Monachopsis
1 Prólogo
Notas iniciais
AVISO: Essa história contém altas doses de clichês. Sério, ela foi feita pra ser clichezão mesmo!
Você sorri quando os olhos dele caem sobre você. Sempre havia se encantado com os castanhos tão parecidos com os seus, e, sempre que o encontro acontece, não consegue não sorrir.
Ele não liga. Fecha o punho e o esfrega contra seus cabelos escuros, bagunçando-os, e dói, de verdade. Sente as lágrimas se acumularem nos olhos, mas não as derrama: meninos brincam de machucar, de soco, lutinha, e é assim que chamam a atenção das meninas de quem gostam, mostram que se importam com os outros. Disseram-te isso a vida toda, e você acredita com todas as forças, porque do contrário, significa que não é nada demais.
São três anos de diferença, um abismo aos olhos de uma criança de onze anos, mas seu pai e sua mãe têm quase uma década de distância entre eles. Então não é impossível e não soa errado gostar de alguém três anos mais velho. Estende a mão, três dedos trêmulos erguidos, e se convence que logo aquele empecilho não importará mais.
Tem catorze anos quando percebe que é errado.
Percebe como os rapazes da escola se dobram e desdobram para agradar as namoradas. O modo como os gestos são carinhosos sem precisarem de esforço algum, e a única vez que se lembra de um deles segurar o pulso da namorada com força demais durante uma briga, a garota o mandou embora no momento que se soltou.
Decide que está farta.
Vira a página.
Diego não fica feliz em perder sua fã número um e, de repente, os papéis se invertem. Agora é o primo que corre atrás e implora por atenção, nem que sejam algumas migalhas, mas você já lhe deu todas as chances e fazia muito a paciência esgotara.
Recusa-se a se ceder para um ego machucado.
É ano novo.
Você está quase fazendo dezesseis. Seu vestido branco é bonito, e durante toda a noite tem cuidado para manter o tecido limpo, ficando longe de tias com copos de vinho e primos pequenos sujos de molho da macarronada.
Mas ano-novo significa festa em família, e festa em família significa passar a noite aturando Diego – e você pensa que nunca imaginou que um dia ele precisaria ser aturado ao invés de adorado. Tia Márcia parece animada com a aproximação entre o filho e você, e a pergunta chega eventualmente quando ele lhe abraça de surpresa, jogando um dos braços sobre seus ombros e a puxando contra o peito, no meio da sala, mesmo sabendo que você agora odeia o contato.
“Quando sai o namoro?” A tia pergunta, o sorriso quase lhe rasgando o rosto.
“Poxa, mãe”, Diego interrompe antes que possa responder, e a raiva cresce devagar, “por mim já tinha saído, mas a Isa não me dá mais bola.”
“Me solta!” Você empurra o braço dele para longe, sem medo de soar rude. Está farta, exausta, puta da vida, e não vai aguentar mais um minuto. “Eu passei a vida correndo atrás de você e ´cê só me maltratava. Sabe quando eu vou dar bola pra um escroto feito você? Nunca!”
Afasta-se, sem ligar para o clima desconfortável que instaurara, porque nenhum deles tinha ligado para o seu desconforto.
Quando a contagem regressiva começa, é erguida no ar. Sabe quem é, e os socos que deixa nas costas largas não o param. Assim que os fogos começam a estourar à meia-noite, sente a água fria da piscina envolvendo seu corpo, entrando pelo nariz e boca. Agita os braços e pernas de forma confusa até que consiga tirar a cabeça da água, tossindo o que entrara no pulmão e puxando ar para eles de forma desesperada. Diego está rindo, distante o bastante da borda para evitar que você possa o puxar, e corre de volta para a casa quando percebe que você saiu.
E então alguém estende a mão.
Você se lembra de o ver mais cedo, chegando com Diego e tia Márcia, e sabe que na hora perdeu um pouco do ar quando o olhou, mesmo que acompanhasse o estorvo do seu primo. O rapaz percebe sua dificuldade para sair da água, e não parece ligar em encharcar a própria roupa quando se ajoelha na borda e se abaixa, abraçando-a pela cintura, puxando-a para cima e te tirando da água, finalmente.
Não consegue agradecer, a raiva borbulhante em seu estômago roubando sua voz. Segue para a casa em passos pesados, sabendo que a maquiagem estava arruinada, os cabelos escorridos e da trilha molhada que deixava no caminho, não realmente ligando para nada daquilo. Todos estão comemorando, e seus olhos correm pela varanda. Pega um dos pratos que usaram para cortar a carne para o churrasco antes de colocar as peças na grelha, portanto cheio de sangue, e não pensa duas vezes antes de virá-lo no cabelo do primo, sorrindo satisfeita a medida que linhas avermelhadas começas a traçar caminho no rosto e camisa branca dele.
Sua mãe se apressa para te cobrir com uma toalha, e a família se divide entre observar horrorizada e se dobrar de rir.
“Você tá bem?”
Ergue os olhos, e é o rapaz de mais cedo, que havia te ajudado a sair da piscina. A blusa dele estava meio molhada, e um sorriso pequeno estava em seus lábios. É quase duas da manhã, e você estava sentada sozinha num canto da varanda, enrolada em uma toalha, repentinamente muito consciente da transparência de sua roupa e da facilidade que era para que ele visse seu conjunto de lingerie preto sob o tecido.
“Ah, sim.” Se enrola mais na toalha. “Obrigada por mais cedo.”
“Diego consegue ser um babaca às vezes.” Ele sorri, e você não tem certeza se é bom acompanhar o gesto, mas o faz mesmo assim.
Você se afasta um pouco, abrindo espaço no banco de madeira para ele, e o rapaz sorri tímido quando se encaixa onde, teoricamente, caberia uma criança pequena, não um adolescente quase jovem adulto. Prefere que ele fique sentado, porque de pé seu rosto ficava na altura da camisa molhada, e você conseguia ver a pele amorenada do abdômen e o contorno de seis gominhos que pareciam lutar para se formar. Juntando a altura dele, o maxilar quadrado, olhos e cabelo curto castanhos, apesar do corpo não ter terminado de se desenvolver ainda, era um pouco difícil acreditar que era apenas um universitário comum falando consigo, ao invés de um modelo adolescente.
O rapaz não te olha. Na verdade, age como se quisesse, mas desvia os olhos o tempo todo. O sorriso tímido se abre um pouco, dando visão dos dentes da frente um pouco separados, e não evita pensar que é fofo.
Henry é praticamente a timidez condensada.
No final da primeira semana do ano, te mandou uma solicitação de amizade no Facebook, e as conversas pareciam ser deveras desconfortáveis no princípio, até você deixar escapar que sua matéria favorita é matemática. Pensou que ele acharia estranho, mas o moreno se animou com isso, confessando estar no segundo semestre de Economia, e a partir de então o assunto fluiu.
Encontraram-se numa lanchonete para conversar sobre o curso dele, que era do seu interesse, e você teve que aprender que era necessário ter paciência para falar com Henry, porque qualquer coisa fazia sua timidez roubar sua voz e era preciso algum exercício para que frases conseguissem ser articuladas novamente. Contato físico, olhar uma pessoa nos olhos: tudo que exigisse um tanto mais de interação social o deixava em pânico.
A segunda vez, vocês foram ao parque. Passaram a tarde sentados na sombra de uma árvore, tomando sorvete enquanto ele explicava sobre a bolsa de valores e o melhor jeito de se aplicar nela, o que foi incrível porque assim que finanças ou matemática de forma quase geral se tornava o assunto principal, ele virava outra pessoa.
Na sétima vez que saíram juntos, você nunca soube o motivo exato, mas de repente estavam em silêncio. Você se virou devagar, para comentar alguma coisa sobre algo, realmente não se lembra, e então ele te beijou. Lembra-se de sentir o coração pular e quase soltou fogos de artifício, por mais que não tenha passado de um selinho. Ao se afastarem, o rosto dele estava vermelho, todo quente, e pelo modo como torceu os dedos você sabia que ele estava prestes a se desculpar.
Segurou-o pelas laterais do rosto, aproximando sua boca antes que as palavras pudessem ser formadas, grata quando Henry finalmente segurou sua cintura, bagunçando um pouco a saia do vestido preto que usava.
Os primeiros meses foram ótimos, e você finalmente entendeu o que era uma pessoa genuinamente te querer feliz. Seu namorado deixava flores de plástico na caixa do correio ou na janela de seu quarto, a levava para os lugares que gostava e se preocupava em saber se você estava bem e confortável todo o tempo.
Foi difícil para você aceitar o que sentia, mas estava dando certo. Vocês estavam dando certo. Juntos.
Até tudo dar errado, é claro.
Notas finais
Mas o que é esse projeto?
Se você já assistiu Cartas Para Julieta, já sabe. Basicamente, é uma equipe que está aqui para ler seus e-mails e aconselhar, não importa o tipo de problema que esteja rondando sua cabecinha. É preciso ter em mente que o time não é formado por profissionais da saúde, por isso, em alguns casos, a recomendação será busca-los, mas a gente faz o que pode na medida :)
É importante citar também que é tudo anônimo. Então, nenhuma Julieta vai ter seu e-mail ou algo do tipo, pode ficar tranquilx quanto a isso!
Se você quiser mandar um e-mail para a gente e tal, se sinta a vontade! Garanto que ninguém vai transformar em fanfic, como dito antes, essa brincadeira partiu de membros do grupo, e não de pessoas que não tenham concordado com a exposição dos acontecimentos ♥
Email: minhascartasparajulieta@gmail.com
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Vai fazer um autor muito feliz ♥
E, claro, em breve vamos ter os aesthetics dos personagens!
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