não.
― Filha, acorda… Brieanna, EI! ― Minha mãe disse me sacudindo violentamente.
Eu continuei chorando por uma hora, ainda sentindo dor por todo o meu rosto, principalmente dores abdominais e meus pés e mão, meu coração estava tão acelerado, meus olhos estavam lacrimejando e meu corpo estava ardendo em febre, parecia que eu estava em chamas.
― Achei que você tivesse dito que estavam melhorando
― Vão acabar, vai passar ― Falei ofegante.
― Tente se acalmar, seu coração está tão acelerado ― Minha irmã falou preocupada.
― Por que não toma um banho e desce para tomar café da manhã? ― Mamãe pediu ― Consegue ir sozinha?
― Sim, eu consigo, se eu precisar de algo eu chamo ― Falei baixo.
Eu fui em direção ao meu banheiro me livrando do meu pijama molhado com o suor, liguei a água fria e me forcei a ficar embaixo do jato congelante, para acordar, me livrar daquela sensação de meus olhos ardendo e que meu corpo estava queimando.
Devo ter demorado muito tempo porque minha mãe entrou pela porta depois de abrir ela com uma chave reserva, estava com o rosto pálido e ofegante.
― Ei você ― Mamãe disse me olhando preocupada ― Você não respondia ― Falou passando a mão pelo rosto.
― Me desculpa, eu não… Eu não ouvi você ― Falei olhando para os meus dedos enrugados pelo tempo embaixo da água.
― Desça logo, sim? ― Mamãe pediu me entregando a toalha e me olhando aflita
― Mãe, eu estou bem ― Falei sorrindo ― Eu desço logo ― Prometi.
Depois de me secar e me vestir calcei os meus tênis e fui até a cozinha, dando de cara com Morgana, minha irmã deve ter ligado para ela falando sobre meu estado logo de manhã, elas falavam animadamente sobre Paris.
― Já sentiu saudade Morgana das fadas, Achei que iria aproveitar para matar a saudade daquele ser humano maravilhosamente lindo que você chama de namorado ― Brinquei cutucando a barriga dela.
― Que é isso, está prestando muita atenção no Nathaniel hein
― Melhores amigas ― Falei mostrando a minha pulseira ― Tinha que cuidar enquanto você estava fora, já pensou em alguma garota dando em cima dele?
― Nem gosto de pensar nisso, o que você iria fazer? Hanm?
― Ninguém te falou? Tenho um ótimo soco de direita
― Brieanna Evelin Brown ― Minha mãe repreendeu.
Morgana e Malloney caíram na risada.
― Você acha que Joseph já não veio choramingar que você não está falando com ele?
― Ele não mandou nenhum recado não é? Isso é a cara dele.
― Na verdade mandou, mas eu conheço você, Não vim para isso.
― A que devemos a honra da sua visita querida? ― Minha mãe perguntou a Morgh.
― Bom… Brie me contou sobre a festa e me pediu ajuda e… Hunm… Eu tenho algumas ideias que quero compartilhar com vocês.
― Vou fingir que você não terceirizou a tarefa que eu dei a você pedindo a ajuda de Morgana, apenas porque temos pouquíssimo tempo e porque eu absolutamente adoro a sua companhia ― Mamãe disse sorrindo-lhe.
Eu revirei os olhos e minha mãe puxou a minha orelha de leve.
― Achei que havia entendido que esse é um gesto muito mal educado e que não deve fazer isso para mim ― Ela disse estreitando os olhos.
― Me desculpa ― Falei cutucando minhas cutículas.
― Deus, você é impossível, sabe ― Minha mãe disse batendo nas minhas mãos.
― Você não tinha uma medicação para não fazer mais isso? ― Morgh me perguntou confusa.
― Ah… Você não sabia? Essa nova versão é totalmente sem medicação, por isso esses dedinhos em carne viva ― Minha mãe falou ― Ela se recusa a tomar a medicação, você deveria convencê-la Morgh e você deveria ouvir sua melhor amiga, quem sabe você consegue colocar juízo nessa cabecinha, Deus sabe que eu tento de tudo ― Minha mãe se queixou.
― Eles não estão tão ruins, foi só um dia ― Tentei argumentar.
― Vamos para a sala de televisão ― Morgh sugeriu.
― Mas eu estou comendo ― Falei fazendo biquinho.
― Traga o cereal com você, não vai fugir da conversa, espertinha ― Morgh reclamou me puxando pelas calças.
― Grossa pra caramba ― Resmunguei.
― Estou ouvindo você me xingar ― Falou segurando a porta da sala de televisão para mim.
Eu revirei os olhos.
― Sente-se, qual o problema com a medicação? Ela não serve para te ajudar? Por que você não está tomando? Achei que o acordo para… Você poder voltar para casa, para ficar boa é que você iria fazer tudo o que fosse necessário para ficar boa,
― Não é tão simples assim eu…
― Eu sei que não deve ser simples, nem imagino quão difícil deve ser, mas você precisa
― Ele tem muitos efeitos colaterais Morgh, eu me sinto péssima, tremendo, enjoo, tonturas eu…
― Por que não disse isso a sua mãe? A o seu médico?
― Eu não queria que eles mudassem de ideia sobre me deixar vir embora ― Falei baixo ― Eu não aguentava mais ficar naquele lugar ― Falei sentindo meus olhos lacrimejarem.
― Ah, querida Brie, vem cá ― Morgh falou me puxando para o colo dela e me abraçando apertado ― Deveria ter me ligado, mandado uma mensagem sobre isso, precisamos arranjar uma medicação que não tenha tantos efeitos colaterais.
― Não podia estragar suas férias com meus problemas bobos, e todas as medicações têm efeitos, eu não quero mais tomar essas coisas ― Falei baixo.
― Você continua se machucando, então é necessário, podemos fazer alguma coisa para diminuir os efeitos, vamos pensar em alguma coisa, quando é sua próxima consulta com Mason?
― Em dois dias
― Pergunte sobre a medicação, não precisa tomar agora, por enquanto vamos achar um jeito de controlar essa descarga de ansiedade que faz você ficar machucando os dedos desse jeito, sim?
Eu apenas assenti e ela sorriu.
Morgana ficou parada olhando para o nada alguns segundos e de repente teve uma idéia, porque ela sorriu.
― Eu vi isso em algum lugar, espero que funcione para você, se não funcionar podemos tentar outra coisa ― Ela disse me pedindo meu braço estendido.
Eu fiz uma cara confusa e estendi o pulso para ela que colocou aquele elástico amarelo terrível, então ela puxou com força estalando ele contra a minha pele.
― AI! MORGANA, POR QUE VOCÊ FEZ ISSO?
― Simples, toda vez que você sentir vontade de machucar os dedos, você estala esse elástico, seu cérebro vai associar o ato de machucar os dedinhos com a dor do elástico estalando e então você vai conseguir parar.
― É uma péssima ideia e eu não gosto de sentir dor ― Falei massageando meu pulso vermelho na área onde o elástico atingiu com força.
― Bom, nós não gostamos dos seus dedos machucados, também ― Morgh disse cruzando os braços brava.
― Você acha mesmo que isso vai funcionar? ― Perguntei.
― Não é a longo prazo, é só até você se sentir pronta para tentar a medicação novamente.
Eu dei de ombros.
Eu abri e fechei a boca várias vezes pensando em como iria entrar nesse assunto com ela.
― Fale logo o que tem para dizer, sei que tem alguma coisa ― Morgana disse.
― Por que acha que quero falar alguma coisa ― Falei tentando inutilmente disfarçar, como se Morgana não me conhecesse melhor do que quase todo mundo.
― Sério? Comigo? Acha que consegue dar uma de espertinha comigo? Qual é Brieanna.
― Tudo bem, talvez eu tenha algo que eu queira conversar… Mas assim, não é nada tipo, muito importante, é só
― Fala logo ― Morgh disse impaciente.
― Tive um pesadelo essa manhã… Meio
― Sim, sua irmã me ligou, ela me disse que você estava chorando, agitada, com febre… Quer me contar?
― É só que… Esse foi diferente, não era sobre nada… Que eu já tenha visto, ou lembranças com coisas que aconteceram era tipo… Um filme ou algo assim, mas era eu e… Era como uma versão vintage de mim falando uma língua esquisita… Eu não entendo
― É só isso que você lembra? ― Ela perguntou segurando firme a minha mão.
Eu suspirei e neguei.
― Era estranho… Parecia um filme de terror, exatamente como um filme de terror, havia uma casa em chamas… E eu estava de vestido e correndo e havia uma ferida no meu estômago e eu sentia que eu não deveria voltar para a casa em chamas, entende?
― Bom, a reação das pessoas normais não é realmente correr para dentro de uma casa em chamas ― Morgh falou compreensiva ― O que preocupa você? Foi só isso?
Eu neguei com a cabeça sem olhá-la nos olhos.
― Então eu voltei, haviam alguns homens e eles…
Eu comecei a chorar.
― Você não precisa continuar ― Morgh falou me abraçando.
― Eles estavam me segurando, estava muito escuro e havia um outro cara, mas eu não conseguia ver o rosto dele, ele estava em um poço… Pendurado, eles… Eles queimaram ele, então eu senti meu peito ardendo, como se eu estivesse queimando e eu acordei e a sensação ainda estava lá ― Falei baixo secando as lágrimas que escorriam por minha bochecha.
― Você… Não é realmente o que eu esperava ― Morgh falou secando os olhos, ela tinha o rosto todo vermelho.
― Mason disse que eu não tenho dormido então minha mente fica tendo esses blackouts e vendo essas… Coisas que não estão la, você acha eu estou tendo essas… Alucinações?
― Acho ― Morgh falou baixinho.
― Morgh ― Protestei pela honestidade dela.
― Me desculpa, mas isso… Esse tipo de coisa não é normal, quando você sonha com Melinda, com suas memórias reprimidas é uma coisa, agora isso… Só existem duas explicações plausíveis.
― E quais são, ilumine-me porque eu não aguento mais isso ― Falei cobrindo os olhos com força com as palmas das mãos.
Morgana ficou dando voltas pela sala enquanto movia os dedos pela manga da blusa de moletom cinza que usava.
― Morgh
― V-você vai achar besteira ― Falou.
Eu suspirei.
― Você vai vir com aquela merda sobre religião e anjos de novo?
― Eu sei que você não acredita, mas não precisa falar assim, por Deus.
― Olha Deus p
― Não… Eu aceito que você não acredite, mas não insulte Deus ou Jesus, nem os anjos, vou ficar extremamente magoada com você ― Morgh disse baixo.
Esse era o assunto proibido entre nós, Morgana acreditava muito, ela levava sua fé a sério, era algo que ninguém poderia tirar dela, mas não era algo do qual compartilhamos.
Eu tenho opiniões bem formadas em se tratando de como a vida nos é dada, de como nos é tirada e o que acontece depois, mesmo que Morgana respeite a minha vontade, ela gentilmente já tentou me fazer entender o porquê de certas coisas acontecerem comigo.
― Eu sei que você não acredita, mas você pediu a minha opinião, minha ajuda e… Isso é o que eu acho… Você é uma pessoa maravilhosa, com quem coisas terríveis aconteceram e passou por diversas coisas difíceis e horrorosas, eu jurei que nunca iria julgar os motivos pelos quais você decidiu… Você era apenas uma criança e deveria estar sentindo muita dor para tomar aquela decisão, não tinha que passar por aquilo sozinha e… Esse tipo de acontecimentos, eles… Eles fazem com que você emita um tipo diferente de… Vibrações… Energias… Como quiser chamar, você é como… Aquela tragédia quando você não tinha que passar por aquilo
Eu levantei a mão fechando os olhos para ela parar de falar.
Confio em Morgana com toda a minha vida, de olhos fechados, com as mãos e pés amarrados, mas é difícil acreditar que ela sendo uma das pessoas mais inteligentes que eu conheço acredite com tanto fervor em coisas como essa, em uma força maior brincando com o destino das pessoas…
Eu sei que algo errado aconteceu comigo, sei que tem algo errado, quando eu consigo ver e sentir essas coisas que as pessoas não deveriam ver, mas eu prefiro ignorar a ter que lidar com isso porque não posso aguentar isso agora.
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