Monolith
6 Capítulo 4
Notas iniciais
As cicatrizes do seu amor lembram me de nós
Elas me deixam pensando que nós quase tivemos tudo
As cicatrizes do seu amor me deixam sem fôlego
Não consigo evitar pensar que
Nós poderíamos ter tido tudo
ROLLING IN THE DEEP | ADELE
ALISSA LUDBROOK
Eu queria vomitar.
Durante a reunião, a cada segundo que meus olhos encontravam os dele, eu sentia a bile subir amargamente e murmurava mentalmente que precisava respirar fundo e manter o controle das emoções afloradas dentro de mim, que não podia me quebrar outra vez sob o olhar do Leto mais novo, de sua equipe e principalmente de mamãe.
Quando girei a chave na maçaneta da porta de casa, já estava escurecendo. O breu no apartamento me deu a certeza que ninguém havia chegado ainda, o que me causou um grande alívio, assim evitaria qualquer série de perguntas sobre o momento em que eu ainda precisava processar.
Apenas deixei minha bolsa sobre o balcão da cozinha americana e segui rumo ao banheiro, não ousei ligar nenhuma das luzes, preferia não me olhar no espelho, não queria ver pelo reflexo o estrago que o encontro com o meu passado me deixou abalada.
Liguei o chuveiro antes de tirar a roupa, deixei-as no chão e me joguei debaixo da água quente. Passei com toda força a esponja pelo corpo, era a necessidade e a urgência de me sentir limpa, de dar um jeito de acalmar o meu maldito coração, que parecia sentir a mesma dor de alguns anos.
Mesmo com todas as sessões de terapia que fiz quando me mudei para NY, a dor que sentia não foi embora, muito pelo contrário, ficava cada vez piores. Os meus gritos implorando para que ele não me deixasse me tirou o sono por muito tempo, e eu temia que não sobrasse mais nada de mim.
Não foi fácil esquecer o passado. Demorou mais do que eu poderia imaginar, foram anos tentando fazer o sentimento pelo Leto e a dor que me causou morrerem, foram anos tentando seguir em frente sem aquela cena na minha vida, considerando a situação atual, foram anos jogados pelo ralo.
Sento no chão do box, sentindo minha garganta fechar por conta do nó que estava se formado, sentindo o calor da água quente me sufocar. Isso não acontecia há pouco mais de um ano desde a última onda pesada em relação ao meu passado. Enrolo o máximo que posso no chuveiro, pois não estou preparada para falar em alto e bom tom tudo que aconteceu para Diarah.
♬
Eu sempre fui uma garota fechada, meus pais eram ausentes, na verdade, minha mãe era bem mais ausente que meu pai. Por mais que ela não tornasse sua vida pública nas redes sociais, acabávamos tendo toda exposição devido ao seu trabalho com o ator e cantor mais cobiçado de Hollywood inteira. A influência de seu chefe tornava não só a vida deles, mas a minha também, um livro aberto para as pessoas. Durante uma época eu achava um máximo o trabalho de Emma, mas a partir do momento em que os comentários de terceiros que nem me conheciam, e também dos paparazzis que estavam sempre em busca de alguma foto ou informação relacionada ao ator de Hollywood toda vez saia com meus pais passou a me incomodar completamente, comecei a achar um saco e a cada dia tinha mais a certeza que queria distância daquele alvoroço todo.
O seu trabalho era importante demais para ligar, e a falta de tempo não lhe permitia ter noção das companhias que me cercavam, de como era meu comportamento na escola e fora dela, ou de como eu era atração, ou uma mera distração para as meninas populares.
Descia do carro do Leto mais novo, temendo um sermão de alguém mais velho e com uma bagagem boa de vida; tinha me metido em mais uma briga na escola, estava esperando por uma Emma furiosa, mas para a minha grande surpresa quem apareceu no lugar dela foi Jared.
— Emma está furiosa. — foi a primeira coisa que me falou desde que saímos da escola.
Me dirigia para a entrada de casa enquanto era seguida pelo mais velho.
— Diga a ela que não precisa se preocupar, na verdade, apenas fale que estou ótima. Ela nunca se preocupou comigo antes, não vai ser agora que vai fazer diferença. — dei de ombros. Não percebi que ele estava perto de mim, estava distraída demais procurando as chaves na minha bolsa.
— O que aconteceu? — ele retrucou, o tom de voz parecia preocupado. As duas safiras penetrantes esquadrinhavam meu rosto.
Soltei um suspiro pesado.
— Apenas cansei de ser saco de pancadas de patricinha mimada, e da minha vida ser um livro aberto graças a Emma.
Ao abrir a porta de casa, pela primeira vez olhei diretamente em seus olhos e involuntariamente corei quando nossos olhares se encontraram.
— Bem...Obrigada pela carona. — dei um pequeno sorriso.
Estava pronta para entrar em casa, mas sua mão grande e quente segurou meu cotovelo e fez com que choques elétricos atravessassem o meu corpo, me fez girar para encará-lo, curiosa para saber o que me falaria.
— Quer sair comigo?
— Como? — Franzi a testa, incrédula demais para raciocinar aquela pergunta.
— Você me ouviu.
Um sorriso no canto da boca fez meu coração bater pateticamente dentro do peito. Eu achava patético as mulheres serem loucas por ele, achava patético a forma como elas coravam sob seu olhar, sendo que eu havia feito o mesmo minutos atrás.
— Por que você, Jared Leto, o ator e cantor mais cobiçado de Hollywood e entre as famosas, iria querer sair com uma pessoa como eu? — meu tom de voz deixava claro o quanto estava surpresa.
— Tenho meus motivos.
— Sua fila de fãs não é longa o bastante? — questionei, levantando uma sobrancelha.
— Sexta à noite, se isso responde a sua pergunta. — sorriu para mim enquanto dava passos para trás, em direção ao seu carro.
— Vou pensar no seu caso, Leto.
Aquela foi a minha deixa, antes de entrar e fechar a porta atrás de mim O quão errado seria jantar com um cara de 41 anos quando eu tinha 18 anos? mordi o lábio inferior afim de reprimir um maldito sorriso que queria escapar.
♬
Levo as mãos à boca sufocando um soluço quando saio do transe após batidas suaves na porta me confirmarem que não estou mais sozinha. O banheiro está mais quente devido ao vapor da água.
— Ali? — escuto do outro lado a voz de Jordan. — Tá tudo bem aí dentro? — por mais que ele esteja tentando disfarçar, consigo sentir a preocupação carregada em sua voz.
Consigo ver a sombra de sua movimentação em frente à porta.
— Eu sabia que não era uma boa ideia ela ir à essa reunião. — o garoto esbravejou, com certeza para sua irmã.
— Ela foi a trabalho Jord, e também, ela precisava ver a mãe. — Ouço Dih responder. — Uma hora ela teria que passar por isso.
De acordo com os meus cálculos, tinha passado quase meia hora no chuveiro; saio enrolada em uma toalha e assim que abro a porta vejo o moreno encostado na parede em frente, com a mão suspensa para arrumar os óculos redondos em seu rosto. Não preciso pronunciar nada, minha cara inchada faz todo o serviço, permito que ele me puxe para seus braços e deposite um beijo estalado em meus cabelos molhados.
— Tudo bem? — mesmo sabendo a resposta, ele pergunta.
— Tive outra onda, forte dessa vez, mas vou ficar bem. — sussurro fechando os olhos. — Sempre fico.
Encontrar Diarah sentada na minha cama não foi nenhuma surpresa. Minha gata, Gucci, estava confortavelmente aconchegada no colo dela, enquanto recebia carinho na cabeça e nas orelhas.
Diferente do olhar aborrecido de seu irmão, o de Diarah transmite compreensão, como se entendesse que eu precisava ir a essa reunião, como se entendesse o motivo de eu ter aceitado o cargo na banda. Mesmo Jordan tentando disfarçar o descontentamento pela minha decisão, assim como eu, ele também tinha ciência de que uma parte minha tinha aceitado pela ótima oportunidade de adquirir conhecimento e experiências na área que escolhi seguir, mas ele não era nenhum bobo e sabia que a outra parte era por causa de Jared, assim como também era por causa de Emma, invés de só vê-la por uma tela ou apenas nas vezes que ela decidia me visitar, eu ficaria ao lado dela durante meses.
— Foi tão ruim assim? — perguntou e eu fiz uma cara de choro.
Caminhei na direção da minha melhor amiga e deixei meu corpo cair ao seu lado, e ela não esperou por nenhuma reação minha, foi logo me puxando para deitar a cabeça em seu colo o que fez Gucci ronronar em protesto antes de me olhar feio e descer da cama.
— Estou me sentindo tão humilhada. — sussurrei, lutando para não desabar outra vez.
— Não consigo imaginar o quão difícil foi reencontrá-lo. — ela movimentava as mãos em meus cabelos molhados.
♬
Quando Emma ligou avisando sobre a tal Sra.Wilks, de cara disse que não ia, pois não precisava de psicologia nenhuma, que ficaria bem por minha conta própria, o que nós duas sabíamos que não era verdade. No fim, acabei sentada na cadeira da mulher na Segunda-feira, no horário combinado.
Como foi a minha primeira vez em uma consulta, a senhora magra e alta, de cabelos loiros, curtos e ondulados exigiu que queria me ver todos os dias daquela semana. As primeiras conversas não foram tão ruins como tinha imaginado, apenas fez perguntas básicas sobre mim, minha família e a relação com meus pais, sobre como havia sido minha escola em LA, cheguei até a comentar qual curso pretendia começar na faculdade, em momento algum havíamos tocado no ponto real de eu estar no fundo do poço para estar sentada diante dela.
No entanto, naquele terceiro dia, ela não hesitou ao me perguntar o que aconteceu na última noite na Cidade dos Anjos. Meu coração acelerou, a ferida crescente no peito martelou avisando que estava intacta ali.
Doía, doía muito, doía tanto ao ponto de me faltar o ar.
O medo de Emma descobrir com quem me envolvi deixou o pânico estampado em meu rosto, e a senhora sentada à minha frente percebeu.
— Alissa? Pode falar, querida. Está conversa é particular, apenas entre eu e você.
Mesmo que o intuito tenha sido me tranquilizar, ela conseguiu me deixar mais nervosa ainda, não quero falar sobre Jared, engoli em seco sentindo minha garganta arder, e de repente tudo o que queria era estar em casa.
Com as mãos agarradas à bolsa em meu colo, eu observei a senhora anotar algo na prancheta que porta sob seu colo. Quando voltou os olhos em minha direção percebi que estava pronta para pronunciar algo que eu não fazia a mínima ideia do que seria, porque assim que comecei a sentir dificuldade de respirar, levantei rapidamente da cadeira e deixei sua sala praticamente correndo.
A explosão de sentimentos fazia meu corpo inteiro tremer, eu não fazia a mínima ideia de como tinha conseguido chegar ao meu prédio e muito menos por qual motivo estava na frente do apartamento dos irmãos, com o dedo afundado na campainha.
Do lado de dentro do apartamento, escutei Diarah gritar um "já vai", e em seguida o barulho da fechadura me fez piscar algumas vezes.
— Ali? — ela disse surpresa. — Você tá bem?
Suas mãos tocaram em meus braços e me apertaram levemente, depois uma delas passou pelo meu rosto e pela minha testa, aferindo minha temperatura.
Era para eu estar em casa. De preferência de banho tomado e deitada na minha cama, tentando acalmar aquela bomba prestes a explodir dentro de mim.
Bastou o olhar preocupado da morena para me fazer agir no impulso e agarrá-la em um abraço apertado acompanhado de um soluço atrás do outro.
Eu estava tão desconcertada. Tão quebrada.
Jordan piscou quando me viu agarrada a sua irmã, e no segundo seguinte avançou em nossa direção como um leão defendendo seus filhotes, o olhar angustiado que me lançou me fez fechar os olhos e apertar um pouco mais a garota, que me segurava enquanto acariciava as minhas costas na tentativa falha de me acalmar.
—O que aconteceu, Ali? Aconteceu alguma coisa com a Prada, ou com você? Você se machucou? — ele desatou a fazer perguntas, e se não fosse pela intervenção da irmã, ele não pararia de fazê-las.
— Calma, Jord. Ela está nervosa, precisa se acalmar, está tremendo muito. — sussurrou com a voz calma, mas no fundo, carregava uma certa aflição.
Quando por outra vez dei por mim, já estava sentada no enorme sofá dos Cohen, com um copo de água em mãos e Diarah agachada à minha frente enquanto seu irmão se acomodava ao meu lado, ambos tensos e alarmados para qualquer reação que poderia vir de mim.
Pisquei mais uma vez, e me repreendi mentalmente por estar ali. Simplesmente abandonei a sessão com a sra.Wilks quando ela tentou mudar de assunto, e quando sua sala enorme pareceu se tornar minúscula demais de uma hora pra outra. Pretendia correr para o meu apartamento, mas os flashbacks e as palavras de Leto em vários momentos ecoavam pela minha cabeça, me atordoavam demais ao ponto de me fazer agir no automático e só percebi o que fazia quando já estava berrando a campainha deles.
Levei o copo de água à boca, e dei um longo gole enquanto era examinada pelos dois seres humanos, as buzinas e barulhos do trânsito caótico eram os únicos sons que ecoavam pelo ambiente.
— O que houve, Ali? — Dih acariciou cuidadosamente meus joelhos.
Engoli em seco e desviei meus olhos dos dela.
— Eu... — comecei a falar, apertando o copo com as duas mãos. — O real motivo de eu ter me mudado para cá, é porque me envolvi com uma pessoa errada.
A garota à minha frente desviou os olhos dos meus para encarar o irmão brevemente, e logo voltou a mim.
— Ele veio atrás de você? Lhe fez algo? — foi a vez de Jordan perguntar.
Balancei a cabeça negativamente, antes de continuar.
— Ele não sabe onde estou. Eu estava... — suspirei devagar; e limpei as lágrimas que insistiam em cair novamente. — Ele rejeitou um filho nosso, ele me deixou sozinha, sem saber o que fazer. Eu menti para os meus pais durante meses, arrisquei tudo o que tinha e o que não tinha por ele, me entreguei a ele de corpo e alma, pra no final das contas ele me humilhar e escolher a sua carreira ao invés de um filho que nem sequer tinha culpa.
Lancei aquela informação com tudo para eles. Com o tempo fui contando em detalhes quem era o tal cara, e como nossa história havia começado.
♬
— Serão sete meses fora de casa.
— Você é forte. Lembre-se que está indo para adquirir experiência no ramo, e quem sabe você não consegue se acertar com ele? Colocar as cartas na mesa, escutar o lado dele, deixa-lo explicar os motivos que o levaram a fazer o que ele fez?
Neguei, me sentando rapidamente na cama, indo para bem longe do alcance de suas mãos.
— Não, sem chances. Eu estou bem e o Jared... — engoli a saliva que amargava na boca. — está ótimo. Você precisava estar lá para ter visto o quão constrangedor e doloroso foi. Eu, uma idiota, me deixei levar pelas palavras bonitas que ele falava, pelo jeito galanteador que ele jogava, transei com ele por meses, menti para minha família, quebrei as regras e depois ele me dispensou. — despejei as palavras de uma vez, nem percebi que as lágrimas caiam manchando meu rosto. — Ele não foi humilhado. Eu fui. Fui largada naquela noite sem saber o que faria dali em diante.
— Quem você está querendo enganar? Você mesma? Você nunca esteve inteiramente bem, Ali. Aí dentro ainda tem resquícios de dor e mágoa, elas te acompanharão pelo resto da vida, acho que para diminuir isso e seguir em frente de uma vez por todas deve colocar a cartas na mesa com ele.
Não bastava simplesmente fechar os olhos para o que me aconteceu. A cada dia era uma luta diária para não desmoronar, foram anos de dedicação para o que sentia cicatrizar, e ainda assim, não cicatrizou por completo.
Ela não viveu o que eu vivi, ela não foi enganada como eu fui, então era fácil falar, mas na minha pele era difícil fazer.
Eu estava preparada para discordar e explicar pela milésima vez o quão humilhada fui, mas Dih continuou:
— O destino separou vocês anos atrás por que não era pra ser, mas quem sabe agora esse seja um sinal de que vocês devem ficar juntos? Ou de simplesmente perdoar um ao outro pelo erro cometido.
Balancei a cabeça de um lado para o outro novamente, negando, e andei até o meu guarda roupa.
— Não acredito em destino, e não quero nenhum contato com o Leto mais novo que não seja algo profissional. — falei, pegando qualquer peça de roupa e me tranquei outra vez no banheiro.
Quando retornei ao quarto, ele já estava vazio. Minhas duas malas estavam abertas no canto do quarto, no dia anterior a reunião não conseguia de jeito nenhum pregar os olhos e já tinha praticamente comido todos os meus dedos de tão nervosa que estava, então adiantei uma boa parte do que pretendia levar.
Me sentei na cama com os olhos fixos nas duas malas, meu celular estava abarrotado de mensagens, e uma delas era de Emma com o horário do jantar que teria naquela noite. Será que eu deveria aparecer? Shannon foi tão carinhoso e gentil ao me avisar sobre, já minha mãe tentou disfarçar a decepção quando eu murmurei uma desculpa esfarrapada para não ir.
O Leto mais velho sempre me tratou bem, sempre foi carinhoso e divertido quando nos encontrávamos, ele deve ter consciência do que eu e seu irmão mais novo fazíamos escondido dos olhares de todos, mas acredito que não faça ideia do que seu irmão me fez.
Após longos minutos em uma briga interna entre a minha razão que era a mais sensata e me avisava que eu deveria permanecer quietinha em casa, abrir uma garrafa de vinho e aproveitar as últimas horas com as duas pessoas que eu amava, e claro, com as minhas duas bolas de pelo, a minha teimosia ao contrário gritava que queria a todo custo aparecer naquele hotel, naquele jantar, levanto da cama decida a ir de uma vez por todas ao tal hotel. Coloquei o primeiro vestido que achei no guarda roupa, calcei uma botinha de cano baixo e agarrei o meu sobretudo enquanto saia do quarto.
— Hey! Estou terminando o jantar — Jordan começou a falar, mas se conteve ao me ver toda arrumada. — Vai sair?
— E....Emma vai passar aqui para me buscar, ela quer conversar comigo. — disse a primeira coisa que me veio à mente, no entanto, me arrependi no mesmo instante. Odiava mentir para ele. — Prometo que volto logo, quem sabe podemos nos agasalhar e abrir uma garrafa de vinho, huh? — enquanto arrumava a bolsa no ombro, me aproximava dele e depois de depositar um beijo calmo em seus lábios não esperei por sua resposta, sai rapidamente do apartamento rumo ao elevador.
A rua do meu bairro estava tranquila, a pracinha vazia, a noite fria era contemplada com alguns flocos de neve. Chamei o táxi com a mão, e assim que ele parou, eu entrei.
— Boa noite! Eu gostaria de ir ao hotel The Plaza.
Aproveitei para mandar uma mensagem para minha mãe, avisando que estava a caminho do local que parecia não ter fim. Enquanto olhava a ruas movimentada de NY, as lembranças me atormentavam.
Eu detestava esconder o que tínhamos dos meus pais. Detestava quando ele aparecia lá em casa para resolver algo da banda com Emma, ou simplesmente aceitava o convite do meu pai para jantar e bater um papo. E ele sabia o quanto eu odiava fingir trata-lo como um amigo da família, quando ainda estava tão fresca a memória da noite que nos encontramos, onde suas mãos e boca estiveram por todas as partes do meu corpo ao mesmo tempo que eu gemia seu nome.
E era por detestar tanto me conter diante da forma que me observava, como um predador atento aos mínimos detalhes de sua presa, que eu fazia questão de entrar correndo no escritório quando sabia que ele estava resolvendo algo com Emma apenas para vê-lo engolir em seco em resultado aos primeiros botões abertos da camisa social branca, e a saia colegial azul mais para cima, deixando minhas coxas à amostra.
Gostava de provocá-lo, de ver seus olhos azuis ficando escuros ao passarem pelas minhas coxas descobertas enquanto iam subindo e demoravam-se no decote.
Gostava ainda mais quando entrava no meu jogo e puxava assunto comigo, me provocando com a mesma voz rouca de quando transávamos, de como umedecia os lábios com a ponta da língua, e eu precisava disfarçar o incômodo entre as pernas e o formigamento que atravessava todo o meu corpo.
Ele adorava o efeito que causava sobre mim, e eu sabia devido ao sorriso perverso que me lançava. Quando Emma nos deixava a sós, ele fingia pegar algo próximo a mim apenas com a desculpa de se aproximar e beijava meus lábios rapidamente.
— Apesar do horário, o trânsito é sempre o mesmo...um caos. — Sai dos pensamentos quando o motorista me olhou pelo retrovisor enquanto tentava puxar assunto.
Estava prestes a explodir de tão nervosa. Senti um frio congelar todo o meu corpo quando o carro para na frente do hotel, pago o motorista e abro a porta para saltar.
Ergo a cabeça para encarar as bandeiras que balançam por causa do vento, e a fachada inteiramente branca e sofisticada do hotel que ocupa a privilegiada localização na Central Park South.
A primeira coisa que vi assim que entrei foram dois lustres grandes e luxuosos demais, depois algumas pessoas no saguão conversavam animadamente, então, rodeado por algumas pessoas avistei as duas safiras que fez os pensamentos se dispersarem no momento em que caíram sobre mim.
— Você veio. — Shannon caminhou em minha direção. Não conseguir esconder o sorriso quando ele me envolveu em seus braços fortes e tatuados.
Ele é incrivelmente bonito. Os olhos verdes são tudo, o sorriso matador, com certeza deixa as mulheres sem graça.
— Sim. Eu conseguir fazer o que precisava a tempo.
— Venha, vou te levar para conhecer melhor algumas pessoas. — Shannon me soltou suavemente enquanto falava e me puxava pela mão na direção do grupo que estava ao redor de seu irmão mais novo.
O cômodo onde seria o jantar era ainda mais deslumbrante que a recepção. Me sentei entre Shayla e Emma, que engatavam uma conversa animada com todos as outras pessoas da equipe.
Durante a refeição, minha mãe e Jared conversavam sobre alguns projetos que viriam logo mais para a divulgação do novo álbum, de vez em quando uma ou outra pessoa da equipe puxava assunto comigo e Shannon também aproveitou para me contar mais suas experiências na estrada, fora isso fiquei quieta comendo e escutando por cima o que mamãe falava.
— Emma, as pessoas irão adorar as novas faixas que produzimos. É algo diferente de tudo que já fizemos, espero que as pessoas entendam o que queremos passar com o conceito álbum e com as músicas. Elas irão se apaixonar, assim como Alissa já amou ou ainda ama alguns dos nossos singles passados. — Jared disse, mas em momento algum me olhou. Meu corpo tencionou com a menção de meu nome saindo de seus lábios, e devido aos olhares de quem participava da conversa.
— Tenho certeza que está incrível. — murmurei baixo, seguido de um sorriso forçado sob o olhar de Emma.
Tentei interagir ao máximo, mas era complicado nos momentos em que pegava Jared me olhando, ou quando demorávamos nos encarando em uma avaliação profunda e temerosa, até ver quem desviaria primeiro.
Há sete anos atrás, eu amava o jeito que os olhos azuis me observavam. No entanto, estava sendo constrangedor, ainda mais quando percebi que de tempos em tempos Shannon intercalava seu olhar entre mim e seu irmão.
Quando meu celular vibrou em minha bolsa, entendi como um sinal de que era a minha hora de meter o pé dali. O nome de Jordan piscava no visor, merda. Ia fazer duas horas que estou aqui.
— Eu...hum... preciso fazer uma ligação... — disse quando me levantei, atraindo olhares do pessoal. — Com licença.
Dei um sorriso antes de virar meus calcanhares para fora da sala de refeições. Passo pela recepção e apresso ainda mais os passos na direção da saída, respiro fundo quando sinto o vento me alcançar.
Disco o número de Jordan, enquanto chamo um táxi com a mão. Abro a porta do automóvel amarelo que para no acostamento, meu corpo inteiro fica estático quando ouço alguém me chamar.
— Alissa!
Eu travei na mesma hora, uma onda de nervosismo fez gelar o estômago devido à forma como meu nome foi gritado pela voz rouca e firme. Aquela voz ainda me causa arrepios. Me viro em câmera lenta. Jared Leto.
Ele apressa os passos na direção que estou, e rapidamente dou as costas para ele, rezando para todos os santos para que desse tempo de entrar no carro e evitar qualquer troca de palavras com ele. No entanto, levo aquilo como uma punição por mentir para Jordan, quando estava prestes a entrar no táxi, sinto aquela mão grande segurar meu braço, impedindo qualquer ação.
Conheço esse toque tão bem. Fito a mão agarrada a mim e lentamente vou subindo meu olhar pelo braço com uma tatuagem do símbolo Glyphos acompanhado de algumas veias salientes, até chegar em seus olhos que me fazem engolir em seco.
— Alissa... — sussurrou.
— O que quer? — tentei não demonstrar nenhum sentimento na minha voz, mas o que era pra ser uma simples pergunta, foi pronunciada com tanto ódio, mas não estranhei nenhum pouco aquela reação e ele também não parecia surpreso.
— Que você pare de agir como se não nos conhecêssemos.
Balancei a cabeça pra cima e para baixo, assentindo. Um sorriso irônico enfeitava meus lábios.
— Ah, é por isso? — fui sarcástica. — Me desculpe, Jared Leto... não quis magoar seu ego.
— Temos que conversar, Alissa. — ele disse dando passos em minha direção.
— Conversar? Não temos nada para conversar. Agora, eu preciso ir embora, por favor. — tentei me desvencilhar de seu toque, mas ele não me soltou.
— Você vai me escutar. — disse grosseiramente, fechou a porta do táxi e mandou o motorista ir embora. — Já se passaram sete anos, desde aquele dia não tive nenhuma notícia suas.
— O que esperava depois daquele dia? Você deixou bem claro que não me queria em sua vida, então eu fui embora. Eu mudei completamente durante todos esses anos, mudei em todos os sentidos inclusive no que por anos esperou uma explicação palpável para fazer o que fez, mas agora, eu não quero saber de mais nada. — não movi um músculo diante a aproximação de seu corpo, muito menos não desviei nossos olhares, mas eu sentia as carnes do meu corpo tremerem. — Não sou a Alissa ingênua e boba que era.
— Eu nunca pensei que fosse ingênua, muito menos boba.
— No entanto me tratou como uma, me fez de palhaça.
— Por favor, Ali... — levantei a mão, fazendo-o parar de falar.
Eu não queria ouvir seja lá qual desculpa ele articulou para me dizer.
— Não quero ouvir suas desculpas, Jared. Esquece. Já faz tanto tempo, por favor. — minha voz saiu como uma suplica para que me deixasse em paz. Nos encaramos por bastante tempo, até que ele assentiu com a cabeça e atendeu meu pedido.
Chamei com a mão outro táxi enquanto ainda era observada pelo ser humano que tinha partido meu coração, inclusive ele estava a mil, e eu precisava me acalmar urgente ou acabaria novamente em lágrimas, e isso era o que eu menos queria. Não esperei nem o carro parar completamente no meio fio, abrir a porta o mais rápido e falei o endereço enquanto escorregava para dentro.
Pude ver Jared ficando cada vez para trás a medida que o táxi se distanciava.
Estava bem mais tranquila quando coloquei os pés para fora do elevador, e enquanto girava a chave na fechadura da porta de casa, pude escutar gargalhadas de crianças ecoando por todo ambiente; e quando abrir a porta de casa vi Rachel, Valentim e Jordan segurando as almofadas do sofá, provavelmente estavam fazendo guerra com elas.
— O que estão fazendo aqui? Deveriam estar dormindo. — falei fechando a porta enquanto tirava minha bota e meu sobretudo.
— Ajudamos mamãe a fazer Waffles para você. Tio Jordan já roubou dois. — Valentim dedurou apontando para o moreno que levantou as mãos em forma de redenção.
— Eu não estou roubando nada, vocês me ofereceram e eu apenas aceitei. — Jord tentou se defender.
Sorri deixando minha bolsa e o sobretudo sobre o mármore branco que dividia a cozinha da sala.
— É verdade que vai conhecer muitos lugares? — Rachel perguntou com os olhinhos curiosos.
— É verdade. — concordei com a cabeça, me sentando ao lado de Jordan no sofá enquanto pegava um Waffle.
— A mamãe disse que você vai trabalhar em um show, deve ser legal. — ela concluiu.
Estava bem tarde para eles estarem acordados. Rachel bochechou e eu concluir que deveria leva-los para casa.
— Vamos, vou deixá-los em casa. — me levantei fazendo sinal com a mão para eles se levantarem.
Depois de darem boa noite para Jordan, pegamos o elevador para o próximo andar, Vick preparava o almoço enquanto assistia um episódio de friends na tv, ela sorriu ao nos ver entrando no apartamento.
Ela tinha 34 anos, e era mãe solteira. Se mudou para o apartamento no andar de acima do meu, um ano depois que eu já estava em NY. Morava sozinha com as crianças, meses depois da mudança ela conseguiu um emprego como enfermeira no hospital central e como eu estava no início da faculdade e queria ganhar meu próprio dinheiro, me ofereci para cuidar das crianças enquanto ela trabalhava.
— Eles estavam brincando de guerra de almofadas com Jordan uma hora dessas. — murmurei sorrindo, ela assentiu e devolveu o sorriso.
— Passaram a tarde pedindo para ajudá-los a fazer Waffles para você. — contou olhando para as duas crianças que encaravam a tela grande e luminosa. — Diarah me contou a novidade, então a senhorita se meteu em uma turnê.
Ri do seu tom divertido e assenti com a cabeça.
— Sim. Vou ganhar mais do que ganho na editora, e também estarei atuando na área que me especifiquei. — expliquei resumidamente.
— Você viaja amanhã? — perguntou e eu assenti. — Espero que dê tudo certo. Estou feliz por você, Ludbrook.
Murmurei um agradecimento, e me agachei para ficar na altura dos dois seres humaninhos que me olhavam tristonhos.
— Alissa, promete que vai voltar logo? — Rachel perguntou apertando seu coelhinho de pelúcia nos braços.
— Prometo de dedinho. — levanto a mão com o punho cerrado e apenas o mindinho arqueado, jurando a promessa, e ela levanta o mindinho para enroscar ao meu, selando a minha palavra.
— Já estamos com saudades. — desta vez foi Valentim que sussurrou.
Puxei os dois para um abraço apertado, aproveitei o momento para inspirar o cheiro de shampoo de criança. Eu sentiria tanta falta desses dois.
— Eu também, meus amores. — foi inevitável não fungar diante daquelas duas crianças. — Agora, vamos os dois para a cama, amanhã vocês têm aula.
Valentim fez careta diante a palavra aula. Ele odiava ir à escola, perdi as contas de quantas vezes tentou me convencer em deixa-lo ficar em casa sem que Vick soubesse.
— Acho que vou ficar doente. — disse o garoto, começando o drama de todos os dias. Ri de sua desculpa esfarrapada para não ir à escola.
— Você diz isso todos os dias. — Vick falou enquanto os colocava na direção do corredor.
— Boa noite, Alissa. — as crianças falaram em uníssono, acenando para mim.
Soltei um beijo no ar para eles, e girei os calcanhares para fora do apartamento. Quando voltei para casa, Diarah e Jordan estavam de pijama jogados no meu sofá, pareciam decidir que filme iriamos assistir na minha última noite em NY.
— Cheguem pra lá, acho que devemos assistir um filme de terror. — eu disse me jogando no meio dos dois.
Eu não era do tipo fã de filme de terror, mas aquela noite merecia um pouco de medo para dispersar o nervosismo que era responsável pelo frio na barriga, e pelas vezes que me peguei enchendo a boca de ar, fazendo com que as bochechas inflassem, como uma criança de cinco anos fazendo birra, e essa birra era com meus próprios pensamentos.
Não sei como Diarah conseguia dormir assistindo Invocação do Mal, apenas eu e Jordan assistimos até o final, enquanto nos enchíamos de pipoca que fizemos na metade do filme. O moreno desligou a televisão, e pegou a irmã no colo para leva-la até o apartamento ao lado.
Me levantei recolhendo o balde de pipoca, e os copos com coca-cola. Aproveitei que estava na cozinha para tomar água, me sentei no balcão batucando os dedos no mármore branco.
— Você precisa relaxar. — Jordan surgiu entrando na cozinha e parou entre as minhas pernas.
— Ah, é? Preciso mesmo relaxar? — perguntei enquanto era puxada para a ponta do balcão, sorri sentindo os lábios dele tocarem a pele do meu pescoço, ele murmurou um "uhum", conhecendo-o como bem conheço, poderia jurar que o mesmo sorria. — E como podemos resolver isso?
— Acho que sei uma maneira. — um gritinho escapou quando suas mãos me agarraram e me suspenderam, fui obrigada a enroscar as pernas em sua cintura, riamos juntos enquanto deixei que me levasse para o quarto.
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