Momentos
98 ... deavançar mais um passo
Notas iniciais

Tsume deu um gole no sake e respirou fundo. Fazia muito tempo que não precisava recorrer ao álcool para ter coragem de fazer algo importante.
Mas as circunstancias atuais pediam uma dose liquida de bravura.
Fisgou uma peça da caixa de papelão. Uma calça. Estampada. Muito, muito estampada. De um tecido que aderia bem ao corpo e modelava cada curva. Poderia ser bem sensual, não fosse a estampa horrorosa.
E então uma blusa.
Por todos os deuses.
Com tantos babados que parecia impossível vestir aquilo.
Babados na barra. Babados nas mangas longas. Babados na gola.
A juventude era insana.
E audaciosa.
Atrevida.
Cada geração a sua maneira, claro.
A diferença de idade entre seus dois filhos tornava isso claro.
No fundo da caixa viu um casaco. Também estampado de péssimo gosto. Alguém tinha duvidas? Era moda na época, oras. Fazia sucesso.
Quanto mais estranha a mistura da roupa, mais popular se tornava.
E agora... Tsume olhava as peças e poderia rir de tão bregas. Pessoas usavam mesmo isso?? Usavam, se lembrava de casa ocasião em que a calça estampada, a blusa frufru e o casaco foram usados com animação. Felicidade.
Deu outro gole no sake.
Sentiu saudades, nostalgia.
Mas não aquela dor insuportável, o desejo insano de voltar ao passado e reviver dias onde tudo era tão lindo. E agora era inalcançável.
Ergueu o casaco e aspirou o tecido.
Cheirava a guardado, a coisa velha.
Seu gesto fez uma pequena fita cassete cair de um dos bolsos.
Pegou o objeto com cuidado.
Uma fita crepe fora colada numa das laterais, com letras rebuscadas o nome da música foi escrito em vermelho: “Never Gonna Give You Up”.
Tsume riu por longos segundos, a ponto de lágrimas juntarem-se nos cantos dos olhos. Se de alegria ou de tristeza, não saberia dizer.
Numa época em que Rock n’Roll dominava o cenário musical em Konoha, musicas com vocais guturais e incompreensíveis, ela só ouvia a baladinha de amor. Ouviu tantas, tantas vezes que sabia a letra de cor.
Respirou fundo.
Tomou mais um gole no sake antes de olhar as horas.
Kiba passaria por ali para almoçar. E o rapaz chegaria esfomeado como sempre, cheio de bravatas e assunto para por em dia.
Principalmente o mais recente: pelo jeito Shino conversou com ele sobre adotarem uma criança e Kiba se tornou um poço de animação e ansiedade com o futuro. Queria a opinião da mãe mais uma vez, porque no fundo ele se sentia um tanto inseguro com a grandiosidade da responsabilidade.
Com calma, Tsume guardou o casaco, a calça e a blusa. Guardou até mesmo a fita cassete e fechou a caixa para colocar sobre a pilha de outras caixas. Observou o quarto agora vazio e limpo. Todas as amadas coisas de Hana prontas para serem doadas. Para ajudar alguém em algum lugar.
Era hora de dar um passo a frente.
Ouviu a voz animada de Kiba soando na sala.
Aquele moleque estava pronto, ela sabia.
Kiba e Shino seriam excelentes pais.
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