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O verão estava quase no fim, o que não tornava os dias menos insuportavelmente quentes na costa, o sol de fim de tarde tomano praticamente toda a ampla sala da casa dos DuPree, os corpos pequenos e molhados de suor e água da piscina esticados por todo o piso de madeira. John e Chauntelle estavam empenhados em jogar vídeo game enquanto os outros simplesmente conversavam sobre como seria o ano letivo seguinte. Para alguns, seria o último ano do Junior High, um passo do High School, para outros era o High School Freshman, o que fazia tudo um pouco menos divertido.

Muitos estavam saindo da South Shore, indo para o Division Avenue, outro, direto para o McArthur.

-Queria morar aqui. – disse Adam, abrindo os olhos, livrando com dedos habilidosos os olhos de uma grande massa de cabelo castanho.

-Deveria vir. – soltou Matt, se sentando para observar melhor os outros ocupantes da sala.

-Ou não. Eu preferia o Texas, nem sei o que eu estou fazendo aqui. – resmungou a pequena Stacy, os fios loiros puxados para o alto da cabeça, preso em um rabo de cavalo.

-Stacy, volta pra garagem, volta. – pediu Chauntelle sem sequer desviar os olhos da tela da televisão, onde estava tentando a todo custo passar de John no Mario Go Kart.

A pequena suspirou, atravessando a sala, pulando pelos corpos espalhados em todos os cantos, achando espaço entre John e Chauntelle, se sentando quieta. –Não te mandei ir pra garagem?

-Mas eu quero jogar. – resmungou.

-Eu não vou jogar com você, sai daqui! – exclamou Chauntelle, fazendo menção de empurrar a mais nova com o joelho.

-Chauntelle! – exclamou John, os braços colocados em volta da mais nova de forma protetora, evitando que a tentativa de chute da mais velha atingisse a criança. –Deixa ela jogar.

Stacy sorriu, se ajeitando nos braços do garoto que ela sequer sabia o nome. Era um dos poucos da turma de amigos das irmãs com quem ela realmente simpatizava. Não era o mais bonito, mas era o que mais a respeitava, não invadia seu espaço e mesmo estando sempre ocupado com a namorada Laura, não a chamava de criança nem nada do tipo.

-John, larga ela. – a voz enjoada de Laura veio do fundo da sala, cujos ocupantes agora assistiam a cena, interessados.

-Não, não larga, John! Você e a Stacy seriam um casal lindo. – Jesse sorriu, recebendo um forte tapa na cabeça, de Sherri.

-Gente... – resmungou Adam. Não estava, de forma alguma, acostumado àquelas pessoas. Não estava entendendo nada também. -...a Stacy tem só dez anos.

-Mas é muito melhor que a Laura, de qualquer forma... –Jesse soltou de novo, levando outro peteleco de Sherri.

-Dá pra parar!? – pediu ela, irritada com o olhar magoado que Laura dirigia para Jesse, John, Stacy e ela, como se ela fosse a grande culpada pelo ódio que Jesse sentia por ela.

Não era como se Laura ajudasse muito, também. Ela fazia questão de chamar John para sair com ela justamente quando Jesse já o havia chamado, ou estava pensando em chamar. Quando John pegou escarlatina de Jesse, ela fez questão de dizer que a culpa foi dele, mesmo que John tivesse assumido e gritado ao mundo inteiro que se contaminou de propósito. Fez escândalo e chorou quando Jesse e John dividiram um medalhão ou algo que o valha, da amizade. E agora estava fazendo esse escândalo de possessividade de John só porque ele estava protegendo sua irmã mais nova.

Se Stacy não fosse tão novinha, ela própria tentaria fazer a garota terminar o namoro dos dois, afinal, não era como se John ainda se importasse com Laura, e não era como se Laura pudesse impedir o que havia entre Jesse e John.

Ninguém podia.

-Laura, fica quieta. John, solta a minha irmã e Chauntelle, deixa ela jogar com o John. Alguém mais tem alguma pendenga pra resolver? – Sherri perguntou. Jesse abriu a boca com a menção de falar algo, que provavelmente seria direcionado a ofender Laura, mas Sherri não deu tempo, o gratificando com mais um peteleco.

-Ai!

John e Stacy passaram a tarde quase inteira distraídos na frente do vídeo-game, acabavam um campeonato e já começavam outro, Laura sempre os rodeando com perguntas e tentativas de se aproximar, geralmente sendo ignorada ou simplesmente não sendo notada pelos mais novos grandes amigos da turma.

-John, vamos ao cinema no sábado? – perguntou Laura, sentada no sofá do outro lado da sala, os braços cruzados, o cabelo parcialmente preso atrás da cameça, uma camiseta comprida por cima do biquine, e o shorts até o meio das pernas.

-Pode ser... – resmungou ele, sem tirar os olhos da tela. Jesse folheava o jornal, no sofá do lado oposto, os olhos correndo por cima da folha, observando John e Stacy no vídeo-game.

-Vocês pretendem assistir o que? – perguntou Matt, esticando a mão para pegar um pouco de salgadinho do saco que Sherri segurava, os dois, Chauntelle e Adam assistindo os outros jogando twister.

-Qualquer coisa que sirva como um agradável programa de namorados. – respondeu Laura.

-John... – chamou Jesse, o jornal em seu colo. Os olhos azuis fitavam Laura com um brilho maroto seguido de um sorriso de lábios.

-Fala, Jess. – restrucou John, prestando atenção no jogo, alheio à troca de olhares de ódio atrás dele.

-Sábado tem um jogo dos Yankees contra os Red Sox! Vamos? Meu irmão pode levar nós dois.

O controle do vídeo game voou para o colo de Stacy quando John se levantou para olhar a folha do jornal que Jesse segurava, sorrindo vitorioso.

-Está falando sério? – perguntou, tomando o jornal em suas mãos, sorrindo. – Nossa! Se o Rory nos levar eu vou com certeza!

Estava de costas para Laura, perdendo o olhar de indignação da garota.

John só pareceu perceber que algo estava levemente fora do lugar quando o silêncio mortal se fez na sala. Vagarosamente, se virou, sorrindo para Laura com sua melhor expressão de inocência.

-Você... se importa se... se... deixarmos o cinema pra outro dia? – perguntou, sentindo o braço de Jesse o envolver pelos ombros.

-Sabe como é, Laura, jogo de baseball dos Yankees contra a escória dos Red Sox não acontece todo dia, o cinema não muda a programação. – disse sorrindo, sem coragem de olhar para Sherri, que provavelmente estava com uma serra elétrica na mão, dessa vez.

-Pode ir com ele, John. – disse brava, se levantando do sofá, pegando a mochila jogada no canto da sala, se adiantando para a porta. Parou na metade do caminho, se virou para eles. – Aliás, talvez você devesse namorar o Jesse, também. – abriu a porta e saiu em direção à sua casa.

-Sabe... – a voz de Stacy soou mediante ao silêncio. -...eu também acho.

Seu celular estava praticamente berrando na cabeceira da cama, desesperadamente. Era madrugada, e sua paranóia logo o fez pensar que talvez algum de seus amigos estivesse acidentado ou morto. Péssimo de sua parte pensar isso, mas ao ver o nome “Laura” piscando no visor, imaginou John em uma cama de hospital.

O medo e o frio na barriga se intensificaram quando, depois de dizer “alô” meio mortamente por conta do sono, Laura desabou em um choro compulsivo, um tanto escandaloso demais. Se sentou, tentando acordar de verdade, pedindo calma a ela enquanto se dirigia para a sala, atravessando em passadas rápidas mas leves o longo corredor até as escadas, enchendo um copo de café enquanto esperava a garota se acalmar.

Olhou o relógio que marcava dez para as quatro, deixando o líquido invadir sua garganta, percebendo que teria que estar de pé em duas horas de qualquer jeito para pegar o avião para Boston, mas abstraiu o resto quando Laura finalmente decidiu falar.

-Jesse... você está aí? –perguntou ela, ao que ele respondeu com um resmungo. –Eu não tinha pra quem ligar. Eu sei que você talvez me odeie, mas...

-Mas? –perguntou. Não queria ter que admitir para ela que a odiava, era um fato conhecido por quase toda a cidade, e se ela achava que era brincadeirinha, ele realmente não lhe tiraria a ilusão.

-Eu estou grávida. Eu fiz cinco testes, todos deram positivo, eu não sei o que fazer, Jesse! –e ela recomeçou a chorar. Era ótimo saber que ela estava em uma situação dessas. Há há, Laura, há há.

-E o que eu tenho a ver com a sua gravidez? Não me lembro de ter participado de nenhuma atividade sexual com você. Nem de algum threesome envolvendo você e o... –Jesse parou um segundo.

Era esse o problema.

Então era por isso que ela estava ligando para ele! Laura simplesmente não podia...

-É do John! –gritou ela.

-Não, não é! – berrou de volta. Essa imbecil não poderia estar de alguma forma tentando arruinar a vida de John desse jeito. –Laura, esquece o John! Ele está com a Stacy, e ela está muito feliz com ela, nós dois e a Sherri sabemos disso.

-Jesse... não desliga, isso é sério. – implorou ela. E quando é que ele poderia dizer não a uma garota chorando?

-Fala... – suspirou, atravessando o casarão, ouvindo Monk e os outros latindo do lado de fora, talvez pela luz acesa. Se jogou no sofá, decidido a não dormir mais, caso contrário, perderia a hora.

-Eu não sei o que fazer. Eu não posso ligar pra Sherri, eu não posso ligar pro John, eu não confio em mais ninguém. Eu só tenho dezessete anos... – fungou chorando ainda.

-Devia ter pensado nisso antes. Merda, Laura! – exclamou. Era difícil se manter duro com ela quando ele bem sabia que o problema não era só de Laura, isso dizia respeito à vida de John também, e o que essa criança poderia mudar.

-Você... seu pai trabalhava no hospital, Jess. Você conhece pessoas. – ela se acalmou do outro lado. –Eu preciso fazer um aborto, e eu preciso que você me ajude. O John não pode ficar sabendo...

A caneca que Jesse estava levando aos lábios ficou presa em sua mão na metade do caminho, os olhos se fixaram em algum ponto da parede do lado oposto, onde retratos de família se mantinham espalhados em molduras douradas. O maior deles sobre o móvel com gavetas, em cima da toalhinha cor-de-rosa rendada. Ele não sabia que parte era mais difícil: acreditar que Laura queria sua ajuda para fazer um aborto, ou que queria que ele escondesse isso de John. Ela queria matar o filho do seu melhor amigo, e ele realmente – realmente! – não sabia se ele tinha estômago para fazer aquilo.

-Você não está me pedindo isso, Laura. – soltou quase em um suspiro.

-Eu não tenho outra alternativa. – murmurou. –Deus, você seria a última pessoa a quem eu gostaria de contar, tenha um pouco de compaixão, Jesse.

-Tá grávida de quantos meses? – perguntou.

-Dois. Foi da última vez, quando ele... ele ainda não estava de verdade com a Stacy, e...

-Eu não quero saber quando, ou onde ou porque! A sua vida sexual com o meu John, não é do meu interesse, já era pra ter percebido isso, Laurra. Olha, eu estarei entrando em um avião em mais ou menos uma hora e meia, e eu realmente preciso desligar.

-Você não pode me deixar na mão! – ela gritou do outro lado, desabando a chorar novamente. –Jesse, por favor!

-Eu não posso fazer isso com o John. Se ele optar por um aborto, tudo bem, mas eu não vou esconder isso dele. Aliás, você tem uma semana pra ligar pra ele em Berkeley e contar, ou eu mesmo vou fazer isso.

Houve um longo e mortal silêncio do outro lado da linha. Jesse achou que talvez a louca estivesse tentando se matar, olhou o visor do celular alguns segundos e o recolocou no ouvido a tempo de a ouvir suspirar.

-Vou tentar ligar pro John, amanhã ou depois. – parecia mais calma. –Não conta pra Sherri.

-Não vou contar. Preciso ir, Laura. – disse fitando o relógio, quase soltando um grunhido frustrado.

-Boa noite, Jesse. Obrigada por ouvir.

-Tá, ta... tchau, morre. – desligou o celular, sentindo levemente o peso de uma decisão difícil começando a se formar em suas costas.

Jesse trancou a porta o quarto, esticando o pé para o som, o ligando em seguida, pedindo a Deus que aquilo abafasse um pouco o som dos gritos de seu pai e sua mãe porque Rory não dormiria em casa. Porque não, o problema não era John dormir lá, era Rory não dormir lá.

Por Deus, o menino era um adolescente, tinha uma vida.

Jesse também, mas ele preferia abdicar da vida que tinha para poder manter a casa inteira. John estava sentado na beirada de sua cama, sorrindo um tanto constrangido quando Jesse se sentou ao seu lado.

-Não precisa deixar o som tão alto, eu sei o que se passa aqui dentro. – disse escorregando a mão para a de Jesse, entrelaçando os dedos nos dele. O mais baixo suspirou, deitando a cabeça no ombro de John. Não queria que as coisas fossem daquele jeito, mas John sabia, de tudo. Ele não tinha motivos pra esconder ou fingir que nunca contou nada ao amigo. John presenciou seu pai bêbado chegando para o jantar, presenciou o jeito como ele tratava sua mãe, seus irmãos, ele.

-Queria sumir. – murmurou, a cabeça ainda no ombro magro de John.

-Não queria. Eu ia ficar louco te procurando. –riu, tentando amenizar o clima pesado, em vão. Jesse riu fraco, erguendo o rosto para ele.

-Acha que a Laura está muito brava? – mordeu o lábio, se segurando para não rir. Fez de propósito, é claro. E John sabia que ele fazia essas coisas de propósito, e não reclamava. De certa forma, se Jesse o pedisse pra escolher entre ele e Laura, ele provavelmente escolheria Jesse.

-Não. – John riu. –Você me salvou do cinema, e logo ela perdoa.

Jesse abriu um sorriso mais largo ainda.

-Se você quiser ir ao cinema eu entendo. Afinal, você não pode ficar me agarrando e gastando seus hormônios, mas pode fazer isso com a Laura.

John se sentiu corando, riu sem jeito. Não gostava muito de falar daquele tipo de coisa, porque falar daquele tipo de coisa com Jesse sempre resultava nos dois um tanto próximos demais, e um tanto sem jeito. E a situação também não era nada propícia: o som estava alto, a porta do quarto trancada e a única iluminação vinha da lua pela janela aberta. E não gostava de pensar que faria qualquer coisa por Jesse, porque se lembrava que quando via aqueles filmes de romance com Laura, não conseguia evitar assimilar os seus sentimentos com os sentimentos do casal da tela.

Só que os sentimentos nunca eram em relação a Laura.

E não queria lembrar que quando estava com Laura, sentia como se estivesse traindo Jesse, porque sabia que Jesse se sentia solitário quando John deixava de sair com ele para sair com a garota, e sabia que os dois tinham que entender que Laura era sua namorada e Jesse era seu melhor amigo, e isso tornava tudo bem...

-Eu prefiro gastar meu tempo com você. Eu fiquei doente pra ficar com você, Jesse! – riu vendo o outro se jogar deitado na cama, sem soltar sua mão, dando puxões leves para que ele se deitasse também.

-Eu sei, eu sei. Eu já agradeci por não ter me abandonado no meu aniversário.

John se deitou ao seu lado, o cotovelo apoiado no colchão, a cabeça apoiada na mão, sorrindo fraco, abservando Jesse brincar com seus dedos.

Não devia se sentir assim ao lado dele.

Não devia sequer gostar de o olhar tanto, ingerir cada detalhe do pequeno, e seu estômago não deveria estar dando tantas voltas só porque Jesse estava com os olhos fixos nos seus. E por Deus, não deveria de maneira alguma estar se inclinando para cima do outro, nem gostando do toque da mão do seu mehor amigo em sua cintura, não deveria estar com os batimentos cardíacos acelerados, nem sentindo aquela vontade de colar seus lábios nos dele... como havia acabado de fazer.

Mas tudo bem.

Não era como se nunca tivessem se selado.

E isso nem era, assim, tão errado.

Afastou o rosto de Jesse, que o olhava sério, piscando os olhos azuis um pouco confuso. Certo, talvez nunca tivesse selado Jesse quando o garoto estava em sã consciência dos fatos, ou deitado embaixo dele, ou...

-Descul...- foi interrompido com a mão de Jesse em sua nuca, chamando sua atenção para o sorriso que ele tinha nos lábios.

-Relaxa. – disse. John se deixou voltar a respirar normalmente, enfiando o rosto na curva do pescoço de Jesse, sentindo arrepios quando as unhas trilhavam caminhos na direção das suas costas, sem conseguir evitar os sons que começava a emitir quando as pernas do mais novo se psocionaram confortavelmente entrelaçadas nas dele, se movimentando devagar.

Mordeu fraquinho o pescoço do loiro, conseguindo arrancar dele uma exclamação fraquinha de surpresa, seguida de um murmurinho de contentamento. Não sabia se era impressão sua, ou se Jesse realmente havia deitado a cabeça, lhe dando maior acesso. Não queria se aproveitar da situação, mas não estava conseguindo se controlar muito, já subindo os lábios pelo maxilar de Jesse.

-John... –murmurou, agoniado. John se ergueu um pouco, e... sentiu. *olhou para entre os dois, só então detectando o problema que ambos tinham naquele instante.

E não, nunca conseguiu definir o quão constrangedor aquilo poderia ser.

-Uh... er... –Olhou Jesse, que já estava sentado, se cobrindo com o travesseiro.

-Eu acho melhor a gente dormir. – disse. John assentiu, se levantou, delsigou o rádio e se jogu na cama de Rory, ouvindo Jesse se ajeitar na própria cama.

-Sobre o que aconteceu... – John começou.

-Não aconteceu, John. – Jesse bocejou. –Pelo bem do que nós temos, não aconteceu nada, ta? Boa noite.

-Boa noite, Jess. – respondeu, prevendo mais uma longa noite sem dormir enquanto pensava que talvez preferisse se livrar daquele problema.