John gostaria imensamente de saber se o problema era ele ou Jesse. Gostaria de saber porque o outro o estava evitando desde o dia em que ele ficou com Laura, gostaria de saber porque não atendia aos seus telefonemas e porque havia faltado ao Coral na segunda. Queria saber se seu pai o havia feito alguma coisa, ou se ele havia se irritado com algo que John o fez, se bem que não conseguia pensar em nada que pudesse ter feito que saísse muito do dia-a-dia. Sequer o mordeu naquela semana – e olha que ele morder Jesse era algo um tanto freqüente quando o mais novo o irritava, tanto que Jesse estava sempre com alguma parte do corpo marcada de dentinhos – e também não o havia confrontado sobre os cortes que ele percebeu que continuavam surgindo em seus braços.

Jesse estava irritado.

Durante toda a aula de literatura o menino rabiscou coisas em pedaços de papel que não jogou para John, furou páginas do livro com o lápis, e até atingiu a cabeça da garota do outro lado da sala quando estava brincando com a régua e a borracha e essa última voou de sua carteira. Era uma coisa ruim, mas John estava se divertindo.

Gostava de observar Jesse normalmente, mas ver Jesse irritado era um tanto quanto mais divertido. Ele ficava emburrado na maior parte do tempo, o cenho franzido, os lábios formando um pequeno bico de frustração, e os olhos – tão azuis! – estreitos encarando qualquer um que chamasse sua atenção, como se pudesse amendrontar tudo e todos que tentassem chegar perto, sem perceber que se tornava absolutamente adorável daquele jeito.

John o apertaria se não fossem rir dele depois.

E era engraçado perceber que ele estava tentando fingir que não estava notando o olhar do outro fixo nele, mas ao mesmo tempo agindo de forma cuidadosa por saber que estava sendo observado. Não queria cometer gafes, não na frente dele, porque John sabia que era com ele que Jesse estava bravo.

Só queria saber qual o motivo.

Se é que havia um...

Havia aprendido a conviver com Jesse e suas milhares de fases. Era uma pessoa de temperamento difícil, que poderia mudar de humor em questão de segundos caso visse ou ouvisse algo que não o agradava, mas ao mesmo tempo, conseguia ser carinhoso ao extremo, e o melhor amigo que qualquer pessoa poderia ter.

John o amava.

Muito.

Não saberia viver sem ele, ou longe dele, e agradecia a qualquer coisa ou força sobrenatural que colocou Jesse em seu caminho. O perder não era uma opção, e ter o loirinho bravo, o evitando, também não.

Assim que o sinal bateu, Jesse juntou suas coisas e saiu da sala, sem esperar John ou sequer olhar na sua direção. John já previa que ele faria isso, juntou tudo que tinha o mais rápido que conseguiu e se adiantou para o corredor, na direção do menor.

-Jesse! – chamou, sendo solenemente ignorado pelo outro. É, seria uma tarefa difícil.

Correu para a frente dele, o segurando pela gola da camiseta do uniforme com um sorriso, o puxou para o gramado do colégio. Estavam no intervalo, ninguém levaria bronca.

-Me larga! – Jesse se debateu algum tempo, até perceber que não seria solto tão rápido. John o sentou no banco de madeira do lado de fora, debaixo da árvore, e ficou de pé, por precaução, na frente do outro.

-O que eu fiz? – perguntou, os olhos nunca desgrudando dos de Jesse, que mantinha a expressão emburrada de antes.

As folhas secas do outono começavam a tomar conta do chão gramado, pendendo amarelecidas, avermelhadas, dos galhos das árvores, algumas achando o caminho para o chão onde seriam pisoteadas, uma delas escorregando pela brisa até o colo de Jesse, que fixou os olhos sobre ela, ainda em silêncio.

-Não foi nada, John. Bobagem. –disse baixinho. Sentindo que o outro não fugiria, John se sentou ao seu lado, vendo os dedos do outro tomarem a folha que caiu sobre seu colo.

-Foi sim. O que eu fiz? – perguntou de novo, o corpo margro inclinado, os olhos castanhos por trás das lentes procurando desesperadamente os de Jesse por trás dos cachinhos claros. –Me fala, por favor. – implorou, deixando a mão fria pousar sobre uma das que brincavam com a folha seca.

Não tinha certeza, mas Jesse parecia ter corado.

-Eu não gosto da Laura. – soltou, enfim. –Não gosto de te ver com ela, não gosto do jeito dela, e ela também não gosta de mim.

John suspirou.

Por que não havia percebido que isso tinha algo a ver com a garota? Era tão óbvio que Jesse a abominava, e John não conseguia entender o motivo, ela era divertidíssima, muito parecida com eles em todos os aspectos. E era amiga de Sherri, que Jesse simplesmente adorava, e Chauntelle gostava dela também, e Shaun, e Will, e todos os outros...

Talvez Jesse enxergasse nela algo que os outros não conseguiam.

-Por isso que está me evitando? – perguntou, entrelaçando os dedos com os de Jesse. O loiro assentiu, só então erguendo o rosto e se virando para o encarar.

-Ela vai afastar a gente. Ela não gosta de mim, John. – disse, os olhos azuis um tanto brilhantes com as lágrimas que provavelmente ele estava tentando segurar com toda a força que tinha. Fungou fraquinho, virando os olhos para o resto do gramado, onde outros grupos de alunos começavam a se amontoar.

-Nada vai afastar a gente... – disse, a pontinha dos dedos tocando de levinho o rosto do mais novo, trazendo seu rosto de volta pra frente, podendo se perder novamente nos olhos claros dele, agora não mais marejados, um sorriso fraco brincando nos lábios finos.

-Eu amo você. – disse simplesmente, e John não conseguiu evitar a cor rosada que surgiu em suas bochechas, nem aquela sensação gelada no estômago, nem o sorriso feliz que soltou.

-Eu também te amo. – respondeu. Jesse soltou sua mão, se jogando em seus braços em seguida, o abraçando forte, o rosto confortavelmente aninhado na curva do pescoço de John, os dedos correndo pelos fios curtos na nuca dele, sentindo os braços longos e magros de John circulando sua cintura.

-Vai ficar tudo bem com a gente, ta? – John murmurou com os lábios praticamente tocando o ouvido do menor.

Jesse assentiu, depositando um beijo fraco no rosto de John.

-Meu Deus, vocês são tão gays! Desde o jardim de infância. – Shaun se jogou ao lado de John, mordendo uma maçã e assistindo os dois se separarem para dar oi para o resto dos meninos.

Desceu do carro, sendo alegremente recebido por um dos cinco ilustres moradores do grande casarão onde residia atualmente, Monk. O grande labrador preto abanava o rabo enquando pulava nele, e depois latia, ignorando a neve gelada sob as patinhas, apenas feliz em ver o dono.

-Bom menino, bom menino! Vamos, vem, Monk! – chamou, abrindo a porta pesada de vidro e ferro, o colocando para dentro. Tirou a touca de lã grossa, as luvas, observando enquanto o cachorro se sacudia, jogando neve para todo lado. Era bom que tia Harriet não visse aquilo. Se ajoelhou, segurando a cabeça do cachorro com as duas mãos, falando baixinho:

-Olha, Monk, nós vamos atravessar a casa em silêncio, ta? Sem derrubar nada, senão a tia Harriet vai te ver aqui dentro e vai ficar brava. Por mim, você dormiria no meu quarto, mas ela realmente não gosta de quadrúpedes dentro da casa dela. – sorriu, esperando que o cachorro o entendesse, e se levantou, segurando com força na coleira de couro em volta do pescoço do labrador, o puxando com ele, silenciosamente pela casa, estranhando a pouca atividade do local.

Era uma tarde de sábado, inverno, era mais do que esperado que sua tia estivesse na sala de tv – que acabavam de cruzar – ou na biblioteca, ou pelo menos...

... na sala de chá.

As pessoas – uma mulher, um homem, um rapaz e tia Harriet – se viraram para ele no mesmo instante, o fitando com olhares curiosos. A mulher tinha os cabelos na altura dos ombros estreitos, um tanto lisos, olhos esverdeados e os lábios vermelhos. A testa estava franzida, o rosto todo com um imenso ar de desaprovação. O homem, também magro e franzino, tinha o cabelo – pelo menos o pouco que restava em sua cabeça – preto, os olhos castanhos e uma xícara de chá cujo destino era sua boca, agora parada no meio do caminho. Não conseguiu analisar o rapaz a tempo, vendo os olhos de sua tia Harriet – a senhora baixinha de cabelos loiros, um tanto rechunchuda – viajarem dele para Monk, e de volta para ele.

-Esse... é meu sobrinho, Jesse. – disse ela, um tanto sem graça pela invasão da sala de chá.

-Desculpem, eu não ouvi barulho então... –começou, mas o olhar de sua tia, acompanhado de um divertido sorriso de lábios, o encontrou, o assegurando de que estava tudo bem.

-Ele está com dezesseta anos, é um dos sete. O mais velho, Rory, mora em Boston, depois vem ele, e Carly, e Kerry, Hayley, Jamey e Cody. –disse. –E esse com ele, é seu melhor amigo na casa, o Monk, que deveria estar no quintal. Não é Jesse?

Os outros riram baixo, seus olhos agora encontrando o rapaz magro, de cabelos pretos e olhos verdes como os da mãe, a mistura perfeita do casal sentado no sofá.

-Eu cheguei e ele veio pulando em mim, fiquei com dó porque está tudo cheio de neve, ele vai acabar com as patinhas congeladas, então eu decidi lver ele até os fundos aqui por dentro mesmo. – explicou.

-Tudo bem. – ela riu. Tia Harriet nunca dava bronca. –Agora diga oi para os Reilly! – pediu, apontando os visitantes. –Eles estão de volta de Manhattan, e o Brandon tem quase a sua idade! Talvez ele vá estudar na McArthur também. – ela explicava enuanto Jesse desajeitadamente apertava a mão dos três, sussurrando um “meu pêsames” pro garoto quando sua tia mencionou que talvez ele tivesse a infelicidade de estudar na escola de Jesse.

-Aliás, tia! Tem jogo hoje, eu vou precisar sair daqui a pouco, estava no treino até agora. –disse, vendo a tia assentir.

-O que acha de levar o Brandon? – perguntou, meneando a cabeça para o garoto, que não estava com a expressão facial mais feliz do mundo no rosto. Não era todo mundo que gostava de jogos de futebol, e Jesse entendia isso perfeitamente.

Não estava no time porque gostava, era tudo uma questão de conseguir passar em uma boa faculdade.

-Se ele quiser ir... – disse encolhendo os ombros, agora fazendo força para segurar Monk, que não desistia de tentar alcançar a mesa com bolachas. Olhou Brandon, sorrindo, percebendo que ele não era de todo estranho, já se conheciam, ele só não se lembrava de onde. –Nós vamos pro Big Boy depois. Eu, minha namorada, um amigo de Baldwin, a irmã dele e o resto da turma. Mas pode ficar sossegado, nós não somos os esportistas grosseiros da escola, somos os mais excluídos. – piscou, vendo o outro rir, desacreditando.

-Eu adoraria ver isso. – disse. –Joga em que posição?

-Zagueiro. O mascote do time é um dos meus melhores amigos, Vincent Accardi. –sorriu, puxando Monk. –Vou levar o Monk.

-Vou com você! – o garoto se levantou, o seguindo. –Adoro cachorros, e não agüento mais esse papo de velhos...

Jesse riu.

Os dedos longos e magros se esticaram, a entregando mais um copo de chocolate quente, o vapor formando uma longa névoa na sua frente. Os dedos delicados envolveram o copo, o levando aos arroxeados e trêmulos.

-Eu vou morrer. – ela resmungou.

-Tomara. – respondeu o jogador do time parado à sua frente, recebendo dela um olhar irritado.

-Não me surpreenderia se tivesse veneno aqui dentro. – disse ela olhando para o outro lado, tomando outro gole.

-Não se surpreenda se você cair dura no meio do jogo. – respondeu, girando o capacete entre os dedos. Não gostava de Laura normalmente, Laura-Líder-De-Torcida era um pouco pior.

-Deixa eu ver se entendi... – Brandon começou, olhando de Jesse para Laura. –Ela namora o seu melhor amigo, e vocês se odeiam. Ela, por acaso, é a melhor amiga da sua namorada, que também é líder de torcida...

-Isso! Líder de torcida, mas que diferente da Laura, não é burra e está de calça e agasalho, com o uniforme por baixo, e não com essa micro-saia e essa blusinha minúscula no campo bem no meio do inverno. –disse sorrindo falso para a morena, que retribuiu o sorriso.

-Fiquei impressionada com o seu ato de caridade em me trazer chocolate quente. –disse ela, tomando mais um gole.

-O John não ficaria feliz em chegar aqui e descobrir que eu te deixar congelar até a morte. Mesmo que isso fosse fazer meu dia. – respondeu, se virando para Brandon. –Ela é insuportável. O John vem de Baldwin pra visitar e ela aluga ele o fim de semana inteiro!

Brandon riu ao ver o olhar indignado da cheerleader.

-Isso é mentira, Lacey! – gritou ela. –Brandon, ele sai com o John na sexta à noite, voltam no sábado de manhã, dormem até a hora do almoço, o John me pega, nós ficamos juntos até umas onze da noite, e ele vai atrás do John, os dois saem de novo à noite, e no domingo eu saio com o John e esse animal vai junto! – reclamou ela se levantando do banco do vestiário.

-Mentira! Eu não tenho culpa que você é sem graça e o John prefere sair comigo. – constatou, encolhendo os ombros, vendo Sherri se aproximar deles com seu próprio copo de chocolate quente, com mais duas garotas em seu encalço: Stacy e Michelle. A última, vestindo o uniforme de cheerleader da Baldwin.

-Jesse! – exclamou, sorrindo. –O John estava te procurando desesperadamente, temos uma ótima notícia.

-Qual? – Jesse sorriu, encarando a irmã mais nova do melhor amigo.

-Estamos voltando pra Levittown! – um braço magro pousou sobre os ombros de Jesse, vindo de trás dele.

John ficava ótimo naquele sobretudo marrom.

Melhor ainda quando sorria, dando uma notícia daquelas.

Estavam já na calçada quando as vozes femininas soaram atrás deles, os chamando. No começo, ignorara foi um tanto simples, mas as garotas, insistentes, logo estavam acompanhando seus passos. Jesse não se importaria nem um pouco se somente Sherri, ou Sherri e Chauntelle estivessem atrás deles, mas eram Sherri e Laura.

Laura Kirsch.

Sentiu quando a mão pequena de Sherri segurou seu ombro, vendo Laura sentrelaçar o braço no de John, e os dois continuarem andando.

-Me solta, Sherri! –exclamou, tentando correr até os dois, mas Sherri se colocou na sua frente, sorrindo.

-Deixa eles! Que ciuminho besta, Jess. A Laura gosta dele de verdade, e ele gosta dela, ele disse que gosta dela, então deixa os dois se...

-Ele o que? – Jesse perguntou um tanto alto, agora interessado em ouvir o que Sherri poderia saber que ele não sabia. John não podia gostar de Laura, simplesmente porque John nunca o disse que gostava de Laura. Aliás, haviam acabado de conversar sobre John não o trocar pela garota, o que soava um tanto gay, mas que não era.

Não era, né?

Não, não era.

-Eu perguntei se ele namoraria a Laura, e ele disse que provavelmente sim. – Sherri disse, um tanto receosa com as mãos de Jesse agora segurando firme seus ombros. –Então eu perguntei se ele gostava dela, e ele disse que gostava bastante, e perguntou se ela gostava dele mesmo, e eu disse que sim.

Sherri não mentiria.

Ela podia ser a garota mais desregulada que ele conhecia, a que menos se parecia com uma garota, mas ela era ingênua demais para mentir para ele. E sua expressão facial que demonstrava que ela definitivamente não sabia se estava fazendo o certo ou não deduravam completamente que ela estava de fato falando a verdade.

-Quando foi isso? – perguntou. Não acreditava que John – justo John! – havia mentido para ele.

-Depois do intervalo, no corredor. – disse fraquinho. –Algum problema, Jess? – perguntou vendo o olhar perdido do outro.

-Ele mentiu pra mim, Sherri. – disse, a soltando e pisando firme na direção em que estava indo antes, sendo seguido pela loirinha.

-O que ele disse? Que não gostava dela? Que gostava de você? – ia perguntando enquanto tentava pegar o ritmo de seus passos, passando por ele sem querer quando, digerindo sua última pergunta, ele parou.

-Você é louca? – pergutou, o rosto contorcido em uma expressão de nojo. –Eu amo o John, mas não assim. Ele é meu melhor amigo, um menino, e... que nojento isso! –exclamou, vendo Sherri rir, aliviada.

-Escuta, Jess, eles namorarem não vai mudar nada entre vocês dois. Ele vai continuar sendo seu melhor amigo, seu maior confidente, e agora ele vai... ter umas coisinhas sobre ela pra te contar. Só isso. – Sherri encolheu os ombros. –E nós só temos doze anos, não é como se eles fossem se casar ou algo do tipo.

Jesse riu, sentindo um soquinho no ombro.

-Vem, vamos lá em casa comer bolo. A Chauntelle quer revanche no Mario Kart. – Sherri sorriu, o puxando pela mão na direção de sua casa.

Lá longe, Jesse ainda pôde ver John e Laura abraçados, e não conseguiu deixar de se perguntar por que John mentiu pra ele.