Mona Lisa

1 Pequeno sorriso, Grande pacote.


Notas iniciais
Esta one-shot é bem light, fiz pensando em criar uma fic grande, mas decidi não estragar a historia com a minha preguiça eterna de atualizar. Então criei esse pequeno, romance?
Nem eu tenho certeza do que isso é, é fofo, isso eu posso dizer.

Enjoy my darlings :3

Acho que me acostumei com essas sensações estranhas.

Todo fim de tarde é a mesma sádica rotina: Acordo quebrada, me arrumo preguiçosamente, como restos de pizza velha para enganar meu estomago e ando até o mesmo ponto de ônibus que ficava a três quadras do apartamento maltrapilho em que morava.

Não tinha um dos melhores empregos da cidade, porém não tinha o que reclamar já que era obrigada a me sustentar sozinha e tinha sorte de ser uma barman de uma boate de terceira categoria que pelos menos respeitava meus modos de me vestir e não precisava ficar seminua como metade das garotas daquele local.

É uma droga e é a minha vida.

Tinha apenas uma coisa que fazia parte da minha rotina que me dava animo.

Era sempre assim, me sentava no banco amarelado onde ficava o ponto de ônibus aguardando sua chegada. Acendia um cigarro comum e o tragava sem dificuldades, mas sempre que dava essa primeira tragada aquela mesma garota se sentava ao meu lado no banco.

Cabelos castanhos avermelhados caiam como cascatas em suas costas magras e parcialmente eretas devido a sua postura no banco. Sempre tinha uma mochila marrom levando nas costas que deixava ao lado do banco para poder se sentar melhor no mesmo. Seus olhos eram de um tom esverdeado estranho que parecia gostar de mudar de cor ficando mais azulados em dias nublados.

Era estranho sempre reparar nela, mas nunca realmente olhar pra ela, era no máximo um olhar de esgueira e mais um trago no cigarro a ignorando totalmente.

A via sempre neste mesmo local onde raramente havia outras pessoas no ponto devido ao horário, durante dois meses a via de terça a sexta, já que sempre folgava na segunda e ela estudava já que nunca a via nos sábados e domingos. Apesar de tudo, nunca me dirigi uma palavra para a garota que inúmeras vezes tentou puxar conversa comigo.

Podem me chamar de mal educada, mas não me sentia bem perto dela e depois que ela percebeu que eu era um caso perdido, acabou com as esperanças de um dia tirar alguma coisa de mim.

- Não deveria fumar tanto... – A voz dela era calma e com um tom aveludado que parecia conseguir tudo de todos — e por grande azar dela — menos de mim. Acho que havia um pouco de esperança ainda.

Dei outro trago e ajeitei a minha jaqueta de couro, o tempo estava esfriando.

- Por que nunca me responde? – Virei calmamente meu rosto em sua direção e arrumei com calma a franja loira que incomodava minha testa. Finalmente avistei sua expressão furiosa. Achava engraçado ela ter pequenas sardinhas nas bochechas que ficavam roseadas devido a sua raiva, talvez fosse por causa da palidez de sua pele, mas tinha que admitir era interessante de se ver.

- Uhn – Dei de ombros e voltei com o cigarro na boca olhando pra frente. E como sempre ela desistiu de tirar algo de mim. Ela sempre resmungava coisa ou outra e mesmo segurando um sorriso maldoso nunca falava nada.

Era divertido saber o quanto eu a afetava, não precisava falar merda nenhuma e até as vezes me sentia mal por isso. Sempre chegava com bom humor e eu destruía ele em questão de segundos por causa da minha ignorância. Tenho pena com quem ela fala depois de mim, acho que desconta essa raiva no primeiro ser na sua frente por minha causa.

O ônibus chegava 19:10 em ponto. Sempre pontual e levemente vazio. Só saia do banco quando ela se levantava bufando e subia as escadas do ônibus.

Era um ritual, me levantava do banco arrumando minhas roupas, dava uma última tragada jogando o cigarro pela metade no chão pisando com meus coturnos negros e rumava para o ônibus atrás da garota magra. Ela não tinha quase nada de peitos, talvez uma bunda boa, mas em geral tinha um corpo de adolescente que parecia não passar dos 1,66 de altura.

Ela sempre se sentava primeiro e essa era o principal motivo por deixa-la subir antes de mim, assim eu pegava um lugar vago na janela sempre alguns bancos atrás dela. E assim era a viagem toda. O meu trajeto demorava quase uma hora até chegar no destino e com isso o ônibus ia se enchendo e esvaziando, mas nunca chegava a ficar lotado mesmo achando estranho já que era o horário de saída de vários trabalhos.

Ela sempre descia dois pontos antes do meu. Estudava em uma universidade e essa era a única coisa que dizia que ela tinha no mínimo uns 17 anos, já que tinha começado esse ano a usar aquela linha. Aquele rosto infantil engana muita gente... Tive que abrir um sorriso com esse pensamento e desfazer tão rapidamente quando aqueles olhos esverdeados confusos se encontrarem com os meus uma última vez antes de se virar e sair do ônibus.

[...]

- Ei gostosa, mais uma rodada de margarita sim?

Claro seu gordo de merda...

- É pra já... – Respondi com preguiça sem olhar direito pro velho homem que tinha uma mulher quase sem roupas agarrada pela cintura.

To na metade do expediente, terça feira e eu já estava cansada querendo a minha folga que só viria na próxima segunda. O lugar era um pouco grande, cheio de luzes de neon em rosa verde e azul junto a um clima avermelhado. Uma batida eletrônica e sensual preenchia o ambiente cheio de marmanjos e mulheres seminuas. Boate era um termo que eu usava para não me humilhar tanto quando alguém perguntava onde trabalhava, mesmo raramente respondendo a pessoas que querem cuidar da minha vida. Na minha mente se gritava a palavra Prostibulo e isso só não me incomodava porque a porra da minha chefe pagava bem e me deixava a vontade.

- Eu sei que você é linda Mona, mas usar umas roupinhas mais chamativas te garantiria uma gorjeta maior... – Bufei quando avistei de canto de olho aquela mulher de cabelos de fogo sentando calmamente no balcão. Sua voz tinha um tom rouco e chamativo e sempre tinha a mania de ter os lábios finos rodeados com um batom vermelho vinho. Minhas roupas nunca seriam chamativas, sempre usava uma calça jeans ou raramente quando estivesse muito quente um short, mas sempre tinha um coturno no pé ou um tênis. Uma camisa regata colada preta ou sempre algo parecido da mesma cor, essa era a única coisa especifica do trabalho, minhas blusas teriam que ter essa coloração e nunca usar um casaco lá dentro.

Isso garantia a possibilidade de ter muito mais roupas que 80% da população de mulheres daquela “boate”.

Voltei meu trabalho com a margarita batendo os drinks com certa rapidez – Se a gorjeta maior acabar com o resto da minha dignidade prefiro continuar ganhando o que preciso – Murmurei enquanto jogava o batedor no ar. Ajeitei os dois copos de margarita no balcão. Aqueles olhos castanhos brilhantes observavam todos os meus movimentos enquanto pegava o drink antes de chegar perto do meu busto e servir os copos com a mesma cara de tédio de sempre – E nem venha falar pra mim abrir um sorriso, sou boa no que faço sem precisar ser gentil.

- Eu sei, eu sei – Dizia abanando a mão em desistência com aquele sorriso dissimulado, peguei outro taça e preparei um cosmopolitano – Tive sorte de achar você, esse seu charme e habilidade já é o suficiente para atrair os clientes.

- Obrigada Cassandra – Agradeci enquanto chamava uma das garçonetes com a mão para entregar as bebidas pro freguês folgado que preferiu esperar na sua mesa – Ale, mesa sete, gordo careca com a Luz.

Ale, a garçonete de curtos cabelos negros pegou os drinques sem segurar a risada – As suas ordens Mona Lisa – Rolei os olhos enquanto ela colocava os drinks na bandeja, odiava aquele apelido idiota. Ela se foi rebolando com força apenas com um fio dental, saltos e um top curto. Tinha pena dela, uma garota tão bonita e simpática tendo que fazer essas coisas.

- Não a olhe assim Mona, sabe que todas que estão aqui precisam de um emprego tanto quanto você – A ruiva de cabelos tingidos e rosto fino me olhou ressentida uma última vez e pegou o cosmopolitano que sabia que era justamente pra ela saindo rebolando para outra área da boate.

- Ainda é uma pena – Sussurrei apenas pra mim, aquela música estava me dando dor de cabeça já e tive que soltar um suspiro por perceber o quanto minha vida era uma droga.

Observei em minha volta, tantas garotas bonitas, algumas desfilando em duas áreas com pole dances apenas de fio dental ou roupas minúsculas e sexys que faziam o delírio daqueles homens nojentos e sem escrúpulos, apostava que metade deles eram casados, pais de família que estavam mentindo para as suas mulheres sobre ficar até mais tarde no trabalho.

Bando de bastardos hipócritas...

- Então é aqui que você vem toda noite?

Uhmm, essa voz. Segurei o pano branco em minhas mãos com um pouco mais de força, aquela voz aveludada cruzou meus ouvidos tão dolorosamente quanto um tiro.

- Não devia estar aqui – Foi a única coisa que saiu da minha boca ao encontrar aqueles par de olhos verdes tão chamativos com cílios longos e negros, seu rosto ficou vermelho com minhas palavras.

- Então é assim a sua voz? – Me aproximei mais dela e cheguei perto o suficiente pra ninguém nos ouvir, minha sorte que os babacas que estavam escorados no balcão bebendo seu uísque ficaram distraídos demais com a apresentação de uma stripper e acabavam gritando para tentar chamar a atenção dela – Ela é do jeito que eu imaginei, meio grossa, mas completamente doce...

- Eu perguntei: O que esta fazendo aqui?! – Minha voz estava acida demais e ela percebeu isso, entretanto não parecia se abalar com o modo grosso que as palavras saiam da minha boca.

- Eu só... – Uma pausa, um sorriso tímido – Sempre quis saber quem você é.

- Ei Mona! Outra cerveja aqui! – Respirei fundo quando um cara gritou de outro lado do balcão, olhei uma última vez para a garota confusa e fui em direção ao freezer.

- Seu nome é Mona? – Oh céus, o que eu fiz para merecer isso? Pensei enquanto abria o freezer e pegava outra cerveja da mesma marca pro cara – Até aqui você não me responde?

Ela insistiu quando eu ignorei ela, abri a longneck com o abridor e assobiei pro cara que voltou as atenção pra mim – Não – Respondi pra ela enquanto jogava a cerveja pro cara a deslizando pelo balcão. Ele pegou em cheia mandando um sorriso em agradecimento antes de voltar sua atenção ao poli dance.

- Isso é só por que eu não sou cliente? Se for assim me passe uma bebida!

Passei a mão pelos meus curtos cabelos tentando me acalmar e arrumei a franja que teimava cair sobre meus olhos mais uma vez antes de voltar minha atenção pra garota. Ela era teimosa e ousada demais e isso realmente estava me tirando do sério.

Ela estava um pouco irritada, sentada no banco de madeira em frente ao balcão de mármore polido. Tive respirar fundo duas vezes pra responder ela.

- Não, meu nome não é Mona – Respondi colocando ambas as mãos em cima do balcão tentando me acalmar – Agora garotinha saia daqui!

- Meu nome é Tamires ok?

- Que se foda! Agora saia daqui! – A cortei tentando não gritar muito alto pra não chamar a atenção indevida, aqueles olhos não me largavam por um segundo, dava pra sentir a teimosia ser apossada deles.

- Eu sou cliente e exijo uma bebida! – Ela exclamou se levantando do banco também me encarando cara a cara, ela estava muito perto de mim, aquele rosto vermelho de raiva me encarava vitoriosa quando viu que infelizmente tinha que obedecer essa parte, porem ela não sabia de uma coisa.

- Claro, mas primeiro... – Disse tirando as mãos de cima do balcão e cruzando os braços – Quero a sua identidade.

- O que?!

- São as regras, nenhum de menor pode chegar perto do bar! – Ela pisou forte no chão, mas mesmo assim abriu a bolsa de colo que usava e de dentro da sua carteira tirou sua identidade na qual a peguei sem deixar de encara-la.

- Você acha mesmo que se eu fosse de menor me deixariam entrar aqui? – Murmurou sorrindo vitoriosa, tinha me esquecido dessa parte – Agora minha bebida por favor?

Peguei a identidade dela e a analisei de perto, pela primeira vez na noite esbocei um longo sorriso e ela percebeu encarando meus lábios avaliando minha expressão – Você realmente acha que me engana?

- Co-como assim? – Gaguejou, estava obvio demais.

- Esta carteira é falsa!

- Ela não é fal...

- Você pode até ter enganado os seguranças, mas a mim não, o babaca que fez isso pra você trocou de lugar o selo! Essas carteiras desta data de expedição usam outro tipo de marca, uma um pouco mais antiga – Ela gelou ao perceber o que eu tinha feito, eu já tive carteiras falsas antes e sabia muito bem como identificar uma.

- Como você pode saber disso? – Dei uma risada gostosa depois daquela fala dela, estava me divertindo até demais com aquela situação, ela não deixava de me encarar, parecia querer me conhecer mais e mais e aquilo estava me irritando mais que o normal.

- Já vi muito disso por aqui Tamires, não sou idiota, não me venha fazer de besta porque você vai quebrar a cara ok?

- Me desculpe... Eu só queria...

- O que? Me conhecer melhor? – Estava ignorando o seu tom de voz um pouco mais rouco, seus olhos estavam lacrimejando, porem minha raiva era ainda maior – Olha onde eu trabalho, olha quem eu sou! Você realmente acha que eu gostaria que você soubesse disso?

- Mas...

- Sem mais por favor! – A cortei tentando não explodir no lugar onde estava – Olhe em volta! Isso não é lugar para uma pessoa como você! Vai pra casa!

- Por favor, deixe me...

- Eu disse sem mais! Saia daqui antes que eu chame os seguranças! – Ela estava já essa hora com lágrimas nos olhos e mesmo sentindo uma fisgada no peito por fazer isso com ela não conseguia aceitar a situação em que estava exposta.

- M-Me desculpe.

E então ela foi, correu para fora do recinto com a voz embargada, sabia que tinha sido bruta com ela, porem estava me sentindo pior ainda por ela descobrir quem eu sou de verdade. Aquilo realmente me matou por dentro.

- O que ouve Mona? – Observei Luz se aproximar de mim um pouco receosa, acho que tinha chamado atenção demais mesmo – Você está chorand...

- Não é nada demais loira, só me deixa continuar com meu trabalho ok? – Ela balançou a cabeça rapidamente entendendo o meu espaço e eu finalmente me recompus tentando não pensar no que tinha acontecido, estava me odiando por dentro e dessa vez eu tinha um motivo tão ruim quanto antes.

[...]

Senti minha garganta queimar ao tragar com força a bituca de cigarro acabando com o resto da nicotina – Lar, doce lar...

Puxei o interruptor da sala pra cima e avistei a bagunça que era a minha minúscula sala/cozinha. Um sofá azul de dois lugares velho e com parte do estofado rasgado, a televisão com antena parabólica que mal pegava sete canais, mesa de centro de madeira com algumas revistas e um cinzeiro jogado em cima. Na parte da cozinha tinha apenas um fogão engordurado, uma geladeira branca de uma só porta e dois balcões amarelados que comprei em um brechó.

Acha mesmo que minha vida é ruim?

Tinha mais dois cômodos na casa, o banheiro que pelo menos tinha o chuveiro com água quente e o meu quarto onde tinha uma cama de casal com um colchão fino demais e um guarda roupa mogno pelo menos intacto já que era novo.

E é ai que muita gente pergunta: Porque eu tenho essa vida?

É porque até um tempo atrás nem isso eu tinha.

Tenho quase 23 anos, minha mãe morreu quando deu à luz a mim e meu pai que nem se quer conhecia minha mãe direito, já que só comeu ela durante uma festa, era um traficante de merda. Só cuidou de mim porque não tinha mais com quem eu ficar e pro azar daquele filho da puta descobriram que era filha dele.

Não, ele não tentou mudar com a minha chegada. Pra falar sério virei muambeira dele e quando ele finalmente foi preso quando tinha 15 anos passei a me virar de uma maneira quase honesta.

Furtar para sobreviver é quase honesto, não é?

Foi assim até meus 17, fui presa também durante esses delitos e passei um tempo internada em uma unidade especial para adolescentes problemáticas. Quando sai tinha 19 e finalmente descobri que meu pai tinha morrido na prisão, estava devendo uma grana e se ferrou de vez. Foi daí que minha vida virou de pernas pro ar e se não fosse pela Cassandra nem saberia o que seria de mim.

Ela me treinou primeiramente pra ser stripper o que foi um completo caso perdido, porque eu simplesmente odiava sorrir, rebolar ou usar qualquer tipo de roupa curta e quando ela achou que era inútil acabou descobrindo meu dom para os drinks.

Isso devo agradecer ao babaca do meu pai que gostava de brincar de barmen.

Talento nato, roupas normais, mais clientes graças as bebidas boas e pequenos showzinhos de acrobacias com garrafas. Termos e medidas que me fizeram ganhar status e conseguir comprar esse apartamento em um bairro pobre da cidade.

Podia ter seguido a vida do meu pai, era mais rápido enriquecer daquela forma, mas o preço dói demais e só isso me fazia gargalhar do fato de como ele foi idiota por tantos anos.

Fui até o banheiro e tomei um banho rápido, estava quebrada e cheirando a álcool. Escovei os dentes e avistei no reflexo daquele espelho meio quebrado aquele par de ônix me encarando cansada. Minhas roupas eram estranhas e meu corte de cabelo Joãozinho pareciam denunciar muito a minha opção sexual, mesmo não demonstrando ela em público, mas meu rosto era muito feminino e suave e isso chamava a atenção de homens também.

Odiava chamar atenção.

Pra onde ela foi? Bufei com o pensamento e enxaguei minha boca indo até a geladeira depois de colocar um shorts e blusa qualquer. O relógio de parede marcava 6:47, era a única coisa que tiravam o silencio do apartamento, aquele tic-tac que penetrava na mente.

Peguei uma cerveja da geladeira e acendi um outro cigarro me jogando na poltrona e ligando a TV em alguma coisa que preste e graças a esse horário apenas jornal e desenhos animados iluminavam o apartamento escuro por causa das cortinas azuladas.

[...]

- Ahh mais que droga...

Minha cabeça ainda estava latejando de dor e agora de bônus minhas costas estavam um caco, tinha dormido na porcaria da poltrona e derrubado o resto da cerveja no carpete acinzentado que decorava a sala.

O alarme do meu celular vibrava em cima da mesa de centro e se não fosse por ele teria um dia ainda maior por não fazer metade das minhas coisas.

Ainda eram 14:23, comi alguma coisa rápida, fui me arrumar e dei uma organizada básica na casa. Quando terminei ainda tinha tempo para a única coisa que me tirava do trabalho e isso era a pequena academia de boxe que graças aos céus ficava a seis quadras de casa. Gostava de manter a forma e apenas uma hora de exercícios me tirava da condenação de ser uma pessoa nada saudável, já bastava o álcool e o cigarro na minha vida.

Cheguei em casa depois dos exercícios tomei meu banho rápido e me arrumei para ir pro ponto, coloquei uma calça jeans batida e rasgada, um all-star vermelho, um colete preto que se apertava contra meus seios medianos e minha jaqueta de couro preta e surrada, não gostava dessa época do ano, o frio chegava e as chuvas vinham em consequência.

O tempo nublado não me assustou, um guarda-chuva por precaução e a jaqueta impermeável garantiam uma pequena segurança do dia não ser tão ruim.

Sentei no mesmo banco de sempre e acendi um cigarro e só ai me toquei de uma coisa.

Caralho, o que vai rolar quando aquela garota chegar aqui? Fumei meu primeiro cigarro rápido demais, estava nervosa com a situação e tive que acender um segundo para tentar acalmar. Ta bom, porque estou tão nervosa? Só ignore.

E o tempo se passou e eu ficava cada vez mais apreensiva Onde está essa garota? O relógio do meu pulso marcava 19:00 e ai meus sentimentos mudaram, passaram de nervosa para preocupada, ela nunca chegava atrasada no ponto, sempre se sentava do meu lado quase meia hora antes do tempo do ônibus. Comecei a bater um dos meus pés incontrolavelmente no chão Calma, relaxa, ela deve ter ficado doente ou magoada demais, ela deve estar bem!

O ônibus chegou e meu coração bateu mais rápido ainda, pensei em fazer o ônibus esperar um pouco, mas é claro que o motorista não me obedeceria e a única coisa que pude fazer era entrar e me sentar em qualquer lugar sem deixar de encarar a calçada. Em que merda você se meteu garota?

[...]

Quinta e sexta-feira não foram diferentes, ela não aparecia mais no ponto e isso não saia da minha cabeça, será que algo aconteceu quando ela saiu daqui? Esse bairro é perigoso e se não conhecer as pessoas certas, pode apostar, vai arranjar confusão.

- Onde essa sua mente tanto voa Mona?

Senti o sofá ao meu lado ser preenchido e finalmente tirei meus olhos das minhas unhas para encarar olhos achocolatados – Problemas, apenas problemas...

Soltei um suspiro e me esparramei no sofá de couro avermelhado, estava no meu intervalo sentada em uma das mesas mais afastadas da boate bebendo uma cerveja qualquer.

- Faz bem se abrir um pouco de vez em quando – Aquele hálito fez cocegas em meu pescoço quando seu corpo se aproximou do meu, o seu perfume era muito forte e tão adocicado quanto suas palavras e isso de certa forma me enjoou.

- Não estou no clima Luz, volte a trabalhar – Murmurei tomando outro gole, mas quem disse que ela obedeceu? Senti seus braços magros rodearem meu pescoço e ela ronronar no meu ouvido.

- Deixe-me tentar te animar, estou com saudades...

Luz, como era chamada naquela boate era uma morena linda demais com seios fartos e rosto em formato de coração. Sua fama era grande com os caras ali, mas vocês querem uma surpresa? É proibido um cliente tocar na stripper sem a permissão e isso quer dizer que no máximo que conseguiam era uma dança, se quisessem sexo teriam que pagar muito caro e ainda teria que ser bem longe da boate. Cassandra nem se quer pode sonhar com esse tipo de coisa, daria um B.O. fudido nas mãos dela.

- Luz, para de ser chata, não to afim... – Me desvencilhei dela e me levantei abruptamente, estava visivelmente irritada, não que fosse alguma novidade, me virei em direção a ela só pra pegar o maço em cima da mesa, ela me encarava mordendo os lábios pintados em roxa e até me surpreendi por realmente estar negando sexo dela – Vai trabalhar ou chamo a Cassandra.

- Tecnicamente se eu dançar pra você estarei trabalhando...

- Larga de ser oferecida, já disse: Não to no clima – Dei as costas quando vi sua expressão de fúria atingir seu rosto, era chata com tudo e com todos, mas sinceramente não estava com a cabeça no lugar e toda vez que certos olhos esverdeados entravam em minha mente um sentimento de culpa me assolava.

- Essa é nova, deixando a Luz chupando o dedo... O que ouve Mona?

- Não vai tentar encher meu saco também né Jessica?

- Larga de ser idiota, nem todo mundo te quer!

Finalmente consegui soltar uma risada, estava precisando disso. Jessica apenas me rolou os pequenos olhos e continuou me acompanhando até o bar onde um dos seguranças tinha ficado no meu lugar fazendo as bebidas.

- Valeu pela ajuda Kevin – O bruto segurança de pele acobreada apenas me lançou um sorriso antes de se voltar até um canto qualquer. Jessica continuava perto de mim, se sentou em um os bancos no balcão e começou a me analisar. Sabia que aquilo me aborrecia, mas quem disse que ela ligava?

- Certeza que não me quer japinha? Ta me encarando demais – Meu sorriso saiu sarcástico, porem mesmo assim ela não mudou sua expressão, fechei a cara e voltei para os meus afazeres – Desembucha logo, não tenho a noite toda.

- Você fez merda não fez?

A sua pergunta parecia mais uma afirmação.

- Eu realmente não sei... – Não sabia mesmo, estava me sentindo confusa e ligeiramente atormentada, tinha medo dela ter se metido em confusão e a culpa ser toda minha.

- É sobre aquela garota não é? Aquela que veio aqui na terça?

- Como você... – Fiquei surpresa com as palavras dela, mas seu sorriso irônico fechou minha expressão mais uma vez – Ficou tão na cara assim?

- Haha, ohh se ficou.

Fiquei em silencio por alguns segundos apenas limpando o balcão com movimentos automáticos, não gostava de ficar dessa forma, legível. Odiava quando as pessoas sabiam na onde estava me metendo e mais ainda quando enxergavam coisas que nem eu conseguia ver em mim.

- Ela pega o mesmo ônibus que o meu quando vou ao trabalho, porém, nesses últimos dias, ela deixou de aparecer – Revelei sem conseguir encara-la – Estou com medo de algo ter acontecido com ela.

- E por que não foi atrás dela?

- Não é tão simples Japa – Disse acida a fazendo rolar os olhos no mesmo instante.

- É sim! É só pegar uma de suas folgas acumuladas e tentar descobrir pra onde ela vai – Ela murmurou parando de ajeitar o decote abusivo. Parei de fingir que não prestava atenção nela depois dessa fala, aquilo era bem óbvio, mas mesmo assim não era do meu feitio.

- Essa é a última coisa que iria fazer Jessica... – Ela apenas se levantou do banco e ajeitou a saia antes de falar comigo uma última vez:

- É por isso que nunca consegue nada de bom Mona Lisa.

Saiu andando me deixando sozinha com as minhas bebidas, mesmo o som alto da boate não nublou meus pensamentos. Tinha que quebrar esse galho. Essa era realmente a pior parte, admitir que a japinha estava certa.

[...]

Estava nublado naquela tarde de segunda feira.

Aguardava pacientemente o ônibus chegar como sempre. Uma cigarro queimava na minha boca e a toda momento meu sono queria me dar boas-vindas. Era meu dia de folga e agora estava aqui esperando mais uma vez por ela.

Queria que ela estivesse apenas me evitando, desejando ela aparecer no ponto no único dia no qual não aparecia sentada naquele banco de madeira pintada de branco. Mas como sempre a minha única companhia era meus próprios pensamentos carregados de culpa.

19:10, o ônibus chegou pontual como sempre. Joguei o resto do meu cigarro e já entrei dentro do ônibus, pagando o cobrador e me sentando no mesmo lugar de sempre. Meu coração estava palpitando muito forte naquela tarde.

Me encontrava com as mesmas roupas básicas, calça jeans surrada, meu all-star de cano alto clássico e uma camisa qualquer com uma blusa flanelada por cima. O tempo estava frio, mas até agora nenhum sinal da chuva. Não tinha trazido o guarda-chuva, minha falta de atenção me custou essa precaução.

Depois de doze pontos tortuosamente lentos finalmente avistei a grande construção no qual vários adolescentes e adultos entravam. Minha mão estava suada de nervosismo, mas mesmo assim desci do ônibus.

Mas a principal pergunta seria: Como acharia essa garota neste turbilhão de pessoas?

Fui caminhando na mesma direção que centenas de universitários, o campus era aberto e tinha várias direções na qual poderia ir. Respirei fundo e tentei seguir as placas que diziam “Secretária” não andei bastante até chegar lá, mas você ficar parecendo uma barata tonta em um congestionamento de pessoas não ajudou bastante.

Entrei dentro de um dos prédios e não muito depois achei a secretária. Tive que aguardar minha vez, fiquei quase vinte minutos ali até finalmente conseguir falar com alguém.

- O que deseja? – O moço falou no automático, e naquela hora gelei, as informações que eu tenho da garota são quase zero.

- Estou procurando uma garota que estuda aqui, de nome Tamires – Respondi tentando soar educada.

- Tem como me dar mais informações? — Mordi a parte interna da bochecha acenando que não, ele me olhou com a mesma expressão tediosa e murmurou – E como você acha que posso achar essa estudante só com o primeiro nome?

- Por acaso não tem a foto das pessoas com esse nome? Eu lembro de sua aparência, morena, olhos esverdeados, rosto oval, cabelos meio ondulados...

- Mesmo que eu ache alguém com esse perfil, não vou poder lhe dar as informações a não ser que seja parente da docente. – Respirei fundo para não tentar ser rude, o cara era jovem e falava cada palavra tão automaticamente quanto a mim trabalhando naquela boate.

- É importante – Respondi sem deixar de encara-lo – É uma amiga minha e eu pisei na bola com ela.

- Se fosse sua amiga saberia o nome dela completo.

Aquele cara deu sorte por estar atrás de um vidro, meu punho já estava fechado de tanta raiva que estava sentindo naquele momento, a frustração estava bem aparente em mim – Cara por favor, eu vim aqui só pra isso.

- Me desculpe, você não estuda aqui e ainda por cima está pedindo informações sobre uma de nossas estudantes, você tem que se retirar antes que eu chame a segurança – Ele respondeu pegando um telefone em suas mãos olhando diretamente pra mim. Mordi os lábios com força e mostrei o dedo do meio antes de me retirar.

Voltei a andar para fora novamente, estava morrendo de raiva e agora mais do que nunca frustrada por não conseguir a porcaria da informação. Fui até o ponto de ônibus e me sentei no banco vazio me esparramando no banco encarando o céu nublado.

Minha aventura tinha sido em vão, não iria saber se aquela garota ainda estava viva e eu passei a odiar pessoas que trabalham e secretárias. Um dia inútil, cheia de coisas inúteis.

- O que está fazendo? – Ohhh essa voz, nunca fiquei tão feliz por ouvir essa voz irritante.

- Estou sentada, e o que você está fazendo aqui?

Ela deu uma leve risada da minha resposta, meu corpo se aqueceu, alivio, alivio, alivio. Estava amando aquela sensação.

- Eu estudo aqui, faço Jornalismo, eu te achei rondando pela universidade e decidi te seguir – Ela explicou, fazia Jornalismo, realmente combinava com todo aquele seu lado curioso. – O que veio fazer aqui?

- Te procurar – Falei direta.

- O que?

- Onde você se meteu? – Senti o banco vibrar e olhei pro lado avistando aquelas orbes curiosas, ela estava com um sorriso confuso nos lábios e eu continuei a encarando buscando pela sua resposta.

- Como assim? – Perguntou sentada ao meu lado, me ajeitei no banco sentando corretamente e procurei por um cigarro no meu bolso. Meu coração já estava batendo sem culpa no momento.

- Você sumiu por semanas – Murmurei desviando meu olhar do dela – Por que parou de andar de ônibus?

- E-Eu... – Seu gaguejo me chamou a atenção, terminei de acender meu cigarro e voltei a observar seu rosto roseado.

- Eu? – Tentei ajudar ela a falar algo segurado um sorriso e dando um trago em seguida.

- Eu fiquei com vergonha depois daquela noite, decidi pegar carona com uma amiga minha daqui pra frente, ela já tinha me oferecido antes...

- Desculpe por ter te tratado daquela forma – A cortei não querendo saber do resto da conversa, não queria ser rude, mas isso estava entalado na minha garganta – Eu só não queria que você soubesse onde eu trabalhava. Ou quem eu era, só... – Ela me encarava com um sorriso fofo no rosto enquanto tentava buscar as palavras, aquilo não estava me ajudando, nem um pouco mesmo – Você está bem, é o que importa, eu já vou indo.

Me levantei rápido demais, qualquer pessoa perceberia o quanto eu estava nervosa naquele momento. Sua risada saiu baixa, mas ainda audível para mim. Decidi ignorar E comecei a descer a rua sem ao menos me despedir dela, estava cansada, queria apagar.

- Desculpa por te preocupar! Te vejo amanhã! – Me virei para trás só para observar suas covinhas altas, dei outro trago no cigarro e acenei levemente voltando a caminhar normalmente. Ela não viu, porem um sorriso sem dentes veio sem permissão para os meus lábios.

[...]

Tinha dormido na minha cama, entretanto a dor nas minhas costas ainda estava presente. Acordei atrasada, só deu tempo de tomar um banho rápido e comer o resto da comida que tinha feito a algumas horas atrás. Peguei o guarda-chuva, o tempo continuava naquele cinza insuportável.

Caminhei na calçada estreita me encolhendo com a minha jaqueta, o vento gelado cortava a pele do meu rosto, nem sei como ainda tinha que trabalhar naquele tempo frio, o movimento caia pela metade, acabava passando a maior parte da noite fumando cigarro e tirando casquinhas de quem me desse mole. As vezes não me sentia tão diferente dos meus clientes.

Dei graças por chegar no meu costumeiro banco, a minha toca escondia a maior parte de meus cabelos louros, todavia parecia não ajudar muito a me aquecer. Tinha que parar de reclamar tanto do calor.

- Boa tarde! – Aquela voz tão familiar quase fez um sorriso aparecer no meu rosto, não vamos perder o costume, não iria responder. Ignorei ela como sempre fiz e ela se sentou ao meu lado. Não voltei meu olhar ao dela, apesar de perceber que sua áurea estava muito boa – É, eu também senti falta disso, sua total falta de educação é algo que melhora todo o meu dia.

Não consegui conter uma risada de seu modo sarcástico de se falar, encostei no banco com calma e acendi um cigarro como meu costume. As vezes não conseguia entender o porquê a voz dela aliviar todo o meu peito.

Era nisso que eu estava acostumada, a sua companhia, o se modo de tentar tirar algo do inútil. Ela não desistia de mim, ela me procurou e sim, ela me obedeceu quando quis ela longe mim. Me arrependi de ter dito aquilo pra ela, uma garota tão boa na qual tinha magoado e menosprezado, mas ela continuava ali, me enchendo o saco, tentando me fazer falar, tirar uma expressão minha e quando ela consegue ela simplesmente começa:

- Que risada perfeita! Eu tenho que sumir mais vezes! – Não resisti a subir meu olhar pra ela, seus olhos grandes e esverdeados brilhavam com a minha expressão e isso só me fez rolar os olhos.

- Baixa a bola Tamires – Murmurei desviando o olhar pra cima, tinha sentindo um pingo. Foi só eu levantar a cabeça para os pingos caíram de forma mais apressada. Não pensei duas vezes, abri o guarda-chuva à poucos segundos de sentir a torrente cair mais forte.

Tamires tentava desviar dos pingos com sua mochila, pensei em vingança por encher meu saco, e um privilégio por ela estar usando uma blusa branca — Ah que droga! Eu não trouxe... – Não esperei ela terminar a frase, estendi o guarda-chuva pra ela que apenas me encarou surpresa, demorou alguns segundos para que ela percebesse a minha ação e como um pedido mudo se apertou mais próxima de mim, seu corpo estava encostado no meu, porem realmente não me importei, estava frio, seu corpo era quente e eu não era nenhum monstro pra deixa-la levar chuva.

- Alexandra. – Disse após alguns minutos tortuosos.

- O que? – Perguntou confusa, não esperava menos, essa ideia saiu da minha mente para minha boca sem nenhuma permissão.

- Meu nome é Alexandra – Respondi encarando a bituca que meu cigarro tinha se tornado, acho que o cheiro a estava incomodando, entretanto até agora não havia nenhum sinal que ela estava querendo se distanciar de mim.

- Oww, nossa, Alexandra? Então porque te chamam de Mona?

- Vem de Mona lisa, meu pai tinha a mania de me chamar dessa forma – Expliquei dando de ombros, aquele assunto me incomodava – Que nem a pintura, sorriso enigmático, ninguém sabe porque ou por quem está sorrindo, mas está lá, aquele sorriso estranho sem explicação.

- Acho que ele tem razão – Desviei meu olhar só para encarar aqueles olhos ternos, sua voz doce estava muito próxima a mim – O seu sorriso não tem explicação alguma, Alexandra.

Estar com Tamires era estranho, ela conseguia arrancar o que mais era difícil de se tirar de mim, a emoção de esboçar um sorriso, muitas das minhas colegas achavam que era o meu coração que estava preso com aquela garota, não gostava dessa premonição com o que poderia acontecer entre eu e ela. O nosso futuro só Deus dirá, e como o sorriso de Mona Lisa poderá ser um grande mistério ou uma grande história.

Notas finais
Se gostaram comentem! Não é obrigatório, conheço a galera aqui, a preguiça as vezes é maior.
Tipo eu :3

Anyway. Obrigada por ler! Bye Bye
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!