Moira
14 O Fio das Gerações
Dezembro estava passando rapidamente, trazendo toda a neve esperada para aquela época do ano. As montanhas ao redor da cidade já apareciam cobertas de branco em algumas manhãs e o frio parecia se instalar um pouco mais a cada dia.
Além da neve também havia uma certa correria, devido ao casamento marcado para a segunda semana de janeiro, logo após o fim das festividades, os preparativos estavam acelerados e Effie e Mags estavam realmente empenhadas para que tudo saísse perfeito.
Peeta, que teve alguns dias de folga após a inauguração, passou as semanas seguintes ao nosso retorno procurando uma casa, uma busca na qual ele parecia empenhado. Quase todos os dias me mandava fotografias, anúncios e algumas opções que encontrava. Acabei acompanhando algumas visitas e, embora não estivesse particularmente envolvida na escolha, era difícil não perceber o quanto aquilo parecia ser importante para ele.
E embora tivéssemos visitado casas novas e bonitas em boa parte da cidade, a que acabou chamando a atenção dele ficava a algumas quadras do centro histórico.
Mas não era a localização que me parecia estranha.
Era a casa.
Ela parecia abandonada, uma construção antiga de pedra, com janelas de madeira desgastadas pelo tempo. As paredes externas estavam parcialmente cobertas por trepadeiras e o pequeno portão de ferro na entrada mostrava sinais evidentes de anos sem manutenção.
Ainda assim precisava admitir que existia alguma coisa bonita ali. Talvez o jeito como a casa ficava levemente elevada em relação à rua ou a vista das colinas ao redor.
Ela não era tão grande quanto a casa do meu avô, mas ainda era espaçosa. No andar superior havia quatro quartos, incluindo uma suíte que dava acesso a uma sacada que naquele momento estava tomada pelo mato.
No térreo havia uma sala de estar ampla, além da cozinha e de uma sala de jantar iluminada por grandes janelas. Nos fundos existia um quintal considerável com uma área coberta por uma pérgola de madeira já envelhecida.
Em algum momento aquele lugar devia ter sido muito bonito. Agora, porém, a grama alta dominava boa parte do terreno e quase tudo parecia precisar de reparos.
“Parece incrível. O que você acha?”
“Ah...” Honestamente eu não sabia muito bem o que dizer.
“Tem que olhar além do que está aqui.” Observei novamente o quintal. “Podemos pensar de forma visionária. Derrubar algumas paredes, abrir os ambientes, colocar grandes janelas de vidro voltadas para o jardim...” Ele apontou para os fundos. “Ali pode ter uma área de lazer. Talvez uma varanda. Um espaço para receber as pessoas.”
“Ela vai ficar linda.” Acabei sorrindo de leve ao ver a animação dele, e embora eu não quisesse realmente opinar, acabei concordando com a compra.
Assim que a papelada foi concluída, Peeta mergulhou de cabeça no projeto da reforma. Segundo o empreiteiro, a obra levaria cerca de quatro meses depois que o projeto fosse finalizado.
O Natal não demorou a chegar, não que fosse algo tão esperado já que meu avô nunca foi particularmente entusiasmado com a data. Não existiam grandes decorações na casa, músicas natalinas ou qualquer tentativa de transformar a ocasião em algo especial. Ainda assim, existiam tradições que nem ele ignorava.
Na noite da véspera fomos à igreja, como acontecia todos os anos, meu avô não era exatamente um homem religioso, mas existiam datas que ele considerava importantes demais para ignorar.
O Natal era uma delas.
E por isso ocupamos nosso lugar nos bancos à frente, vestidos com roupas apropriadas enquanto os cânticos ecoavam pela igreja.
Os Mellark também estavam presentes. Vi Peeta algumas fileiras atrás ao lado dos pais e de um casal de idosos que imaginei serem os avós dele, que sabia que chegariam à cidade naquela tarde para as festividades.
Troquei apenas um olhar rápido com ele antes da celebração começar e foi estranho perceber que aquela seria provavelmente a última vez que eu passaria o Natal como solteira.
No próximo ano eu seria oficialmente uma Mellark, uma ideia que ainda parecia distante demais para ser real.
Soube depois que Effie havia convidado meu avô para a ceia realizada na casa deles após a celebração. Mas como esperado, ele recusou educadamente.
Ainda assim, acabamos nos encontrando na saída da igreja onde ele me apresentou aos avós.
O senhor Trinket parecia o tipo de homem serio demais, alto, elegante mesmo já com a idade avançada. Havia algo nele que transmitia autoridade sem esforço, como se tivesse passado a vida inteira acostumado a ser ouvido. Já Maria Helena Trinket parecia ocupar o espaço oposto. Sorria com facilidade, falava com entusiasmo e possuía a mesma energia calorosa da filha, talvez até um pouco mais.
Em poucos minutos já segurava minhas mãos enquanto dizia o quanto estava feliz por finalmente me conhecer.
“Então essa é a famosa Katniss.” Senti minhas bochechas aquecerem imediatamente. “Peeta realmente estava sendo sincero quando disse que você é linda.”
“Vó...”
“O que foi?” Ela respondeu sem o menor constrangimento.
“Maria.” O marido advertiu com um olhar paciente.
“O quê? É verdade.” Effie soltou uma risada divertida.
“Mãe, não deixe seu neto sem graça.”
“Ele deveria ficar sem graça se não achasse a noiva bonita.” Respondeu simplesmente. Peeta levou uma das mãos ao rosto antes de apoiar a outra com carinho no ombro dela.
“Isso porque você chegou há apenas algumas horas.”
“Isso porque te amo.” Ela respondeu satisfeita.
“Ok, vovó.” Ele riu. “Vamos guardar um pouco desse constrangimento para amanhã.”
“Pode deixar. Sempre tenho um arsenal de histórias reservado para as ocasiões especiais.”
“É exatamente isso que me preocupa.”
O senhor Trinket apenas balançou a cabeça, claramente acostumado àquilo.
Meu avô trocou apenas cumprimentos cordiais com o casal antes de nos despedirmos.
Mas, no início da tarde do dia vinte e cinco, Peeta apareceu para nos buscar para o almoço de Natal com a família dele.
Embora estivéssemos oficialmente noivos havia semanas, eu ainda não conhecia a casa dos Mellark. Pela personalidade de Effie, sempre imaginei algo tão grande quanto a casa do meu avô. Talvez até maior.
Por isso fiquei surpresa quando Peeta estacionou diante de um elegante sobrado localizado em uma rua tranquila próxima à praça central.
A casa não era uma mansão, mas era muito bonita.
A fachada era de pedras claras com duas grades sacadas com grade de ferro no andar superior, enquanto grandes janelas de madeira pintadas em azul-escuro davam certa harmonia com as paredes claras. Vasos de plantas alinhavam a entrada e pequenas luzes douradas estavam entrelaçadas nos arbustos cuidadosamente podados do jardim.
Uma guirlanda de muito bom gosto enfeitava a porta principal, enquanto lanternas acesas iluminavam os degraus de pedra que levavam à entrada.
Assim que atravessei a porta pude perceber que o interior refletia perfeitamente a personalidade de Effie. Era sofisticado, mas acolhedor.
Paredes em tons claros, pisos de mármore e móveis de madeira escura ocupavam os ambientes em perfeita harmonia. Fotografias, livros e pequenas peças de cerâmica apareciam espalhados pelas estantes sem dar a sensação de excesso.
Era uma casa que parecia ter vida.
Na sala principal, uma lareira crepitava suavemente enquanto uma enorme árvore de Natal ocupava o canto próximo à janela com presentes cuidadosamente embrulhados espalhados ao redor dela.
Por um instante fiquei apenas observando. Porque aquela casa não parecia nada com o que eu tinha imaginado.
Assim que entramos fomos recebidas com abraços calorosos da matriarca da família e desejos de Feliz Natal de todos.
Haymitch estava jogando xadrez com um garoto de no máximo nove anos que eu não conhecia, mas que descobri ser o irmão mais novo de Delly.
Ela apareceu alguns minutos depois e, para minha surpresa, permaneceu com a família durante o resto da tarde e na hora do almoço também se sentou à mesa.
Pelo que soube, a comida havia sido encomendada de um buffet para que ninguém precisasse passar o Natal inteiro na cozinha.
E não pude deixar de perceber o quanto Delly e Peeta pareciam próximos, na verdade, ela parecia próxima de todos naquela casa.
Prim, embora um pouco tímida no início, se deu muito bem com o irmão dela. Logo os dois estavam falando sobre a escola já que aparentemente estudavam no mesmo colégio. O assunto sobre professores e matérias foi suficiente para quebrar o gelo.
Aquilo me surpreendeu um pouco já que Prim estudava em uma escola particular e o trabalho em uma casa de família não parecia exatamente o tipo de emprego que permitisse pagar mensalidades caras.
Tal como Effie havia comentado em Atenas, o pai dela contou orgulhoso algumas histórias da época em que a filha entrou para a Faculdade de Direito. E que todo Trinket estudava lá.
“Já falei para Effie que ela precisa ser uma boa sogra.” Maria declarou em determinado momento. “Ninguém merece uma sogra ruim. Sou uma boa sogra, não sou, Haymitch?”
“A melhor.” Observei Haymitch dar um pequeno sorriso que pareceu bastante sincero. “É como uma mãe.”
“Viu?” Ela apontou para mim satisfeita. “Tem que ser assim com essa moça. Família precisa permanecer próxima.” Então lançou um olhar para a filha. “Não seja como sua avó.”
“Maria, mamãe nem está mais aqui.”
“Dimitrios, não é porque ela morreu que vou começar a mentir agora.” Ela respondeu de imediato . “Ela não me suportava e todo mundo sabia. Só começou a me aturar depois que Effie nasceu. Antes disso tudo que eu fazia era uma mania de estrangeira.” Effie soltou uma gargalhada.
“Não era bem assim. Vocês só eram diferentes.”
“Diferentes?” Ela repetiu indignada. “A mulher amava os filhos, os netos, a outra nora, os vizinhos, os padres e até o padeiro da rua. O problema era eu.”
“Isso não é verdade.”
“É sim.” Ela apontou para o marido. “Se eu tivesse morrido antes dela, você não ficava viúvo uma semana.”
“Maria!”
“O quê?” Ela deu de ombros. “Todo mundo sabe que ela já tinha três mulheres escolhidas para me substituir.” A mesa quase toda caiu na risada.
Até o senhor Trinket acabou sorrindo enquanto balançava a cabeça.
“Mais de cinquenta anos de casamento e ela continua com essa história.”
“Porque é verdade.” Maria respondeu imediatamente. Então se virou para mim. “Está vendo, Katniss? Casamento é isso. Você passa décadas ao lado da pessoa e continua discordando dos mesmos assuntos.”
“Isso assusta a nova geração. Ela vai pensar que você se arrependeu.”
“Jamais.” Maria respondeu sem hesitar e a expressão dela suavizou quando olhou para o marido. “Casamento também é a maior parceria da vida.” Estendeu a mão por cima da mesa e apertou a dele. “E eu não trocaria o meu parceiro por nenhum outro.”
Depois do almoço, enquanto os mais velhos permaneciam à mesa entre cafés, sobremesas e histórias que pareciam se repetir todos os anos, Denis perguntou se poderia abrir mais um presente.
"Nem pensar." Delly respondeu de imediato. "Os presentes são para o dia primeiro. Você já abriu alguns."
"Isso nunca fez sentido para mim." Maria comentou enquanto mexia o café. O senhor Trinket nem ergueu os olhos da xícara.
"É tradição, querida."
"Uma tradição criada para torturar crianças." Effie riu.
"Lá vem."
"É verdade." Maria insistiu. "Na maior parte do mundo as crianças ganham os presentes no Natal e todo mundo fica feliz."
"Existem lugares que nem comemoram o Natal, querida."
"Mas nós comemoramos. E mesmo assim as crianças têm que esperar mais uma semana."
"Sobrevivemos a isso por gerações."
"Sim, mas temos que admitir que é muito mais divertido abrir os presentes no Natal, como fazíamos quando Effie era pequena."
"Quando ela era pequena?" Ele arqueou uma sobrancelha. "Vocês abriram presentes ontem à noite e hoje de manhã."
"Porque eu trouxe as minhas tradições para essa família."
"O que significa que precisei comprar presentes duas vezes nos últimos cinquenta e cinco anos."
"Sim." Ela sorriu sem o menor sinal de culpa. "E foi mágico." O senhor Trinket soltou uma pequena risada e deu de ombros.
"Nisso eu não posso discordar."
"Então claramente a minha ideia é melhor." Effie balançou a cabeça, rindo.
Apesar das reclamações de Maria, os presentes permaneceram intocados sob a árvore.
Ou quase, já que ouvi dizer para Denis, em voz baixa, que talvez encontrasse algum presentes escondido mais tarde.
Pouco depois, Peeta foi para o quintal com os mais novos para construírem um boneco de neve. Delly se juntou a eles logo em seguida e acabei observando tudo da sacada dos fundos, sentada em um banco de madeira.
A neve cobria o jardim e parte das colinas ao redor da cidade. Do lado de dentro da casa ainda era possível ouvir as vozes misturadas ao tilintar das xícaras, mas lá fora o som que predominava era o das risadas.
Por alguns minutos, os quatro realmente tentaram construir o boneco de neve. Por apenas alguns minutos. Não demorou para que Denis lançasse uma bola de neve na direção da irmã, que virou tão rápido sem nem tentar descobrir quem tinha sido, apenas lançou um punhado de neve no loiro.
Segundos depois, os quatro estavam envolvidos em uma verdadeira guerra. Prim ficou tímida no início, mas bastou ser atingida por uma bola lançada por Peeta para revidar animada.
Era bom ver minha irmã correndo pela neve sem se preocupar com regras de etiqueta, postura adequada ou qualquer outra obrigação. Naquela momento ela parecia apenas uma criança.
Mas também me peguei observando outra coisa. O modo como Peeta tratava Delly. De alguma maneira eles pareciam cúmplices. Estava claro que aquela não era a primeira guerra de neve entre os dois. Ele parecia antecipar cada movimento dela antes mesmo que acontecesse. E ela parecia fazer exatamente o mesmo.
Como se já conhecesse todas as estratégias um do outro.
“Peeta, eu vou te pegar!”
“Boa sorte tentando.” Ele desviou da bola de neve por pouco. Delly soltou uma exclamação indignada enquanto Denis ria ao lado dela.
“Eu sabia que isso ia acontecer.” Virei a cabeça e encontrei Effie se sentando ao meu lado. Ela observou a cena com um sorriso divertido. “Um homem formado e, às vezes, parece que não saiu da adolescência.” Seu olhar acompanhou o filho atravessando o jardim para escapar de mais uma bola de neve. “Às vezes tenho a impressão de que esses dois nunca vão crescer.” Ficou claro que ela dizia aquilo com carinho. “Acredite, quando vocês tiverem filhos, Peeta vai ser o tipo de pai que senta no chão para brincar com eles.” Meu olhar deve ter demonstrado puro pânico porque Effie começou a rir. “Fique tranquila. Peeta já me pediu para manter o foco no casamento e deixar a questão dos netos para mais tarde, mas acredite em uma coisa. Não importa quanto tempo vocês levem para ter filhos. Ele ainda vai ser esse tipo de pai.” Observei Peeta ser atingido por mais uma bola de neve lançada por Delly. “Haymitch era assim.” Era difícil imaginar o senhor Mellark sentado no chão brincando com uma criança “É difícil imaginar, não é?” Effie perguntou, como se tivesse lido meus pensamentos. “Ele parece sério e mal-humorado, mas Peeta sempre teve ele completamente enrolado nos dedos.” Ela sorriu. “Se ele pedisse o mundo, Haymitch faria de tudo para conseguir. Ainda faria isso hoje. Faria o que fosse preciso por ele.” Fez uma pequena pausa. “Mas o engraçado é que ele nunca pediu o mundo.” Meu olhar voltou para o quintal. “Você vai perceber, se já não percebeu. Que meu filho encontra felicidade nas pequenas coisas. Claro, ele sabe muito bem os privilégios que tem e nunca fingiu o contrário. Mas nunca foi o tipo de pessoa que mede a própria felicidade pelo que possui.”
“Peeta parece realmente especial”, comentei sincera. Meu olhar voltou para ele correndo pela neve enquanto a Delly tentava acertá-lo com mais uma bola.
“Ele é.” Effie acompanhou meu olhar. “Conheço meu filho.” Havia orgulho em sua voz. “ E ele sempre foi muito ligado à família. Cuida das pessoas que ama.” Observei ele se abaixar para ajudar Prim a juntar neve para outra bola antes de ser atingido por um ataque surpresa de Denis. “Eu sei que as coisas entre vocês não começaram da forma mais tradicional”, ela continuou com delicadeza. “E acho tudo isso esta acontecendo muito rápido.” Olhei para ela. “Mas existe uma coisa sobre a qual nunca tive dúvidas.” Seu sorriso se suavizou. “Peeta sempre tenta fazer a coisa certa. Nem sempre acerta. Ninguém acerta. Mas ele tenta.” Ela voltou a observar o filho. “E, quando assume um compromisso, leva isso muito a sério, ele vai ser um bom marido e vai cuidar de vocês.” Por algum motivo, aquelas palavras apenas aumentaram o peso que eu já carregava. Antes que eu pudesse responder, Effie se levantou. “Está frio demais para continuarmos aqui.” Levou as mãos à boca e chamou todos para entrarem e tomarem alguma coisa quente.
Acabei deixando aqueles pensamentos de lado enquanto ouvia Prim e Denis discutirem sobre quem havia vencido a guerra de neve. Nenhum dos dois pareceu disposto a ceder durante o resto do dia.
Denis, no entanto, parecia ter conquistado uma vitória em outra frente, já que Delly acabou permitindo que ele abrisse mais um presente. Peeta também apareceu com um embrulho para Prim, que ficou encantada. Como se aquilo não bastasse, ele me entregou uma pequena caixa. Um perfume.
Fiquei imediatamente sem graça já que não tinha nada para ele.
“Não se preocupe”, ele disse quando percebeu minha expressão e aquilo só me deixou ainda mais constrangida.
Peeta nos deixou em casa pouco antes do horário do jantar e, como já começava a se tornar costume, perguntou se gostaria de fazer alguma coisa no dia seguinte. Eu estava prestes a recusar já que todos os anos, no dia seguinte ao Natal, Prim e eu visitávamos nossa mãe na clínica, mas minha irmã foi mais rápida.
“Vamos visitar a mamãe amanhã, você pode ir com a gente.” Fiquei imóvel no mesmo instante. Não queria que ele visse minha mãe.
Não queria explicar, não queria enxergar pena no olhar dele. Mas não poria retirar o convite feito. Ele olhou para mim e por um segundo pareceu dividido.
“Você é bem vindo se quiser vir.” Conhecer minha mãe seria inevitável em algum momento. Talvez fosse melhor acabar logo com aquilo.
Na manhã seguinte, depois da devida autorização do meu avô, ele passou para nos buscar. A viagem até a clínica transcorreu com minha irmã falando sobre nossa mãe com animação, enquanto me mantinha em silêncio. Passamos pela recepção e seguimos até a sala de estar.
Dessa vez a lareira estava acesa. Além de minha mãe, apenas Wiress ocupava o ambiente. As duas estavam sentadas próximas ao fogo. Prim foi a primeira a se aproximar, desejando um feliz Natal atrasado e se acomodando ao lado dela.
Apresentei Peeta a Wiress, que então o apresentou à minha mãe com toda a paciência. Para minha surpresa, ele simplesmente sorriu. Sentou-se ao lado dela e começou a conversar como se aquela situação não tivesse nada de diferente.
Sem desconforto.
Sem constrangimento.
Sem pena.
Observei enquanto ele perguntava sobre os materiais de pintura espalhados sobre a mesa. Minha mãe parecia particularmente dispersa naquele dia. Em determinado momento segurou um dos pincéis e ficou encarando o objeto sem conseguir lembrar para que servia.
Peeta apenas explicou com calma, como se aquilo fosse a coisa mais natural do mundo, enquanto falava, pegou alguns papéis e logo ele e Prim começaram a desenhar alguma coisa para mostrar à minha mãe.
“Ele parece ser uma ótima pessoa”, Wiress comentou ao meu lado.
“Ele é, e merece mais do que toda essa loucura.” Minha resposta saiu baixa, mas ela ouviu mesmo assim. Ficou alguns segundos em silêncio antes de responder.
“Essa situação com sua mãe não é fácil.” Observei minha irmã mostrar um desenho antigo enquanto Peeta escutava com atenção.
“Não.”
“E ele não parece se importar.” Voltei o olhar para Wiress. “Em tentar entender”, completou. “Prim ainda é uma criança.” A voz dela permaneceu suave. “Ela ainda consegue acreditar que um dia tudo vai voltar a ser exatamente como era antes. Que vai conhecer a mãe sobre quem você fala. A mãe de quem ela guarda tantas lembranças emprestadas.” Observei minha irmã sorrir para nossa mãe. “Mas você e eu sabemos é muito provável que isso nunca aconteça.” As palavras doeram porque sabia que eram verdadeiras. ”Talvez a medicina avance. Talvez encontrem um tratamento novo. Eu gostaria muito que isso acontecesse.” Ela fez uma pequena pausa. “Mas, enquanto espera por esse dia, sua mãe continua aqui.” Meu peito apertou. ”Ela ainda sorri quando fala de você. Mesmo que seja uma versão antiga de você. Ainda gosta de ouvir Prim conversar, mesmo sem compreender tudo ou quem ela realmente é. Ainda gosta quando alguém senta ao lado dela e segura sua mão.” Voltei a olhar para a mulher sentada diante da lareira. Tão diferente da pessoa que eu lembrava. “Nem tudo se perdeu, Katniss.” A voz de Wiress foi quase um sussurro. “Sua mãe ainda está aqui. Não da forma que você gostaria. Mas ainda está aqui.” Não respondi. “Não espere o tempo passar para descobrir que havia coisas que ainda podiam ser compartilhadas.”
Ela apertou meu ombro de leve antes de se levantar e me deixar sozinha. Permaneci observando os três sentados diante da lareira. Como se aquela cena não exigisse esforço algum, como se fosse simples.
Acabamos ficando mais tempo do que o habitual e, pela primeira vez em muito tempo, a visita transcorreu sem incidentes. Depois paramos para almoçar no centro da cidade, durante toda a refeição, Peeta pareceu interessado nas histórias que Prim contava sobre nossa mãe.
Minha irmã falava com orgulho de cada pequeno avanço conquistado ao longo dos anos. Todos mínimos, a maioria avanços que as outras pessoas provavelmente nem perceberiam. E, para minha surpresa, Peeta escutou cada um deles como se fossem grandes vitórias.
A virada de ano veio rápido. Como acontecia todos os anos, meu avô não era exatamente um homem dado a superstições. Ainda assim, a tradição da Vasilopita era algo que ele nunca deixava de cumprir. A moeda escondida no bolo acabou aparecendo justamente na minha fatia pela primeira vez em muitos anos. Minha irmã ficou tão feliz, que parecia até que a moeda estava na fatia dela e passou o restante da noite convencida de que aquele seria o melhor ano da minha vida.
No dia primeiro aconteceu a troca de presentes entre nós três e, em seguida com Mags que contou a história de São Basílio da mesma forma que fazia todos os anos. Sobre como ele deixava seu lar no céu e descia à Terra com seu cajado e uma grande sacola de pano para visitar as crianças no primeiro dia do ano.
Sobre as longas viagens durante a noite.
Sobre as bênçãos que deixava nas casas daqueles que haviam sido gentis ao longo do ano.
Prim amava aquela história. Ficava sentada aos pés de Mags, os olhos completamente fixos nela, como se ainda tivesse três anos e estivesse ouvindo tudo pela primeira vez. Meu avô não dizia nada, apenas observava da poltrona. Como sempre fazia. Ele nunca havia contado aquela história, mas assistia àquela cena todos os anos.
“Mamãe gostava dessa história?” A pergunta pegou todos de surpresa. Por um breve segundo, vi algo no olhar do meu avô, algo rápido demais para identificar. Ainda assim, algo diferente.
“Mas é claro.” Mags sorriu. “Eu contava para ela exatamente aqui. Todos os anos, desde que ela tinha três anos. Assim como fiz com você.”
“Ela contava para você, Katniss?” Confirmei com a cabeça.
“Sim. Do mesmo jeito que aprendeu com a Mags.” Vi o olhar de Prim se perder por um instante.
Ela não disse nada, mas conhecia minha irmã bem o suficiente para entender o que estava pensando. O desejo de ter ouvido aquela história da nossa mãe. De ter sentado ao lado dela. Mas ainda sim ela sorriu logo depois e voltou a prestar atenção em Mags.
“Ele deixa rastros na neve quando passa com o cajado, não deixa?” Porque, ao mesmo tempo, havia gratidão. Porque, de alguma forma, Mags nunca permitiu que aquele espaço ficasse completamente vazio.
E talvez fosse por isso que Prim continuasse ouvindo a mesma história todos os anos como se fosse a primeira vez, enquanto Mags a contasse, ainda existia uma pequena parte da nossa mãe ali.
Peeta apareceu naquela noite para o jantar. Tapmbém trouxe presentes e trocamos os pacotes com naturalidade, embora fosse nítida a diferença entre o clima da casa dos pais dele no Natal e a casa do meu avô.
“Então você pegou a fatia com a moeda?” Estávamos em um canto da sala, conversando em um tom mais baixo enquanto Prim mostrava ao meu avô um dos livros que havia ganhado. Ela mesma havia anunciado mais cedo para ele que eu tinha encontrado a moeda na noite anterior.
“Sim. Parece que serei a sortuda da casa este ano.” Ele sorriu.
“Posso considerar isso um bom sinal. Eu também achei a moeda. Talvez seja um sinal de que teremos um ano próspero juntos.”
“Então vocês também seguiram a tradição ontem?”
“Ah, sim. Minha mãe faz tudo. Além da Vasilopita, ela quebrou romãs, jogamos cartas, trocamos presentes pela manhã e meu avô contou a história de São Basílio. Tudo como manda a tradição.”
“Sobraram presentes para hoje?” brinquei, lembrando do Natal.
“Ah, sim. Mas acho que minha avó comprou alguns esta semana.” Ele riu. “Afinal, Papai Noel e São Basílio são pessoas diferentes.” Olhei para ele sem entender. “É que minha avó fala isso desde que minha mãe era pequena, para ela entender por que também trocavam presentes no dia vinte e cinco.”
“Então você cresceu acreditando em Papai Noel numa cidade onde ele nem é famoso.”
“Ah, sim. Ele vinha quase exclusivamente para me ver.” Peeta riu. “Porque conhecia minha mãe e minha avó.” Acabei rindo também , ele se aproximou como se fosse contar um segredo. “O Coelhinho da Páscoa também. E não eram ovos pintados que ele deixava.”
“Não?”
“Não. Eram ovos de chocolate.”
“De chocolate?”
“Ah, sim. No Brasil ele traz ovos de chocolate, então minha avó dizia que ele sempre passava por lá antes de vir me visitar.”
“Você realmente cresceu em uma mistura de tradições.”
“Com certeza.” Ele sorriu. “E foi ótimo, não vou negar.”
Depois do dia primeiro eu vi Peeta apenas quando estava resolvendo alguns assuntos com Effie sobre o casamento. Após três horas falando sobre o cronograma da cerimônia com a mãe dele, ele apareceu para buscá-la, o que eu sabia ser apenas uma desculpa. Afinal, Effie tinha o próprio carro e dirigia para todos os lugares.
Não demorou para que ele pedisse para falar comigo, então fomos até a sala de TV e nos sentamos no sofá, onde ele beijou meus lábios com naturalidade.
“Oi.” Ele sorriu e eu não pude evitar sorrir também.
“Oi. Então você veio até aqui só para me dar oi?”
“Quase isso.” Ele ficou um pouco mais sério e estranhei. No geral, ele sempre parecia leve e descontraído.
“Aconteceu alguma coisa?”
“Não. Eu só estava pensando...” Ele fez uma pausa, como se procurasse as palavras certas. “Sobre sua mãe ir ao casamento.” Não consegui evitar a surpresa.
“Não tem como ela ir ao casamento.” Ele tinha visto minha mãe e sabia que não teria como ela estar lá. “Ela está doente, Peeta. Mal me reconhece. Está assim há anos. Ela não...”
“Katniss...”Ele segurou minha mão. “Eu sei que ela tem sequelas do acidente. Sei que o dano é praticamente irreversível. E lamento muito por isso. Mas ela é sua mãe. E acredito que seja importante ela estar lá.”
“Ela está naquela clínica há oito anos, Peeta. Já perdeu tudo o que era importante.”
“Sim, mas podemos tentar fazer algo para que ela esteja presente.”
“Pra quê? No fim não faz diferença. No dia seguinte talvez eu ainda tenha nove anos para ela. Talvez acorde achando que a Prim nem nasceu.”
“Mas você saberia que ela esteve lá.” Fiquei em silêncio, eu estava tão acostumada a não ter minha mãe por perto que nunca havia pensado nisso daquela forma. “Eu falei com um colega do colégio. Ele está fazendo residência em Atenas agora. Expliquei um pouco da situação da sua mãe e ele me indicou um médico. Esse médico entrou em contato com o doutor Gloss e, aparentemente, não existe nenhum motivo para ela não ir.” Franzi a testa, ele estava em contato com a clínica da minha mãe. “Duas enfermeiras poderiam acompanhá-la durante todo o tempo. Ficariam de olho nela.”
“Peeta, eu não sei se isso é uma boa ideia.” E eu realmente não sabia minha mãe era tão imprevisível que eu nunca sequer cogitei a possibilidade de vê-la fora da clínica. Ela poderia ficar assustada. Poderia ter uma crise. Poderia chamar atenção.
“A escolha é sua. Não quero me meter. Só achei que valia a pena procurar saber.” A voz dele permaneceu calma. “Se você quiser, podemos tentar. Mesmo que seja por pouco tempo. Se ela não reagir bem às pessoas, tudo bem. Pelo menos tentamos.” Ele apertou minha mão de leve. “Só pensa sobre isso. E, se não quiser tentar, tudo bem também.”
Concordei com a cabeça e ele sorriu.
Eu não tinha ideia se devia ou não tirar minha mãe da clínica, mesmo que fosse apenas por algumas horas.
Obviamente eu a amava, mas eu não sabia lidar com ela. Nem com tudo o que havia acontecido nos últimos anos.
E talvez fosse justamente esse o problema, eu tinha me acostumado tanto à ausência dela que a possibilidade de tê-la presente outra vez me assustava mais do que deveria.
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