O vento daquela madrugada de inverno o incomodava. Odiava inverno. Odiava neve. No momento, o que mais desejava era voltar para sua casa, onde uma lareira o esperava – talvez. Não sabia se era uma boa idéia fazer isso, Raphael poderia se atirar no fogo.

Desde que Alexander havia trazido-o para a vida eterna, o rapaz andava muito quieto. Vivera sua primeira semana intensamente, sempre descobrindo alguma coisa nova e divertida para fazer, uma cor nova no céu noturno... Contudo, agora a realidade era outra. Não eram raras as vezes em que o encontrava observando o teclado do piano, sem mexer-se ou sem dizer nada. Raphael conseguia passar horas assim, intermináveis horas de um silêncio angustiante. Alexander queria saber o que se passava, mas seu aprendiz nunca mais abrira os lábios. Somente fitava-o longamente, os olhos distantes, tristes. Talvez quisesse dizer alguma coisa e não soubesse como fazer isso.

E como isso o deixava irritado! Por que Raphael não falava nada? Às vezes sentia vontade de batê-lo na parede, usar da força para arrancar alguma palavra... Nem que fosse um grito de dor. Não entendia mais nada. Tinha que dar um jeito naquela situação. Tinha que fazer o rapaz pronunciar-se, e isso foi o que fez Alexander passar rapidamente pelo jardim coberto de neve de sua mansão, pisando firme. Pensou ter escutado um barulho vindo das escadas lá de dentro, mas nada fez a respeito. Tocou a mão na maçaneta da porta e puxou-a. Sabia que Raphael estava tão alheio que nunca mais trancara as portas.

Então, quando finalmente saiu daquele odioso ar gelado de janeiro, Alexander foi envolvido por dois braços trêmulos que o puxaram, trazendo-o de encontro para seu choroso pupilo.

- Pensei que você tivesse me deixado para sempre.

A voz do rapaz loiro falhava em alguns momentos, como se ele tivesse se esquecido da maneira correta de usá-la. As mãos tremiam, mas seu abraço era firme, quase possessivo. Porém, o rosto estava marcado por caminhos rubros de sangue seco, e sua expressão era a de alguém que havia sofrido muito em um curto espaço de tempo.

- Não diga besteiras – replicou o mestre, ajeitando-se entre aqueles braços que o apertavam fortemente. – Quando eu disse que ia ir embora?

- Mas... Eu só ando te trazendo problemas. – replicou Raphael, abaixando a cabeça. – Aquela história da moça... No baile de ontem... Eu fiz tudo dar errado. E, além disso...

O rapaz emudeceu de repente, escondendo o rosto no peito do inglês. Apertou-lhe a camisa, angustiado. Alexander percebeu que ele estava chorando outra vez.

- Todos que eu amo vão embora. Minha mãe, meu primo, meu irmão... Não quero ficar sozinho, Alexander, tenho medo. Não me deixe. Nunca. Por favor.

Raphael começou a tremer mais intensamente. Seu mestre suspirou, sem nada dizer. Contudo, sentiu um nó formar-se em sua garganta. Odiou-se por sentir isso, mas logo passeava suas mãos pelos longos cachos dourados do mais jovem em seus braços, percebendo que ele se acalmava enquanto recebia as carícias.

- Você vai viver para sempre, não vai?

O rapaz murmurou um “sim” lacrimoso. Alexander riu baixo. Ajeitou-se outra vez, fazendo suas mãos tocarem o rosto de seu pupilo, de uma maneira que pudesse observar os olhos dele. Queria ver aqueles olhos castanhos, poder falar olhando diretamente neles.

- Então. Enquanto você viver, nunca estará só. Porque estarei sempre com você, meu caro.

Seguiram-se alguns minutos de silêncio. Raphael desviou o olhar, constrangido, soltando-se devagar de seu mestre para depois voltar a abraçá-lo com toda a força.

- Você promete? – murmurou, sua voz ainda sumindo.

- Claro que prometo. Você não confia em mim?

O loiro sorriu fracamente, achegando-se mais.

- Confio.

Novamente silenciou e outra lágrima vermelha desceu por seu rosto. Alexander inclinou-se, tocando com seus lábios aquela lágrima.

-Não chore. Dói-me te ver nesse estado.

Raphael assentiu, mexendo imperceptivelmente a cabeça e por lá ficou. E Alexander sentiu que não precisava de nenhuma lareira quando tinha aquele garoto teimoso em seus braços.

Notas finais
Eu quero um Alexander ):
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!