Monstro
8 Killua, te amo!
Killua andou sem rumo por um bom tempo.
Ele sabia que tinha que voltar, afinal eles iriam viajar na manhã seguinte, porém ele hesitava em voltar — ele não se sentia pronto para encarar Gon, não pela atitude dele, mas sim pelos seus próprios sentimentos.
Assim como em Yorkshin onde Gon decidiu o que fazer por ele e ele se calou e seguiu, contente por fazer parte do grupo.
Assim como no jogo de queimada, onde suas mãos estavam machucadas — e tudo o que ele sentiu foi alegria ao ouvir que Gon queria que ele continuasse a jogar, que tinha que ser ele.
Assim como com as quimeras, onde ele foi afastado, seus sentimentos e lealdades desdenhadas, ele continuou seguindo Gon, obedecendo Gon, protegendo Gon — amando Gon.
Killua notou o problema, ele percebeu que as coisas estavam saindo de controle, se já não haviam saído.
Gon é um rapaz incrível, leal carismático, porém também é um rapaz egoísta, mesquinho...
Gon é a luz da vida de Killua, e Killua como uma mosca voava em direção aquela luz mesmo sabendo que ele só vai se machucar, mesmo sabendo que aquela luz, tão bela, pode mata-lo mesmo sem querer.
Ele tinha que se afastar, mas ele não conseguia.
E lá estava ele novamente, suas lágrimas secaram, ele já não mais corria e quando ele se lembrava do ocorrido tudo que ele conseguia pensar era em como Gon estava se sentido.
Gon está bem?
Eu fui tão rude!
Não!
Ele sabia que o errado era Gon, porém, aquele era Gon e Gon sempre fora assim, ele devia saber que isso iria ocorrer, ele devia evitar situações que Gon não gosta.
Não é?
Se eu sabia e ainda assim fiz, isso quer dizer que eu provoquei, logo eu sou o culpado.
Killua estava tão distraído que ele não percebeu Gon se aproximar até ouvir o seu nome.
"Killua!"
Ele virou vendo Gon correr em sua direção.
"Killua!"
Seu coração bateu mais forte, suas bochechas coraram — Gon estava a procura dele!
Gon por sua vez se aproximou de Killua — parecia que iria abraça-lo, porém parou no último instante.
"Killua..." Gon disse ofegante "...me desculpa."
Killua ficou parado, sem muitas reações.
Gon por sua vez continuou a falar, ele falava olhando nos olhos de Killua, como se procurasse sua alma.
"Eu sei que já pedi desculpas antes, eu sei que isso é tudo o que eu faço, eu te machuco e depois venho pedir desculpas, eu sei que isso é errado..."
Killua vendo a culpa nos olhos de Gon não podia concordar com o que estava sendo dito, mesmo que fosse verdade.
"Gon...você não pre-"
"Não! Não, Killua! Você tem que parar de tolerar isso e eu tenho que parar de fazer isso! Nós estamos errados, nós dois e você sabe disso."
"G-Gon..."
"Gin pode ser muitas coisas, mas ele me disse que quando pedimos desculpas temos que prometer nunca mais fazer aquilo, temos que agir diferente. Eu devo isso a você."
Os olhos de Killua encheram de agua, aquilo era o que ele queria ouvir no passado, mas por alguma razão, depois da vida bater nele continuamente, ele havia perdido um pouco da sua fé.
Não que ele duvidasse de Gon, longe disso, mas como acreditar cegamente quando a experiência lhe mostra o contrário.
Killua levou um leve susto ou sentir a mão de Gon secar as poucas lágrimas que escorreram em seu rosto. Ele corou, deu um leve sorriso e um tapinha na mão de Gon.
"Vamos voltar, Gon."
"Você me perdoa?" Gon perguntou.
"Vamos voltar." Foi tudo que Killua respondeu.
Na casa o silencio era perturbador, ele era tão grande e de tamanha presença que parecia uma parede invisível entre Killua e Gon.
Alluka tentou animar seu irmão, e ela foi bem sucedida, porém Gon ficava olhando para eles com um sorriso triste no rosto — ela sabia que ele queria estar ali ao lado de Killua, recebendo o sorriso de Killua, talvez até mesmo sua ira, qualquer coisa menos o silencio.
"Bem... tudo pronto pra amanhã. Eu acho melhor nós irmos dormir já que vamos acordar amanhã cedido."
Killua disse se retirando para tomar um banho.
Gon e Alluka porém ficaram na sala.
"Gon-san!"
Gon deixou de olhar para o corredor vazio e olhou para ela.
"Sim?"
"Por que não vai falar com Killua?"
"Creio que ele não queira falar comigo."
"Aaah, bobagem." Alluka disse com um sorriso "Killua adora conversar com você, ele simplesmente não resiste, por que não tenta?"
Ela não disse nada além disso — suas intenções eram boas, Gon deixava seu irmão feliz, ao menos mais feliz do que quando ele não estava lá.
Killua precisava resfriar a cabeça, ouvir Alluka dizer o seu nome ao invés de chama-lo de irmão o fazia se lembrar de sua situação, ali era Nanika, e aquilo não era um simples pedido.
Era uma ordem...
Uma sentença...
Killua não fez por maldade, afinal ele passou os últimos anos morando com Alluka e antes — bem antes Gon e ele eram crianças — e por isso ele não trancou a porta do banheiro quando se despiu para tomar seu banho.
Killua mergulhou o corpo inteiro na agua e ficou ali a meditar, ele sempre treinava o seu Ren em momentos assim, e por diversas vezes deixará a agua açucarada por acidente.
Perdido em seus pensamentos, nas dúvidas e no como sair da situação em que se meterá, ele não questionou a presença que entrava no banheiro.
"Eu estou ocupado Alluka..."
O silencio, tão incomum a Alluka fez Killua abrir os olhos e se deparar com Gon.
"Aaah!"
O susto o fez jogar um pouco de agua no moreno enquanto ele tentava se esconder trazendo as pernas para perto do tronco e os braços entrelaçando elas.
"Hehehe, foi mal, eu não queria te assustar."
"Você não sabe bater na porta? Baaaka!"
"Bem, ela estava aberta e você não tem nada que eu já não tenha visto antes, Killua."
"Esse não é o problema! Sai daqui, Gon!"
Gon ficou em silencio, seu olhar um pouco surpreso, mas ele logo se recuperou, ele foi até ali com um objetivo, ele precisava de uma resposta e não sairia de lá sem.
"Não!"
"Como é?" Killua disse bravo, liberando sua aura e deixando bem claro que não estava de brincadeira.
"Eu disse não. Eu quero uma resposta de você!"
"Pois você vai esperar eu terminar meu banho, agora SAI!"
Killua começou a se levantar, Gon iria sair nem que fosse a força.
Porém a reação de Gon foi outra, enquanto Killua estava se levantando, Gon segurou seus ombros o fez sentar na banheira novamente.
Killua por sua vez tentou sair da banheira enquanto Gon estava praticamente entrando nela na tentativa de mantê-lo no lugar.
"Para com isso Gon!"
"Não! Não até você me dizer que me perdoa!"
"Hãn? Como? Do que você esta falando?"
Killua perguntou confuso e ao mesmo tempo um pouco desconcertado.
"Eu pedi desculpas hoje cedo e você não me disse se me perdoou ou não!"
"G-Gon! Larga disso, nós voltamos, vamos viajar amanhã, está tudo bem..."
"NÃO ESTÁ! Você está me ignorando!"
"Estou porque você está sendo um babaca! Agora me larga!"
Foi então que situação mudou, Gon juntou o seu corpo ao de Killua e usando da sua força física o prensou entre ele e a parede do banheiro.
Killua podia sentir o corpo de Gon, o calor emanando dele, suas mãos grandes, ásperas, uma agarrando seus cabelos, outra perigosamente perto de sua bunda — isso por si só já era o suficiente para Killua congelar numa mistura de excitação e medo.
Mas foi os beijos inesperados de Gon em seu pescoço que o tiraram do transe.
"me perdoa, me perdoa, me perdoa..." Gon falava baixinho em meio aos beijos.
Aquele não era Gon.
Gon podia ser direto mas não era de fazer isso.
Mas Killua também sabia que Gon pegava o que queria, tinha o que queria e ia até as últimas consequências para alcançar seus objetivos.
"ME LARGA!"
Killua começou a liberar sua aura e Gon respondeu na mesma moeda, aquilo havia deixado de ser uma simples discussão, estava gradualmente saindo do controle.
Perto ali, Alluka ouviu os barulhos, sentiu a aura e se levantou indo de encontro aos dois rapazes.
Killua liberou seu Hatsu, a eletricidade correu solta e com um simples empurrão ele lançou Gon para o outro lado do banheiro.
Gon atingiu a parede quebrando a pia e vários azulejos, caindo no chão em espasmos enquanto seu corpo tentava se recuperar do choque.
Killua por sua vez saia da banheira com certa dificuldade, agua conduz eletricidade e mesmo ele sendo resistente a ela, isso não significava que ele era imune.
Por um instante ele olhou para Gon no chão e ficou preocupado, porém ali mesmo deitado e com o corpo ainda se recuperando Gon começou a liberar aquela aura sinistra de antes.
Os instintos de Killua gritavam para ele sair correndo dali e assim ele o fez correndo em direção a porta e sendo parado por Gon que segurou seu calcanhar e o puxou levando Killua ao chão.
Os anos de experiência preparam Killua para isso, ele parou sua queda com os braços e girou tentando acertar um chute em Gon.
Gon por sua vez conhecia Killua muito bem e já esperava por isso, sendo então capaz de segurar o seu chute, rapidamente ergue-lo e joga-lo de volta no chão.
Se aproveitando do choque, Gon abriu as pernas de Killua se encaixando entre elas, rapidamente prendendo uma com o seu joelho e se aproximando de Killua.
Por que Killua esta me olhando assim?
Por que ele me olha como se eu fosse Illumi ou Hisoka?
Por que?
"Por que?" Gon perguntou em tom confuso e infantil que não combinavam com sua expressão ou ação.
Killua já estava no estado de fugir ou lutar e nisso liberou seu hatsu mais uma vez lançando Gon em direção a banheira.
Killua não esperou nem um segundo, se levando em uma velocidade anormal, saindo correndo pela porta, pegando sua irmã no meio do caminho, entrando no quarto e colocando Nen na porta para garantir que ela ficasse selada.
Gon por sua vez também se recuperou rápido, mas velocidade nunca foi o seu forte.
Ele saiu encharcado do banheiro e correu na mesma direção que Killua.
Por que?
Por que?
O que foi que eu fiz?
Alluka olhava para seu irmão nu, de joelhos no chão encostado na porta. Ela podia notar que ele suava frio, sua respiração ofegante.
"Killua? Está tudo bem?"
Killua olhou para ela e forçou um sorriso no seu rosto.
"Sim, está tudo bem."
Ele se levantou, ignorando a fechadura que tentava abrir a abrir a porta.
Ele já estava vestido quando Gon começou a bater na porta, ele se deitou na cama de sua irmão e chamou-a para perto de si lhe abraçando.
"Killua!" Gon batia na porta.
"Killua! Abra a porta!" E batia cada vez mais forte.
"Nanika...ponha Gon para dormir."
"Yay"
De dentro do quarto era possível ouvir o som de Gon caindo no chão, Nanika por sua vez abraçou seu irmão e começou a fazer carinho em seus cabelos.
"Killuah! Te amo!"
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