Momentos

59 ... Despercebidos


Notas iniciais
59. Sobre uma forma inusitada de viver a vida;

Ela acreditou que o básico na vida seria o suficiente para satisfazê-la. Cresceu acreditando que treinar na Academia e defender Konoha realizando missões a faria feliz.

Mas não fez.

Então postou sua vida na maternidade, afinal, via as amigas se relacionando, encontrando “príncipes” e vivendo contos de fadas. As invejou. As imitou.

Mas não deu certo.

Acreditou que poderia preencher o vazio com um filho. Por que não? Crianças eram vida. E era isso que sentia falta: vida.

Por meses conseguiu se enganar com a gestação. Uma ilusão linda que durou exatamente nove meses, pois assim que teve o bebê nos braços, a tristeza voltou.

Tinha momentos de felicidade, sim. Não podia negar. Mas a sensação de estar jogando a vida fora era muito maior. Esmagadora. Aquela ideia triste de uma existência medíocre, relegada a segundo plano, coadjuvante na própria história.

Um anseio de fazer coisas grandes e atingir o ápice de todo o potencial que se pode ter...

Então, num arroubo de coragem – talvez insanidade momentânea – saiu de casa. Abandonou tudo e todos, tomou um navio com destino ao estrangeiro e partiu sem se despedir.

Mal podia imaginar a jornada que a esperava.

Passou por momentos de dureza, em que nem a arte ninja a ajudou a superar a fome. Precisou abrir mão da própria dignidade, para preservar a vida. Houve momentos em que viu tudo por um fio tênue e pensou que não escaparia para ver um novo dia.

Mas escapou.

Por outro lado, conheceu lugares espetaculares. Teve contato com culturas inimagináveis. Se aproximou de pessoas exóticas.

Aprendeu artes. E danças. E cantos.

Aprendeu a conviver com o vazio, porque ele a seguia como companheiro fiel.

Quanto mais aprendia, mais desejava aprender.

Domava feras e vencia inimigos a quem pudesse pagar.

Porém era incapaz de domar a sensação voraz que a consumia.

Nem aquela intuição irracional que começou a sentir recentemente, quase uma premonição. Não tinha mais muito tempo a sua frente.

E então... um desejo de...

—--

— Shino, quando vai falar com o seu pai? Mamãe aceitou muito melhor do que eu esperava — Kiba perguntou pela terceira vez, enquanto partia um pão com a mão e devorava, caminhando pela estrada rumo ao centro .

— Papai voltou hoje de missão, falarei essa noite — Shino garantiu. Também tinha um pão nas mãos, mas não sentia fome.

— Está com medo de falar com ele? Posso ir com você se quiser.

— Não sinto medo. Só não apareceu a oportunidade — Shino garantiu.

Com as tarefas da futura docência e as missões do pai, mal tinham tempo de conversar!

Suspirando, percebeu a mulher maltrapilha sentada na beira da estrada. Acabou inclinando-se e dando o pão para ela, sem parar de andar.

Kiba olhou cumprido, mas como a mulher parecia faminta, nem reclamou.

— Tudo bem, não vou te pressionar — soou cheio de si.

Shino balançou a cabeça, enquanto continuavam em frente.

A mulher pegou o pão e o olhou com carinho. Aquilo não alimentaria seu corpo, mas saciaria sua alma.

— Obrigada — sussurrou. “Meu filho...”

Notas finais
Então... pois é...