Lady Catherine estava ajoelhada em frente às ruínas do antigo relógio de pêndulo e tudo a sua volta brilhava com uma luz amarelada. A mulher continuava falando em uma língua irreconhecível enquanto os pedaços de madeira se moviam sozinhos e começavam a remontar o relógio do Duque — o plano, embora tivesse sido atrapalhado constantemente, funcionaria de qualquer modo. Estava tão absorta na tarefa que mal podia ouvir o que estava acontecendo atrás de si: Lenore havia encontrado um oponente no momento em que Oliver surgira no terraço. Catherine não havia perdido tempo e imediatamente tomara o lugar que estava ocupando agora, começando a conjurar um feitiço para colocar os pedaços do relógio de volta no lugar. Não conhecia muito de magia, mas sabia o suficiente para terminar a tarefa sem ser incomodada.

Lenore e Oliver trocavam todo o tipo de ataque. Uma nota tocada pela flauta da mulher transformava-se em uma rajada de vento cortante que o Segundo Século defendia com sua bengala, fazendo o ar encontrar-se estrondosamente com uma das paredes do castelo. Lenore estava tentando impedir Catherine de todas as maneiras que imaginava, mas não sabia muito sobre as habilidades Oliver, e ele parecia não estar disposto a deixa-las transparecer: só continuava a defender os ataques ou tentar acertar-lhe um ou outro feitiço de imobilização.

Tentou tocar uma melodia diferente na flauta, e bolas de luz surgiram e espalharam-se pelo ar: Oliver podia tentar defende-las se quisesse, mas seria bastante improvável que conseguisse cancelar todas. Se Catherine pelo menos se distraísse, algo podia dar errado em seu feitiço, e o relógio já em pedaços, cederia. Infelizmente, até agora a mulher havia se mostrado uma excelente maga, mesmo que só fosse capaz de criar um ou dois feitiços. De qualquer forma, para a surpresa de Lenore, todas as bolas de luz se desfizeram quando Oliver bateu com sua bengala no chão, e sorriu pela primeira vez.

Lenore não pôde deixar de pensar que ele se parecia muito com Howell. A mulher tivera suas desavenças com o Primeiro Século antes mesmo do ataque ao Duque, e o culpara por muitos anos, embora houvesse resolvido o perdoar há bastante tempo também. Entretanto, como vivesse isolada, eram poucas as pessoas que sabiam sobre essa sua mudança de opinião. Catherine não havia tentado usá-la, julgando que ainda buscasse vingança? Com Oliver, por outro lado, a história era outra. O que ele poderia querer com tudo isso, depois de tanto tempo?

Tentou acertá-lo novamente com um feixe de luz, mas o homem desviou-se como fizera todas as outras vezes. Lenore sentiu que estava perdendo tempo tentando atingi-lo enquanto Lady Catherine fazia o que queria.

– Catherine! — gritou, não deixaria que ela prosseguisse de maneira alguma. Sons altos começaram a ecoar e os raios tornaram-se mais fortes. Lenore iria direcionar uma descarga elétrica para toda a sacada do castelo. Era realmente um poder muito grande, e os flashes dos jornalistas não paravam de piscar para registrar a cena, embora alguns repórteres já tivessem corrido para se esconder perto do bosque. Chiados agudos misturados ao som da flauta ecoavam por toda a parte — mais dois segundos e estaria feito.

Não havia notado quando Oliver se aproximara. Sentiu uma forte dor nos pulsos, e percebeu a música e os raios desvanecerem. Um novo estrondo alto chamou sua atenção antes mesmo que pudesse entender o que havia acontecido. Catherine acabara de reconstruir o objeto, e agora estava parada de pé ao lado dele, com o vestido vermelho esvoaçando na ventania que continuava incessável e a chave de corda do relógio nas mãos.

– Finalmente – disse Oliver, embora estivesse de costas para Catherine, olhando para a entrada da sacada. Não era com ela que estava falando – Achei que não fosse aparecer...

...

Garrett estava revirando a biblioteca desesperadamente. Embora soubesse que seria impossível fazer uma busca rápida por lá, ainda não tinha conseguido pensar em nenhum lugar melhor para procurar. Já havia gastado longos minutos antes de chegar à conclusão de que deveria dar uma olhada no escritório, e estava rumando para lá quando foi interrompido por alguém que entrou na biblioteca dando um chute na porta.

– Onde está a carta? – perguntou Victor de Constance, apontando seu revólver na direção de Garrett.

– Não está comigo – respondeu o outro, fazendo uma careta. Ele não precisava de mais problemas.

– Não brinque comigo, mecânico! Você deve saber como aquela carta é importante!

Garrett ia dizer que na verdade não sabia, mas achou melhor aproveitar o momento para fazer com que Victor acabasse o ajudando. Explicou que a carta estava em algum lugar do castelo e que ele poderia ficar à vontade para procurar por si mesmo. Victor resmungou alguma coisa e estava de saída quando se virou para acrescentar:

– Espero que saiba tomar decisões corretas caso venha a encontrar aquela carta. Li aquele maldito bilhete que me mandou, e acho que está fora de si!

Garrett deu de ombros, mas Victor já havia saído. Podia cuidar dele depois, e muito provavelmente Howell estaria por aí e faria isso por ele. Estava pensando sobre onde os outros colegas poderiam estar quando teve uma ideia: já sabia que Alistair não era um exemplo de organização, portanto não devia ter guardado a carta em um lugar especial. Muito provavelmente estaria onde tivesse sido lida, em um sofá, uma mesa ou uma gaveta próxima. Então, achou que seria interessante olhar na sala de estar.

...

Lorde Crawford não tinha muita ideia do que estava acontecendo. Parecia-lhe que alguém havia conseguido quebrar o relógio de alguma maneira, o que era completamente estranho, mas, mais estranho que isso, era o movimento no castelo para tentar reconstruí-lo. Tinha visto Catherine na sacada, junto com uma mulher e alguém que se parecia com Howell. Também havia visto uma mulher-autômato quebrada em baixo de uma árvore e vira Victor de Constance correr para longe falando coisas sem sentido. Não era de se admirar que quando encontrara, não só Garrett, mas Amaranth e algumas outras invenções suas na sala de estar do castelo de Alistair, tivesse ficado completamente perplexo:

– Mas o quê?! – disse automaticamente ao encontrar o mecânico, que segurava um papel nas mãos e sorria para si mesmo, parecendo bastante entusiasmado.

Garrett sobressaltou-se, mas ampliou o sorriso assim que reconheceu o inventor:

– Achei a carta! Hahaha! – comemorou ele – E antes de Victor! Nem acredito que estava mesmo aqui! – depois acrescentou, vendo que Crawford não estava se mexendo – Que há, Lorde Crawford? Anime-se! Encontrei a solução para nossos problemas!

Crawford olhou para o papel, ainda incrédulo. Depois averiguou a sala de estar mais uma vez (por garantia) e no fim, disse:

– Não vejo como uma carta pode ser a solução para nossos problemas, mas gostaria muito de saber o que minhas invenções fazem aqui.

Garrett riu de novo, enquanto olhava a carta de cabeça para baixo:

– Também não tenho ideia de para que essa carta serve, já que não dá para ler absolutamente nada nela, mas suas invenções estão aqui porque eu as trouxe, claro! Você pode pegá-las, se quiser, afinal são suas (e eu mesmo também não consegui identificar para que algumas servem). Mas tenho que encontrar Howell o mais rápido possível para entregar-lhe isso, então me perdoe, mas estou de saída...

Crawford assentiu laconicamente outra vez, e começou a reunir o que havia encontrado de útil, embora tivesse ficado um pouco desapontado com as escolhas de Garrett: além de Amaranth, o homem havia trazido coisas como um isqueiro que acendia chamas coloridas, um rolo de fita métrica, uma bomba de ar, um pote de vidro que era simplesmente um pote de vidro, e um canivete suíço customizado (e quebrado). Era fácil de dizer quais itens podiam ajudar e quais não.

Crawford já havia pegado tudo que podia e Garrett já se encontrava a vários cômodos de distância, quando outra coisa fora do normal naquele dia incomum começou a ocorrer: chuva.

– Está chovendo dentro do castelo?! – Garrett reclamou, alto o suficiente, para que Crawford pudesse ouvir de onde estava.

– Que diabos é isso agora? – resmungou o outro para si mesmo. Mas ,assim que começou a imaginar o que a chuva poderia significar, acrescentou rapidamente, dirigindo-se ao mecânico – Garrett, acredito que você deva procurar por Howell mais rápido a partir de agora!

– O quê?! – foi a resposta.

– Mais problemas estão vindo.