Moon River
6 Capítulo Bônus
Notas iniciais
— Capítulo Bônus —
— Edward —
New York – Janeiro de 2016
Mais uma noite em claro, mais uma noite na cama como se meu corpo fosse um corpo morto e eu não tivesse para onde ir. Era como estar sob uma tonelada, sem forças, sem vontade de sair e ganhar a liberdade. Não que eu ainda acreditasse em tal utopia de liberdade.
Tudo a minha volta parecia uma prisão, uma de luxo, mas ainda sim uma prisão.
Sentei na cama, passando a mão por meu cabelo que — como sempre — estava bagunçado. A mulher ao meu lado dormia profundamente, como se fosse uma pedra sem sentimentos que nem dormindo conseguia demonstrá-los.
Não, isso era demais, eu não podia ser tão mesquinho com Tanya. Ela não era uma megera, nem uma vilã de contos de fadas. Podia ser mimada e egoísta algumas vezes, mas tinha sentimentos e eu precisava admitir isso.
Suspirei, olhando as ondas de seus cabelos loiro morango que deslizavam delicadamente por cima de seus ombros. Sua respiração era calma, fazendo com que o peito dela subisse lentamente, para então descer outra vez.
Afaguei o rosto de Tanya com cuidado, não querendo acordá-la no meio da madrugada. Isso acabaria com um verdadeiro caos, sono era algo primordial para minha esposa.
Ali, no silêncio extremo de nosso apartamento e na escuridão do nosso quarto, podia pensar apenas algo. Eu não a amava, mas era grato por Tanya ter sido forte por nós dois durante todo aquele tempo de casamento.
Anos longos, que nunca traziam o que mais queríamos. Eu era o fraco da relação, o elo mais frágil que sempre acabava sofrendo mais. Sendo assim, Tanya assumia o controle de toda a situação e me fazia seguir em frente.
Como se a vida não fosse uma grande bosta por completo.
— Querido você precisa dormir, tem de ir trabalhar cedo amanhã — Tanya murmurou, me pegando de surpresa por estar acordada.
— Desculpe, eu não queria te acordar — murmurei de volta.
Ela soltou uma risadinha, então sentou-se na cama também, tirando dos olhos a venda que usava toda a noite.
— Querido, sempre acordo quando acorda, você simplesmente não para de se mexer na cama. — Tanya afagou meu braço. — Mas você não tem acordado muito nas últimas noites, o que te deixou com insônia hoje? — Ela foi para trás de mim, massageando meus ombros cheios de tensão.
— Nada específico — falei. — Só devo estar cansado do dia longo que tive na empresa.
— Sei que não dá a mínima para aquela empresa, Edward. — Tanya me abraçou por trás, colocando seu rosto na curva do meu pescoço. — Me desculpe se sou insuficiente para você, querido.
— Não diga isso Tanya, não é sua culpa. — Fiz com que ela ficasse de frente para mim, seus olhos claros estavam tomados por lágrimas.
— É sim — afirmou olhando para cima, uma de suas técnicas para não chorar. — Sou eu quem não pode ter filhos, lembra? Todos os exames que fizemos ao longo desses anos comprovaram isso.
Coloquei as mãos sobre meu rosto, aquele assunto me deixava maluco. Durante todo nosso casamento, o maior desejo de ambos era ter filhos. Era meu sonho, ser um pai. Mas Tanya não podia engravidar e nem os melhores médicos do mundo puderam consertar isso.
Cogitamos uma barriga de aluguel, cogitamos adoção, cogitamos todas as hipóteses possíveis. Entretanto, ela, ou eu, acabávamos desistindo de algum dos métodos.
Queríamos um filho, mas um filho com nosso sangue. Pelo menos era assim que eu pensava, talvez um garotinho parecido comigo, alguém que me faria entender o real sentido de amor entre filho e pai.
Não conseguia imaginar isso, esse laço que devia ser tão importante, surgindo entre mim e uma criança adotada. Ou um bebê concebido por uma total desconhecida. Queria que meu filho fosse também filho da mulher que eu amava, ou no mínimo de Tanya que por anos foi minha companheira e melhor amiga.
— Volte a dormir, Tanya. — Beijei seus lábios por um instante. — Você vai para Los Angeles amanhã e precisa estar descansada.
— Claro — concordou. — Edward. — Seu olhar assustado se encontrou com o meu. — Já temos certa idade, não acha que está na hora de revermos nossos conceitos sobre...
— Não Tanya! — exclamei a interrompendo. — Desculpe-me querida, mas eu não posso adotar um bebê como você quer. Sabe disso, quando fomos fazer as entrevistas psicológicas para adoção os psicólogos nos descartaram por minha culpa, disseram que não seria bom para uma criança crescer com uma figura paterna que não a aceita de verdade.
— Que se dane os psicólogos, Edward, suborno todos eles se for preciso — Tanya disse entusiasmada. — E faz tanto tempo, querido, quem sabe agora você consegue se imaginar como pai de uma criança adotada. Edward, isso seria um gesto tão lindo de sua parte, dar amor e carinho a um serzinho que não tem ninguém, você é tão altruísta querido, como não consegue pensar nisso?
— Não dá Tanya, eu não consigo me imaginar pai de uma criança que não seja realmente minha. — Voltei a passar a mão pelo cabelo, bagunçando os fios ainda mais.
— Essa é a verdade, Edward? — Tanya me olhou de forma questionadora. — Ou a verdade é o fato de você só conseguir se imaginar tendo um filho com Isabella? Ela é realmente a única mulher que lhe passa pela cabeça quando pensa em ter seu herdeiro?
— Tanya, isso não é hora para essa conversa! — falei irritado, saindo da cama. — Isabella está morta para mim, sabe disso. Por que diabos você sempre volta a falar dessa mulher? Ela é apenas um fantasma do meu passado.
Tanya gargalhou, deixando-se cair na cama de forma teatral, então sentou-se de novo.
— Um fantasma de seu passado, Edward Cullen? Isabella é a mulher que você mais amou em toda sua vida, na verdade acho que é a única que amou...
— Eu te amo! — exclamei a interrompendo. — Sabe que te amo, Tanya.
— É Edward, talvez ame. — Tanya também saiu da cama, vestindo seu robe. — Como uma amiga, o que sempre fui para você, desde nossos dez anos de idade. Mas como mulher que você deseja, é apaixonado e se imagina tendo uma relação amorosa, não.
Bufei, contornando a cama e indo até ela, tomando seu rosto em minhas mãos e a beijando por um instante.
— Não é um beijo de amor, Edward. — Tanya suspirou. — Pare de enganar a si mesmo, querido — pediu. — Sei o quanto amou e o quanto ama Isabella Swan. Eu não estou sofrendo por isso, desde o começo sabia que nosso casamento era por diversos motivos, menos por amor. Fico grata de estar ao lado do meu melhor amigo durante anos, isso me fez bem de várias formas, mas não vou ser cega e dizer que você me ama como a amou.
— Tanya...
— Só confirme, só afirme isso a si mesmo, você não quer tentar outras formas de ter um filho por conta dela, não é? Por que não consegue , não depois dela cruzar seu caminho, se imaginar tendo uma família com outra pessoa.
Abracei Tanya, me curvando para encaixar meu rosto em seu pescoço, sentindo o suave perfume que ela usava para dormir. Não era nem de longe o mesmo perfume de Bella, ainda assim era bom, mas não o suficiente.
Eu sabia que o que Tanya estava dizendo era certo, sempre soube, só não queria admitir para mim mesmo. Bella sempre seria o amor da minha vida, apesar de tudo.
— Sim, você está certa — falei contra sua pele.
Tanya afagou minha cabeça, dando um beijo em meu rosto em seguida.
— Obrigada por ser sincero. — Ela me soltou.
— Desculpe.
— Não precisa se desculpar. — Tanya sorriu para mim no escuro do quarto.
— Eu queria te dar um filho, Tanya, sou um péssimo marido por não conseguir — disse.
— Pare Edward, não precisamos ficar discutindo isso pelo resto da madrugada — ela falou. — Quer dizer, resto da manhã — disse ao olhar o relógio na mesa de cabeceira, que já apontava que o dia tinha amanhecido.
— Tudo bem — concordei.
— Vá tomar um banho quente, querido. — Ela deu um de seus sorrisos doces para mim. — Relaxe um pouco para lidar bem com o resto do dia.
Assenti, indo para o banheiro e seguindo a sugestão dela. Fiquei o máximo de tempo possível na água quente, deixando com que ela relaxasse toda a tensão que nem a massagem de Tanya conseguiu tirar de mim.
Meu reflexo no espelho, logo depois do banho, não era o dos melhores. Meus olhos verdes estavam irritados e meu rosto no limite do cansaço, isso sem falar na bagunça molhada, que lavar, deixava meu cabelo.
Quando voltei para o quarto, depois de me vestir para o trabalho, Tanya andava de um lado para o outro recolhendo pertences necessários para sua viagem. Ela era dona de uma agência de modelos, depois de passar boa parte de sua vida modelando, então viagens era algo constante em sua rotina.
— Não queria que você fosse viajar, odeio ficar sozinho no apartamento — resmunguei, deixando com que ela arrumasse minha gravata.
— Não vai ficar sozinho, Nelly está ai — falou se referindo a mulher que foi empregada na casa dos meus pais, então virou a nossa. Na verdade Nelly era quase uma mãe para mim, o que dizia que ela sempre pegava muito no meu pé.
— Nelly não me deixa reclamar de nada, sempre me briga, sinto falta de reclamar — me queixei.
— Ela está certa, às vezes brigar com você é mais produtivo. — Tanya limpou meu terno, ainda que o mesmo não estivesse sujo. — Mas preciso confessar que também não queria viajar, não com você abatido como está.
— Vou ficar bem. — Segurei no queixo dela. — E vou ficar muito melhor se você me livrar do castigo que vai ser te acompanhar naquele evento na sexta-feira.
— Sinto muito, vai ter que ir comigo. — Ela voltou sua atenção para as malas. — Sabe que eu não posso comparecer sempre a esse tipo de evento só, Edward. Todos iriam começar a falar que estamos nos divorciando ou algo assim, isso seria péssimo para nossas imagens públicas.
— Tudo bem, tem razão — aceitei. — Mas já te deixo avisada que odiarei essa festa.
— Você sempre odeia, querido. — Ela riu. — Ah, não se esqueça que você combinou de ir jantar com sua irmã hoje.
— Não Tanya, você combinou. Isso será uma tortura pior do que ir a festa na sexta, preciso mesmo ir?
— Precisa — falou me encarando séria. — Sei que Alice pode ser irritante, mas ela continua sendo sua irmã e não vai te fazer mal algum ir visitá-la para um jantar. Além do mais Lucy e Luke estarão lá, isso vai certamente te fazer melhor.
— É, talvez ver meus sobrinhos seja o ponto alto da semana.
Tanya concordou, me mandando tomar café antes que eu ficasse atrasado para o trabalho e saísse tarde demais do apartamento. O local onde morávamos era um duplex, num dos metros quadrados mais caros de New York, o apartamento dos sonhos de Tanya, mas algo que eu detestava.
Meu sonho era uma casa, não uma mansão, mas uma casa. Talvez um apartamento menor, algo mais familiar e aconchegante.
— Bom dia menino, por que está com essa cara de quem não dormiu? — Nelly perguntou quando entrei na cozinha.
— Tive insônia — comentei, dando um beijo na cabeça dela e me servindo de café.
Café amargo, totalmente sem açúcar, completamente diferente de como Bella tomava. Eu me perguntava se ela ainda tinha o hábito, nada saudável, de despejar metade do pote de açúcar em seu café.
— Edward, você não pode ficar sem dormir, vai acabar doente assim — Ela me brigou, enfiando várias panquecas na minha frente quando sentei a mesa.
— Eu sei, vou tentar melhorar isso — prometi, pegando algumas panquecas.
— Acho bom! — Nelly exclamou séria, sendo a mãe que não tinha me colocado no mundo, mas que agia como tal desde sempre.
Tomei café, com Nelly listando porque eu não devia ficar sem dormir. Logo Tanya apareceu, já pronta para viajar, tomando um rápido café e saindo depois em um táxi para o aeroporto.
Então fui para a empresa, sem ter como protelar mais meu martírio diário.
***
Quando criança, algo dentro de mim despertou um interesse por medicina. Algo envolvendo os jalecos, a promessa de salvar vidas e ajudar os que mais precisavam.
Ao contar para meus pais que queria ser médico, eles surtaram, principalmente meu pai. Alice e eu éramos os únicos filhos do casal Cullen, o grande empresário Carlisle e a herdeira Esme, sendo assim eu não podia ser um médico. Não que ser um não fosse acometer prestigio, mas para eles isso não era nada do que eu alcançaria liderando a empresa da família futuramente.
Então, fui obrigado a fazer algo que me colocaria dentro da empresa. Eu odiava aquele trabalho, não via nada de produtivo ali, ainda que por ser uma empresa publicitária o local tinha suas características positivas. Mas não era minha área, até porque eu estava preso no setor financeiro.
— Bom dia senhor Cullen — minha secretaria me abordou assim que sai do elevador, no andar onde minha sala ficava. Eu não fazia ideia de como ela, Victoria, sempre sabia quando eu estava prestes a chegar.
— Bom dia — murmurei.
— A senhora Cullen ligou, disse que é para o senhor ligar para ela assim que chegasse a empresa.
— Tanya? — perguntei confuso, entrando na minha sala e deixando meu corpo desabar sobre a cadeira. — Ela deve estar nesse momento no avião para Los Angeles, por que me ligou de lá?
— Ah não senhor Cullen, a senhora Cullen a qual me referia é a sua mãe — falou, como se fosse bem óbvio e eu fosse um idiota.
— Claro, algo mais?
— Aqui alguns relatórios que precisa analisar. — Ela colocou algumas pastas sobre a mesa, o ato de se curvar fez com que o decote de seu vestido ficasse mais pronunciado. Eu tinha de admitir que Victoria era uma mulher bonita, cheia de curvas e com um olhar marcante, mas nunca tinha sequer pensando em tê-la em uma cama. — E tem uma reunião mais tarde, com o pessoal da Enox, sobre os projetos de fevereiro.
— Tudo bem. — Então pensei em uma reunião chata, discutindo números que eu precisava de total concentração para entender. — Adie essa reunião, ok? Para amanhã ou depois.
— Mas o senhor já adiou a reunião outras duas vezes, senhor Cullen — ela murmurou constrangida.
— Não vejo diferença alguma em adiar mais uma vez. — Dei um sorriso debochado para ela. — Hoje quero me concentrar apenas nesses relatórios. — Sinalizei as pastas que ela tinha colocado ali.
Victoria apenas concordou com um aceno de cabeça, provavelmente me considerando um incompetente. Assim que ela saiu da minha sala, larguei as pastas com relatórios de lado e fui me deitar no sofá que tinha ali.
Precisava dormir um pouco, nem que por alguns minutos e convencer minha mente a não sonhar com Isabella.
***
Acordei horas depois, já no horário de almoço. Tinha perdido toda a manhã, mas pelo menos estava um pouco mais descansado.
Levantei do sofá, para ligar para Victoria e pedir que ela me mandasse meu almoço, quando alguém entrou na minha sala. Era James, meu primo, que também trabalhava na empresa.
Ele era o único filho do irmão de papai, Caius. A empresa era de meu pai, mas o resto da família parecia bastante comprometida em trabalhar ali, ou nepotismo era nosso esporte favorito, eu achava tal opção mais nossa cara.
— Olá babaca, por que está com a roupa toda amarrotada? — James perguntou percorrendo os olhos azuis pela minha sala. — Estava dando uns amassos em alguma funcionária?
— Não James. — Revirei os olhos.
James podia ser um cara muito nojento, bastante na verdade, quando queria. Mas por ser meu primo e por trabalharmos juntos, eu precisava aturá-lo.
— Sua vida é tão sem graça, cara — James afirmou. — Não que Tanya não seja uma mulher bonita, mesmo já sendo velha, só que você precisa de outras mulheres.
— O que veio fazer aqui? — ignorei seu falatório.
— Vamos sair para almoçar? Faz tempo que não saímos juntos e estou a fim de beber um vinho maravilhoso que descobri em um restaurante novo. — Parecia tão empolgado com algo tão superficial.
— Vinho? Em uma segunda a tarde, sendo que vamos voltar para o trabalho depois? — perguntei passando a mão pelo cabelo, sem ligar para o fato de bagunçar o mesmo.
— Me poupe Edward, você é o herdeiro dessa empresa e sou seu primo, além de um dos acionistas, não devemos explicações a ninguém.
— Quer saber? Que se dane. — Peguei meu celular e paletó. — Vamos beber!
Antes que eu saísse da empresa, Victoria fez questão de me lembrar que eu devia ligar para minha mãe e anunciou que Tanya já tinha chego em Los Angeles.
O restaurante que James me levou era perto do meu apartamento, então depois de passar a refeição inteira ouvindo meu primo falar de assuntos que eu não dava a mínima, decidi nem voltar para a empresa. Afinal eu era o futuro dono, poderia me dar o resto do dia de folga, outro dia aqueles relatórios poderiam ser avaliados.
— Chegou cedo — Nelly comentou ao abrir a porta para mim, eu nunca lembrava de sair com a minha. — E está cheirando a vinho. — Fez uma careta.
— É, sai com James e bebemos um pouco.
Nelly odiava James, ela nem se importava em usar esse termo, por mais forte que fosse. Detestava meu primo com todas suas forças, sempre o achou uma péssima companhia para mim e Alice.
— Esse menino, desde pequeno, sempre foi péssimo. — Nelly me enfiou um copo de água em uma mão e um remédio para dor de cabeça na outra, já prevendo meu futuro arrependimento por ter bebido. — Você é uma pessoa tão boa, Edward, não sei porque se mistura com alguém assim.
— Nelly, James é meu primo, não é um cara qualquer que encontrei na rua e sai para beber. — Tomei o remédio, sabendo que ele me daria sono e que isso seria bom.
— Sua mãe ligou, vinte vezes só na última hora, ligue de volta! — ordenou, ainda irritada foi para a cozinha, xingando James de todas as formas possíveis.
Desisti de ignorar mamãe, era melhor falar com ela e ganhar mais um tempo até a próxima rodada de irritação vinda de sua parte.
— Ah, finalmente resolveu retonar minhas ligações! — acusou assim que atendi.
— Oi mãe, tudo bem?
— Não, meu filho não liga para mim! — ela dramatizou.
— Mãe, estou ligando agora, entenda que não tenho tanto tempo livre para ficar batendo papo — reclamei, chutando os sapatos para longe e deitando mais uma vez no sofá aquele dia, mas daquela vez no da sala do apartamento.
— Sabe Edward, não te carreguei por nove meses em minha barriga para você me ignorar — Esme continuou reclamando. — Não falo com você desde o ano novo, que você nem se prestou a ir me visitar. Até sua esposa foi lá em casa, mas você só me fez uma ligação de um minuto. Acha que isso é a forma certa de tratar uma mãe?
— Não, não acho — respondi mecanicamente.
— Quando eu voltar de Barcelona você vai me visitar Edward, todo fim de semana, pelo menos, entendeu? Seu pai e eu não somos monstros, merecemos atenção do nosso primogênito.
— Como papai está? — arrisquei perguntar, quem sabe ele tivesse tido uma crise existencial e repensado várias de suas atitudes.
— Ele está bem, estamos aproveitando muito nosso tempo em Barcelona, mas sempre ficamos com esse sentimento terrível de abandono porque nosso filho não da a mínima para nós.
Segurei uma risada para ela, Carlisle nunca sentiria-se abandonado por um filho, ele nem devia entender o real significado de ter um.
— Tá bom, mãe, preciso desligar agora. Tchau! — Finalizei a chamada antes que ela pudesse falar algo mais, então voltei a dormir, o que foi maravilhoso.
***
Nelly, talvez por ter ficado revoltada pelo fato de eu ter saído de tarde para beber com James, não me deixou dormindo por muito tempo, me obrigando a ir jantar no apartamento de Alice. Foi o que fiz, com um por cento de expectativa que minha irmã seria alguém no mínimo suportável aquela noite.
Ao menos meus sobrinhos estariam lá, Lucy e Luke poderiam alegrar um pouco meu dia e semana perturbadoramente escuros. Toquei a campainha do apartamento, um duplex como o meu, em outra área cara da cidade.
— Tio Edward! — Lucy gritou ao atender a porta, passando por cima dos serviços da empregada deles. — Estava com tantas saudades. — Ela me abraçou.
Lucy tinha quinze anos, era o mais perto que eu tinha de uma filha, então a amava com todas minhas forças. Ainda que eu também adorasse Luke, Lucy ainda era minha sobrinha preferida, talvez por eu ter sido mais presente no crescimento dela e por ser seu padrinho.
— Você pintou o cabelo! — exclamei notando que seu cabelo castanho escuro, como o de Alice, tinha virado loiro dourado.
— Não ficou maravilhoso? — ela questionou passando os dedos pelos fios, dando um sorriso jovial que me lembrava como era bom ser jovem, os olhos azuis dela brilhavam e senti falta de ser tão leve daquela forma.
— Ficou sim, Lu. — Apertei sua bochecha, entrando no apartamento com ela.
— Não chame minha filha de Lu, sabe que odeio apelidos. — Alice apareceu na sala, não parecendo nada contente.
— Oi Alice — a cumprimentei com um beijo no rosto.
Alice podia ser baixinha, ter feições delicadas e aparentar ser uma fada, mas era o total inverso disso. Quem olhasse de perto perceberia o quão intolerável ela conseguia ser.
— Mamãe, eu gosto de Lu, por que ninguém nessa família pode ter um apelido? — Lucy perguntou chateada.
— Apelidos são para pessoas idiotas, Lucy — Alice afirmou, sem perceber o quão aquilo afetou a filha. Eu sabia a quem ela estava se referindo, mas preferi não me pronunciar.
— Tio Edward, o senhor veio mesmo! — Luke entrou na sala, seguido pelo pai, Jasper.
— Oi Luke! — O peguei no colo por um instante, ele podia ter apenas sete anos, mas já não era tão pequeno assim.
— Edward, será que podemos conversar um instante lá no escritório? — Jasper perguntou, ganhando um olhar nada agradável de minha irmã.
— O que quer conversar com ele? — ela indagou, o fuzilando com o olhar azul idêntico ao de Lucy, mas sem um pingo de bondade como o da filha.
— É algo da empresa, Alice, nada que você vá se importar — Jasper disse para a esposa.
— A empresa é da minha família, não fale como se eu fosse uma total ignorante, Jasper! — ela exclamou. — Mas hoje estou sem paciência alguma para esse tipo de conversa, então vão lá fuxicar sobre o trabalho de vocês.
Jasper gesticulou para que eu o seguisse até o escritório que tinha ali no apartamento, ele era advogado e trabalhava na empresa da família, ainda que eu achasse que meu cunhado teria preferido seguir sua vida em Seattle, onde os Whitlock moravam. No começo do namoro dele e de Alice, talvez tivesse existido amor, mas com quinze anos de casamento era bem óbvio que se detestavam e apenas continuavam juntos para preservar os sobrenomes que carregavam.
Não que meu casamento com Tanya fosse o modelo ideal de matrimônio, mas ao menos nós dois éramos amigos e não brigávamos como Alice e Jasper. Nem nos traiamos como eu tinha certeza que devia acontecer no casamento do meu cunhado e da minha irmã.
— O que quer falar sobre a empresa? — questionei.
— Não é sobre a empresa — falou, trancando a porta do escritório. — Edward, eu vi Bella em New York esta tarde.
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