Momentos
7 Capítulo 7 - Flores e gelo
Notas iniciais
Flores e Gelo
Anatoly havia acabado de amarrar a mala no suporte externo do carro, quando Irina chegou com uma maleta extra. Ele a encarou com uma careta, ganhando outra como resposta, entendimento telepático que evitava palavras. Na verdade, nenhum dos dois estava se estranhando, era apenas o frio moscovita responsável por congelar seus rostos naquela feição torcida de quem nunca se acostuma com os graus diminutos, não importava quanto tempo passasse. Profissionais do gelo que não conseguiam viver nele, a ironia da vida.
Acomodados e duros como cubinhos de gelo no banco de trás, Dimitri, Lev e Efimiya dividiam um cobertor com estampa de bichinhos, pertence de Koziminskaya, eternamente fadada a ocupar o assento do meio, dado sua pouca altura. Pelo menos Irina tinha prometido trocar de lugar com ela no meio da viagem.
— Todos prontos para nossa aventura? — Lagutina tentou fazer uma piada quando finalmente entrou no carro, mas tudo o que recebeu foi um gemido conjunto que reclamava a corrente de ar frio invadindo o interior do veículo, que já não era dos mais agradáveis.
— Eu já tive o bastante, na verdade, posso ir pra casa? Mandem lembranças a Yakov por mim… — Dimitri parecia, de fato, prestes a desistir de viver. Quem passasse por ali, facilmente o teria como um moribundo balbuciando seus desejos finais.
— Ânimo, Nabiyev, são só oito horinhas, vai passar rápido — Efimiya provocou, encostando-se em seu ombro. A noite virada em claro estava cobrando um cochilo.
— Todos aqui foram ao banheiro? — Se fechando dentro da lata fria que era seu carro, bem mais fria que a guerra, diga-se de passagem, Ganshin soprou as mãos, que mesmo enluvadas, custavam aquecer. — Olha que saindo daqui, só vou parar em Bologoye. — Silêncio. Os patinadores instalados no banco de trás apenas o encararam de volta, o ânimo drenado de suas vidas. — Não quero ouvir uma palavra de reclamação de vocês em quatro horas — avisou, dedo em riste, um complemento ao alerta. Ninguém deu muita bola.
— Eu tenho a bexiga pequena… — murmurou Efimiya, choramingando. Ela já estava perdida na linha tênue entre o sono e o mundo real, e provavelmente não se lembraria de metade das coisas que resmungava, agora.
— Faz sentada aí mesmo, qualquer coisa, vai que pelo menos assim algo aqui nessa porcaria de lata aquece. — Foi Lev o primeiro a abrir a boca para reclamar. Encarando-o pelo espelho retrovisor, Anatoly parecia prestes a matá-lo.
— Prefere ir no lugar da mala, Batalov? Eu posso muito bem te amarrar lá em cima. — Girando a chave, ele ligou o carro, que engasgou, engasgou e engasgou, até morrer. — A gente oferece carona, se dispõe a levar, gastar pneu novo, enfrentar toda essa neve, pra ter o carro chamado de lata, a falta de respeito é inacreditável. — Mais um giro da chave e… nada. Ótimo. — Seis anos na fila de espera e sou obrigado a ouvir desaforo.
— Vocês dois sosseguem, ou, eu juro, ninguém aqui vai deixar Moscou com um dente na boca sequer. — Inconscientemente, Dimitri, que estava quieto o tempo todo, cobriu os lábios com as duas mãos, apenas para prevenir qualquer sopapo surpresa.
Os outros dois patinadores se calaram. Irina tinha um grande poder de persuasão.
— Foi mal, Tolya, fico de mal humor no frio… — pediu Lev, voz amena que indicava sua chateação.
O carro mergulhou no silêncio, Efimiya a primeira de todas, parecendo a mais confortável do trio. Ela não tinha pernas compridas como Dimitri para que oito horas de joelhos tocando seu peito fossem um problema. Até Irina, entusiasta de sonecas e longas horas de sono, estava invejando a amiga.
— Tá bom — murmurou Anatoly, desistindo de ficar bravo. Só queria ligar logo o carro e seguir viagem, estava ansioso por isso. Todos estavam. Era por isso que os nervos estavam aflorados. — Vamos tentar de novo.
Um giro, o som do motor aquecendo e… sim! Finalmente!
Em comemoração ao carrinho pegando no tranco, todos (os que tinham condição para) aplaudiram, Dimitri puxando assovios agudos, enquanto Anatoly manobrava em direção à rua. Que começasse a aventura da gangue para Leningrado.
Não que eles nunca tivessem visitado a cidade, antes, só era a primeira vez que todos arriscavam suas não tão preciosas cabeças na carteira de Anatoly, documento esse que ficou seis anos enterrado no fundo de uma gaveta, esperando para ser usado. Seis anos sem Ganshin dirigir algo diferente de um zamboni. E ele estava pegando a estrada principal. Ah, mas isso seria memorável se todos saíssem sem sequelas.
— Quando chegarmos em Bologoye, podemos entrar em alguma loja e comer algo quente?
— A pausa é só para o banheiro, Dima, Efimiya e eu fizemos lanches — Irina disse do banco do carona, mão tamborilando o cesto recheado. Era uma droga ter de levar aquele trambolho sobre os joelhos, mas ela tinha escolha? Não era como se tivesse muito espaço naquele modelo ZAZ entregue a Tolya. Oito horas… O que eles não faziam por Yakov Feltsman e a pequena Margosha?
— Acho bom vocês começarem a cantar, conversar, qualquer coisa com barulho, porque com esse silêncio todo eu posso muito bem dormir no volante.
E não teve mais nenhuma alma viva dentro daquele carro que cogitou pregar o olho. Exceto por Efimiya, que totalmente entregue ao mundo dos sonhos, pareceu ter apenas deixado a carcaça para trás. Que a aventura começasse.
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— O que você vai fazer no dia vinte e seis? — perguntou Yakov, como se citar data tão específica fosse de uma casualidade tremenda.
Lilia, que até então bebericava seu chá com calma, desviou sua atenção do exterior nevado da confeitaria para encará-lo desconfiada, os grandes olhos verdes apertados em dúvida.
— Você diz sábado? — Ela mesma duvidou por um momento.
— É, nesse dia aí que você vai se apresentar... — Sustentando o olhar, Lilia o viu tirar do bolso interno um pedaço de papel, retangular e comprido, com caligrafia cheia de adornos, o nome que a fez saltar na cadeira e derrubar a cerâmica assim que terminou de lê-lo: Quebra-Nozes.
— Yakov, você-! — Lilia foi incapaz de terminar. Ele riu em resposta.
— É sua primeira apresentação com o Kirov, eu não podia perder — dizia como se não tivesse sido nada demais, enquanto guardava o ingresso com cuidado.
Lilia sorriu com o rosto voltado para a mesa, a mão cobrindo os lábios abertos pela descrença. Ela ainda não conseguia acreditar que Yakov havia comprado um ingresso para o balé, para assisti-la, armando durante todas essas semanas às suas costas quando lamentou dias a fio não ter conseguido comprar uma entrada que fosse. O filho da mãe esperto…
— Eu ainda não acredito em você, Yakov Feltsman… — ela riu, decidindo se continuava o encarando como boba ou o acertava com o guardanapo.
— Apenas sinta a pressão de que agora você vai precisar dar o melhor de si nessa apresentação.
— Como se eu não fizesse isso todos os dias! — Lilia riu, não sabendo para onde olhar. Ela sempre acabava voltando a encarar aqueles olhos azuis, pesados, mas tão suaves ao mesmo tempo… — Muito obrigada pelo apoio.
— Não precisa agradecer. Estava ansioso por rever seu trabalho.
— Sempre bom lembrar que eu serei apenas um dos flocos de neve da última fileira.
— Seria uma pena se você se destacasse de todo o resto.
— Não posso me destacar, me cortariam da próxima apresentação, o corpo de baile deve ser perfeitamente sincronizado.
— Você é o tipo de bailarina que se destaca naturalmente, Lilia — continuou Yakov, dedos longos deslizando na borda da mesa a sua frente. Ele estava envergonhado em admitir aquilo? — Não importa se estiver vestida como o restante do corpo de baile, com certeza saberei qual delas é você.
Lilia esperava que Yakov entendesse seu rosto corado como culpa do aquecimento interno.
— Vai levar Margosha com você? Quebra-Nozes é sempre um bom balé para entreter crianças.
Dessa vez, foi Yakov quem esperou que Lilia associasse seu rubor com o chá quente que bebiam.
— Não dessa vez — admitiu. — Meus amigos estão vindo passar o aniversário dela e a virada do ano aqui em Leningrado — suspirou. — e eu sempre acabo perdendo minha filha para eles quando isso acontece. — Lilia sorriu.
— Fala dos amigos de Moscou? — Ele assentiu. — Parecem bons amigos.
— Os melhores que eu poderia escolher. Quero dizer, às vezes dá vontade de não escolher ninguém, mas é difícil remover o carrapato depois que ele gruda.
— De fato, eu sinto exatamente isso com Irisa! — Ah, se a amiga a visse falando assim dela… — Mas o que seria de mim sem os doidos que me cercam?
— Penso exatamente o mesmo. — Mesmo longe, Yakov não poderia pedir por amigos mais presentes. — E é aproveitando dessa boa vontade deles que eu gostaria de saber se você gostaria de sair comigo após a apresentação. Se estiver livre, claro.
Ela arqueou as sobrancelhas, surpresa pelo convite. Não que os encontros com Yakov estivessem sendo raridade; já fazia algum tempo que eles aconteciam de forma espaçada, às vezes passeios pelo centro, conversas jogadas fora em alguma praça onde Margosha costumava brincar, sempre com atenção redobrada de Yakov — coisa que Lilia achava adorável vê-lo revezar assuntos cotidianos com alertas gritados que nada tinham a ver com o assunto discutido, fazendo-o sempre se perder. Em alguns desses passeios acontecia deles “esbarrarem” em Irisa e Lukyan — Lilia sabia que a amiga fazia de propósito —, ou Sinya, coincidentemente sempre a caminho de casa, embora o local fosse totalmente contramão. A única coincidência, mesmo, fora encontrarem Daniyalm que engatou com Yakov uma conversa sobre motores que ela não fazia ideia de como Feltsman sabia tanto. Ela também não fazia ideia de que Danik conseguia manter conversas tão longas com aparentemente estranhos sem realizar pequenas pausas ao longo delas. Com Lilia e Irisa, pelo menos, foi assim no começo de suas amizades.
Contudo, seus passeios tinham o intervalo de dias, semanas entre si, e a apresentação de Lilia estava marcada para o próximo final de semana.
— Não fica muito em cima para você? Está pagando por hoje, já comprou o ingresso… Não me sentiria muito confortável com você pagando a conta, novamente.
— Com isso você não precisa se preocupar…
— Yakov, já faz três passeios que você assume as contas, eu realmente gostaria de pagar pela minha comanda.
— Pensei em irmos apenas… Andar por aí — explicou, encostando-se na cadeira, como se o pequeno afastamento o fizesse se esquivar do que tentava dizer. Lilia não entendeu, esperando que ele continuasse. — Acho que não conseguirei te ver depois disso, não com o pessoal aí. E você também disse que vai viajar para ver sua mãe, eu só… — Ele ergueu os ombros, ainda sem encará-la. — Acho que vai levar um tempo até nos vermos novamente.
Ela permaneceu silenciosa, ampliando a expectativa para a desgraça que Yakov antecipava, pessimista até a alma.
— Fico feliz que considere um novamente — murmurou ela, lábios colados na porcelana, olhos novamente presos no lado de fora. — Eu aceito. — Ao perceber quão estranha ficava aquela afirmação, Lilia logo emendou. — Sair, no caso. No dia vinte e seis.
Yakov decidiu disfarçar o sorriso com uma garfada em seu pedaço de bolo. Estava horrível, mas ele havia gastado seu precioso dinheiro naquilo, portanto comeria até a última migalha.
— Está marcado, então. — Yakov falou, por via das dúvidas.
— Está marcado. — Lilia confirmou, só pelo caso dele não ter entendido.
Estava marcado.
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Ter marcado encontrar Lilia não foi o problema; o problema estava em ter contado aos amigos. Não é como se Yakov tivesse outra escolha, ele só esperava que a reação fosse menos… entusiasmada. Principalmente considerando estarem em oito pessoas acomodadas — ou empilhadas — na comuna, quase saindo pelas janelas, não tinha muito por onde ele fugir. Encurralado, bastou aceitar seu destino, a calça nova emprestada de um amigo, grande demais ao ponto de exigir o uso de cinco, borrifadas de um perfume caro, o cabelo penteado com risca lateral — Yakov jamais se estranhou tanto ao se olhar em um espelho, antes. — e a vergonhosa situação que o colocou para dar voltinhas em torno de si mesmo, para análise fria e calculista dos amigos. E aquilo nem era uma piada.
— Esse tom de marrom da calça não combina com o casaco dele. — Havia opinado Efimiya, dedo no queixo, análise crítica.
— Desculpa aí se eu monto meu guarda-roupa de acordo com os meus gostos pessoais. — Lev rebateu, não gostando nada de ter sua boa vontade e gosto fashionista reduzido com tanto desprezo.
— Já posso ir? Eu gostaria de chegar ao teatro a tempo de assistir o primeiro ato — reclamou Yakov, o pé calçado na bota lustrada batendo impaciente.
— Precisamos te deixar impecável, não queremos estragar a rara chance de alguém se interessar em você. — Anatoly brincou de seu lugar no sofá, enrolado no cobertor junto com Margosha, que assistia a tudo aos risos.
— Ela é somente uma amiga, quantas vezes vou precisar repetir?
— Não que a gente realmente acredite nisso, mas não custa nada tentar — entrando no cômodo, Dimitri trazia um prato cheio de piroshki. — Te arrumando direito, pelo menos, ninguém vai poder dizer que não cuidamos bem do nosso bichinho.
Yakov se segurou para não usar palavras de baixo calão perto da filha, preferindo, ao invés disso, usá-la como cartada final.
— Pois eu só confio em uma opinião aqui, e essa opinião é de Margosha — virando-se para ela, Yakov abriu os braços, por pouco não acertando Batalov. — Que acha, Margosha? O papai está bonito?
— Sempre! — ela respondeu feliz, quicando no assento acolchoado.
Oferecendo um sorriso ordinário aos amigos, Yakov cantou vitória.
— Contra as palavras de sabedoria da minha filha, nenhum argumento de vocês se faz valer.
— Você venceu dessa vez, Feltsman. Foi jogo sujo, mas você venceu. — Irina o julgou, empurrando contra seu peito uma caixa de embalagem simples. — Toma. É pra combinar com esse seu casaco horroroso.
Yakov olhou para a caixa, incerto sobre o que fazer com ela.
— Sei que você não está acostumado a ser paparicado, mas chamamos isso de presente — Dimitri falou pausadamente, como se estivesse explicando algo totalmente novo para uma criança.
— Oh, então é assim que se pronuncia? — ironizou de volta, enfim abrindo a embalagem. — Um chapéu novo! Muito obrigado!
— Tomara que caiba nesse seu cabeção, o vendedor não pareceu muito entusiasmado em realizar a troca — Lev não perdeu a chance de provocar. — Jogue o velho fora, está horrível. E já que você não é de usar gorros de pele ou lã, pelo menos se protege de algum jeito.
Yakov encaixou o chapéu na cabeça, espiando sua imagem no pequeno espelho pendurado ao lado da entrada do cômodo. Se surpreendeu em como o novo modelo combinava bem com ele.
— Que tal?
Com os olhos fixos em Yakov, ninguém proferiu palavra, até Efimiya levar a mão ao peito, suspirando fundo.
— Gente, ele é um adulto.
— Você também é uma, Efimiya. — Dimitri a puxou de volta à realidade, a mão pesando no topo da cabeça, bagunçando os fios negros.
— Nããão… — lamentou a moça, derrotada pela maioridade.
— Bom…? — Yakov aguardou. — Isso significa que estou liberado?
E então, inesperadamente, o grupo começou a aplaudir, gritos e aplausos como se estivessem celebrando a final de um Grand Prix, recebendo a nota máxima de todos os jurados.
— Vai com tudo, Yasha!! — vibrou Ganshin, fazendo Margosha saltar de susto ao seu lado. — Que homem!
— Ganhe a garota! — incentivou Efimiya, punhos para cima como se aquela fosse a própria revolução de 1917.
— Mas respeite os limites que ela estipular! — Dimitri lembrou de dizer, embora todos soubessem que Yakov não fosse esse tipo sem noção de pessoa.
— É, lembre-se que você não é como um desses Dom Juan de araque por aí. — Irina fez uma careta. Tinha péssimas recordações envolvendo um tal Yulian Chesternev por aí. Fez muito bem em quebrar o nariz daquela carinha bonita. — Lembra como os ianques costumavam te chamar?
— O Czar do Gelo — dramatizou Lev, gargalhando logo depois.
— Não, por favor, czares não acabam muito bem nesse país — riu, puxando o chapéu na frente do rosto. — Volto mais tarde, não vou demorar muito depois da apresentação, prometo.
— E quem disse que nós estaremos aqui? — Anatoly o encarou, deixando o conforto do cobertor para trocar de canal. — Hoje é dia de bater perna com a estrela da noite, né Margosha?
— É — ela concordou, sem saber que a tal da estrela era ela.
— Vocês não se esqueçam de agasalhá-la bem, entendido? Gorro de lã, cachecol, a meia-calça está na última gaveta…
— ...e os valenkis na entrada, a gente sabe disso tudo, já, Yakov.
— Se ela pegar uma infecção de ouvido por causa de vocês, Irina, eu juro que caço um por um.
— Vai logo, Yakov, ou a gente te joga daqui.
Ele até tentou argumentar, mas quem disse que perto do grupo de amigos, Yakov tinha alguma voz? Sob empurrões e protestos, ele só teve tempo de ver o aceno de Margosha, despedindo-se, totalmente alheia aos acontecimentos.
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Pisar em um palco enquanto estudante, era uma coisa. Tinha todo um sentimento especial de primeira vez, embora não pudesse considerar uma estreia; não eram profissionais, eram alunos, seus desempenhos apenas mais uma etapa das provas não ditas, notas mentais distribuídas desde os bastidores, marcados da entrada ao fechar das cortinas. Joelhos muito inclinados poderiam tirar décimos, cotovelos baixos poderiam reprová-los e eles jamais saberiam, o resultado de todos os seus estudos os colocando na ponta do palco, ou no fundo dele, junto ao cenário. Ninguém queria fazer parte do cenário.
Pisar em um palco enquanto formando, tinha outra sensação. Aquele era o resultado de todos os anos de treinos e auto superação, aprimoramento e desenvolvimento de habilidades e técnicas em diferentes estágios, por diferentes bailarinos. Era ver seus colegas e saber que dentro de cada alinhamento, todos lutaram diferentes batalhas; era exibir arabesques altos, enquanto seu colega dava os maiores saltos, cada qual tentando mostrar à sua maneira quão longe havia chegado, quão merecido era estar ali, quão grandes eram seus sonhos para o futuro.
Agora, pisar em um palco em seu primeiro trabalho oficial pelo Kirov, era uma bagunça de sentimentos totalmente nova, que misturava a bagagem já trazida com a expectativa do desconhecido, causando a eterna sensação de estar perdendo o fôlego. Não dependia mais de avaliações, mas seu desempenho ainda era avaliado, a nota extra vindo em forma de aplausos de desconhecidos que não vinham mais em busca de seus filhos, sobrinhos ou netos.
Lilia não entendia; ainda era o mesmo palco, a mesma rotina, os mesmos passos. O que estava tão diferente? Nem Irisa estava assim tão nervosa.
A plateia não somente estava cheia até o último balcão, como levava em um de seus assentos, Yakov. E dessa vez ele vinha sem Margosha, porque ela estaria com os amigos, amigos esses que vindos de Moscou. Mesmo podendo desfrutar da companhia deles, ele estava ali para vê-la. O que deveria significar aquilo? Ou melhor, deveria Lilia procurar algum significado naquilo?
— Flocos de Neve, em posição!
Não pensou muito, nem teve tempo para tal, colocando-se ao final da fila para seguir os tutus bordados iguais ao seu, sentindo-se perder entre elas, mesmo afastada na ponta extrema. Eram muitas, eram só uma. Eram múltiplos rostos, eram apenas uma face.
Não para todos eles.
“Não importa se estiver vestida como o restante do corpo de baile, com certeza saberei qual delas é você.”
Saberia, mesmo?
Ele sabia.
A valsa dos flocos de neve tinha pouco mais de seis minutos, piruetas diversas, grand jetés colocados a cada duas marcações, a coreografia de um sádico que adorava vê-las saltando de uma ponta a outra, esperando que o corpo de baile fizesse cada um dos movimentos com perfeição, enquanto suportavam perucas brancas pinicando suas cabeças, penduricalhos em seus braços enroscando no saiote fixo, e a chuva de papel laminado que tornava o chão perigosamente liso. E elas que se virassem para saírem intactas do encerramento do ato.
A composição era mágica, contudo. Mesmo suando pela dificuldade, os pés queimando pela fricção dentro da sapatilha estreita, era fácil se deixar levar pela música, braços em arco que erguiam de encontro à luz azulada do holofote, fazendo ela e as outras dezenove bailarinas daquela cena, brilharem como partículas de gelo. Aquela breve sensação de ser algo encantado fez Lilia sorrir.
Deixou o palco e atravessou a coxia, entrando para os corredores de acessa aos camarins, passando por outros Flocos de Neve exaustos e ofegantes, encostados contra as paredes, pernas trêmulas fosse de cansaço ou nervosismo, Lilia não saberia dizer, pois ela mesma não sentia as suas.
Chegou ao camarim e se deixou cair no primeiro banco que encontrou, deitando o rosto nos braços dobrados sobre a bancada, respiração rápida que extravasava o coração acelerado. Ela havia conseguido, Lilia tinha saído viva de sua primeira apresentação como bailarina do Kirov. Dar-se conta disso a fez rir baixinho, feliz e orgulhosa de si mesma.
Baranovskaya sabia que no fim da apresentação, aqueles aplausos retumbantes não eram para ela; a plateia aplaudia o corpo de baile por admiração e respeito por seu trabalho conjunto, mas o entusiasmo que levava palmas adormecerem e gritos serem jogados pelo ar eram apenas reservados aos protagonistas. Mas, por algum motivo, ela podia jurar ter ouvido um bravíssima gritado quando curvou-se em agradecimento ao lado das colegas. Quem teria antecipado o elogio? Deveria estar empolgado.
No fim, todos pareciam felizes e satisfeitos com o resultado da noite. Até mesmo o coreógrafo os elogiou, coisa que não aconteceu nas últimas semanas. Aquilo deveria significar sucesso, eles esperavam.
— Olha a carinha dela, toda sorridente — ria Irisa, removendo a peruca com cuidado. — Nem parece que estava apavorada antes de entrar.
— Pareci muito nervosa no palco? — temeu ela. A última coisa que precisava era descobrir ter entrado em cena exibindo uma careta.
— Pelo contrário, pareceu que era sua centésima apresentação! Estava perfeita, Lilia!
Lilia sorriu aliviada.
— Desculpe não poder falar nada do seu desempenho, eu só conseguia pensar nas marcações e contagem do tempo.
— Não se preocupe — abstraiu Irisa, escovando o cabelo loiro para soltá-lo do emaranhado causado pela peruca branca. —, só notei porque estava atrás de você. Se me perguntar o que mais aconteceu naquele palco, para mim passou em branco.
— Pois eu espiei as duas e posso dizer que estavam ótimas — elogiou Sinya, se aproximando da dupla enquanto parecia se livrar desesperadamente dos grampos que prendiam a peruca rosada. De quem tinha sido aquela ideia para o figurino? — Obrigada por me emprestar o seu marido, Irisa, ele dança muito bem.
Irisa sorriu orgulhosa, feliz pelo elogio como se ele tivesse feito para ela.
— Você também estava ótima, até onde nos deixaram ver — lembrou Lilia. Elas mal puderam assistir metade da performance antes de serem expulsas da coxia, um amontoado de tutus brilhantes sendo escorraçados da coxia. — Você fica muito fofa de cor-de-rosa.
E é claro que Lilia só chamaria Sinya de fofa, porque a garota odiava ser associada com qualquer coisa adorável. Coisas da adolescência.
— Eu não sou fofa — retrucou a menina, braços cruzados em irritação.
— Mais do que fofa, a gente não vai comentar que a Sinya aqui em sua primeira apresentação já foi colocada na ponta da fila junto com o meu Lukyan?
— Prima ballerina Sinya Filatova! — Lilia fez coro à amiga.
— Não passou pela cabeça de vocês que eu fui jogada na ponta porque tenho um metro e meio?
— Mentira, você nem tem tudo isso — rebateu Irisa, provavelmente testando quão longe era o limite da piada, antes de levar um tapa.
Rindo, Lilia se apressou para tirar o figurino, se confundindo com o pente e o algodão que tentava limpar o excesso de glitter ao redor dos olhos; não queria sair pela noite de Leningrado parecendo um dos enfeites natalinos do palco.
— Vem, Lilia, deixa que eu arrumo esse seu cabelo. — Sinya se aproximou, tomando a escova das mãos de Irisa. E assim, sem pedir uma segunda opinião, ela trançou todo o comprimento de acordo com o próprio gosto. Lilia não reclamou. Não era como se desse para deixar melhor que aquilo.
— E para onde você e seu apenas amigo Yakov Feltsman vão hoje, Linya? — os olhos de Irisa cresceram para cima de Lilia, que forçando o algodão contra o rosto, fingiu não ligar para a provocação.
— Andar por aí, Irisa, o mesmo de sempre.
— Irisa acha que vai acordar um dia com a notícia de que você se casou sem convidar ela.
— Lilia que sonhe em fazer isso!
Trajes devidamente devolvidos às costureiras, Lilia e as amigas guardaram os pertences e se agasalharam com camadas extras de roupa para enfrentar a noite fria. Sorte a de Daniyal ter sido escalado para a apresentação da matinê e não precisar passar por tudo aquilo.
Na saída do teatro, ela se despediu das amigas, sabendo que mesmo se afastando, elas ainda ficariam por perto para cuidar de sua vida. Caberia a Lilia fingir não estar notando nada. Era desconcertante, mas ela saberia ignorar.
Ficava mais desconcertante quando, pelo menos daquela distância, ficava parecendo que Yakov trazia um buquê de flores.
Ele trazia um buquê de flores.
Lilia deu as costas para o patinador apenas para ver as bailarinas ao fundo, Irisa rindo como a grandessíssima filha da mãe que era, e Sinya acenando enquanto sustentava um sorrisinho demoníaco. Lilia estava péssima de amizades.
Sabendo ser melhor encarar Yakov do que as amigas, ela voltou a caminhar em direção a ele e, mais uma vez, quase desistiu ao notá-lo conversando com Soloviev. Mas ela não teria um minuto de paz naquele dia?!
Não demorou para Feltsman notá-la, deixando de prestar atenção no que dizia Dimitri para presenteá-la com um sorriso pequeno. Notando ter sido deixado de lado, o bailarino olhou em sua direção, com uma expressão bem menos amigável.
— Boa noite — foi a única coisa que conseguiu pensar em dizer. A presença esmagadora de Soloviev ali a deixava muito desconfortável.
— Boa noite, Lilia. Bem… — Ele estendeu o buquê, e ela não conseguiu controlar a própria vergonha refletida em bochechas coradas. Lírios. Deveria ter custado caro. — Parabéns, você estava deslumbrante. Vocês, aliás. Estava aqui comentando com Soloviev sobre quão bonito foi o espetáculo.
— Que bom que gostou, o pessoal se esforçou bastante — ela sorriu, abraçada às flores. — E parabéns para nós — disse diretamente para Soloviev, a falta de expressão matando o pouco que Lilia conseguia sorrir.
— Parabéns para nós — repetiu Dimitri, não muito impressionado. — Foi bom te ver, Yakov. — Ignorada, Lilia havia sido totalmente ignorada. — Te vejo por aí.
— Te vejo por aí — concordou Yakov, aceitando um aperto de despedida.
— Baranovskaya… — Soloviev se afastou, sem se dignar a pelo menos inclinar a cabeça para Lilia.
Ela não bufou, não na hora. Não seria muito agradável fazer isso na frente de Yakov.
— Muito obrigada pelas flores, são lindas, foi muita gentileza… Eu jamais imaginei ganhar um buquê desses antes de pelo menos cinco anos de casa — sorriu, trazendo as flores junto ao rosto, tentando sentir seu perfume.
— Você merece muito mais, esse foi apenas para compensar aquele fiasco da sua formatura — brincou, embora ainda se sentisse extremamente incomodado ao lembrar da única flor presenteada. Nem ele havia ganhado apenas uma flor em seus piores momentos de carreira.
— Não ouse falar mal da minha rosa, Yakov Feltsman! — protestou aos risos. — Você sabe como eu amei o presente.
Ele sabia, porque Lilia fizera questão de comentar mais de uma vez. Ainda causava alguma coisa na altura do estômago toda vez que ouvia sobre isso. Yakov não sabia pontuar exatamente o que sentia.
— Que tal eu te tirar desse fri-
E antes que pudesse terminar de fazer o convite, um carro veio anunciando sua presença pela avenida, buzina alta em ritmo entrecortado, tentando imitar algo vagamente parecido com Lago dos Cisnes.
Os amigos de Yakov. Claro. Quem mais passaria uma vergonha dessas?
Lilia não sabia o que se passava pela cabeça de Yakov, mas na dela, apenas as comparações com Irisa se faziam. Ela sabia exatamente como era ter amigos de humor tão… irreverente.
— Grande Yasha! — gritou o rapaz ao volante.
— Oi, papai! Oi, bailarina Lilia! — No banco de trás, no colo de Efimiya, Margosha acenava entusiasmada.
— Oi, Margosha!
— Falaí, medalhista olímpico, gostei da calça — provocou Lev, o tipo de piada interna com tons sugestivos que só funciona entre amigos.
— Eu não conheço vocês — declarou impassível. — De onde saíram e por que estão com minha filha?
— Ora, é assim que você fala com seus amigos? Nós só estávamos com saudades do nosso bärchen! — a moça loiro no carona gritou por cima, se inclinando sobre a manivela lateral para abaixar o vidro da janela. — Oi, moça! É você a bailarina da qual o Yasha aqui sempre fala?
— Depende, você conhece muitas bailarinas, Yakov? — ela sorriu para ele, que não tirava os olhos do carro e seus passageiros. De repente, quis muito que voltassem para Moscou imediatamente.
Respirando fundo, decidiu se comportar com o mínimo de civilidade que seus amigos com certeza não tinham.
— Lilia, esses são, respectivamente — ele começou a apontar. —; Anatoly Ganshin, Irina Lagutina, Efimiya Koziminskaya, Lev Batalov e Dimitri Nabiyev. Pessoal, essa é Lilia Baranovskaya.
— É um prazer conhecê-los. — Inclinando-se um pouco, ela acenou para os cinco rostos desconhecidos que começavam a ganhar identidade. — Quantos Dimitri você conhece?
— Por incrível que pareça, apenas dois.
— Eu, por acaso, sou a melhor versão — o moço se defendeu.
— Ah, não tenho dúvidas disso.
— Olha, finalmente alguém reconhece minha importância, Efimiya, aprenda.
— Vá se fo… — lembrando-se de quem ela levava no colo, a moça tratou de engolir o que diria. — Você me paga.
— Desculpe interromper, mas — metendo a cabeça para dentro do carro, Yakov tentava verificar se Margosha estava devidamente agasalhada. Vindo daqueles cinco, nunca se sabe. —, está bem quentinha, filha?
— Não consigo me mexer… — a menina reclamou, o beicinho curvado em contrariedade.
— Bom.
Margosha não entendia como seu sofrimento com o excesso de roupas era algo positivo.
— Foi legal ver vocês, mas estávamos apenas de passagem. Vamos levar a Margosha aqui para pedir um presente para o Ded Moroz.
De onde estava, Lilia viu quando os olhos de Yakov arregalaram e já imaginou o motivo.
— O Ded Moroz já sabe que a Margosha quer uma pelúcia do Cheburashka, Dima.
— Oh-oh! Bom, que bom, né? — o rapaz riu nervoso. Yakov parecia muito que o mataria, agora. — Afinal não tem presente melhor que uma pelúcia do Cheburashka, certo, Gosha? Acho que até eu vou pedir um pra mim!
Yakov com certeza o mataria.
— Muito bem, pessoal, bom passeio para vocês! — Irina se despediu pelo grupo. — Lilia, perdoe essa zona, é apenas nosso charme natural.
— Estou mais acostumada do que você pensa.
— Aí, já temos um membro honorário para nossa gangue, então! — acenando mais uma vez, o carro começou a se afastar. — Até depois, bärchen!
— Irina, não deixe Margosha tirar a touc-- — mas não deu tempo. Yakov bufou frustrado. Em uma escala de zero à dez de moral, ele estava a menos quinze. — O que eu falei sobre sempre perder minha filha para eles?
Lilia riu, olhando-o com os olhos cerrados. Aqueles olhos eram um perigo.
— Que foi?
— Bärchen, é?
— Essa não.
Lilia riu mais alto, sentindo-se vitoriosa por aquela descoberta.
— Você sabe o que é?
— Não, mas parece vergonhoso. — Yakov revirou os olhos. Mais uma pessoa para usar o apelido de infância contra ele. — Nada que o pai do meu amigo não traduza, ele fala alemão.
— Ótimo — determinou ele, saindo andando a esmo —, porque não serei eu quem irá dizer primeiro.
— Yakov! — a bailarina riu, o alcançando sem dificuldade. — Se não me contar, vai ser pior!
— Você não está entendendo, é ruim de qualquer jeito!
E naquela noite em que Lilia foi presenteada com flores e gelo, ambos saíram pelas ruas de Leningrado aos risos, sem entender exatamente porque. Quem sabe aquela fosse a graça.
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