Montre - A Sinfonia do Tempo
1 Quartzo
Alistair admirava o antigo relógio de pêndulo na bela vitrine da Rouault’s. O pôr-do-sol que amarelava o céu refletia-se no vidro da relojoaria enquanto algumas pessoas iam e vinham pela Athalie Avenue — uma das ruas principais de Clarence. Era uma comprida avenida de pedra que cortava quase toda a cidade: começava na estação de trem Blackfell Hollow e acabava em um belo e colorido parque conhecido como Vanilla Garden, que era o coração da cidade.
As grandes lanternas vermelhas e douradas penduradas nos arcos dos postes indicavam que o Festival das Vinhas estaria acontecendo àquela semana. Graças a este festival as lojas demorariam a fechar e muitas pessoas iriam ao parque para assistir as apresentações artísticas dos profissionais de Clarence. Era uma época muito bonita e alegre para a cidade, que apesar de não ser muito grande, estava sempre iluminada e festiva.
Alistair não morava ali. Dizia que morava, mas na verdade sua moradia estava um pouco além dos limites da alegre Clarence. Ele era, de fato, o dono do enorme castelo localizado logo após a saída oeste. Alistair não recebia muitas visitas — não conseguiria lembrar-se de uma em cem anos, muito provavelmente por culpa das histórias que rondavam seu nome. Mas ele não se importava muito com isso: tinha um espírito curioso, estava sempre disposto a ajudar quem quer que fosse e frequentemente tirava algum dia da semana para visitar a cidade.
E agora estava interessado no relógio. Era um item muito bonito, assim como vários outros que estavam dispostos na vitrine, mas o que chamava a atenção naquele em especial era que seus ponteiros estavam quebrados. O menor estava pela metade, enquanto o maior nem se quer existia. Se não fosse por esse defeito existencial na vida de um relógio, aquele provavelmente seria muito caro. Alistair se perguntava o preço.
As lanternas começaram a se acender quando sol finalmente se escondeu, e logo a rua passava a ser iluminada artificialmente. Mais pessoas começavam a circular e o apito do trem que chegava à Blackfell Hollow indicava que mais delas estavam prestes a desembarcar. A porta da Rouault’s se abriu tocando um sininho preso ao batente: era o dono, Sr. Laynon, que saia à rua para observar o movimento. Ele não pareceu surpreso ao ver Alistair fitando a vitrine:
– Ora se não é Lorde Alistair! – sorriu – O que é que veio fazer aqui hoje? – perguntou amigavelmente.
Sr. Laynon era um senhor forte de cabelos cor de cobre bem penteados. Talvez por ser relojoeiro, tinha certo vício de ficar abrindo e fechando a tampa de seu relógio de bolso todo o tempo — atividade que se tornava mais evidente quando o homem ficava ansioso. Era um dos poucos que se acostumara com a presença de Alistair, visto que este sempre passava para olhar a vitrine.
– Boa noite, Sr. Laynon – respondeu educadamente Alistair. Não era pessoa de muitos rodeios por isso perguntou logo em seguida, apontando para a vitrine – O que é que houve com esse relógio?
– Este? Ah, é mesmo uma pena. Havia o arrematado em um leilão em Greenshire, a pedido de um cliente, mas assim que chegou, o encarregado de busca-lo disse que o objeto não estava em condições de ser vendido, e que seu chefe não ia querê-lo nesse estado. Eu, como sou um homem pacífico deixei-o aí, não fora tão caro, você sabe. Infelizmente, não vejo motivo para alguém querer comprar um relógio sem ponteiros...
– Ah, então não fará objeção para vendê-lo? – perguntou Alistair animado, a história curiosa por trás do relógio só o fizera se interessar ainda mais pelo objeto – Pensei que tivesse algum valor sentimental... Mas bem, já que não é o caso, quanto vai querer por ele?
– Ora, se o quer tanto assim posso dá-lo a você. Vai ser melhor para desocupar a vitrine... – o relojoeiro sorriu de novo enquanto mexia no relógio de bolso – E você é um dos meus melhores clientes – acrescentou, dando de ombros — embora não entenda muito bem suas escolhas...
Sr. Laynon ainda ofereceu uma espécie de armação com rodas para facilitar o transporte do enorme relógio, mas esta deveria ser devolvida depois. Quando Alistair saiu da Rouault’s arrastando consigo o velho relógio as ruas já estavam bem movimentadas, com pessoas por todos os lados, filas se formando em frente às pequenas barraquinhas de doces, e os mais variados tipos de artistas de rua chamando a atenção com suas brilhantes apresentações.
Alistair, se era o tipo de pessoa que podia ser notada com facilidade, ficou ainda mais evidente carregando a enorme armação de ferro e o relógio de pêndulo quebrado. Entretanto, graças à bagunça do festival, não eram muitas pessoas que o reconheciam, e quando o faziam se limitavam a murmurar alguma coisa para o colega mais próximo.
As pessoas o conheciam como “Lorde Alistair”, seguindo por uma alcunha ou outra, entre as quais uma das mais famosas era “o percussor do caos” — simpática alusão a um incidente em que Alistair quase destruíra a Estação ao tentar parar o trem no qual esquecera um de seus livros. Sua intervenção havia feito com que o trem descarrilhasse e a estação precisasse ser fechada por cerca de uma semana para reparar dos danos. Havia uma porção de histórias parecidas com essa rondando seu nome, mas ele acreditava que não fazia jus a tais apelidos, já que nunca causara problemas intencionalmente.
O caminho mais simples para chegar ao castelo era seguindo a longa Avenida Athalie e virando a esquerda em uma ruazinha florida depois do Vanilla Garden. Era esse o caminho costumeiro de Alistair, e o caminho que seguiria aquela noite, embora tivesse dificuldades em ir se desviando da grande quantidade de pessoas que agora circulavam por ali. O relógio só tornava a tarefa mais complicada, por isso Alistair andava devagar, aproveitando para observar as lojas e barracas, e os rostos diferentes.
E ele andava maravilhado com a beleza da noite embora já tivesse presenciado aquele evento muitas e muitas vezes. Um dos grandes diferenciais do Festival das Vinhas era que as comemorações de um ano nunca se igualavam as dos anteriores: a decoração sempre mudava e as apresentações nunca eram as mesmas. Os únicos elementos que sempre estavam presentes eram o vinho, é claro, e a magnífica queima de fogos a meia-noite.
Alistair se distraiu com um mágico de rua que fazia cartas de baralho desaparecerem nas mãos. Dois meninos e uma garotinha ficavam insistindo para que o homem contasse o segredo do truque, enquanto ele em resposta fazia uma mágica ainda mais complexa. Agora tinha transformado o baralho em uma bela dobradura dourada de estrela. Era mesmo um ótimo mágico, mas Alistair se perguntava até onde iriam os truques e quando começava a verdadeira magia.
Era comum que as apresentações de mágica do festival fossem extravagantes e inacreditáveis. E mesmo que a grande maioria dos mágicos fossem mestres no domínio dos mais variados truques, sempre havia um ou dois magos de verdade que resolviam aparecer disfarçados para participar das competições. Embora este seja o ponto de vista de Alistair, já que nunca na história de Clarence, um mago de verdade fora pego participando do festival.
Não fora fácil passar pelo centro do parque arrastando tamanho objeto, e só depois de virar na pequena rua florida é que Alistair conseguira olhar para trás para observar melhor as lanternas iluminadas. A viela onde estava agora terminava em um portãozinho baixo em formato de arco — passando por ele chegava-se a um caminho de pedra, iluminado por postes tão baixos quanto pequeno portão. Essa passagem, por sua vez, bifurcava-se logo à frente: seguindo à direita chegava-se ao castelo de Alistair, pela esquerda era possível atingir o bosque que ligava Clarence a cidade vizinha.
Dessa forma, Alistair logo chegou aos portões de seu enorme castelo. Teve que passar por seu jardim, cortado por uma espécie de ponte de pedra colada ao chão, que fazia o serviço de ligar o portão até a entrada principal. Ao abrir as pesadas portas de mogno se viu em uma grande sala com uma proporcionalmente grande escadaria dupla que levava aos aposentos. Como não quisesse subir as escadas com o relógio se dispôs a levá-lo para sala de jantar, que tinha uma sacada falsa que, assim como a ponte, era colada ao chão. Dessa sacada se podia avistar toda a cidade de Clarence, e não havia dúvidas de que era um dos melhores lugares no mundo para se assistir a queima de fogos tranquilamente.
Alistair aproveitou para mexer no relógio enquanto esperava bater a meia-noite. Empurrou alguns objetos para o canto e tirou o pesado relógio de madeira maciça da armação com uma leveza incrível. Depois, com as luzes acesas, se livrou da sobrecasaca azul-marinho e arregaçou as mangas para facilitar o trabalho.
Olhado de perto, o relógio parecia ainda mais nobre, com detalhes talhados á madeira com uma minuciosidade incrível. Até os números, apesar de desgastados pareciam ser de ouro puro. Infelizmente era muito pouco para compensar o defeito de um relógio que não podia marcar as horas. Mas Alistair tinha ficado curioso para saber se ele ainda funcionaria mesmo com aquele defeito, porque se fosse este o caso ele poderia repor os ponteiros quebrados.
Tentou ligá-lo do jeito que estava, dando corda na lateral de madeira. Girou uma, duas, três vezes e nada. Na quarta vez a lingueta saiu em suas mãos. O mesmo deveria ter acontecido com Sr. Laynon para que este quisesse se ver livre do relógio com tanta pressa. Resolveu então partir para um novo plano. Havia comprado novos ponteiros em uma viagem à Hivert, a grande cidade onde se encontrava o maior Teatro do país. Na época ele pretendia trocar os ponteiros do seu relógio antigo, mas eles não se encaixaram de maneira alguma e acabaram ficando guardados por todo aquele tempo. Alistair havia se lembrado deles no momento em que vira o relógio na vitrine, até porque os ponteiros pareciam combinar muito melhor com aquele do que com o antigo.
Dirigiu-se a sala de jantar novamente, carregando os ponteiros dourados e cintilantes nas mãos até o canto onde o relógio achava-se. Deixou-os em cima do aparador e tentou soltar a metade ponteiro menor (que era o único indício de aquele relógio já precisara de ponteiros algum dia). Infelizmente, não importava com que força tentasse, não conseguia nem sequer mover o pequeno objeto. “Ora essa” resmungou, talvez fosse melhor começar pelo ponteiro maior.
Apressou-se em pegar o ponteiro das horas, mas acabou derrubando ambos, que bateram no aparador e caíram no belo tapete bordado em vermelho. Quando se abaixou para pegá-los percebeu que ponteiro menor parecia ter se riscado no tombo. Tentou verificar o que havia acontecido, mas ao passar a unha pelo risco este só se tornou ainda maior. Curioso, Alistair continuou a descascar a tinta até que só lhe restasse um comum ponteiro de aço escuro com alguns resquícios dourados. Abandonou-o então em cima do aparador novamente e tentou o mesmo processo com o ponteiro maior, mas nada pareceu acontecer dessa vez. Acabou por concluir que pagara por dois ponteiros de ouro e recebera apenas um.
De qualquer forma tentaria encaixar o ponteiro grande no relógio. Conseguiria ver as horas com um ponteiro e meio. Foi com esse pensamento que, com enorme facilidade encaixou o ponteiro maior no antigo relógio de pêndulo. Ele pareceu simplesmente deslizar para o lugar correto, e para surpresa de Alistair, o relógio, que até então marcava exatas onze horas e cinquenta e nove minutos, bateu a meia-noite.
O som fora tão alto, que Alistair assustado caíra para trás, e agora, ainda atônito observava o relógio que parecia criar vida própria. Os ponteiros giravam e uma melodia vazava de dentro o objeto. A música havia começado com o tintilar de sinos, mas gradativamente se tornava mais agressiva e carregada de tons graves. Estava fazendo o ar parecer denso demais para ser suportável.
Os ponteiros continuavam lentos, constantes e imperturbáveis. Alistair ainda atordoado só conseguia observar o estranho espetáculo. As notas pareciam se infiltrar em sua cabeça, e ele chegou a pensar que toda Clarence pudesse ouvir aquele som. Ele também sabia que nunca escutara tal melodia, mas ainda assim ela trazia certa familiaridade estranha.
O som começava ficar mais baixo à medida que os ponteiros alcançavam o número um do relógio, e parou de todo ao marcarem a primeira hora completa do dia. Entretanto, não haviam se passado meros segundos desde que o relógio fora ligado até o parar dos ponteiros, pois agora pela sacada da sala de jantar, era possível ver o início da queima de fogos do Festival das Vinhas, que sempre começava pontualmente ao soar da meia-noite.
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