Moon River
3 Capítulo Dois
Notas iniciais
— Capítulo Dois —
— Bella —
Seattle – Janeiro de 2000
Não fazia ideia de quem ele era, não era um rosto conhecido no meio de todas aquelas outras pessoas que quase toda semana estampavam as capas de jornais ou revistas na cidade. O fato de eu não saber nada sobre ele fez com que me sentisse estúpida, por ter meu coração batendo alucinadamente dentro do meu peito só por conta de sua aparência física.
Nunca tinha sido o tipo de garota que só olhava para as características físicas de um cara, mas aquele tal de Edward Cullen...Tinha algo no sorriso, ou talvez no olhar dele. Só conseguia pensar em como ele era charmoso, eu poderia passar o resto da noite lhe olhando.
— Bom Bella, pode ser uma noticia ruim, mas você está sangrando — ele disse, deixando de sorrir, logo depois de eu dizer meu nome.
— Como? — indaguei confusa.
— Sua mão, você se cortou no caco de vidro — Edward falou, olhei para minha mão imediatamente, vendo um corte na palma.
Ver o sangue imediatamente me deixou enjoada, o que ocasionalmente me deixou tonta.
— Ai meu Deus — resmunguei, lutando contra a vontade de vomitar ali mesmo.
— Venha, deixe-me ajudá-la a levantar.
Nem tive tempo de responder, Edward já segurava em meus braços, fazendo com que eu ficasse de pé, nos malditos sapatos que ocasionaram na minha queda. As pessoas ao redor da bagunça que eu tinha criado, nos lançavam olhares julgadores.
A mim por ser idiota por ter feito todo aquele estrago e a Edward por estar me ajudando. Eu podia não saber nada dele, além de seu sobrenome, mas era bem obvio que o mesmo tinha dinheiro. Senão tivesse certamente não estaria na festa como um convidado, seria um garçom como eu.
Quis sair correndo dali, mas como ainda estava em cima daquele par de saltos eu sabia que terminaria caindo outra vez. Só o que me restava era isso, ser humilhada pela segunda vez, em pouquíssimo tempo.
— Acho que não precisa mais disso. — Ainda sem esperar por qualquer resposta minha, Edward tirou a touca que eu usava no cabelo, colocando a mesma sobre o corte na minha mão.
Agradeci aos céus por meu cabelo não ter se soltado do coque, ou eu iria terminar de assustar as pessoas com o ressecamento que ele estava. Entretanto, antes que eu ficasse grata por tudo, a responsável pelo Buffett apareceu, sendo seguida pelo pessoal da limpeza, ela não parecia nada contente.
— Olhe o que você causou, garota — falou irritada, mas mantendo o tom de voz mais baixo possível para não piorar mais ainda a situação. Aquela altura Moon River já tinha parado, outra mais animada tocava e a noiva falava algo ao microfone sobre as madrinhas terem uma coreografia especial. — Você está demitida, nunca mais vai servir em lugar nenhum, nem mesmo em um bar pobre de esquina.
Eu precisava daquele trabalho, não tinha a melhor remuneração, mas me ajudava e muito. Morava no campus da universidade, já economizava o máximo que dava, mas ficar sem um trabalho faria tudo sair dos eixos.
— Senhora Parker, eu...
— Limpem isso agora mesmo — ordenou para o pessoal da limpeza, sem se dar ao trabalho de me ouvir. — Essa irresponsável já causou tumulto demais.
— Senhora Parker, não é? — Edward perguntou a ela, então percebi como estávamos próximos. Uma de suas mãos estava agarrada a minha mão ferida, mantendo a touca pressionada ali para estancar o sangue e a outra me sustentava pela cintura. Imediatamente fiquei constrangida por aquilo, mordendo meu lábio até doer.
— Sim — respondeu hesitante, só ali notando que Edward era um dos convidados. — Me desculpe se essa menina estúpida lhe incomodou senhor Cullen, ela não vai mais ficar no seu caminho. — Ela tentou segurar em meu braço, mas Edward a afastou.
— Na verdade eu quero que a senhora não fique em meu caminho, senhora Parker — ele disse, arrisquei olhar para seu rosto, qualquer traço de bom humor tinha sumido de sua expressão. Edward estava sério, talvez zangado fosse uma boa palavra para descrevê-lo naquele momento. — Pelo modo como está tratando uma de suas funcionárias, que sofreu um acidente em pleno horário de trabalho, posso notar como você é totalmente negligente. Farei questão de reportar isso ao meu cunhado e ao pai dele, então será você quem não servirá nem em um bar qualquer de esquina.
— Senhor Cullen — gaguejou.
— Vamos Bella! — Edward a ignorou por completo, me tirando do salão de festas.
Ele parecia conhecer o local, pois me tirou do salão principal, onde acontecia a festa, levando-me para o segundo andar. Antes de ser um local para eventos da sociedade rica de Seattle, aquela era uma casa clássica, com arquitetura antiga e cheia de detalhes. Como a companhia de Buffett que eu trabalhava funcionava ali, sempre ficava perdida admirando cada pedacinho que via da casa.
Entramos no que supus ser o quarto onde a noiva tinha usado para se arrumar. O que só reforçava a ideia de Edward ser alguém importante, tanto que tinha acesso até aquele local mais exclusivo.
— Acho que Alice deve ter trazido um kit de primeiros socorros para cá, ela é tão psicótica com essas coisas — Edward disse quando entramos lá, soltando-se de mim e indo remexer nas cinco, ressaltando, cinco malas colocadas no quarto.
Quarto aquele que era praticamente do tamanho da casa dos meus pais em Forks, a cama então parecia custar uma pequena fortuna. E aquele lugar era apenas usado para festas, ninguém realmente dormia ali, parecia ser um imenso desperdício.
— Isso, eu sabia que ela teria um aqui! — ele exclamou, contente, ao encontrar uma caixinha de primeiros socorros. — Se tem algo que aprendi com Alice foi, sempre ande com utensílios que podem salvar sua vida, ou seu vestido. Mas bom, acho que essa última parte não diz respeito a mim. — Riu, o que me fez sorrir, ainda que a dor na minha mão tivesse se tornado finalmente notável.
— Quem é Alice? — perguntei, enquanto ele tirava algumas coisas da caixinha.
— Minha irmã — falou. — A noiva — acrescentou.
Arregalei os olhos, Edward era cunhado do filho do prefeito? Merda, estava ficando cada vez pior. Não que eu odiasse pessoas ricas, mas eu não conseguia tolerá-las, por serem arrogantes, metidas e sempre se acharem no direito de pisarem nos que tinha menos financeiramente.
Todos os ricos com que cruzei minha vida foram assim, eram insuportáveis, egocêntricos, se consideravam Deuses. Senti certa aflição por imaginar Edward sendo alguém daquele tipo, ele parecia tão bom e gentil.
— Tem um banheiro ali. — Apontou para uma das portas no quarto, parecendo não notar minha surpresa ao saber quem era a irmã dele. — Podemos ir lá para tratar do corte melhor? Ele não foi tão profundo, provavelmente só arranhou feio em um dos cacos de vidro.
— Você é médico? — perguntei.
Edward deu mais um sorriso aquela noite, mas daquela vez pareceu ser um triste, magoado. Ele balançou a cabeça, então respondeu:
— Talvez em meus sonhos mais profundos eu seja um, no momento sou só o cara que vai te livrar desse sangue todo.
— É, se você vai me fazer essa gentileza eu aceito que dê um jeito nisso mesmo que não seja médico — concordei, seguindo com ele para o banheiro, extravagantemente gigante.
Como se fosse mesmo um médico, Edward soube fazer tudo que era necessário em minha mão para que ela não caísse ou coisa assim devido ao corte. Evitei olhar para o que ele fazia, já que tinha toda a questão do sangue envolvida, então fiquei com os olhos pregados em seu cabelo.
Acobreado, brilhante e com bastante gel, o que indicava que era rebelde. Queria muito passar minha mão pelo cabelo dele, ver como ficaria totalmente bagunçado por meus dedos, mas Edward me acharia maluca, então não levantei a mão boa.
— Então, você é de Seattle? — perguntei.
— Não, New York — respondeu, olhando brevemente para mim. — E você?
— De Forks, é uma cidade aqui perto. Estou em Seattle pela Universidade — falei mais do que me foi perguntado, era um defeito que não conseguia controlar.
— E já sabe no que vai se formar? — Ao menos ele parecia interessado, ou fingiu estar muito bem.
— Jornalismo, é o que sempre quis — contei, sentindo um conforto ao dizer aquilo. — Está na faculdade ainda? Você não parece muito mais velho do que eu.
— Quantos anos você tem?
— Dezoito.
— É, eu tenho vinte. Faço vinte e um em junho, caso queira me dar um presente, dia vinte. Gravou tudo direitinho? — Me olhou mais uma vez, só para piscar para mim. — E bom, vou voltar para a faculdade em breve, tive que parar por um tempo, resolver encontrar a mim mesmo, não que tenha dado certo.
— Entendo — falei, mesmo sem fazer ideia do que queria falar com toda aquela coisa de busca por si próprio.
— Entende? — perguntou desconfiado.
— Não — confessei. — Mas falei isso para soar compreensiva.
Edward continuou tratando da minha mão, mantendo um sorriso no rosto a todo instante que fazia aquilo. Estávamos mais perto um do outro, do que estávamos quando ele enfrentou a Senhora Parker. Eu podia sentir o perfume dele melhor, algo forte, mas nada enjoativo.
O observei com mais cautela, Edward era alto, devia ter mais de um metro e oitenta. Não parecia que frequentava academia todos os dias, mas claramente cuidava do seu corpo.
O rosto era quadrado, a barba estava bem feita e tudo parecia ter sido esculpido diretamente pelas mãos sábias de anjos da perfeição. Edward era tão bonito, talvez mais bonito do que Leonardo DiCaprio, meu eterno amor de Hollywood, que nunca saberia da minha existência.
Rosalie, a esposa do meu irmão, descreveria Edward em uma simples palavra: Quente. E ainda que eu achasse o termo superficial, teria de concordar com ela naquele caso.
Quanto mais nós ficávamos próximos, mas eu imaginava como seria tocá-lo para valer. O cabelo, depois o rosto, então o corpo inteiro.
Aquele pensamento me fez corar, Edward escolheu aquele exato momento para terminar o curativo.
— Pronto — ele disse um tempo depois, sabia que tinham durado minutos, mas para mim pareciam ter sido segundos. — Você está bem? Seu rosto está vermelho.
— Estou bem sim, eu sou muito branca, sempre estou vermelha. — Me afastei dele.
— Claro.
— Obrigada — agradeci, eu tinha ganhado um belo curativo em minha mão cortada. — Mais uma vez quero pedir desculpas pelo que causei, Edward. Foi ridículo, esbarrar em você, quebrar tudo aquilo, estou com sorte da Senhora Parker não ter pedido reembolso pelas taças. Não como se eu fosse conseguir pagá-las, são...
— São falsas — Edward me interrompeu. — Acha mesmo que colocariam taças caras com garçonetes desajeitadas por ai? É um risco, o mercado de taças caras e preciosas iria à falência em dias. De verdade, você é um perigo para a sociedade de taças Bella. — Não precisei de muito para saber que ele estava brincando, então ri e ele me acompanhou.
— Mesmo assim, obrigada por ter me defendido daquela chefe terrível e por ter feito o curativo. Senão fosse por você eu provavelmente iria sangrando até em casa. — Fiz uma careta. — Até mais, Edward! — Sorri para ele uma última vez, então me virei para a porta do banheiro.
— Bella? — ele me chamou, suavemente. — Sei que é o casamento da minha irmã, com Jasper que sempre foi um grande amigo para mim, mas eu não quero mesmo voltar para lá.
— Quer que eu peça um táxi para você? Ou peça que algum dos manobristas tire seu carro? Me dê dois minutos que faço isso, é o mínimo que posso fazer depois do que fez por mim.
— Não, eu ia pedir que você ficasse aqui comigo — falou, me deixando na mesma hora em defensiva.
— Edward, não sei o que está pensando, mas eu não vou...
— Não estou sugerindo nada disso, Bella — ele afirmou, recostado ao balcão da pia. — Só não quero voltar ao casamento, estou cansado e só queria ficar aqui vendo televisão, se possível conversando com você sobre como consegue tropeçar em seu próprio pé.
— É o casamento da sua irmã — o lembrei. — Você deveria estar com ela nesse dia importante, sei que é algo que Alice iria querer.
— Acho que você tem razão. — Suspirou. — Ainda tenho um discurso a fazer depois, mas a festa, os convidados, tudo parece ser tão falso. Alice nem parece emocionada de verdade com o próprio casamento e ela está grávida, deveria estar cheia de sentimentos pelos hormônios. — Então se calou, me olhando em desespero.
— Tudo bem?
— Não, eu disse que Alice está grávida, isso é segredo, ninguém pode saber. O casamento dela teve de ser apressado por conta disso, foi um caos. E ela só tem dezoito anos também. Pode manter esse segredo Bella?
— Posso sim — prometi. — Então, vamos sair? O casamento pode não estar sendo tão legal quanto imaginou, mas é só por algumas horas Edward, você irá aguenta a pressão.
— Vamos. — Aceitou.
Saímos do banheiro, então do quarto, estávamos perto da escadaria, que dava para o salão de festas, quando Edward voltou a falar.
— Esqueci de algo! — exclamou, quase nervoso.
— O quê?
— Seu número, amanhã eu preciso te ligar e confirmar que sua mão está bem, me odiaria se meu curativo tivesse sido mal feito, então preciso ter certeza de que está tudo certo.
— Edward...
— Pela sua mão Bella — insistiu. — É só um número, prometo não o repassar para o telemarketing. — Voltou a sorrir, os olhos verdes brilhando. — Bella?
— Me dê seu...
— Aqui! — estendeu seu celular para mim, para que eu pudesse colocar meu número ali, o que logo fiz.
— Nada de telemarketing — o lembrei, descendo a escadaria antes dele, estava quase no fim da mesma, quando o ouvi dizer.
— Toda vez que escutar Moon River me lembrarei de você, Bella.
— Eu também, Edward.
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