Momentos por escrito.
1 Capítulo 1 - Afinal o grande dia.
Notas iniciais
O som baixo de latidos misturado ao cantar de pássaros à distância era natural de ser ouvido toda manhã pela janela do meu quarto. Era fácil acordar cedo, desvantagens de ter sono leve, mas mesmo assim confiava um pouco mais em deixar meu despertador preparado para me acordar. É uma das tarefas mais difíceis do dia, abrir os olhos, mover-se pela cama tentando ficar ainda mais confortável debaixo dos lencóis e começar a apertar os travesseiros como num abraço em busca de uma posição também mais confortável para repousar a cabeça. Não tinha vontade de acordar, era um conforto do qual eu não teria durante as próximas horas do dia e se havia algo o qual valorizava de verdade, eram minhas horas de sono, poderia ficar horas alí, desfrutando daquela sensação acolhedora de estar semi-acordado na cama mais confortável do mundo, num clima pouco frio porém agradável e com a janela do quarto permitindo que uma brisa fria adentrasse meu espaço e refrescasse meus pés descobertos, era de fato algo maravilhoso.
Antes mesmo que pudesse começar a tirar mais proveito daquilo, meu dia já estava começando e as responsabilidades já vinham direto à mim ao som de Pumped up kicks do Foster the People, música que já foi minha favorita dois anos atrás mas graças ao meu despertador que travou na música e agora a toca todas as manhãs para me acordar, até mesmo o Foster the People já havia sido removida da minha lista de TOP 10 do Spotify. Não era culpa deles, era minha, por não saber que quando se programa um despertador é o mesmo que querer programar o rumo da sua vida , você pode tentar várias vezes alterar as escolhas que fez com relação a ele, mas no final do dia as coisas continuam da mesma forma e só o tempo vai passando. Depois de aproximadamente dez minutos de preguiça, finalmente meus pés tocam o tapete branco felpudo ao lado da cama e coloco toda força e auto estima num só empurrão para conseguir ficar de pé, ali começava meu dia, sem camisa, de short de pijama, olhando para a janela aberta e notando o ar frio que entrava por ela, era refrescante porém me dava vontade de jogar o corpo para trás e voltar a dormir alí mesmo. Meus dedos dos pés estavam estralando enquanto os flexionava e o tapete ajudava na parte do conforto apesar de ser completamente diferente do resto do quarto, meu quarto era decorado em preto, azul claro e madeira, haviam pequenos detalhes em branco mas como o próprio adjetivo diz, eram pequenos e aquele tapete tomava metade do espaço entre minha cama e a parede ao lado dela, mas isso não é algo relevante.
— Bom dia...
Minha voz rouca soava tão sonolenta quanto todo o resto do meu corpo.
A cada novo passo que dava na direção da porta do banheiro era como se estivesse sendo traído pela minha própria altura, ter a cabeça um metro e oitenta e cinco centímetros distante do solo era muita coisa, meus olhos ainda tinham preguiça de se abrir por inteiro e talvez isso estivesse ajudando meu corpo a ficar um pouco mole enquanto andava. Parei na frente do espelho e apoiei as mãos sobre a pia, deixando a cabeça cair e relaxando o pescoço por alguns segundos antes de abrir a torneira e ouvir o doce som da água corrente, logo olhando a mim mesmo pelo espelho.
O que dizer sobre aquele reflexo? Aparência jovem de uns 20 anos, barba já precisando novamente ser feita, olhos verdes azulados com olheiras, cabelos pretos, ondulados, desarrumados e batendo na testa e... sim, precisava voltar a frequentar a academia.
— Mike! A Alice já está tomando café!
Três batidas na porta do quarto e a voz do caçula da família já berrava em meu chamado.
— Preciso de vinte minutos! — avisei-o num tom mais alto — Ou talvez uns trinta!
— Pela animação dela pra hoje você tem no máximo uns cinco, bro...
Elliot era o irmão caçula, Alice a do meio, eu o mais velho e homem da casa. Não era como se a falta do meu pai dentro de casa tivesse causando algum tipo de problema psicológico nos filhos, minha mãe é mais forte que muito homem, e a comida dela é capaz de convencer qualquer um dentro dessa casa de qualquer coisa.
Após ter meu momento matinal completamente arruinado pelas expectativas da minha irmã, tive que correr para o banho e vestir a primeira coisa que saiu do guarda roupa, jeans novas, camisa branca, tênis, relógio, celular e carteira, além de algumas balas de menta para o hálito, abri a porta e fui andando pelo corredor achando estar ouvindo algum tipo de animal selvagem berrando de dor tentando sobreviver a algum tipo de lesão séria, mas os sons logo formaram as palavras "I'm gonna live like tomorrow doesn't exist, like it doesn't exist..." e tudo ficou bem claro a meus ouvidos.
— Elliot... — Bati à porta do banheiro social — Você deveria realmente prestar mais atenção no seu banho, ao menos sai daí cheiroso pra compensar o som terrível que você chama de voz!
Não era ele que cantava mal, talvez seja apenas a Sia que cantava aquela música muito bem. Corri para as escadas antes de Elliot começar a berrar comigo atrás da porta e logo cheguei à cozinha, praticamente fui atraído até lá pelo maravilhoso cheiro de bacon frito com ovos, era a especialidade da minha mãe, tão bom que até mesmo cegos conseguem se guiar pelo cheiro e chegar até aqui, mas esse é o tipo de comentário que é proibido e pouco ofensivo de se fazer dentro dessa casa, por certas razões.
— Bom dia! — murmurei.
— Bom dia, Michael. — A figura de cabelos longos e escuros, como os óculos que usava, e voz doce sentada ao balcão havia sido a única a responder de volta, o ânimo em seu comportamento era compreensivo e ao mesmo tempo talvez pouco exagerado ao meu ver. Alice estava animada, seria seu primeiro dia no novo "tratamento" e parecia que dessa vez ela estava dez vezes mais animada que o normal, geralmente é a última a terminar o café mas naquela manhã havia sido a primeira até mesmo a acordar.
O que dizer sobre minha família? Somos pessoas normais, moramos os quatro juntos e mesmo tendo alguns tios vindo à nossa casa no natal, nós quatro tínhamos nosso "clube". Minha mãe era ótima cozinheira e tinha seu próprio restaurante na região central, a poucos metros do museu de arte de Seattle e de frente para uma antiquaria de aparência pouco moderna onde o dono por sinal era um velho engraçado mas que tinha o hábito de parecer dar em cima da minha mãe. Elliot era o problemático e o mais novo, mas ainda estava no colégio e isso justifica quase totalmente seu péssimo humor todas as manhãs, Alice era a queridinha, única filha da família e a do meio, e claro, eu era o mais velho, o garoto que tinha mais responsabilidade que todos os outros e que geralmente levava bronca primeiro por algo que meus irmãos acabassem fazendo de errado.
Era fácil dizer que eramos todos da mesma família, cabelos escuros, olhos esverdeados com manchas castanhas no meio, exceto por Elliot que herdou os olhos azuis do meu pai, que por sinal não mora mais com a família desde a separação, agora ele tem outra família, na Austrália, bem longe daqueles que ele deixou no passado.
— Mike, querido... — A voz da minha mãe era possivelmente a única coisa que me faria tirar os olhos e a atenção dos ovos mexidos que estava comendo — ...preciso que use seu carro hoje, tudo bem? Vou ter que levar o Elliot na escola e tenho que ir novamente no escritório conferir alguns documentos de cargas.
— Não, tudo bem, só espero ter gasolina. — Respondi.
— É melhor pra sua saúde que tenha... — Alice não era muito de ameaçar mas naquele dia em especial ela provavelmente não estava brincando com aquele tom de voz sério.
Não havia muito tempo para o café então apenas terminei logo de comer enquanto Alice já estava na garagem. Aquele ânimo me preocupava, não era como se minha irmã já não tivesse tido expectativas frustradas antes, era na verdade uma questão minha, saber o quanto tudo aquilo era importante para ela me deixava bem, por outro lado, saber que as vezes mais decepções podem acontecer a ela, me deixava preocupado.
— Sua cara mudou. — Minha mãe ainda estava na cozinha, por um momento em meus pensamentos havia esquecido disso.
— Huh? — engoli seco
— Eu sei que está preocupado com ela... posso ver sua preocupação.
— Eu só... não sei, não sei o que esperar desse lugar. — Meu tom de voz realmente parecia diferente, desde que acordei e na verdade desde que fui dormir noite passada eu vinha pensando sobre Alice, dentro de mim algo parecia se remoer dizendo que ela estava melhor em casa.
— Michael, sua irmã tem 18 anos agora, ela tem idade o bastante para começar a tomar as próprias decisões e as consequências que cada decisão traz, as coisas são mais difíceis pra ela e por isso mesmo precisamos dar apoio e deixar que ela tente seguir uma vida do jeito dela, ela não terá os irmãos e a mim para sempre. Então seja um bom irmão e vá leva-la à clínica.
Se havia algum problema a ser resolvido, a capitã chefe da quadrilha dos Callaham sabia resolver. Minha mãe era assim, sempre disposta a todos e tudo o que eu gostaria era de ter pegado sua personalidade. Ao contrário do resto dos meus irmãos, eu tinha a personalidade do meu pai, pouco séria, pouco quieto, responsável, e independente. Características irônicas do homem que deixou sua família. Na garagem, Alice já estava sentada no banco da frente com uma mochila em seus pés e o som do rádio estava alto, olhando de fora parecia até mesmo uma cena típicamente vista na minha época de colegial, tirando o fato de que aquela garota não estaria no meu Mazda, eu nem teria dinheiro para ter aquele carro ainda e apesar de Elliot ter o hábito de chama-lo de "trevoso" por conta das cores escuras, era minha maior conquista até o momento.
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