Momentos
1 Capítulo Único
Momentos
Momentos. Uma única palavra que descreve tão bem o significado da vida. Muitos dizem que a vida é feita de partes, mas para mim não, para mim ela é feita de momentos. Momentos felizes, tristes, desgastantes, cada sentimento tem seu momento. Mas não são só os sentimentos, pois existe o momento para tudo, para perdoar, para ser perdoado, para dar um tempo, para correr atrás, para se deixar levar, para esquecer, para relembrar. E eles podem ser grandiosos, simples, complicados, podem gerar mil problemas e ao mesmo tempo facilitar nossa vida, mas o fato é que mesmo sendo todos diferentes, são todos momentos e apenas isso, momentos. Que passam, sempre passam, podem demorar uma vida para acontecer, mas acontece. Ninguém vive o mesmo momento duas vezes, por mais que queira nunca acontece, pois os momentos quando se vão não voltam do mesmo jeito, podem ser mais ou menos intensos, podem ter um brilho a mais, uma sombra a menos, um mínimo detalhe, mas já é outro momento, não é algo que se possa controlar, mas que se deve acompanhar, aproveitar o máximo de cada um deles, pois como já disse, eles passam, e não voltam mais.
Aline e Karen eram um casal feliz, moravam juntas já havia alguns anos, desde que a mãe de Aline descobrira o relacionamento das duas. Apesar de não serem aprovadas como casal pela única parente viva de Aline, elas realmente eram felizes. Eram novas, apenas 23 anos e já sabiam o que era a felicidade de sentir um amor sincero e ser correspondida. Não sentiam a necessidade de sair para baladas, como muitas pessoas de sua idade, não sabiam qual a graça da transa de uma noite, que tantas amigas faziam.
Ambas estavam na faculdade, um curso o qual não tem importância no momento, mas não se conheceram na universidade, se conheceram no colégio, no 2° colegial para ser mais exata, e desde o momento em que se viram pela primeira vez demonstraram interesse uma pela outra. Não, não foi amor à primeira vista, não acredito nisso, acredito que a paixão sim, possa ser provocada por um olhar ou um gesto, mas o amor não, ele exige tempo, exige muito dos envolvidos. Por essa razão talvez eu não ache que exista uma predestinação, mas isso é assunto para outra hora. Como dizia, ao primeiro olhar encantaram-se uma com a outra, admiração, respeito, paixão.
Nos primeiros meses eram apenas amigas, amigas que se respeitaram, se admiraram, se adoraram, se apaixonaram. No início não era um relacionamento que havia entre elas, eram beijos, abraços, caricias, muita paixão, mas não queriam namorar, não ainda, estavam sendo aquilo que é chamado de amigos coloridos. Era isso que eram, mas não gostavam do termo, preferiam dizer que eram amigas com alguns privilégios a mais, não eram namoradas, não eram ficantes nem amantes, eram amigas.
Com o tempo, a amizade não bastava mais, não queriam ser só amigas, os beijos transmitiam mais sentimento, as caricias provocavam cada vez mais desejos, então decidiram dar mais um passo, juntas, sempre juntas. Quem tomou uma iniciativa foi Karen, queria ter a outra só pra ela, alguns chamariam de egoísmo, mas Aline não, achou lindo ver uma semente que plantaram quando se conheceram crescer tão forte, e ali já não existiam mais botões, estes deram lugar às flores, lindas, coloridas, mas ainda pequenas, e muito frágeis, estas, eram as representantes do amor, e só sobreviveriam se recebem cuidados das duas, teriam que cuidar e regar este sentimento juntas.
Já estavam namorando a três meses, e o amor entre elas só crescia, forte, saudável, sem vícios, sem sentimentos ruins, quando a mãe de Aline viu as duas se beijando no quarto da filha. Miriam era uma mulher conservadora, seguia cegamente as regras da sociedade, então nem é preciso mencionar o que ela achou do relacionamento das duas.
Aline fora expulsa de casa, a mãe não queria ali ninguém “anormal”, mas apesar disso ainda era sua mãe, e disse que a menina não poderia mais morar ali, mas que continuaria pagando seus estudos, pagaria uma faculdade e alguma possível pós-graduação.
A menina se mudou para a casa da namorada, já que todos na família desta eram a favor do relacionamento e achavam um ultraje o que Miriam fizera. Moraram naquela casa até se formarem, e como eram as primeiras da sala entraram fácil em uma universidade, prestaram várias, em algumas só uma passou, em outras só outra, mas na maioria as duas passaram, escolheram uma destas, estavam muito felizes, pois poderiam continuar juntas, e não teriam que se separar como muitos casais, ao entrar para a faculdade.
Além de estarem na mesma universidade, estavam no mesmo curso, como esta era pública, Aline pegou o dinheiro que sua mãe mandava todo mês para os estudos e alugou um apartamento para as duas. Um lugar onde poderiam se amar sem se preocupar se acordariam alguém ou se seriam pegas. E enquanto tudo isso acontecia o amor delas crescia cada vez mais.
Levavam uma vida corrida, mas para elas estava perfeita, pois estava sempre juntas, nunca se separariam, o amor ali formado era muito forte, nem o mais poderoso ciúme derrubaria o que já fora construído pelas duas.
Alguns anos depois.
Aline estava sozinha em seu apartamento, estava com 27 anos e ainda morava no mesmo que dividira com o amor de sua vida, quando recebeu um telefonema que nunca achou que receberia um dia.
_ Alô, Alice, aqui é a sua mãe, eu estava conversando com Marcos, aquele seu amigo de infância, e ele me falou que você não está mais com a Karen.
_ Se ligou só para confirmar isso eu te digo, ela não está mais aqui fisicamente.
_ Nesse caso eu perdôo o desvio que teve em sua vida, e se quiser voltar a morar aqui será bem vinda.
_ Não quero ser perdoada, já segui muito da minha vida sem você e não necessito mais de você, e muito menos de seus perdões que não tem fundamento algum, não se pode perdoar alguém que não fez nada de errado, e se amar é um erro eu já não teria mais esperanças de ser perdoada, pois meu amor foi o maior já existente.
Desligou o telefone irritada, já não estava tendo um dia bom, agora então.
Os dias passavam devagar, e depois de quase um mês, chegou o dia em que seu pai morrera, pensou em ir ao cemitério, mas descartou a idéia, pois nesse dia, todo ano sua mãe ia até lá, levar flores, relembrar o passado, por isso decidiu ficar em casa hoje.
Já Miriam, realmente se preparava para ir ao local onde seu marido descasava, ela o amara de verdade na vida, por isso sofreu muito quando ele partiu, não era mais tão novo, aproveitara bem a vida, foi uma morte rápida, uma bala perdida na cabeça.
Quando a mulher chegou ao cemitério, ia andar direto até o túmulo de seu marido, como sempre, mas por alguma razão, sentiu vontade de andar um pouco. Miriam deixou suas pernas a levarem para onde queriam, e de repente se viu parada em frente a um túmulo.
Nessa hora lágrimas vieram aos seus olhos, pensou na filha, em como foi ausente em sua vida, imaginou que se tivesse tentado entender, conseguiria entender o amor pouco convencional da outra. Agora se arrependia de muitas coisas, de não ter sido uma boa mãe, de não ter apoiado Aline em todas suas decisões, de ter expulsado a filha de casa, de ter deixado o momento de entender sua filha passar.
Aquela noite ela não conseguiu dormir, e deixou suas pernas a guiarem novamente, chegou até o apartamento de Aline, e sem pensar tocou a campainha.
Aline tomou um susto ao abrir a porta, sua mãe estava ali parada, com uma expressão que nunca tivera. Miriam nunca a visitara, e agora estava ali, parada em sua porta, pedindo para entrar, para conversarem.
_ Fui ao cemitério hoje. _ a mãe tentou começar uma conversa.
_ Todo ano vai.
_ Sim, mas hoje minhas pernas me levaram a um túmulo diferente.
_ E o que tem? É um cemitério, túmulo é uma coisa que não falta lá.
_ Quatro anos, filha. Quatro anos e você não me disse nada.
Aline entendeu o que a mãe quis dizer, começou a chorar, como não fazia a um bom tempo, se deixou ser abraçada pela mãe.
_ É que você não aprovou nosso relacionamento, estávamos afastadas, e eu fui ingênua, imatura, colocava a culpa de tudo em você, me perdoa?
_ Não, não filha, pois eu não posso perdoá-la se não fez nada de errado, como você mesma me disse, eu que preciso do seu perdão, errei com você, errei com ela, errei com o amor de vocês. Quando vi o nome de Karen naquele túmulo entendi todo o amor que sentia por ela, e mesmo assim percebi muito tarde, deixei passar o momento, e me arrependo eternamente disso.
_ Ela não merecia ter morrido, não aceitei isso ainda, ela morreu me protegendo.
Aline e Karen voltavam da faculdade, estavam cansadas, mas ainda teriam que sair para fazer compras, foram até o supermercado. Estavam no meio das compras, quando um bando entra no local e anuncia o assalto. Pavor, medo, agitação, descontrole, várias palavras descrevem o que foi sentido naquele momento.
Tudo estava correndo como um assalto normal acontece, até entrar um policial, que percebe o que estava acontecendo, começaram a trocar tiros, mais agitação, pânico, pessoas correndo, tentando fugir, balas voando em todas as direções. Quando tudo parece estar em câmera lenta, Aline vê uma bala, vindo em sua direção, imagina que é o fim, quer fugir, mas não consegue se mexer, fecha os olhos. Espera, mas a bala não veio, quando abriu os olhos teve vontade morrer, pela primeira vez na sua vida teve idéias suicidas. Karen estava caída no chão, sangrando, se jogara na frente de sua amada quando viu a bala chegando.
_ Minha filha, desculpe, não sabia que tinha passado por tudo isso, não fui uma boa mãe, não estive ao seu lado nos piores momentos da sua vida, como está a vida sem ela?
_ Não estou vivendo sem ela mãe, ela está presente em cada pensamento meu, em cada gesto, ela está no meu coração, cada vez que fecho os olhos posso vê-la, quando durmo sempre sonho com ela, Karen morreu, mas ainda está aqui, como sempre esteve, acompanhando meus movimentos, adivinhando meus pensamentos, sempre comigo, pois vamos estar juntas, sempre juntas.
FIM
Fale com o autor