Se não fosse Alluka, Killua tinha certeza que aquele fim de tarde teria sido muito estranho, afinal aquela birra do Gon havia sido no mínimo estranha.

Porém Alluka queria contar todas as novidades possíveis para Gon, ele era uma visita especial, e ela tinha dois anos de passeios e lugares diferentes para contar para ele, trocar experiências e afins.

Killua sorriu ao ver a cena, sua irmã feliz balançando os braços mostrando o quão grande algo era e Gon sorrindo falando de quando ele e Killua passaram por tal lugar — ele intervia de vez ou outra com uma história ou duas sobre algo bem embaraçoso que Gon fizera — eles riam e ele voltava a olhar a cena, com um aperto no peito que vinha de algo diferente de tristeza, o que seria? Felicidade? Carinho? Amor?

Ele não sabia e um estomago roncando tirou ele de seus pensamentos.

"Hehehe, ok, já entendi o recado Gon. Vou pedir umas pizzas para nós."

"Ei, irmão, por que você não cozinha pra gente? Tenho certeza que Gon irá gostar."

Gon olhou para ele com olhos enormes e brilhantes, Killua até se sentiu encabulado com tamanho olhar.

"Você sabe cozinhar?!"

"Uma coisinha ou outra..." Killua disse virando o rosto e coçando a cabeça.

"Gon, Gon, você devia provar o arroz com legumes dele, é demais!"

Killua não sabia, mas da mesma forma que ele um dia olhou para Gon com admiração e também desejo ao saber que o menino já havia saído com várias mulheres mais velhas, Gon o via naquele mesmo instante do mesmo jeito.

Killua brilhava aos olhos de Gon...

"Eu quero provar sua comida, Killua."

"Não é grande coisa, só sei o básico. E-e-está muito tarde vai demorar a ficar pronto. Vou pedir uma pizza para nós."

"Se Killua fez é bom e eu quero!"

Killua olhou para Gon, ele estava quase cedendo.

"por favor...?"

estava quase se levantando para fazer o que outro queria, mas então ele respirou fundo, ele já tinha tomada sua decisão.

"Não. Como eu disse está tarde, vou pedir as pizzas, que sabores vocês querem?"

Gon ficou contrariado, mas logo se recuperou, e Killua sem entender suas próprias razões, falou de maneira suave para Gon.

"Prometo que amanhã faço só pra você, ok?"

Gon sorriu todo animado e voltou a conversar com Alluka, Killua por sua vez ficou repetindo em sua cabeça — eu não cedi, eu escolhi o dia, escolhi o dia que quis, porque eu quis...

Depois que Alluka foi dormir Killua começou a preparar a cama de Gon.

"Killua... eu estava pensando, que tal irmos para YorkShin visitar Kurupika e o Leorio. Eu fiquei sabendo que os dois são parte dos Zodíacos agora."

Killua parou o que estava fazendo e se sentou na cama.

"Gon, eu não posso, Alluka está frequentando a escola agora, sem contar que YorkShin é um lugar movimentado com muitos usuários de Nen, e eu não posso proteger vocês dois."

"Você não precisa me proteger."

"Como não? Você não tem Nen."

"Eu tenho, só não consigo usa-lo com tanta facilidade como antigamente."

"A mesma coisa que não ter, Bakaaa."

"Eu vou, com ou sem você, eu vou me aventurar, vou lutar, eu vou fazer tudo o que sempre fiz, não é o Nen que irá me impedir."

"Você é louco? Você não pode, é perigoso!"

"E desde quando eu fujo do perigo?"

"Nunca, e é por isso que eu estou aqui pra enfiar alguma razão nessa sua cabeça oca!"

Gon sorriu de forma maliciosa

"Isso mesmo, eu irei e se você realmente quer me impedir ou me proteger terá de ir comigo."

Killua agarrou o lençol — isso não é justo, não é justo — mas logo voltou a si ao sentir a mão a de Gon sobre a sua.

"Gon...isso não é justo. Você não pode me fazer escolher entre você e Alluka."

"A Alluka vem conosco."

"NÃO! Eu não vou colocar Alluka em perigo, nem mesmo por você. Ela vai ficar aqui, ela está feliz..."

"E você?"

"Cala a boca. Eu já me decidi, eu e Alluka vamos ficar aqui, se você quiser ir vá, eu vou estar esperando o seu retorno."

Ao tentar puxar sua mão, Killua notou que Gon havia segurado ela.

"Gon?"

Gon olhava sério para ele, seus olhos meio vazios.

"Entendo, eu não sou mais o numero um, não sou mais sua prioridade, você mesmo disse isso. Tudo bem, mas eu não vou desistir Killua, você me conhece, sabe bem disso."

Killua engoliu seco e com um pouco mais de força puxou sua mão se livrando de Gon e levantando para apagar a luz.

"Vamos dormir."

No meio da noite, ele sentiu a cama se mexer, do nada, mãos pegaram seu quadril e o viraram.

"G-Gon?"

Gon olhava para ele de uma forma estranha, os instintos de Killua gritavam para ele dar um choque e sair correndo dali — aqueles olhos gritavam perigo.

"Killua, você não vai me abandonar né?"

"Não." Killua olhava dentro do vazio daqueles olhos castanhos e vazios que o faziam se lembrar do seu irmão.

"Que bom, que alivio."

Gon disse aproximando os seus rostos, as testas e os narizes se tocando, um momento e ação que Killua queria que ocorresse e que até chegou a fantasiar a respeito, mas não daquele jeito, não com aquele desapego.

Gon se afastou e voltou para sua cama improvisada, Killua que estava segurando sua respiração, voltou a respirar, olhando para o teto escuro, suando frio, decidindo que ligaria para Murel.

Tem algo errado aqui.

Tem algo errado com Gon.

Eu tenho que entender para ajuda-lo.

Na manhã seguinte Killua acordou mais cedo para preparar o café quando os sons de Alluka e Gon o fizeram sair da cozinha.

"Bom dia, Gon! Bom dia, Alluka!"

Gon estava sentado na mesa, sorrindo, feliz, tão diferente de ontem à noite.

"Kiii-lu-Ah, eu quero ir para YorkShin."

Killua ao ouvir aquela voz, ao ouvir seu nome sentiu como se o chão deixasse de existir debaixo de seus pés.

O que estava acontecendo?

Por quê?

"Na-Nanika?"

Notas finais
Sinta a sutileza do Gon para conseguir o que ele quer.