Money
55 Depois da Tempestade
O silêncio deixou de machucar aos poucos.
Não de uma vez.
Não como milagre.
Mas em pequenas coisas.
No café voltando a ter gosto.
Nas risadas espontâneas do Théo.
Na Emily abrindo as cortinas da casa outra vez.
No Noah dormindo uma noite inteira sem acordar assustado.
E principalmente…
Na culpa indo embora.
Devagar.
Alguns meses depois
Luna estava sentada na varanda da casa dos tios, revisando sua inscrição para faculdade de fotojornalismo, quando ouviu buzina.
Ela já sorriu antes mesmo de olhar.
Noah.
Encostado no carro velho que insistia em sobreviver.
Moletom cinza.
Cabelo bagunçado.
Sorriso torto.
O coração dela ainda fazia aquilo.
Mesmo depois de tudo.
Ela desceu correndo os degraus.
— Você sabe que pessoas normais mandam mensagem dizendo “cheguei”, né?
Noah segurou sua cintura imediatamente.
— E perder sua cara de surpresa? Nunca.
Ela riu baixinho.
Aquele tipo de riso leve.
Que antes parecia impossível.
Então ele beijou ela.
Devagar.
Sem pressa.
Como quem ainda agradecia por ela existir.
Porque às vezes Noah ainda lembrava da chuva.
Do carro.
Do quase.
E toda vez beijava Luna como alguém que venceu o medo de perdê-la.
Rotina
As coisas começaram a mudar.
Emily voltou a trabalhar.
Fazia terapia.
Ainda tinha dias ruins.
Mas agora ria de verdade.
Théo praticamente adotou Luna oficialmente.
— Se vocês casarem, você vai morar aqui pra sempre?
Luna engasgou com refrigerante.
Noah começou a rir imediatamente.
— Calma, desesperado.
— Eu só perguntei!
Théo cruzou os braços.
— Mas você ama ela.
Silêncio.
Noah olhou para Luna.
Pequeno sorriso.
— Amo mesmo.
Ela sentiu o rosto esquentar.
Mesmo depois de tudo…
Ele ainda conseguia deixá-la nervosa.
Mais tarde
Naquela noite, Luna e Noah estavam deitados na caçamba da caminhonete dele, estacionados longe da cidade.
Velho hábito.
O céu estava absurdamente estrelado.
Ela desenhava círculos no braço dele.
— Você já percebeu que a gente sobreviveu?
Noah virou o rosto lentamente.
— É estranho, né?
Ela assentiu.
— Passei tanto tempo vivendo no modo sobrevivência que agora fico esperando algo ruim acontecer.
Ele puxou ela para mais perto.
— Eu também.
Silêncio confortável.
Depois Noah falou baixo:
— Mas acho que o Alex ia ficar bravo se eu passasse o resto da vida só tentando sobreviver.
Luna sorriu pequeno.
— Minha mãe também.
Ela vivia dizendo que felicidade dá trabalho.
— Sua mãe era inteligente.
— Ela também dizia que homens emocionados são os melhores.
Noah começou a rir.
— Isso foi indireta?
— Talvez.
Ele virou sobre ela devagar.
A mão acariciando o rosto dela.
Aqueles olhos castanhos ainda tinham tristeza.
Mas agora também tinham futuro.
— Obrigado por não desistir de mim.
A frase saiu sincera.
Crua.
Luna segurou o rosto dele imediatamente.
— Noah…
— Não, deixa eu falar.
Ele respirou fundo.
— Eu tava quebrado quando você apareceu.
Achei que nunca mais ia sentir alguma coisa boa sem culpa.
Ela sentiu os olhos marejarem.
— E aí você chegou bagunçando tudo.
Ela riu chorando.
— Isso foi romântico?
— Muito. Sou poeta.
— Horrível.
— Mas você ama.
— Amo.
Então ele beijou ela.
Devagar.
Longo.
Cheio de tudo que sobreviveram juntos.
Sem urgência.
Sem medo.
Só amor.
Um ano depois
Cartas chegaram.
Faculdades.
Luna passou em fotojornalismo.
Noah em Direito.
Ela chorou.
Emily chorou.
Théo fingiu não chorar.
Noah levantou Luna do chão girando ela pela sala.
— VOCÊ CONSEGUIU!
— VOCÊ TAMBÉM!
Rindo.
Se beijando.
Emily reclamando:
— Vocês vão derrubar a mesa!
Mas sorrindo enquanto falava.
Porque finalmente…
Aquela casa voltou a ter vida.
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Naquela madrugada, Luna acordou e encontrou Noah sentado na cama olhando a carta da faculdade.
— Ei…
Ele sorriu pequeno.
— Não consigo acreditar que existe futuro.
Ela aproximou.
Sentou no colo dele.
Braços em volta do pescoço.
— Existe.
Os olhos dele encontraram os dela.
— E você tá em todos os meus planos.
Pronto.
Fim.
Morte oficial da leitora.
😭💙
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