Money
9 Entre Silêncios
Notas iniciais
Luna
Desde que cheguei, tenho falado com meus pais todas as noites. Chamadas de vídeo longas, cheias de perguntas, risadas e palavras de encorajamento. Às vezes, só o som da voz deles já me alivia. Outras vezes, me faz chorar depois que a ligação termina. É como se o amor deixasse a saudade mais viva.
Na noite passada, papai disse que estava orgulhoso de como eu estava lidando com tudo. Mamãe contou que tinham conhecido uma família indiana incrível em uma reunião. Me desejaram boa aula, pediram fotos, perguntaram se eu estava comendo direito. Foi bom. E também foi triste. Quando desliguei, olhei pro teto escuro do quarto e desejei que eles estivessem logo de volta.
Hoje, na escola, me sentei ao lado de Emily no segundo tempo. Ela é uma das poucas pessoas que tentam puxar assunto de verdade.
— E aí, como tá sendo sobreviver à nossa escola? — ela brincou.
— Ainda me perco nos corredores, mas tô viva — respondi, sorrindo.
Ela riu, e depois olhou em direção à janela.
— Já falou com o Noah?
— O Noah? — perguntei, meio surpresa.
— É... ele fica sempre naquele banco do parque, no intervalo. Antigamente ele era mais sociável. Meio calado, mas conversava. Desde que o irmão dele morreu, mudou muito.
— O irmão dele morreu?
— É... já faz um tempo. O Alex. Ele era tipo... o cara perfeito. Todo mundo gostava dele. Foi um baque pra muita gente. Mas pro Noah... foi como se uma parte dele tivesse ido junto.
Fiquei em silêncio. Não esperava ouvir isso. E, estranhamente, senti uma vontade de ir até ele.
No intervalo, sem pensar demais, fui até o parque. E lá estava ele. Sentado no mesmo banco. Sem fones, dessa vez. Apenas olhando para frente, como se estivesse esperando algo — ou alguém.
— Oi — disse, me aproximando devagar.
— Oi.
Dessa vez, ele olhou direto pra mim. Não com surpresa, mas com uma tranquilidade que me fez respirar mais leve. Sentei ao lado dele.
Ficamos alguns minutos em silêncio. E de novo, não foi estranho.
— Você sempre vem aqui? — perguntei.
— Quase sempre. Me ajuda a pensar.
— Pensar no quê?
Ele hesitou. — Em coisas que não fazem sentido na hora, mas fazem depois.
Achei a resposta estranha... e bonita. Como ele.
— Eu tiraria uma foto disso — falei, apontando para o lago, com as folhas flutuando e o reflexo do céu. — Meus pais dizem que eu vejo o mundo diferente.
— Eles têm razão — ele disse, me olhando com um leve sorriso.
Aquilo me pegou desprevenida. Não pelo que ele disse. Mas pela forma. Era como se ele tivesse... visto. De verdade.
— Você ainda escreve? — perguntei.
Ele tirou um papel dobrado do bolso. Não me mostrou. Mas segurou entre os dedos, como algo importante demais pra rasgar, e ao mesmo tempo frágil demais pra entregar.
— Tento — respondeu.
Silêncio de novo. Mas um silêncio que dizia muito.
— Sabe... — eu disse, encarando as árvores — tem dias que tudo parece se encaixar. Como se, por um segundo, o mundo estivesse no lugar.
— E às vezes parece fora de ordem o tempo todo — ele respondeu, com um meio sorriso.
Olhei pra ele. Não entendi exatamente o que ele quis dizer. Mas havia uma sinceridade ali. Fiquei com vontade de saber mais. Só não perguntei. Ainda.
O sinal tocou.
Nos levantamos juntos. E, dessa vez, andamos lado a lado até o corredor.
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