Moldura

2 Capítulo 1(Blue)


ɪ

Sonhos de verão

“Nada dura para sempre

Nem mesmo a fria chuva de novembro”

—Guns N’Roses[November Rain]

Há alguns anos, devo admitir que nunca havia compreendido inteiramente o apelo que os meses de verão tinham entre algumas pessoas. Tendo nascido em Los Angeles, Califórnia, sempre achei o calor causticante e pesado, algo que contribuía enormemente para a formação de uma massa de corpos excessivamente bronzeados e suados que, por alguma ironia do destino, o resto do mundo parecia idolatrar. Eu não.

Essa cidade, terra prometida do sucesso e da beleza, sempre me pareceu uma máscara cruel de ignorância e aparências, como um belo carrossel adornado de cavalos brancos e arabescos dourados os quais atraem crianças com uma falsa promessa de diversão apenas para prendê-las num giro eterno de monotonia. Todos os arredores mostram-se artificialmente fabricados, desde pessoas às paisagens forçosas. As promessas de ascensão social rapidamente revelam-se ilusórias e a gentileza californiana admite que não é cega, e sim, altamente seletiva. Enquanto uns prosperam e mantém a fútil imagem da cidade abençoada, grande parte do povo sofre com a desigualdade.

Falando dessa maneira, parece difícil acreditar, mas a minha estadia em LA não foi completamente desagradável. Cresci em uma família de classe média, não muito rica, devo admitir, mas que sempre teve dinheiro suficiente para estar estabilizada. Meu pai, nunca foi muito presente. Uma figura relapsa que aparecia em raros momentos de folga e por tão curtos minutos que me acostumei com a sua ausência. Já minha mãe e avó paterna, devo destinar a elas o grande crédito da minha criação. Trabalhando como professora de história da arte em meio período minha mãe se desdobrava para conciliar a vida acadêmica com toda atenção que poderia me dar.

Dominique Elizabeth Lewis, o crédito ao meu primeiro nome pode ser dado exclusivamente a meu pai. É estranho pensar que o mesmo decidiu se tornar mais presente na escolha do meu nome que no decorrer da minha vida, mas relevando tal relapso, devo revelar que esse nome nunca me agradou. Muito grande, pouco conhecido, inúmeros fatores me levaram a praticamente excluí-lo do meu ciclo social. Então me apresento como Beth. Um nome mais comum, simples, não se destaca muito. Combina mais comigo mesma.

Quando penso em quem me tornei consigo margear Maria Salvator em meus contornos. Para ela, a Califórnia não é tão ruim quanto me parece. Aos 17 anos, se mudou para a cidade maravilhosa como inúmeros outros jovens objetivando construir um futuro de sucesso. Ingressou na UCLA para seguir o seu sonho de estudar a arte em sua essência e conheceu Bruno Lewis, uma figura tão monótona e cinzenta que ainda me pergunto como conseguiu se infiltrar em seu oceano de cores. Para resumir esse relato, devo dizer que não é muito fácil conciliar a universidade com um bebê, então com o prenúncio do meu nascimento veio um casamento de conveniência e a pausa de seus sonhos.

Dessa forma, os primeiros anos de minha história representaram um hiato nos da minha mãe e, entre a dolorosa ausência imparcial de Bruno e os cuidados domésticos, parte da sua alegria foi irreversivelmente perdida. Maria, contudo, nunca se mostrou uma mulher conformada. Logo que eu cresci o suficiente para ficar com a vovó, ela retomou o curso e o concluiu com honras, sendo, logo após, admitida no colégio de belas artes onde permaneceu por anos a fio fazendo o que amava e procurando coisas boas em meio a toda negatividade que a cercava. Dói-me admitir que não herdei tal traço de personalidade, mas é intrínseco a mim um pessimismo trágico que me molda em uma pessoa desconfiada e levemente negativa. Acho que nisto eu não difiro muito a meu pai.

Eu passava, portanto, a maior parte dos dias sob o cuidado atencioso de minha avó paterna Margareth Lewis, conhecida por mim como vovó Maggie. Essa era totalmente diferente do meu pai, bem humorada e positiva estava sempre pronta para me contar uma história, para me fazer um bolo de cenoura com chocolate e para me levar em passeios pelos melhores pontos artísticos da cidade. Passavam-se horas com ela narrando a historia das obras, das esculturas e das pessoas que viviam na antiga cidade antes de nós. A maneira como ela via o mundo me fascinava.

Essa, para mim, é a melhor parte da cidade. Não as festas, os parques ou, até mesmo as praias, e sim, a arte. Eu cresci totalmente envolta em arte. Entre visitas a galerias, desenhos técnicos, pinturas, fotografias, esculturas eu decidi o que realmente queria para minha vida: Eu ia me tornar uma artista. Não desses pseudo intelectuais que baseiam suas obras apenas em lucratividade e críticas. Eu queria enxergar a verdadeira beleza. Olhar para as pessoas e conseguir transmitir suas histórias, sua alegria e tristeza, captar momentos com naturalidade. Entender profundamente a natureza humana. Eu decidi que queria sair dos Estados Unidos, conhecer a Europa -berço dos melhores artistas da história- e mudar o mundo. Só que ainda não sabia como.

Com 11 anos eu descobri que sabia desenhar. Passei horas a fio treinando técnicas diversas, fazendo rascunhos, desenhando pessoas, paisagens, animais, o que quer que aparecesse na minha frente. Devo dizer, entretanto, que nada disso me cativou. Todos os meus traços seguiam uma norma, funcionam e eram, até mesmo, bonitos, mas eram mecânicos, de modo que perdiam sua essência e rapidamente me frustravam. Aos 13, migrei para a escultura. Argila, madeira, modelagem, todas essas alternativas mostraram-se um fracasso e minha esperança diminuía a cada tentativa. Por fim, aos 14 anos minha mãe me levou em uma galeria onde eu pintei meu primeiro quadro e o mundo, finalmente, entrou em sintonia. A lenta mistura das tintas, a textura do pincel raspando o tecido da tela, a obra se revelando aos poucos enquanto eu moldo cuidadosamente a ideia em minha mente.

Pela primeira vez na vida eu senti que tudo fazia sentido.

Encontrei em meio às telas na galeria, a paz que tanto procurava, me deliciava com o silêncio do ambiente sendo rompido apenas com o leve barulho dos pincéis e, no final do dia, minha mãe orgulhosa e entusiasmada com o meu novo foco, pediu folga no trabalho e conversou comigo. A noite toda. Nunca estive tão feliz. Sentia-me invencível. Passou-se um ano, então, em que eu me afirmava com a arte que produzia, começava a ser reconhecida e, a cada dia, parecia que eu aprimorava minhas habilidades. Estava cada vez mais próxima de realizar meu sonho e a segurança de estar estabilizada me confortava profundamente.

Infelizmente, quanto mais alto nós voamos, mais dolorosa é a queda.

Os meses que procederam o meu aniversário de 15 anos se revelaram um caos completo. O meu ausente pai decidiu que oficializaria tal status e pediu o divorcio, levando metade dos bens que nós tínhamos para formar uma nova família com uma mulher que tinha idade para ser minha irmã. Despedidas mal foram necessárias, nós nunca tivemos um vínculo forte, muito menos, muita esperança um pelo outro. Eu o achava distante e desiludido, vivia apenas para o trabalho sem propósito, sonhos e esperanças. Apenas como um cascalho sendo arrastado pela correnteza em um rio. Já ele, creio eu, sempre me tomou por uma sonhadora que iria se decepcionar com a realidade da vida. Dois opostos desafiando as leis da física e sempre se repelindo quando colocados juntos.

Minha amada avó faleceu repentinamente deixando em mim um vazio que eu não sabia como preencher. A pessoa que sempre esteve ao meu lado quando eu precisei e que me valorizava acima de tudo, partira e eu ficara ao léu sem as respostas que só quem eu mais precisava, já não poderia me dar.

Por fim, sozinha, minha mãe percebeu que não tinha como manter um apartamento em uma das cidades mais caras do país. Assim, de maneira irônica, eu realizo um dos meus mais profundos desejos. E cá estamos nós, saindo do estado da Califórnia e deixando para trás todas as memórias que eu criei em minha breve existência. Partimos em busca de um futuro incerto, tentando fugir de todos os problemas que a minha terra natal parecia empenhada em nos proporcionar. Natalie, uma antiga prima da minha mãe, revelou-se uma ajuda inesperada e ofereceu sociedade para que esta a ajudasse em uma escola de arte para crianças.

O problema: Esta escola ficava a inúmeras milhas de distância. No interior da Inglaterra, mais precisamente.

Percebi que, de forma totalmente irônica, eu iria realizar um dos meus maiores sonhos. Iria para um dos berços da arte. Não consigo, no entanto, ficar feliz com a maneira que tal acontecimento se desenrolou em minha vida. Tudo ocorreu de maneira súbita, sem escolhas, sem preparação. Agora não havia mais volta. Eu teria que partir e morria de medo do que o futuro ainda me reservava.

Três dias de viagem. Menos que uma semana de preparação. Um mês desde a morte de minha avó.

É engraçado pensar como eventos trágicos tem a capacidade de mudar toda a ótica com que analisamos o nosso exterior. O enterro da vovó Maggie aconteceu num dia de quarta-feira. Um dia aparentemente inofensivo, mas que, para mim, tornou-se horrendo. Não era como a segunda feira para qual nós já esperamos que seja enormemente ruim, muito menos como um final de semana que representa inúmeras promessas e diversões. É apenas um dia em branco, como algo esquecido num planejamento minucioso. Quartas-feiras personificaram-se como mostras de apatia, como dias em que nenhuma alegria conseguiria se manifestar. Eu definitivamente odeio quartas.

Interrompendo as minhas digressões, voltarei a relatar tal dia com minúcia.

Durante todo o funeral fez um calor insuportável. Era um dia bonito, entretanto. As flores brilhavam e se destacavam contra o negro das roupas dos participantes do triste evento. Um discurso era proferido e muitos choravam. Diferente de mim. Não consegui chorar, acho que a vovó ficaria feliz com isso. Todas as palavras passavam por mim distorcidas e nada me interessava realmente, eu só queria sair daquele ambiente. Queria gritar, chorar, espernear, expressar tudo que eu sentia. Permaneci em silêncio.

Por fim, devo dizer que um dia antes da viagem começou a chover. Inesperadamente. O céu parecia se desfazer em desgosto num pranto profundo. Mau augúrio poderiam os gregos dizer. Eu não discordava totalmente deles. Horas de avião e eu me encontrava em solo europeu. Apenas mais algumas horas de trem me separavam da incerteza de minha nova vida.

Se tivessem me perguntado como eu me sentia neste momento eu responderia apenas com uma palavra: Aterrorizada.

Ninguém perguntou.

Os barulhos no trem eram constantes. Risadas e famílias andando juntas. Amigos conversando, pessoas lendo. Sentada ao meu lado, minha mãe analisava-me, provavelmente questionando-se se eu estava bem. No entanto, ela também não perguntou. Por medo ou insegurança, eu não sei. Não a culpo, a instabilidade realmente é sofrivelmente amedrontadora.

Lá fora ainda chovia, como um lembrete de que tudo que eu tinha se esvaiu. Estranhamente, pela primeira vez na minha vida, desejo que faça sol. Ainda sim, permaneço em silêncio.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.