Moon River
4 Capítulo Três
Notas iniciais
— Capítulo Três —
— Bella —
New York – Janeiro de 2016
Antes que Rosalie pudesse falar mais sobre o pai de Renesmee, Emmett, que esperava por nós na porta do restaurante, sinalizou para que entrássemos logo. Minha cunhada me lançou um olhar sério, cheio de significados, mas colocou um sorriso no rosto e seguiu até onde o marido estava.
A menção de Edward tinha me desestabilizado, não que eu conseguisse por um dia que fosse não pensar nele, mas ter outra pessoa falando nele sempre acabava sendo pior. Forcei meus pés a me levarem até o restaurante, não poderia passar o resto da noite do lado de fora, remoendo o passado, ou meus erros.
Todos já estavam em uma mesa quando entrei, sentei entre Renesmee e Rose, todos eles debatiam sobre o que pedir. Tentei participar da conversa, mas minha mente não cooperava, eu só conseguia pensar nele.
O que Edward estava fazendo aquele horário? Trabalhando? Em uma festa? Na cama com outra?
— Mamãe, você está bem? — Renesmee perguntou, tocando gentilmente em meu braço. — Está pálida.
— Estou bem, meu amor — respondi, forçando um sorriso para ela.
— Foi minha culpa, não foi? — A expressão dela ficou aflita. — Não deveria ter falado no meu pai, você estava tão animada antes disso.
Rose deve ter ouvido nossa conversa, uma vez que chamou a atenção do filho e do meu irmão para si, fazendo com que eles não pudessem ouvir o que Renesmee e eu falávamos.
— Está tudo bem, filha. — Acaricie seu rosto, não conseguindo ignorar os olhos idênticos aos de Edward. — Podemos conversar sobre isso outra hora, okay? — Senti Rosalie chutar meu pé por debaixo da mesa, mas a ignorei.
— Claro — Renesmee concordou.
Suspirei, sentindo-me terrível por tudo aquilo. Eram quinze anos de mentiras nas minhas costas, até quando eu suportaria aquilo? E quando ela descobrisse toda a verdade? Como Renesmee reagiria?
— O que você vai querer, Bella? — Rosalie indagou, ainda me olhando de forma ameaçadora.
Sabia que ela nunca contaria a verdade a Renesmee, mesmo que achasse aquilo o certo, mas também não me deixaria em paz até que eu contasse.
— O mesmo que você, acho. Escolha por mim, conhece o restaurante melhor do que eu mesmo — respondi. — Preciso ir ao banheiro, já volto. — Me levantei, deixando a mesa.
Entrei no banheiro enquanto duas mulheres saiam de lá, rindo e aparentando estar mais felizes possíveis. Eu era feliz também, tinha Ness, um novo emprego que seria maravilho, porém a felicidade não conseguia ser plena com tudo guardado dentro de mim.
Joguei água no rosto, aproveitando que não estava de maquiagem para borrar a mesma. Meu reflexo no espelho era o pior, Renesmee estava certa, eu estava pálida e parecia doente. Na verdade sentia-me doente, como se pudesse, vomitar ou desmaiar, a qualquer momento.
“Toda vez que escutar Moon River me lembrarei de você, Bella.”
A voz dele ecoou em minha mente, fazendo-me lembrar com mais força da noite que nos conhecemos. Eu ainda podia descrever o perfume que ele usava aquela noite, ou o modo como seu cabelo estava cheio de gel. E, principalmente, falar como tínhamos ficado tão próximos enquanto Edward cuidava da minha mão ferida.
Olhei para a palma da mesma, eu não tinha nenhuma cicatriz ali, ou algo assim, mas podia dizer exatamente onde o corte tinha ocorrido. Tudo porque qualquer coisa que tinha ligação com Edward Cullen ainda era forte demais em minha mente, o que era muito ruim, pois eu nunca conseguiria esquecê-lo.
Como se fosse possível, uma vez que eu tinha uma filha dele.
Joguei mais um pouco de água em meu rosto, sequei meu rosto com papel, usando muito mais do que o recomendado para preservação do meio ambiente, então sai do banheiro. Tentando pensar em cenas constrangedoras, para que eu corasse e a palidez fosse embora.
Nada adiantou, percebi isso quando voltei a sentar ao lado de Renesmee e ela me lançou um olhar quase de pena. Mas sorri para ela, sem precisar forçar o ato daquela vez.
Foi fácil conversar com todos, depois de um tempinho só. Agradeci por meu irmão ser um perfeito palhaço, que fazia com que todos nós ríssemos. Então, ainda que minha cabeça estivesse cheia, era fácil abrandar tudo com as piadas dele.
No fim foi um jantar maravilho, Renesmee parecia tão bem e contente que eu nem me importei comigo mesma, ela estar feliz era o suficiente para mim. Por quinze anos minha filha foi a única pessoa com quem me importei, eu queria que continuasse assim.
A volta para o apartamento foi mais tranquila que a ida, Emmett e Riley na frente conversavam sobre basquete, enquanto Renesmee e Rosalie perto de mim, falavam sobre o salão. Eu fiquei quieta, apenas apreciando a cidade passar por mim, era tudo tão lindo.
Devia concordar com Renesmee, era uma cidade para sonhadores.
— Ei Bella, só um instante! — Emmett me chamou quando Renesmee e eu saímos de seu carro, já nos encaminhando para dentro do prédio.
— Sim? — Me virei para meu irmão.
— Mamãe eu já vou subindo, esses saltos estão me matando — Renesmee falou. — Tchau tio Emm!
— Tchau Monstrinha! — Acenou para ela, então falou para mim. — Você está bem, Bella Bobona? Te notei bastante dispersa durante o jantar, aconteceu algo?
Emmett era o irmão que alguém poderia ter, eu o amava tanto. Sempre preocupado e prestativo, não só comigo, mas com a sobrinha. Ele tinha me ajudado por tantas vezes, não só financeiramente, mas muitas vezes só me dando uma abraço de urso e me fazendo sentir melhor.
— Estou bem, Renesmee só mencionou o pai antes do jantar, fiquei um pouco presa ao passado — contei.
Meu irmão nunca tinha chegado perto de Edward, ele e Rose já estavam casados e em New York, com Riley, quando conheci o pai de Renesmee. Nunca nem contei sobre o mesmo para ele, Emmett só sabia que eu tinha me envolvido com alguém, então que ele morreu.
Bom, era a mentira que eu contei a todo mundo, inclusive Renesmee, para preservar a paternidade dela. Rosalie era a única que sabia, por ser minha melhor amiga e por ter percebido muito fácil que ele não estava morto coisa alguma.
— Você vai ficar bem, Bella? — Emmett me abraçou, o abraço de urso que precisava.
— Vou sim — prometi. — Obrigada por tudo Emm, você é o melhor irmão!
— Sou mesmo! — Ele me largou, dando um sorriso convencido.
Se já era ruim mentir sobre Edward para ele e, imaginar como ele reagiria se descobrisse a verdade, tudo ficava pior quando pensava em Ness descobrindo.
— Boa noite Emm, dirija com cuidado — ordenei, lhe dando mais um rápido abraço.
— Qualquer coisa é só ligar Bella Bobona, agora que os irmãos Swan estão de novo na mesma cidade nada irá nos deter.
— Pode deixar — gargalhei de sua empolgação, indo para o interior do prédio.
Renesmee estava no sofá da sala, massageando os pés doloridos pelo salto. Sentei ao lado dela, puxando suas pernas para cima das minhas e fazendo a massagem por ela.
— Você o amava muito, não é? — ela perguntou, fazendo com que eu tirasse os olhos de suas unhas pintadas de rosa, para ver seu rosto.
— Seu pai? — questionei, após respirar fundo.
— Sim.
— Amava, muito — afirmei.
— Você fala tão pouco sobre ele — ela disse.
— Nós dois passamos pouco tempo juntos, Ness, sabe disso — murmurei.
— Sei disso, mas você só me contou coisas tão básicas a respeito dele. — Ela mordeu o lábio, apreensiva. — Me conte mais sobre Tyler Smith mãe, é meu pai e queria muito saber mais sobre ele.
Tyler Smith, com tantos nomes mais bonitos no mundo eu fui inventar um nome falso mais simples possível para Edward. Ele acharia aquilo tão ridículo.
— O que mais quer saber, Ness? Você sabe que nos conhecemos no serviço de Buffett que trabalhávamos, que ele tinha vinte anos e era órfão. Nós passamos algum tempo juntos, então Tyler sofreu um acidente de carro e eu descobri logo depois que estava grávida.
— Isso é tão pouco, mamãe, me conte mais! — ela implorou, se remexendo inquieta no sofá. — Já basta vocês dois nunca terem tirado uma foto juntos, para que eu pudesse vê-lo.
— Tyler não gostava de fotos, sabe disso — falei, o que era de certa forma uma verdade, Edward odiava ser fotografado e nós dois nunca pousamos para uma câmera juntos.
— Ele era órfão, como eu. — Os olhos dela ficaram lacrimejados, fazendo meu peito doer, não seria a primeira vez que Renesmee choraria por conta do suposto pai morto, o que só me fazia sentir pior. — Isso tudo sempre foi muito confuso para mim, sabe? Não o vi sendo enterrado, nem o túmulo dele, já que você sempre me proibiu disso, por achar desnecessário, mas não sei lidar com a morte dele. Como ele lidava com a morte dos pais?
— Renesmee...
— Fale mamãe, por favor! — insistiu.
— Ele perdeu os pais muito cedo, foi criado em orfanato, não gostava disso, mas era um homem forte, sabia seguir a vida sem eles. Como você deve saber, seu pai gostaria disso.
Cada vez mais eu me afundava em mentiras, quando Nessie era criança, era muito fácil fazê-la parar de falar sobre Edward, Tyler no caso, mas em plena adolescência eu não conseguia mais fugir de suas perguntas.
— E fisicamente? Você disse que ele era parecido comigo, o quanto?
Sorri, foi irresistível não sorrir.
— Os olhos, a altura, o cabelo. Você é bastante parecida com ele e isso inclui sua insistência e teimosia.
— Sério? — Renesmee deu um largo sorriso. — Não acredito que sou parecida com ele nesses aspectos, é bom saber dessa parte.
— Então está bom por hoje! — Sai do sofá. — Está tarde e amanhã ainda temos que continuar a arrumar o apartamento.
— Só mais uma pergunta, mãe — ela implorou, se levantando também. — Se papai estivesse vivo me amaria?
Pensei em Edward, em tudo que aconteceu entre nós dois. Será que ele amaria Ness se soubesse dela? Será que se eu tivesse sido verdadeira com ele, iria ficar comigo e com ela?
— Não há como não te amar, Renesmee. — Beijei sua bochecha. — Agora vá dormir, está tarde.
***
No dia seguinte meu irmão, Riley e Rose foram para nosso apartamento, nos ajudar a terminar a arrumação. Eu podia sentir o quanto Rosalie queria voltar a falar sobre o assunto Edward, mas ela ficou quieta, apenas me lançando olhares cheios de significado apenas para nós duas.
A ajuda dos três acabou sendo extremamente valiosa, o apartamento finalmente estava pronto para ser um lugar de habitação propicia.
— Bella, Renesmee ontem falou que queria ir ao cinema, vamos? — Emmett perguntou para mim, enquanto nos empanturrávamos de sanduíches, preparados por Rosalie, na cozinha do apartamento.
— Eu dispenso, mas se ela quiser ir podem levá-la, estou muito cansada e preciso descansar para o primeiro dia no jornal amanhã — falei.
— Vamos Bella Bobona, não seja careta! — Emmett exclamou de boca cheia.
— Sério, você nunca vai parar de me chamar assim?
Emmett me chamava de Bella Bobona desde meu aniversário de dez anos, onde eu estava brincando com as outras crianças e cai no chão, o resultado foi um dente quebrado e joelho ralado.
— Não vou Bella, nem quando você tiver noventa anos e usar fralda geriátrica.
— Idiota! — Joguei um pedaço de pão nele.
— Tá, Ness pode ir conosco sem a mãe coruja dela?
— Pode — liberei.
— Isso é um milagre — ele falou. — Renesmee, você ganhou sua liberdade! — gritou para minha filha que estava na sala.
Soquei Emmett no braço e continuei comendo.
Não demorou muito para que Renesmee, animada com o passeio, ficasse pronta. Então ela, os tios e o primo saíram. Me deixando sozinha, mas ao menos com um apartamento arrumado e livre de caixas.
Tomei um longo banho, deixando a água quente escorrer por meu corpo e relaxar meus músculos, eu precisava daquilo. Os últimos dias tinham sido tão longos com a mudança, e ainda mais complicados com Renesmee mencionando o pai na noite passada.
Lavei meu cabelo, com o shampoo de morangos que usava desde minha adolescência e não conseguia abrir mão. Renesmee o achava comum demais, preferia o seu de chocolate, mas para mim o shampoo já tinha se tornado uma tradição.
“Você tem cheiro de morangos, isso é tão agradável!”
Gemi ao me lembrar de quando Edward tinha dito aquilo, ainda mais porque logo em seguida ele beijou meu pescoço. Precisei mudar a temperatura da água do chuveiro, antes que as recordações daquele dia me levassem a loucura ali mesmo.
Assim que acabei o banho tratei de secar o cabelo, seria horroroso se fosse dormir com ele molhado e no dia seguinte trabalhar com ele totalmente bagunçado. Vesti meu pijama mais confortável, coloquei uma lasanha congelada no micro-ondas e fui escolher algum filme para assistir, acabei optando por Bonequinha de Luxo, ainda que soubesse que não era a melhor escolha para meu emocional.
Enquanto comia e assistia ao filme, também dava uma geral nos meus arquivos do notebook e checava como ia o site do jornal que eu trabalharia. O jornal se chamava News of New York, comandado pela família Volturi.
Eu iria trabalhar na área de economia do jornal, minha chefe direta seria Sulpicia Volturi, a responsável pela edição da seção. O marido dela, Aro Volturi, era o editor chefe do jornal.
Fui indicada a Sulpicia, por Rosalie. Os filhos da jornalista, estudavam na mesma escola de Riley e eram amigos, a mãe frequentava o salão, então uma coisa levou a outra.
Estava me sentindo completamente honrada por trabalhar com Sulpicia, ela era super conceituada no meio, assim como seu marido e foi bastante simpática na entrevista de trabalho. Era uma mulher forte, mas que ao mesmo tempo conseguia se mostrar gentil e simpática.
Resmunguei quando Moon River começou a tocar na televisão, era por isso que eu devia abolir aquele filme da minha vida. Afinal, como ficar me torturando ao ver aquela cena toda vez? Mas mesmo que fosse ruim para mim, eu não conseguia desviar o olhar, exatamente como foi com Edward.
Quando a música chegou ao fim, percebi que eu estava chorando, lágrimas tomavam conta do meu rosto. Usei a manga do pijama para limpar o mesmo, peguei o controle e desliguei a televisão, deixando de querer ver o filme, na verdade desde que Edward saiu da minha vida eu nunca conseguia assistir até o final.
Fui lavar a louça que tinha sujado para comer a lasanha e ao voltar a sala para desligar o notebook, me vi tentada a fazer algo que não fazia a muito tempo. Me deixando ser vencida pela curiosidade, abri uma nova aba no navegador, digitando o nome dele rapidamente, como se assim eu fosse menos culpada por procurar noticias dele.
Edward Cullen
Os resultados, em sua grande maioria, foram associados a empresa do pai dele, a Cullen’s Publicity. Edward ao que li em uma das notas, já era diretor financeiro da mesma, cada vez mais crescendo dentro da empresa que assumiria futuramente.
Carlisle deveria estar em êxtase por seu filho estar se saindo tão bem, afinal aquilo era o que o patriarca dos Cullen sempre quis. Eu odiava aquele homem.
Não tinha muita coisa sobre Edward fora os assuntos relacionados a empresa, mas se tinha era sobre sua esposa. A modelo Tanya Denali, a mulher parecia que não envelhecia, sempre linda e com tudo no lugar.
Das poucas fotos que encontrei de Edward, ele estava junto a ela. A idade caia bem nele também, ainda que seu sorriso não estivesse presente, ou que seus olhos fossem absurdamente sérios.
— Mamãe? — A voz de Renesmee me sobressaltou, ela estava atrás do sofá, rapidamente fechei o notebook.
— Oi filha, como foi o filme? — indaguei, minha voz baixa, com medo que ela tivesse visto a foto de Edward.
— Foi maravilhoso, você teria adorado! — ela exclamou empolgada.
Renesmee não tinha visto a foto do pai, meu segredo ainda estava protegido.
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