A natureza lançava rajadas de vento enfurecidas, espalhando folhas e levantando poeira, como se estivesse protestando contra aquele excesso de atividade mágica ocorrendo debaixo de seus olhos. Mas não era só o ambiente que estava descontente:

– Oliver, parece que você precisa de uma boa conversa entre irmãos – disse Howell, que havia finalmente achado o caminho para a sacada e aparecido a tempo de ver o relógio ser remontado.

Oliver abriu um sorriso, que poderia ser facilmente considerado sincero:

– Há quanto tempo, Howell! Não mudou muito desde a última vez que o vi. Quando foi mesmo? – fingiu calcular alguma coisa mentalmente – Ah, sim, no dia anterior ao ataque à mansão!

– Você, em compensação, parece diferente – retrucou o outro, tentando não cair em nenhum tipo de provocação — Pensei que não gostasse de ser confundido comigo.

– Não gosto.

Oliver ainda se parecia com Howell, mas não estava mais vestido como ele. Também tinha amarrado o cabelo, o que deixava evidente que ambos não eram idênticos. Oliver tinha as feições muito mais duras e o olhar muito mais grave, embora conseguisse disfarçar sua personalidade com bastante habilidade quando se mostrava necessário.

– ... mas achei que aquilo fosse chamar sua atenção. Não queria que perdesse o grande dia! – disse ele, por fim.

– Você realmente parece confiante – comentou Howell, tentando manter a atenção do outro. Não gostava de como Oliver estava agindo, e temia que, apesar da conversa teatral, suas ações pudessem ser bastante imprevisíveis.

Oliver pareceu ter percebido o receio do irmão, porque se limitou a sorrir para ele novamente e fez um aceno com a cabeça, indicando para que Catherine desse corda no relógio de uma vez. O que aconteceu, entretanto, foi que Lady Catherine continuou imóvel, apenas com o vestido e os cabelos esvoaçando. Howell deu de ombros:

– Não me chamam de “O Tempo” por nada, achei que estivesse cansado de saber disso... – explicou, fingindo descaso, embora estivesse bastante apreensivo. Não conseguiria manter Catherine congelada por muito tempo, e qualquer um seria capaz de tirar a chave de corda de suas mãos se tivesse vontade. Felizmente, Lenore ainda estava lá para impedir que um novo personagem viesse a interferir na cena.

Oliver já não parecia mais amigável. Sua expressão tornara-se o que costumava ser nos dias passados: fechada e analítica.

– Sabe, depois que abandonou a Ordem e deixou seus amigos morrerem, pensei que não fosse voltar a interferir nesse tipo de coisa... – disse ele sarcasticamente.

Howell não havia abandonado a missão, embora sempre se sentisse pesaroso ao pensar que voltara tarde demais. Muitos já haviam perecido nas mãos da Guarda e do próprio Chamberlain. Outros tantos caíram depois, mas toda ajuda que Howell poderia oferecer era tardia, e só servia para remediar algo que poderia ter sido evitado se todos tivessem cumprido com sua palavra. Oliver não cumprira a dele também: ninguém o havia visto no ataque mansão.

– Acho que deveria me dizer de uma vez o que quer, enquanto ainda pode – sugeriu Howell, girando sua lança entre os dedos. Precisava de um pouco de tempo para usar a mesma habilidade de novo, e isso poderia ser conseguido juntamente com uma explicação de seu irmão.

Oliver pareceu ficar satisfeito com a oportunidade de expor seu lado da história, mas não pôde deixar de dizer:

– Temos mesmo todo o tempo do mundo – riu ele, com ironia – Mas bem, já que quer saber, digamos que eu queira que o mundo se inspire...

Oliver deu as costas a Howell e olhou para o cenário a sua frente. Raios de sol que escapavam por entre as nuvens negras iluminavam pequenos pedaços da paisagem aqui e ali.

– Todos procuram alguma coisa, você sabe. Mas alguns têm mais probabilidades de conseguir o querem do que outros, simplesmente porque nasceram diferentes. Não parece um pouco injusto para você? – não olhou para ninguém em busca de resposta, e ficou em silêncio por alguns momentos, pensativo.

– O que você procura, Oliver? – questionou Lenore, que olhava o homem com muita desconfiança. Imaginava que Howell estivesse esperando uma oportunidade para agir, mas não conseguia conter sua impaciência.

– Bem, era disso que estava falando – e se virou de maneira a olhar para Howell e Lenore ao mesmo tempo – Nunca tive chances de ser grande. Nem como Século, nem como uma pessoa comum. Havia sempre Lorins e Howells para ofuscar qualquer tentativa de sucesso. Havia sempre praguejamentos por parte das pessoas “normais”. Catherine tinha algum problema com isso também, veja bem, como alguém que só consegue fazer algumas previsões do futuro poderia se equiparar à Eleanor, conjuradora de raios? Nunca suportei essa diferença injusta: não nos foi dada a oportunidade de escolher o que queríamos ser.

“Mas essa disparidade não estava presente somente entre os Séculos. Percebi, no dia do ataque a mansão, que um plano como o meu só vingaria se toda a Ordem compartilhasse dos poderes de Lorin. De outra maneira, não funcionaria. Chamberlain estava muito acima de tudo que pudéssemos fazer. Mas, veja, o Duque nasceu com todas as vantagens do mundo e os Séculos estavam desamparados.

Cheguei a tempo de ver o fogo na mansão e soube que não deveria interferir naquilo, não seria capaz. O que fiz foi partir para estudar magia, e o que posso fazer agora é mais do que qualquer coisa que um Duque imortal jamais tenha conseguido. Não vou só destrui-lo e acabar com uma história antiga. Vou provar que podemos vencer as injustiças da vida com força de vontade, e espero que muitos acordem para isso também”.

– É uma pena que tenha distorcido uma ideia essencialmente nobre, Oliver – disse Lenore então — Mas seu excesso de confiança pode acabar fazendo muito mais mal do que bem. E eu vejo claramente que seu desassossego está muito limitado à sua própria existência: você nunca esteve muito preocupado com quem chamava de amigo, não é?

– Sinto que temos prioridades diferentes, embora tivesse pensado que vocês quisessem ver Chamberlain destruído tanto quanto eu... – ele respondeu calmamente.

A habilidade de congelar o tempo podia ser usada novamente e Howell acabara de chegar à conclusão de que não havia nada que pudesse ser feito no momento para mudar as ideias do irmão. Iria impedi-lo. E iria impedi-lo agora.

– Sinto muito, mas isso não pode continuar – disse Howell, e rapidamente avançou contra o irmão, desferindo um golpe com a lança e conjurando sua habilidade logo em seguida. Oliver desviou-se do ataque com grande velocidade, mas não pôde escapar do congelamento. O que ninguém esperava era que, ao acertar Oliver, a habilidade libertasse Catherine, que assim que se viu livre, tratou de dar corda no relógio imediatamente.

Oliver Blackwood tinha fama de ser bastante astuto.

...

– Até que enfim! – alguém vinha andando rápido pelo corredor. Seus passos podiam ser ouvidos por longas distâncias, já que com a chuva, as passagens estavam todas praticamente alagadas.

– Ora, que é que você está fazendo aqui em uma hora dessas? – perguntou Alistair, interrompendo sua ação de carregar uma cadeira em direção à janela.

– Que é que você está fazendo aqui? – reclamou Crawford, enquanto tentava inutilmente acender um cigarro. As chamas coloridas se desfaziam em fumaça sempre que a água as atingia.

Lilet saiu de outra sala carregando um acendedor de lareira:

– Talvez isso sirva... — vinha dizendo, até reconhecer o colega — Ah, olá, Lorde Crawford.

Crawford fez um aceno com a cabeça, mas estava de muito mau-humor:

– Sou só eu, ou esse castelo é um labirinto? Estou tentando chegar àquela sacada desde que entrei, mas depois que essa chuva estranha começou a cair tudo que consigo fazer é andar em círcu... Mas que raios vocês estão fazendo?! – acrescentou quando Lilet voltou para buscar mais alguma coisa na sala.

– Vamos quebrar a janela – respondeu Alistair com bastante calma – Não dá para sair. Lilet acha que isso é coisa daquela pessoa que vimos quando íamos para Saint-Claude: tinha a chuva e tudo mais... O certo é que precisamos chegar naquela sacada o mais rápido possível.

Crawford ia dizer que já havia chegado àquela conclusão há algum tempo, mas sentia-se ainda mais incomodado com o método que os dois estavam usando para tentar forjar uma saída.

– Talvez eu não entenda sua mente complexa, Alistair, mas se querem quebrar a janela, porque simplesmente não quebram a janela? Para que tudo isso?

– É impossível quebrar de um jeito simples, já tentamos de tudo – respondeu, e não pareceu que iria explicar mais do que isso.

Alistair estava montando uma espécie de alavanca improvisada para, pelo que era possível imaginar, impulsionar a janela para cima. Lilet apareceu mais uma vez empurrando uma escrivaninha para fora da sala. Lorde Crawford sentiu que não conseguiria ganhar uma discussão ali, mas antes de sugerir um tiro de Amaranth, ainda resmungou alguma coisa sobre toda aquela chuva estar o tirando do sério. Alistair disse para que o inventor tentasse explodir uma janela mais à esquerda se quisesse, enquanto ele e Lilet testariam seu mecanismo improvisado na que estavam.

Entretanto, antes que Crawford atirasse, o castelo todo estremeceu.

– Não precisava derrubar a parede... – Lilet ia dizer, quando percebeu que não se tratava da invenção de Crawford.

Na verdade, era impossível dizer o que havia acontecido. Pelas janelas, tudo se mostrava escuro como se uma imensa cortina negra houvesse caído sobre o castelo. A chuva havia parado e as coisas que estavam encharcadas há segundos atrás pareciam secas novamente, inclusive eles próprios. E tudo ficou em silêncio.

– O que é que está acontecendo agora? – disseram os três, de maneiras diferentes, quase ao mesmo tempo.

– Acha que conseguiram dar corda no relógio? – perguntou Lilet, preocupada.

A possível resposta de seus companheiros foi interrompida por uma música que começou a tocar por todo o castelo. Era uma melodia bastante incomum, que não parecia vir de qualquer instrumento conhecido, mas Alistair sentia-se familiarizado com ela.

– É a mesma música que ouvi quando o relógio acordou pela primeira vez – constatou ele, mais para si mesmo que para os outros.

– Então é isso? O Duque realmente voltou? – reclamou Crawford. Não dava mesmo para ficar pior.

Lilet não estava dando ouvidos aos outros, concentrava-se no som: havia mais na música do que apenas melodia – ela se instalava dentro de sua cabeça, e quanto mais se prestasse atenção, mais alta e profunda lhe parecia. Por outro lado, era quase possível ignorá-la por completo se não quisesse ouvi-la. E havia mais alguma coisa. Alguma coisa que parecia errada.

Enquanto isso, entretanto, Alistair e Crawford já tinham concordado em tentar averiguar se o castelo continuava sem saída, e antes que pudesse dizer alguma coisa, Lilet se viu arrastada por eles para o corredor que estava causando os problemas. Ele parecia incrivelmente maior agora, e estava um bastante distorcido. Alistair, que achava que conhecia seu próprio castelo, ficaria bastante entusiasmado ao descobrir essa estranha nova arquitetura se não estivesse com tanta pressa para dar alguma atenção a ela. Estavam passando pelo que pareciam ser portas infinitas, quando Crawford parou:

– Estão ouvindo isso? – perguntou, e todos ficaram em silêncio para procurar escutar. E de fato, além do som da música havia agora o barulho de passos. Quando Lilet e Alistair pararam também, os passos pareceram se apressar.

– Quem é? – indagou Alistair laconicamente, mas ninguém respondeu.

– Melhor não ficarmos para descobrir – sugeriu Crawford e os outros concordaram quase ao mesmo tempo em que começaram a correr. Por algum motivo Alistair parecia não ser mais tão rápido quanto era antes, e Liet estava conseguindo acompanha-lo muito bem. Crawford por outro lado, uma vez que estava com problemas com as botas metálicas, acabou ficando um pouco para trás. Depois de alguns minutos a distância entre eles já havia aumentado muito, mas Lilet e Alistair só perceberam que o colega havia parado outra vez, quando o ouviram falar:

– Você! – e antes que pudessem fazer alguma coisa, Crawford virara e entrara em uma das portas laterais.

Logo em seguida, algo parecido com uma mulher surgiu, andando rápido e ruidosamente, com seus olhos brilhando verdes como lâmpadas, e entrou pela mesma porta que o inventor.

Alistair e Lilet rapidamente correram em direção à porta em que Lorde Crawford desaparecera, mas foram surpreendidos (pela segunda vez em poucos segundos) por uma das outras portas, que se abria e dava saída a um rapaz de cabelos castanhos.

– Hector! – exclamou Lilet.

O jovem sorriu abertamente, abraçando e girando a garota enquanto dizia:

– Ainda bem que achei vocês!

Alistair fez uma careta:

– Devia mesmo ter imaginado que você ia aparecer – resmungou, ignorando a súbita confraternização e franzindo as sobrancelhas – Sempre que temos problemas você costuma ser o responsável.

Mas o mágico pareceu nem ouvir:

– Acho que estamos presos em alguma espécie de ilusão – começou a explicar, embora ninguém houvesse perguntado – Quando saí do portal, fui imediatamente transportado para esse lugar, e como tenho certeza de que não cometi nenhum erro que resultasse em algo parecido com isso, só posso concluir que outra pessoa está tentando nos impedir de sair do castelo...

– O que houve com Louis? – perguntou Lilet, desamassando o vestido. Havia visto o outro mago entrar no portal também.

– Está preso – respondeu Hector, não escondendo o riso – Posso tirá-lo de lá quando quiser, mas ele não pode sair sozinho.

– Acha que o Duque foi ressuscitado? – continuou a pianista – É isso que está causando toda essa distorção no castelo?

– Não, provavelmente não.

– Foi o irmão de Howell então?

– Dificilmente.

– O que acha que aconteceu?

– De certa forma – disse ele – Eu acho que sei quem aconteceu.

Como todos estivessem esperando uma resposta, acrescentou que aquilo só se podia ser trabalho de De Winter. Isso confirmava as suspeitas de Lilet e Crawford em relação a chuva, e se lembrar das conversas que tiveram sobre o homem fez com que Alistair rapidamente dissesse:

– Bem, se é esse o caso, não acho que Lorde Crawford vá conseguir se virar sozinho por muito tempo.