Luna estava apaixonada. Ela tinha esse defeito. Apaixonar-se por momentos. A música tocava tão alto que ela sentia o seu coração bater de acordo com o ritmo energético da música que tocava. O suor escorria pela sua nuca, descia pelo pescoço e perdia-se pelo corpo da rapariga. O seu vestido, ainda molhado pela água da piscina onde ela foi atirada antes, colava ao corpo e mostrava mais do que deveria. E no entanto, não lhe importava se estava indecente ou não. Ela apenas gastava sua voz, gritando junto com as dezenas de outros jovens que insistiam e juravam a pés juntos que aquilo era cantar. As coloridas luzes iluminavam por milésimos de segundos os rostos das pessoas em sua volta, que esbarravam e moviam-se com ela.

Alguém agarrou na sua cintura, puxando-a e beijando-a. Uma das mãos de Luna encontrou apoio na curva do pescoço da rapariga e a outra embrenhou-se nos longos cabelos molhados. Não foi a única vez naquela festa que uma boca colou e dançou juntamente com a sua.

Genuinamente feliz. Loucamente e magicamente feliz. Sua felicidade. Tão palpável e tão real.

Cores rosadas e púrpuras tingiam o azul do céu quando Luna passou pela porta do quarto do hotel, tirando as sandálias e permitindo que o vestido claro deslizasse pelo corpo, ficando esquecido no chão do aposento.

Tropeçou. Tentou se manter em pé. Gritou. Caiu.

— Cazzo!

Giulia na cama perto da janela resmungou, mexeu-se, mas logo parou. Mas outro queixume se ouviu. Uma outra movimentação. Outra pessoa no quarto próximo da nudez absoluta. Ele e ela. Um grito confuso e uma Luna ainda mais confusa. Os dois corpos tentando se tapar e mascarar o pudor.

— Eu já estava de saída. – Finalmente o rapaz articulou algo, já um pouco recuperado do susto.

— Tu estavas a dormir no tapete do meu quarto?

— Ótimo lugar para dormir. Já experimentaste?

— Prefiro a cama. É mais confortável.

— Deverias abrir-te a novas experiências. Algo duro de vez em quando, é ótimo para a saúde.

Talvez fosse pelo duplo sentido da frase, a maneira arrojada dele sorrir, ou os dois corpos, pedaços de carne, tapados apenas por curtas, finas e escassas peças de tecido, provavelmente um pouco de tudo, que deixou em Luna umas gotas de timidez e uma grandiosa vontade de sorrir.

— Ainda estamos a falar de dormir?

— Filippo. – a língua de Luna foi levemente mordida pelos seus dentes, enquanto a boca se alongava num sorriso, erguendo as bochechas enrubescidas pela habilidade dele se desviar das perguntas.

— Luna.

— A loira na cama estava com receio de dormir sozinha – as sobrancelhas da mulher ergueram-se descrentes perante a declaração dele – Apenas me ofereci como companhia.

— Che gentiluomo! E quem adormeceu primeiro? – Luna conhecia Giulia, bem demais. Ela até podia ser o tipo de bêbada bastante animada, mas não mantinha esse ritmo muito tempo e facilmente adormecia. E Giulia ingerira muito álcool naquela noite. Luna vira. E Filippo para adormecer no chão também não deveria ser o tipo de homem que resistia muito ao sono.

— Culpado. — ergueu as mãos rendendo-se. – E a signorina? Precisa do meu cavalheirismo e dos meus atos heróicos, esta noite?

— O único vilão que irei enfrentar agora será o fecho do meu soutien. Nada que as minhas duas mãos não consigam derrotar.

E o olhar dele desceu pela renda da peça íntima. Mordeu o lábio. Subiu o olhar. Sorriu. Aquilo afetava fisicamente Luna. Toda aquela provocação, aquele jogo, arrepiava-a e aquecia-a.

— É algo que com certeza está a mais.

Luna tornou a corar. Pelo comentário? Pelo calor que estava no quarto? Parecia de novo a adolescente insegura que não sabia lidar com os olhares dos rapazes no seu corpo, como outrora foi. Mas o olhar dela também se voltou para o corpo dele, escorregando pela pele morena fracamente iluminada pelos débeis raios de luz que entravam pela janela atrás dela. Peito. Barriga. Elástico do boxer. Voltou para cima. Braços. Pescoço. Maxilar. Boca. Olhos.

— Completamente desnecessário.

Um gemido ecoou pelo quarto. Claramente Giulia acertava nas horas perfeitas para os lembrar da sua presença. Mesmo estando inconsciente. Luna olhou rindo para o corpo inerte da amiga.

Quando a sua atenção voltou para Filippo, o olhar dele continuava tão intenso quanto antes. Sério e fixo nela. Luna puxou o ar para os seus pulmões e libertou-o logo depois.

Ela caminhou na sua direção. Cada passo mais próximo dele. Passou por Filippo. Tocaram-se. O braço dele colidindo com o dela. A pele de ambos queimava e tremia. Era algo que subia pelos seus corpos, fazendo a barriga se contrair e sacudir, o ar faltar nos pulmões e algo dentro do peito martelar enérgico. Filippo voltou-se para ela e os olhos dele acompanhavam cada movimento dela na direção da porta. Luna apertou a maçaneta, sentindo o metal frio chocando contra a sua pele quente, arrepiando-a, e girou-a, abrindo a porta.

— Deverias ir. Não quero que adormeças de novo no meu tapete.

— Certamente eu não adormeceria. — E com aquela promessa aproximou-se dela para passar pela porta. A mão dele pousou na cintura nua dela, arrepiando-a ao mesmo tempo em que Luna expirava o ar que nem ela sabia que tinha feito refém nos seus pulmões.

Filippo estreitou ainda mais a distância entre os seus corpos. Ele aproximou a cabeça do pescoço dela e a respiração dele fez mais uma vez arrepios trespassarem o corpo da mulher. Ele largou lá um beijo. Quente. Molhado. Um outro beijo no canto da sua boca. Ela quase se sentiu desfalecer. Aquele desejo de algo mais borbulhava dentro dela.

— Nos vemos por aí, Luna.

Os dedos dele apertaram e deslizaram pela sua anca despedindo-se da pele dela.

— Nos vemos por aí, ragazzo di tappeti.

E ele passou pela porta, olhando para ela uma vez mais. E um sorriso estava nos lábios dele. E ficou nos lábios dela, mesmo depois da porta se fechar, impedindo um de ver o outro. Aumentando e tornando-se numa gargalhada.

— Luna? – Era a voz baixa, rouca e arrastada de quem tinha acabado de acordar. A loira, sentada na cama, estava um verdadeiro e lindo caos – Onde estavas? 'Tás com cara de quem abriu as pernas.

As gargalhadas aumentaram. Pela cara da Giulia. Pelo comentário. Por tudo o que tinha acontecido naquela madrugada.

— Dorme, Giulia – E ela realmente não tardou muito a fazer isso. Encolheu os ombros, não era como se ela quisesse realmente saber. Correu as cortinas impedindo que a claridade da aurora tomasse conta do quarto e voltou a enfiar-se no meio dos lençóis

— Definitivamente abriste as pernas. – e esse foi o último comentário que Luna ouviu de Giulia antes de esta voltar a dormir.

E pela segunda vez na noite, Luna viu-se apaixonada. Aquele momento. O clima entre os dois. A provocação. Filippo.

O coração de Luna ainda batia forte no seu peito. O sangue corria-lhe nas veias. A sua respiração estava acelerada e todo e qualquer cansaço que sentia ao vir para o quarto tinha-se facilmente dissipado de todo o seu corpo.

Perguntou-se esperançosamente se veria de novo Filippo, se teriam algo mais, ou se ficariam por aquela perfeita provocação. Rapidamente afastou esses pensamentos e desejos tolos de si. Momentos são perfeitos por serem breves no tempo e eternos na sua memória, sem segundas doses ou oportunidades de serem manchados. Algo magicamente único.

Ela reviveu de novo aquele momento no seu pensamento. Deleitou-se porque pela segunda vez naquela noite Luna estava apaixonada.

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