Money
39 Pipocas, Pizzas e Promessas
Na manhã de sábado, Noah acordou com a notícia de que sua mãe sairia para jantar com um “velho amigo”. Ela parecia animada, até passou um perfume diferente.
— Só um jantar, Noah. Ele me ajudou com algumas pendências do Alex no banco — disse, ajeitando o cabelo diante do espelho.
Noah tentou não franzir a testa.
— Vocês vão onde?
— Num restaurante novo no centro. Não vou demorar. Théo já tomou café. Você dá um olho nele?
— Claro — respondeu, já puxando o celular do bolso. Assim que a porta se fechou atrás dela, ele mandou uma mensagem:
“Minha mãe vai sair. Pode vir me ajudar a cuidar do Théo? Prometo pizza e maratona de filmes.”
Luna respondeu rápido:
“Se tiver sorvete também, tô dentro.”
---
Pouco tempo depois, Luna chegou com o cabelo preso de qualquer jeito, moletom largo e um sorriso preguiçoso.
— Alerta: essa é a versão conforto da Luna — anunciou, jogando a mochila no sofá.
Théo correu até ela, abraçando suas pernas. Já tinha se afeiçoado à presença constante e doce dela em casa.
— Que bom que você veio. Estava me sentindo um pouco excluído — disse Noah, fingindo drama.
— Acha que vou deixar o Theo aqui sozinho com você? Imagina, traumatiza a criança — retrucou Luna, sorrindo.
Os três passaram a tarde brincando, com direito a pizza, almofadas espalhadas pela sala e muita risada. À noite, com Théo já dormindo no sofá, Luna e Noah se sentaram no chão, encostados no sofá.
— Eu achei mais uma coisa — disse Noah, pegando uma pasta que mantinha escondida no armário.
— O que é isso?
— Documentos antigos do Alex. Um relatório estranho sobre transações no banco, com nomes que ele rabiscou ao lado.
Luna folheou, observando o cuidado que Alex teve em não deixar nada evidente demais. Um dos nomes riscados chamou atenção.
— Esse sobrenome é conhecido. Apareceu na primeira notícia do acidente dos meus pais.
Eles trocaram olhares. Era uma ponta solta, um fiapo de algo maior.
— Talvez o Alex estivesse realmente chegando perto de algo — disse Noah.
— E talvez por isso…
Ele assentiu, sério.
Mas antes que o clima pesasse, Noah se levantou e pegou duas colheres e um pote de sorvete do congelador.
— Uma pausa para o nosso ritual oficial: sorvete direto do pote e filme ruim dos anos 2000.
— Já disse que você tem um gosto duvidoso para filmes?
— Já. Mas agora é nossa tradição — piscou para ela.
— Certo, mas se me obrigar a assistir mais uma comédia que termina num aeroporto, eu juro que te dou spoiler do final.
— Luna! Você me ameaça com spoilers? Isso é guerra!
— Guerra com sorvete — completou ela, rindo.
Depois de tanto tempo no escuro da dor, aquele momento parecia um farol.
Quando o filme terminou, estavam deitados lado a lado no tapete, as mãos entrelaçadas.
— Você sabia que está proibida de sumir da minha vida agora, né? — sussurrou ele.
— E você de me obrigar a assistir mais filmes ruins.
— Fechado.
E, pela primeira vez naquela casa em muito tempo, não havia silêncio de luto — apenas um silêncio tranquilo, preenchido por dois corações aprendendo a bater juntos.
Fale com o autor