Monstra
1 Hell is the other side of the door
26, março, 2007
Aqui estou eu novamente, sentada no quartinho escuro debaixo da escada, não sei por que eu gosto de ficar aqui, o escuro me faz bem, além do que, o inferno está do outro lado da porta. A minha vida pode ser resumida na seguinte frase: todos me odeiam. Hoje, como de costume, as meninas bateram em mim na escola, não só bateram como também me empurraram e me jogaram contra a pia do banheiro, fazendo com que eu batesse a cabeça na mesma e desmaiasse, acho que fiquei caída no chão do banheiro por umas 3 horas não sei ao certo, bem pra que colocar cartazes alertando sobre bullying se ninguém obedece? Quando entrei em casa e passei do lado do capeta, digo, da minha irmãzinha ela se jogou no chão e começou a se debater gritando “Socorro! A monstra quer me matar!” como de costume meus pais pararam tudo o que estavam fazendo para socorrer a princesa deles, e como se não bastasse ainda tive que ouvir um “Sabemos que a fernandinha é melhor que você, mas matá-la não fará de você uma pessoa melhor!”, acho que a única hora do dia em que realmente me sinto amada por alguém é quando entro na internet pelo notebook que roubei da minha irmã e converso com meus amigos da internet. Sinto falta de quando me chamavam pelo nome, em vez de “monstra”, de quando tinha amigos, de quando meus pais me amavam. Ainda me lembro do dia em que tudo mudou, faz mais ou menos 5 anos, as meninas que hoje me odeiam, mas eram minhas amigas naquela época estavam combinando de ir ao cinema, eu estava ansiosa pois queria ir no cinema com elas, só que elas ainda não tinham me convidado, então um dia uma delas (a que eu considerava minha melhor amiga) chegou para mim e disse
-Hei! Quer ir ao cinema com a gente amanhã?
-Claro- respondi
Estava tão feliz, por que ia ao cinema com elas, e comecei a imaginar como seria o dia, nós íamos ao cinema, depois íamos passear no shopping, mas meus sonhos foram interrompidos por um soco no estomago
-Não vai poder ir se tiver machucada! Sua monstra!- ela disse e começou a rir, enquanto me batia e chutava
As outras meninas chegaram perto e também começaram e me machucar, umas batiam com galhos de arvore, outras chutavam, outras me beliscavam. Cerca de 20 minutos depois todos foram embora, me deixando sozinha no pátio da escola, me encolhi, estava sentindo muita dor, estava ferida, com o rosto ralado e vários cortes e hematomas pelo corpo, chorei por mais alguns minutos. Levantei-me com dificuldade, corri para casa, estava tudo doendo, mas eu queria chegar lá o mais rápido possível para poder contar tudo aos meus pais e eles cuidarem de meus machucados.
Cheguei em casa desesperada, chorando, meus pais estavam brincandocom a minha irmãzinha
-Pai! Mãe! Olha o que as meninas fizeram comigo!- gritei enquanto corria na direção deles
Eu estava esperando um abraço confortante, mas em vez disso gritou comigo
-Não grite menina imbecil! Assim você vai assustar sua irmã!
-Mas, mãe!
Então a peste da minha irmã começou a chorar
-Viu! Você a assustou! Não devia fazer isso!- disse meu pai
Minha mãe se levantou e pegou um chinelo, ela me pegou pelos cabelos e me arrastou para frente do quartinho de baixo da escada, ela deu varias chineladas no meu corpo todo, os cortes que já estavam se cicatrizando abriram-se e eu senti mais dor do que nunca
-Aprenda a não assustar a sua irmã!- disse ela, me puxando violentamente e me jogando no quartinho de baixo da escada
Eu cai no meio da poeira, naquela época tinha muito medo daquele lugar, ouvi a porta ser trancada
-Mamãe!-chamei com a voz fraca
Meu corpo inteiro doía, eu estava com fome e com sede, percebi que não ia sair dali por um bom tempo, então me encolhi em um cantinho e chorei, começou a esfriar, vi por uma minúscula janela próxima ao teto que já era noite, estava cansada de chorar, cansada de gritar e cansada de sentir dor, deitei-me em um colchão velho e furado coberto de poeira e dormi. Acordei no dia seguinte, com a vista um pouco turva, me sentei no colchão esburacado, agora um pouco sujo de sangue e esfreguei os olhos, uma luz fraca vinda da janelinha iluminava o lugar, vi que a porta estava entreaberta e sai do quartinho, meu corpo ainda doía um pouco, não muito, acasa estava vazia, meus pais deviam ter levado minha irmã no parquinho. Desde aquele dia meus pais nunca mais me trataram como antes, e na escola todos me humilhavam, dizia que eu era uma monstra, um erro, que eu não devia ter nascido.
Bom, já aprendi a conviver com isso, tanto é que eu nem lembro como é meu nome,acho que era algo com W, não sei ao certo, na porta do meu quarto tem um W bem grande de madeira, um pouco desgastado. Nem entro mais lá, as paredes cor-de-rosa me dão enjôo, e também me faz lembrar de quando eu era amada, o que me levaa me perguntar ‘o que eu fiz de errado?’ prefiro ficar no quartinho de baixo da escada, aqui é bem melhor.
Fale com o autor