Moon Shines Upon Sinners

1 Capítulo 1 – O Grande Primeiro Teste da Temporada


O primeiro grande teste prático, entre dois ao ano, havia começado para a classe de elite. Em resumo, o teste deles tem três etapas que são feitas em sequência: um cenário é montado, aonde têm que encontrar a saída (etapa 1), enquanto, pelo caminho, têm que passar por obstáculos, básicos como ruas em chamas e outros acidentes, até enfrentar robôs programados para não pegar nem um pouco leve (etapa 2), para, por fim, ao fim do cenário, chegarem a parte que mais interessa: o artefato a ser purificado (etapa 3). Cada etapa acumulava pontos, mas, a velocidade para terminar o teste ainda é preferível em vez de perder tempo destruindo robôs, por exemplo. Até porque, é a classe de elite, além da classe dos jovens mais dotados da Redoma, também pode ser conhecida como a mais preguiçosa.

Prissa, entretanto, seguia ao seu próprio ritmo. Claro, queria chegar a etapa 3 o mais rápido que pudesse, mas não queria ir além do que podia. Um dos desafios se tratava de “adivinhar” onde seria o ponto final do cenário. Como nesse ponto estariam 16 objetos para serem purificados, um para cada aluno (mas os objetos também variavam de pontuação, assim, quem chegasse primeiro, além da vantagem de pontuação pelo tempo, poderia escolher o mais difícil e acumular ainda mais pontos), quanto mais objetos havia, mais fácil seria de localizar. Um dos treinos que tiveram ao longo de sua educação se tratava de encontrar esses pontos ou objetos com uma forte energia negativa, de modo que eles poderiam “senti-los”. A sensação ficava mais forte quanto mais perto estivessem. De mais a mais, o lugar também poderia se deduzido, se algum deles lesse o briefing antes da prova. Quando recebiam a planta do local, a única coisa que faziam questão de saber era que local seria, no teste de hoje foi simulado uma cidade inteira (obviamente não de tamanho real). Se algum deles tivesse lido, saberiam, por exemplo, que existe um cemitério e uma certa casa onde foram cometidos assassinatos, lugares propícios ao acúmulo de energia negativa.

Outro motivo porque não faziam questão de ler o briefing é porque nele não dizia onde se encontravam os robôs assassinos, assim não tinha vantagem decorar o mapa para desviar deles ou fazer o caminho mais letal, como para alguns que gostavam de adrenalina. Assim, quando eram cercados por seis deles de uma vez, era sempre uma surpresa. Prissa teve essa estratégia, de ir pulando de prédio em prédio ao invés de ir pelo chão, pois do alto poderia observar se algo ou alguém estava chegando, mas não esperava que a meia dúzia de máquinas fossem surgir do telhado aos seus pés, como se fossem fantasmas que pudessem ficar incorpóreos e então físicos de novo. Prissa apertou o cabo da espada e esperou que algum dos robôs em forma de aranha gigante fizesse o primeiro movimento (a arma que usariam no teste era a mesma para todos e decidida por sorteio uma semana antes do teste, um dos motivos da classe de elite odiar sorteios).

Quando o primeiro robô aranha soltou um jato de veneno, Prissa desviou com um salto, o veneno acertou outra aranha e corroeu parte de sua cara de metal. Ao aterrissar, acertou outra aranha com a ponta da espada, penetrando em seus circuitos, a desanimando como quando se mata um caranguejo com uma faca. Ainda restavam quatro.

Algumas das questões dos robôs do teste são que , ao localizarem um alvo, o perseguirão até o fim, assim não sendo recomendando prosseguir sem eliminar aqueles que te avistaram, a outra é que eliminá-los é um desafio por si só, com suas carapaças de metal ultra resistentes é difícil causar algum estrago sem que sejam atingidos em seu ponto fraco.

Em contrapartida, foram criados para serem letais, mas não muito inteligentes, pareceu uma perda de tempo para os construtores conciliar as duas coisas, e, se tratando da classe de elite, eles eliminam robôs assassinos quase todas as semanas, assim não sendo nenhum desafio novo. Sempre aguardando antes de agir, Prissa esperou que as aranhas se movessem primeiro. As quatro aranhas que restaram avançaram sobre ela ao mesmo tempo. Mais uma vez, bem no último segundo, desviando com um salto, as quatro acabaram se chocando. Uma não teve a sorte de sobreviver. Aproveitando a deixa, ao aterrissar atrás de uma delas, cortou-lhe as articulações das pernas traseiras. Outro ponto de desvantagem dos robôs assassinos eram ser desajeitados. A aranha aleijada perdeu 90% de sua velocidade.

Mais um robô aranha tentou investir contra ela, e, enquanto corria, Prissa meteu a espada entre seus olhos, destruindo seu cérebro mecânico. Com uma aranha e meia, já não havia mais nenhum desafio em frente. Prissa resolveu terminar logo com aquilo. Um corte entre o meio dos olhos para cada uma. Apenas perda de tempo, por mais que elas devessem contar uns 5 pontos cada.

Prissa volta a correr pelos prédios. Mas parece que sua empreitada chamou mais atenção de robôs aranhas. Mais seis deles surgiram na sua frente, fazendo uma barricada, a impedindo de passar.

—Não acha que já está na hora de parar de brincar? – uma onda elétrica foi passando de aranha em aranha, queimando seus circuitos por dentro, as desabilitando em segundos. Por trás delas, e dessa magia simples, está uma pessoa que Prissa conhece bem. – O que está fazendo, Prissa?

O grande teste é uma das poucas ocasiões em que a classe de elite pode usar magia, ou seja, um dos poucos dias em que recebem seus Infusores. Ao contrário das outras classes que praticam magia com frequência. O motivo disso é que a classe de elite já é destrutiva, e encrenqueira, o suficiente mesmo sem magia. Apesar disso, Prissa não gosta de usar magia. Não gosta de nada que envolva muito esforço e ela sabe que é a essa sua característica a que se refere a pergunta de Ace. O que ela está fazendo naquele lugar, naquela classe, quando não tem interesse nenhum em estar ali.

—Eu não sei. Eu ainda não sei por que estou aqui. Eu não acredito que a justiça possa ser feita por mãos mortais. Aquela que está acima de nós tudo vê e somente Seu julgamento importa.

—É, Ela pode ver tudo de lá. Mas, do céu até a terra, o caminho é longo demais. A “justiça” tarda demais pra punir quem está fazendo o mal agora.

—Sempre tão otimista.

— A real é só que penso o exato oposto do seu pensamento, somente o que posso fazer com minhas próprias mãos é no que posso acreditar.

Ace sorri de lado com aquele sorrisinho meio sarcástico, meio convencido que costumava arrancar suspiros de Prissa quando mais jovem. Hoje, pensa que ele lhe parece um pouco imaturo, como se o Ace daqueles tempos fosse o mesmo Ace de hoje, e o que mudou na realidade foi a Prissa daqueles tempos para a Prissa de hoje.

—Veremos qual ideologia nos levará mais longe.

Ace salta em direção a rua e Prissa continua sobre o prédio, não analisando o perímetro como deveria, sim pensando futilidades que deveria ter deixado de lado em um dia tão importante, mas que simplesmente não conseguia. Questionava-se o que havia mudado dentro de si desde então. E sabia a resposta. Estar aqui não era o destino que desejava, porém, escolhera permanecer, e já que esta foi sua escolha, daria seu melhor. É basicamente sua filosofia de vida.

Não poderia ficar para trás. Nem de Ace, nem dos outros. Talvez não pudesse ser a melhor como lhe foi desejado, mas também não queria ser apenas um peso morto que não revida.

Não com a graça de Ace, mas mais sutilmente como uma sombra derrapando sorrateiramente, Prissa aterrissa pelo prédio rente a suas paredes, não querendo chamar atenção indesejada, já havia conseguido atenção demais por uma noite. O silêncio é sempre mau presságio.

Do outro lado da arena montada especialmente para a ocasião, Remi também suspirava por seus planos não terem saído como o desejado. Remi é do tipo que se esforça, mesmo que ser a melhor de todos não seja seu objetivo, apenas ser a melhor que pode.

Assim, foi muito frustrante quando, em um passo em falso, ativou uma armadilha que incendiou a rua a sua frente. Passar por cima daquele fogo ou apagá-lo daria um pouco de trabalho, assim optou pela opção que lhe pareceu mais rápida: dar a volta.

Mas ela já deveria saber que, aonde existe uma armadilha, há outra bem atrás esperando. Um dos prédios começou a se mover. Remi entra em posição de ataque, esperando um dos piores robôs assassinos do teste: um golem. Que, além de gigante e bem resistente, ainda é um dos poucos que consegue se camuflar junto ao cenário. E, bem, só dá para notá-los quando começa a se mover e revelam sua verdadeira forma.

Para algo tão grande, eles são consideravelmente velozes. O gigante dá um soco no chão, levantando asfalto e pedregulhos para todo lado, bloqueando uma parte da rua. Um dos lados por onde poderia dar a volta está fora de cogitação. Remi imaginou que, por ser tão pequena, ele ainda não a tivesse notado e resolveu sair de fininho. Enfrentar algo tão grande apenas faria com que ela perdesse muito tempo. Sem contar que não tinha certeza de que poderia destruir aquilo sozinha. Combate não é exatamente seu forte.

Mas ela estava errada. O golem a viu e começou a persegui-la, afundando sua mão no chão mais uma vez, bem na sua frente. Por pouco não foi pega. As opções eram encarar o golem ou a rua em chamas. Ou os dois.

Golens e fogo não se davam muito bem. E Remi preferia a rua em chamas. Desviando das chamas e usando de jatos de água quando não era possível desviar, ao contrário de lutar, Remi é boa com magia, ela correu pela rua. O que também não impediu que o golem fosse atrás dela. Robôs assassinos e criaturas criadas artificialmente por magia são realmente insistentes quando decidem matar alguma coisa. Bloqueando seu caminho mais uma vez com sua mão gigantesca, Remi percebeu que suas escolhas acabaram, teria que lutar.

Ao menos, o cenário lhe favorecia. Remi se concentrou em algumas das chamas que já havia sobre o chão e as controlou, aumentando sua intensidade, fazendo com que subissem pela mão do golem. Ele afasta a mão de seu caminho e solta um gemido que mais parece um metal velho sendo raspado. Quase seu braço por inteiro se desintegra. Mas a técnica lhe custou um bom tanto de energia e Remi teve que parar por alguns segundos, como se tivesse corrido por quilômetros sem parar e agora precisasse retomar o fôlego.

Com ou sem braço, isso não diminuiu a fúria assassina do golem. Ele estufou o peito e um laser foi emitido bem do centro de seu corpo, onde havia um rubi, seu coração. Remi conseguiu desviar, mas aquela parte da rua foi desintegrada, deixando um buraco bem fundo.

Realmente teria que destrui-lo se quisesse prosseguir. Se fosse correr, aquele laser ia acabar a desintegrando também, cedo ou tarde.

A questão é se conseguiria fazer isso sozinha. Não era contra as regras ajudar alguém ou fazer a prova em “grupo”, mas a classe de elite, além de muito confiante em suas habilidades, não era exatamente a mais unida e empática, embora Remi se desse bem com todo mundo e tivesse bons amigos. Ela odiava sentir que destoava um pouco dos outros, que não conseguia manter o ritmo deles quando se tratava de entrar em ação. Não, precisa fazer isso, e tem que ser sozinha.

Quando o golem desferiu outro golpe e sua mão ficou presa ao chão, Remi enxergou sua oportunidade. Não era boa com espadas, preferia armas de longa distância, se tivesse um arco por exemplo, já teria conseguido atingir o coração do golem, que é muito resistente a magia, mas nem tanto a golpes físicos. Com uma espada, teve que subir pela mão dele e ia escalando seu braço até que chegasse à altura de seu coração. Perto o suficiente, deu um salto e desferiu um golpe no ar, acertando a joia no centro do gigante.

Foi um golpe bom, porém não forte o suficiente para partir o rubi, apenas trincá-lo. Remi deveria ter fincado a espada ali, mas ficou com medo que ficasse vulnerável e não conseguisse recuperá-la. Outro problema é que não havia controlado muito bem sua queda. Não conseguiu virar a tempo de cair de pé, iria cair de lado, de mau jeito, o que lhe renderia umas boas costelas quebradas, com certeza.

—Pelo visto, nem toda gata cai de pé.

De todas as pessoas da classe de elite, ele era a última pessoa que Remi, e qualquer um, esperaria que mexesse um dedo para fazer algo por alguém. E lá estava Jagger, o maior encrenqueiro e treteiro da classe de elite, com Remi nos braços. E Remi está inteira graças a ele. Ou quase. Sentia que seu coração havia se deslocada em algum momento daquele encontro.

—Se afaste e veja como se brinca de verdade!

Remi foi para um canto e observou. Bom, se tinha algo para que Jagger servia é para uma boa briga e, de fato, era surpreendente a forma ágil e poderosa com que ele se movia. Com o golpe que Remi havia desferido, o golem havia se curvado sobre um joelho, como se sentisse dor, ou por um simples erro de programação, Jagger pulou sobre o joelho curvado e então direto para o coração de rubi, desferindo um golpe muito mais certeiro e forte do que aquele que Remi havia feito, partindo assim o cristal em milhares de fragmentos. O golem tombou para o lado, sem vida artificial.

Pareceu tão fácil para ele, enquanto para Remi exigiu um grande esforço, que ela não consigo deixar de sentir uma certa admiração.

Achou que era simplesmente isso. Ela e o golem estavam no caminho de Jagger, e ele os tirou do caminho e o encontro se enceraria por aí. Mas não. Ele foi até ela, com a espada apoiada no ombro de um jeito relaxado, no melhor estilo bad boy despreocupado. Remi nunca na vida achou que pensaria que um cara com Jagger poderia parecer legal, mas bem, seu coração ainda está acelerado.

—Tudo de boa por aê? Aquela coisa não te machucou?

—Não. Isso é, tudo bem – e ainda sendo gentil! Bom, do jeito dele, ainda assim, era algo que a maioria não acharia possível.

—Ótimo – claro que não poderia faltar aquele sorriso perigosamente cretino de lado. – Falou aí, gata.

E ainda a havia chamado duas vezes de gata! Não é um elogio que ouve muito, se é que ouviu alguma vez, se é que era um elogio. Se tivesse vindo de Rowan, com certeza, seria uma ofensa porque ele chama todas as garotas assim.

De qualquer forma, quando Jagger sumiu de vista, Remi se tocou que ainda tem um teste para fazer e que não iria conseguir se ficasse parada. Voltou a correr, ainda mais rápido que antes. Como se quisesse fugir daquelas centenas de perguntas que lhe surgiram na mente.

Voltando a Prissa, minutos depois de seu encontro com Ace, e do encontro de Remi com Jagger, ela havia enfim chegado ao final do teste.

Alguns de seus colegas já haviam terminado o teste e estavam apenas aguardando os demais, não porque queriam, mas eles entravam na arena juntos e saíam juntos, e geralmente não era bom quando algum deles demorava demais para chegar... Entre eles, estão Grace, Zara, Sonya, Jagger, Rowan, Nino, Drake e o próprio Ace. Todos eles agiam normalmente, Sonya resmungando com Grace, que dividia sua atenção entre confabular com ela e ficar paquerando sua namorada Zara, que fingia não perceber, sempre compenetrada quando se tratava de alguma atividade séria; Nino e Jagger brigando e se xingando; Rowan resmungando com Ace sobre onde estaria Hera, enquanto esse só dizia como Rowan só pensa em besteira; e Drake entediado, arremessando a espada no ar e a pegando de volta incontáveis vezes. Quando Grace percebe que Prissa em breve se juntará ao grupo, diz para a amiga:

—Boa sorte, garota!

Prissa entra no prédio onde estão as relíquias a serem purificadas. Um antigo teatro para ser mais precisa. Prissa analisa os objetos, vê aqueles que já foram purificados, a cor da áurea que emanam denuncia quem os purificou. Não é exatamente algo que se dê para enxergar a olho nu, essas cores, que indicam a energia, é como poeira dançando no ar, fragmentos muito diminutos e dispersos. Analisa aqueles que ainda faltam e tenta escolher um que não seja um desafio tão grande, e nem tão pequeno. Assim se decide por uma corda.

Tudo aquilo é simulado, e ainda é um mistério de que forma conseguem atrair a energia negativa para objetos previamente escolhidos. O objeto escolhido, por exemplo, Prissa podia sentir, ao pegá-lo nas mãos, que foi usado para uma tentativa de suicídio. Ou supostamente isso. Nenhum objeto “poluído” exibia uma áurea, é mais como um borrão negro, como se alguém tivesse juntado um bolo de tinta e dado um soco. Prissa concentrou sua mente em puxar essa energia para fora e então cobri-la com sua. Não exigiu tanto esforço. A corda ficou com uma áurea dourada.

E assim finalizou seu Primeiro Grande Teste Prático anual.

Notas finais
Acompanhe o restante dessa saga no meu blog pessoal. Link na minha bio.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.