Moira

6 O Fio Que Não Veio


Notas iniciais
Boa noite! Espero que todos estejam bem. Vamos para o capítulo.

O sábado amanheceu lindo, e não pude deixar de sorrir ao olhar pela janela do meu quarto o céu limpo banhado pela luz dourada da manhã. Aquela seria a última manhã naquele quarto.

Em algumas horas eu estaria indo embora com as duas pessoas que mais amava no mundo.

Minha vida mudaria completamente e, por mais difícil que tudo parecesse, eu tinha certeza de que finalmente seria muito mais feliz.

Ainda assim existia Prim.

Eu precisava pensar em como conversar com ela, explicar toda a situação sem correr o risco de alguém ouvir. Nenhum cômodo daquela casa era realmente seguro para isso. As paredes pareciam guardar segredos antigos demais, e meu avô tinha o hábito irritante de descobrir coisas que jamais deveriam chegar até ele.

Eu precisava sair com ela. Levá-la para algum lugar seguro para conversarmos.

Quando entrei na sala de jantar alguns minutos depois encontrei Prim já sentada à mesa conversando animadamente com Lavinia.

“Você viu como ele é bonito e educado? Vovô realmente escolheu o melhor.”

“Bom dia.” Minha presença não abalou em absolutamente nada a animação da minha irmã. Lavinia apenas sorriu sem graça antes de se aproximar para servir o café.

Assenti em agradecimento enquanto Prim continuava falando sem parar.

“Eu estava contando para Lavinia sobre o seu noivo.” Ela parecia genuinamente feliz. Tão feliz que por um instante senti medo de que ela não entendesse meus motivos para partir.

“Percebi.” Tentei não prolongar o assunto, mas Prim simplesmente não percebeu meu desconforto.

“Ele deu um anel lindo para ela. E estava na cara que queria um momento sozinho com Katniss ontem.” Ela sorriu divertida antes de continuar. “A senhora Mellark pediu para ver o jardim e de repente começou a andar mais rápido. Foi aí que percebi que ela queria deixar vocês sozinhos.” Fechei os olhos por um breve instante. Claro que ela tinha percebido. “Dava para ver vocês perto das oliveiras. Depois vimos quando ele tirou uma caixinha do bolso e...” Prim praticamente se inclinou sobre a mesa. “Mostra para ela.”

Suspirei discretamente antes de erguer a mão exibindo o anel delicado que Peeta havia colocado em meu dedo na noite anterior. A pedra clara refletiu a luz de forma suave.

Lavinia abriu um sorriso pequeno.

“É muito bonito... bem delicado.”

“Não é?” Prim respondeu antes mesmo que eu pudesse falar. “Ele tem ótimo gosto. A senhora Mellark disse que foi ele mesmo quem escolheu.”

O assunto morreu apenas alguns minutos depois, quando meu avô entrou na sala.

O silêncio foi imediato.

Se existia algo em que ele era realmente bom era em silenciar um ambiente apenas com sua presença. Até o tilintar dos talheres pareceu diminuir quando ele atravessou a sala lentamente e se sentou à cabeceira da mesa.

A maioria dos empregados tinha medo dele.

Lavinia não era uma exceção.

Quando estava apenas comigo e Prim ela costumava conversar normalmente, sorria ou fazia pequenos comentários, mas diante do meu avô se transformava completamente. Mantinha a cabeça baixa, os ombros rígidos e falava apenas quando ele dirigia alguma pergunta diretamente a ela.

Era como se toda a casa prendesse a respiração e perdesse a língua na presença dele.

O café transcorreu como de costume, envolto em poucas palavras e longos silêncios. Apenas Prim, vez ou outra, comentava alguma coisa na tentativa natural de preencher o ambiente pesado da sala de jantar.

"Vovô, posso ir ao centro hoje? Gostaria de ver um vestido novo."

Prim, diferente de mim, sempre foi vaidosa. Gostava de vestidos, sandálias delicadas, laços e fitas. Meu avô terminou de beber o café antes de responder.

"Vou precisar do Seneca hoje, minha querida. Preciso visitar os vinhedos. Segunda-feira peço para ele levá-la depois do colégio."

"Algum problema?"

Ela perguntou de forma inocente, mas aquilo ainda foi suficiente para me fazer prender a respiração.

Prim era a única pessoa naquela casa que ainda questionava meu avô sem medo.

"Nada com que você precise se preocupar." O sorriso dele surgiu pequeno, quase calculado. "São apenas negócios. Aliás... quer ir comigo?"

Involuntariamente congelei.

Se Prim aceitasse, tudo estaria perdido.

"Eu posso levá-la."

As palavras saíram antes mesmo que eu pudesse pensar direito.

Meu avô desviou imediatamente a atenção para mim.

Por mais que eu odiasse fazer compras, aquele era o motivo perfeito para sair de casa com Prim e finalmente conversar sozinha com ela sem correr o risco de alguém ouvir.

Ele me observou atentamente, como se procurasse alguma coisa em meu rosto.

Mantive o olhar firme.

Prim, por outro lado, pareceu imediatamente animada.

"Sério? Mas você odeia fazer compras."

"Eu não gosto, mas sei que você quer ir. E é só um vestido, não é?" Ela confirmou rapidamente com a cabeça. "Não deve demorar tanto assim."

"Podemos, vovô?" Ele pareceu pensar por um instante.

Eu sabia que ele odiava que saíssemos sozinhas. Quase sempre mandava Seneca conosco para qualquer lugar minimamente movimentado e, nos últimos dias, vinha observando meus passos com atenção ainda maior.

Por isso, quando finalmente assentiu, senti um alívio imediato percorrer meu corpo.

"Que ótimo. Vou me trocar."

Observei Prim pedir licença e praticamente correr escada acima, animada demais com a saída. E tentei fazer o mesmo logo em seguida, antes que meu avô pudesse mudar de ideia.

Quanto menos conversássemos, mais segura estaria minha fuga naquela noite, mas infelizmente, não tive tanta sorte.

"Katniss." Minha mão congelou sobre o encosto da cadeira. "Preciso falar com você por um instante."

Lavinia percebeu imediatamente a mudança no ambiente. Antes mesmo que ele dissesse qualquer coisa, recolheu a bandeja sobre a mesa e saiu apressada em direção à cozinha, deixando nós dois sozinhos na sala de jantar.

O silêncio pareceu ainda mais sufocante quando meu avô voltou a falar.

"Espero que se lembre muito bem da nossa conversa." Permaneci em silêncio. "E espero também que não faça nada minimamente estúpido que possa levar os Mellark a reconsiderarem esse noivado." A voz dele continuava calma. "Acho que fui bastante claro naquele dia. Esse casamento precisa acontecer." Os dedos dele bateram uma única vez contra a mesa de madeira escura. "Caso contrário..."

Ele não terminou a frase.

Não precisava.

Algumas horas depois já havíamos passado por praticamente todas as lojas possíveis da cidade. Prim tinha comprado o vestido que queria e algumas outras coisas que, segundo ela, eram absolutamente necessárias.

Enquanto ela seguia animada de vitrine em vitrine, eu continuava sem encontrar a melhor forma de contar que iríamos embora naquela noite.

Éramos tão diferentes.

Prim amava aquela cidade de um jeito que eu nunca consegui amar. Gostava das ruas movimentadas durante a alta temporada de turismo, das senhoras sentadas nas portas das lojas comentando a vida alheia, do comércio sempre agitado e das negociações acontecendo de forma tão natural entre os moradores e turistas.

Ela pertencia àquele lugar.

E, pela primeira vez, senti medo de que ela se recusasse a ir comigo.

Entramos em uma pequena confeitaria no centro. O lugar ficava em uma das ruas de pedra próximas à praça principal e tinha aquele ar antigo que Prim adorava, com mesas de madeira espalhadas sob uma varanda coberta por videiras e janelas abertas deixando o vento morno atravessar o ambiente.

As vitrines exibiam fileiras de doces cobertos de pistache, tortas de nozes e pequenos biscoitos amanteigados perfeitamente alinhados em bandejas.

Alguns moradores ocupavam as mesas próximas da entrada conversando sem pressa. Homens mais velhos falavam alto perto do balcão enquanto poucos turistas observavam os doces indecisos sobre o que pedir.

“Aquela não é a Annie?”

Assim que Prim falou, olhei automaticamente na direção indicada por ela e encontrei Annie sentada sozinha na área mais reservada da confeitaria. Observei minha amiga distraída enquanto mexia lentamente na xícara de café à sua frente, completamente alheia ao movimento ao redor.

Meu estômago apertou imediatamente.

Eu odiava a ideia de partir deixando as coisas daquele jeito entre nós.

Então, quando Prim caminhou animadamente na direção dela, apenas a acompanhei.

Observei as duas se cumprimentarem antes de Annie erguer os olhos para mim e sorrir educadamente também, mas com certa tristeza. Nitidamente magoada comigo ainda.

“Vocês querem sentar?”

Por mais que eu ainda precisasse conversar com Prim, acabei concordando.

Nos acomodamos na mesa dela, afastada o suficiente do restante do salão para permitir alguma privacidade sem parecer isolada demais. E comecei a pensar em uma forma de consertar as coisas. Afinal, a amizade dela havia sido um conforto durante aqueles anos e eu odiaria partir deixando tudo daquela maneira.

“Me desculpa.”

Foi a primeira coisa que falei assim que minha irmã se afastou em direção à vitrine para escolher um dos doces.

Ela me olhou surpresa.

“Katniss...”

“Eu estava nervosa e falei coisas que não devia.” Olhei o cardápio apenas para evitar encará-la diretamente. A verdade era que eu nem sabia como olhar para ela depois da forma como tinha falado. “Eu não queria magoar você. Muito menos te julgar.” Ela continuou em silêncio, apenas me ouvindo. “Eu sei que você ama o Finnick. E que é feliz com ele.” Engoli em seco antes de continuar. “Espero conseguir ser feliz assim um dia.”

Porque Annie realmente parecia feliz. Leve.

Algo raro entre mulheres cujas famílias ainda faziam acordos matrimoniais como se estivéssemos presos a costumes de décadas atrás.

“Oh, Katniss... você vai ser.” Ela sorriu, e senti meu peito aliviar um pouco ao encontrar novamente a doçura típica da minha amiga. “Eu odiei brigar com você.” Apoiou os braços sobre a mesa antes de continuar. “Mas você apareceu falando sobre ser infeliz, sobre se sentir uma mercadoria...” Ela abaixou um pouco a voz, mesmo naquela parte mais reservada da confeitaria. “Eu sei que nem todos os casamentos feitos da forma como acontecem nas nossas famílias são felizes.” Os dedos dela deslizaram lentamente ao redor da xícara de café. “Não sou ingênua, Katniss. Sei que existem acordos ruins. Famílias que se importam mais com dinheiro, sobrenome e negócios do que com as pessoas.” Desviei o olhar por um instante. “Eu conheço mulheres infelizes. Você também conhece. Uniões que são pura fachada. Casamentos cheios de traições, ressentimento e gente que mal consegue permanecer na mesma mesa durante um jantar.”

O tom dela carregava mais sinceridade do que julgamento.

“Mas isso também acontece em outros casamentos.” Ela deu de ombros de forma leve. “Casamentos que começam por amor também acabam dando errado às vezes.” Permaneci em silêncio. “E posso ser honesta?”

“Claro.” Concordei permitindo que ela continuasse.

Annie inclinou um pouco o corpo na minha direção.

“Não existem motivos para você ter medo desse casamento.” Quase ri da ironia daquilo, se ela soubesse. “Você e seu avô têm diferenças, eu sei disso.” Ela escolheu cuidadosamente as palavras seguintes. “Mas acho que dessa vez ele realmente escolheu certo.” Meu estômago se revirou discretamente. “Peeta é uma ótima pessoa. Finnick me garantiu isso. E eu confio no meu marido.” Ela sorriu de leve antes de continuar. “E os Mellark são uma ótima família. Eles têm negócios por toda a região. Ouvi dizer que a rede de restaurantes deles já está em mais de dez cidades e continua crescendo.”

Assenti em silêncio.

“Ele é filho único. Vai assumir os negócios do pai um dia, mas pelo que Finnick comentou, Peeta pretende continuar aqui na cidade pelo menos na maior parte do tempo, administrando tudo daqui, como o pai dele fez durante anos, mas vou saber mais essa noite, fomos convidados para jantar na casa dele hoje...”

Ela parecia genuinamente feliz por mim.

Como se aquele casamento realmente fosse algo bom.

Talvez para qualquer outra garota cuja família estivesse acostumada com esse tipo de acordo realmente fosse.

Talvez para qualquer outra mulher Peeta Mellark fosse exatamente o tipo de homem com quem sonhariam se casar.

Admito que ele parecia gentil. Educado. E eu não podia negar que também era bonito.

Vinha de uma família respeitada, tinha um sobrenome importante e um futuro praticamente perfeito desenhado diante dele.

O tipo de casamento que fazia as senhoras da cidade suspirarem satisfeitas durante os longos almoços de domingo enquanto comentavam sobre sorte, estabilidade e bons casamentos.

Mas eu amava Gale.

Era com ele que eu queria ficar. Era com ele que eu queria construir uma vida.

E naquele instante, sentada naquela confeitaria enquanto Annie falava sobre o quanto eu deveria me sentir feliz, percebi o quanto seria impossível explicar para alguém como ela por que eu precisava fugir.

“Eu sei que a sua maior preocupação é a Prim, mas você não vai ficar longe dela.” Annie sorriu de leve antes de continuar. “Você ficou mais calma depois de conhecer ele?” Ela inclinou discretamente a cabeça na minha direção. “Como foi?”

“Foi bom.” A resposta saiu mais sincera do que eu esperava. Pela expressão dela percebi que estava aguardando mais detalhes. “Ele realmente parece ser uma ótima pessoa. Foi educado... gentil.”

“Além de muito romântico.” Prim voltou a se sentar ao meu lado naquele instante, sorrindo animadamente enquanto apoiava um prato com doces no centro da mesa. “Conta para ela do pedido.”

Annie arregalou os olhos imediatamente.

“Ele fez um pedido para você assim? Logo no primeiro dia?”

“Fez.” Respirei fundo antes de continuar. “Ele disse que queria me conhecer melhor primeiro, mas depois comentou que, considerando que já estávamos oficialmente noivos...” Fiz aspas discretas com os dedos. “Achou que meu avô esperava algo mais comprometido.”

Annie soltou uma risada baixa.

“Isso é ótimo, ele respeita seu avô e o compromisso firmado, mas respeita você.”

“A mãe dele quis conhecer o jardim depois do jantar e ele foi junto.” Prim contou a história praticamente da mesma maneira que havia contado para Lavinia mais cedo, com ainda mais detalhes. Então estendi a mão sobre a mesa mostrando novamente o anel.

Annie levou a mão ao peito imediatamente.

“Katniss...” Os olhos dela brilharam enquanto segurava delicadamente minha mão para observar melhor a joia. “Esse anel é lindo. E claramente tem muito valor também.” Ela ergueu os olhos para mim ainda sorrindo. “Olha esse acabamento... provavelmente foi comprado em Atenas ou em alguma outra cidade grande.” Ela voltou a observar o anel com atenção. “Conheço praticamente todas as joalherias daqui e nunca vi nada parecido nas lojas da cidade.”

“Eu disse isso para ela.” Prim interrompeu animada. “Falei que vovô escolheria um ótimo noivo.”

Ela apontou discretamente para mim antes de continuar.

“E ele ainda comentou sobre escolherem as alianças juntos depois.”

As duas voltaram a conversar animadamente sobre a noite anterior.

Prim contava detalhes demais enquanto Annie reagia a cada informação como se estivesse ouvindo a cena mais romântica do mundo.

Eu me limitei a sorrir em alguns momentos, fazendo comentários apenas quando realmente necessário.

“Estou tão feliz por você, Katniss.” Annie apoiou o rosto na mão enquanto sorria para mim. “A família dele parece respeitar muito o fato de você estudar.” Ela parecia genuinamente animada. “Vamos continuar estudando juntas e nos formar juntas também.”

Desviei o olhar para a rua movimentada do lado de fora antes que ela percebesse qualquer coisa no meu rosto.

Porque naquele instante tudo o que consegui pensar foi que provavelmente eu nunca mais a veria.

Não foi preciso muito tempo para que as duas começassem a falar novamente sobre o casamento.

Eu já nem prestava mais tanta atenção quando percebi o homem sentado na mesa logo atrás de Annie se levantar.

Havia entrado tão distraída na confeitaria que provavelmente não teria notado ninguém .

Por isso me surpreendi quando ele passou ao lado da nossa mesa.

Mesmo vendo apenas suas costas por alguns segundos, eu jamais deixaria de reconhecê-lo.

Gale.

Meu coração disparou imediatamente.

Observei enquanto ele atravessava a varanda coberta pelas videiras em direção à saída sem sequer olhar na minha direção.

E aquilo pareceu estranho.

Por mais cuidadosos que precisássemos ser em público, por mais que evitássemos conversar ou demonstrar qualquer proximidade diante das pessoas da cidade, sempre trocávamos ao menos um olhar quando nos encontrávamos.

Sempre.

Mas Gale simplesmente saiu.

A porta de madeira se fechou atrás dele segundos depois, misturando o som ao barulho distante das conversas próximas ao balcão.

Tentei afastar qualquer pensamento ruim da cabeça.

Ele provavelmente estava nervoso com a nossa partida naquela noite.

E honestamente? Eu entendia.

Gale deixaria a família, os amigos, tudo o que conhecia desde criança.

Aquilo não devia ser fácil para ele também.

Respirei fundo antes de voltar minha atenção para a conversa.

Annie acabou nos acompanhando em mais algumas lojas e fiquei feliz por aquele tempo extra ao lado dela.

Nos despedimos já no fim da tarde o sol começava a descer lentamente atrás das colinas ao redor da cidade, espalhando tons dourados pelas fachadas claras das construções alinhadas ao longo da rua de pedra.

E eu ainda não tinha tido coragem de contar a verdade para minha irmã.

“Prim... você confia em mim?”

Perguntei quando já estávamos a poucos metros do portão de entrada.

Ela franziu levemente a testa.

“Claro que confio, por que a pergunta?”

“Nada demais.” Desviei o olhar por um instante antes de continuar. “Você sabe que é a pessoa mais importante da minha vida.” Minha voz saiu mais baixa. “E que eu sempre vou escolher o que for melhor para você, não sabe?” Ela diminuiu os passos imediatamente.

“Está acontecendo alguma coisa?”

“Não.” A mentira pesou instantaneamente no meu peito. Porque, por mais que eu soubesse que deveria contar tudo a ela naquele momento, ainda tinha medo da reação da minha irmã.

Prim era a pessoa mais importante da minha vida e eu faria absolutamente qualquer coisa por ela.

Mas acima de tudo, eu sabia que o amor que existia entre nós era recíproco.

E talvez fosse egoísmo, talvez fosse errado não dizer toda a verdade, mas uma parte de mim tinha certeza de que, no final, ela iria comigo para qualquer lugar.

“Eu só preciso ter certeza de que você confia em mim.”

Ela sequer hesitou.

“Eu confiaria minha vida a você sem pensar duas vezes.”

Aquelas palavras foram suficientes para fazer meu coração apertar.

Porque era exatamente o que eu precisava ouvir para seguir com o plano daquela noite

A sorte definitivamente parecia estar ao meu favor daquela vez. Eu havia conseguido separar o básico para mim e para Prim em uma única mochila sem que ninguém percebesse. Algumas roupas, dinheiro escondido entre os livros antigos da minha estante e poucas coisas realmente importantes.

Nada que chamasse atenção.

Para completar, meu avô telefonou avisando que não voltaria naquela noite devido a alguns problemas envolvendo os vinhedos.

Saber que Seneca também estaria fora me deixou muito mais confiante. De todos os empregados da casa, ele era o mais atento e se percebesse qualquer coisa antes da hora, eu estaria perdida.

A única coisa que realmente me incomodava em fugir na ausência do meu avô era Mags.

Porque eu sabia que, sem a menor dúvida, que ele a culparia quando descobrisse.

E eu odiava a ideia de prejudicar a única figura materna que tive nos últimos anos.

Mas aquela era minha única chance. E, de todas as pessoas que conheci na vida, Mags provavelmente era quem melhor sabia lidar com Coriolanus Snow.

Afinal ela trabalhava naquela casa havia décadas e diferente de praticamente todo mundo, nunca pareceu realmente ter medo dele.

O jantar transcorreu de forma estranhamente tranquila com Prim falando a maior parte do tempo, comentando sobre as compras da tarde enquanto Lavinia ocasionalmente sorria das histórias dela.

Depois permanecemos algum tempo na cozinha conversando sobre amenidades enquanto Mags e Lavinia organizavam tudo.

Observei Mags em silêncio por alguns segundos. A mulher que me acolheu de braços abertos quando cheguei naquela casa anos atrás.

Ainda me lembrava daquele dia com nitidez demais. A dor pela morte do meu pai ainda era recente e Prim era tão pequena. E eu me sentia completamente sozinha.

Ficamos quase duas semanas na casa de vizinhos depois do enterro sem qualquer notícia da minha mãe.

Então, com toda a pompa de homem respeitável que adorava sustentar diante da cidade, Coriolanus Snow apareceu para nos buscar.

E lembro perfeitamente da sensação que tive assim que atravessei a porta daquela casa.

Tudo parecia grande demais. Escuro demais. Silencioso demais.

Tão diferente da pequena casa onde vivíamos antes.

Lembro de querer ir embora quase imediatamente assim que atravessei aquela porta.

Meu avô havia listado tantas regras naquele primeiro dia que hoje mal consigo lembrar da maioria.

Mas existiam duas que jamais esqueci.

Não fazer bagunça. Não fazer barulho.

Então Mags apareceu.

Com aquele olhar calmo e absurdamente gentil.

Assim que conseguiu alguns minutos sozinha comigo, me abraçou e disse que tudo ficaria bem.

E mesmo sem conhecê-la, me deixei abraçar. Porque eu precisava desesperadamente daquilo.

Ela tornou a vida naquela casa suportável. A cada aula de etiqueta. A cada jantar silencioso. A cada nova exigência absurda do meu avô.

Sempre ali, mesmo de forma discreta.

Foi ela quem me ajudou com Prim durante todos aqueles anos.

Quem me ensinou a cuidar dela sem realmente dizer que estava ensinando. Quem aparecia no quarto com chá quando eu chorava escondida. Quem distraía Prim quando eu precisava respirar por alguns minutos. Quem fazia aquela casa parecer menos fria.

E perceber que talvez nunca mais a visse fez meu peito apertar.

“Boa noite, Mags.” Falei quando finalmente me levantei quase saindo da cozinha.

Prim já havia subido fazia alguns minutos.

“Já vai se deitar?” Confirmei com a cabeça e ela sorriu suavemente. “Certo. Tenha uma boa noite, querida.” Assenti antes de seguir em direção à porta, mas parei no meio do caminho.

“Mags...”Senti um nó se formar na garganta ao olhar para ela. “Obrigada.” Ela franziu levemente a testa, surpresa pelo tom da minha voz, mas ainda assim sorriu de forma sincera.

E por um instante tive a sensação de que ela queria perguntar alguma coisa.

Como se tivesse percebido que existia algo diferente naquela noite.

Mas antes que dissesse qualquer coisa, apenas me virei e continuei caminhando em direção ao meu quarto.

Chequei mais uma vez a mochila, guardando cuidadosamente as joias usadas na noite anterior. Olhei atentamente o anel que Peeta havia escolhido.

Era lindo. Delicado. E sem dúvida valia uma quantia considerável.

Eu sabia que precisaríamos de dinheiro e vendê-lo provavelmente seria a decisão mais inteligente, mas aquilo não parecia certo.

Eu mal conhecia Peeta Mellark, ainda assim ele havia sido simpático, educado e respeitoso comigo.

Então, contrariando completamente o bom senso, retirei o anel do dedo e o deixei sobre a mesa de cabeceira.

Mags entenderia. E provavelmente encontraria uma maneira de devolver.

Pouco antes das onze da noite caminhei silenciosamente até o quarto de Prim. Como imaginei, ela já dormia.

Deixei a mochila próxima da porta antes de me aproximar da cama e acordá-la com cuidado.

“Aconteceu alguma coisa?” Ela perguntou ainda sonolenta.

“Não, está tudo bem.” Mas minha voz não soou convincente nem para mim mesma. Respirei fundo. “Você disse mais cedo que confiava em mim.” Entreguei uma roupa para ela. “Então preciso que confie agora e venha comigo.”

Ela se sentou lentamente na cama, claramente assustada.

“Katniss... o que está acontecendo?”

“Só confia em mim, por favor.” Ela me observou em silêncio por alguns segundos antes de começar a trocar de roupa. “Prim, precisamos fazer o mínimo de barulho possível.”

Esperei até que terminasse antes de pegar novamente a mochila próxima da porta.

“Estamos fugindo?” A pergunta fez meu coração apertar.

“Só vem comigo, por favor.” Ela parecia assustada. Confusa.

E eu me senti horrível por não conseguir explicar nada.

Mas já não existia mais tempo. A casa estava completamente silenciosa e escura quando descemos as escadas.

Cada pequeno ruído parecia alto demais naquela madrugada.

O barulho da porta principal se abrindo fez meu coração acelerar violentamente e só consegui respirar direito quando atravessamos o portão.

Seguimos rapidamente pelas ruas vazias em direção à pequena rodoviária da cidade.

Por sorte a casa do meu avô ficava relativamente próxima da saída principal e longe do centro que provavelmente ainda tinha resquício de movimento por ser sábado à noite.

Prim segurava minha mão com força enquanto caminhávamos.

O vento frio da madrugada atravessava as ruas estreitas carregando o cheiro distante de terra seca.

Chegamos à rodoviária às onze e vinte e cinco.

O lugar estava longe de estar vazio, mas o movimento era pequeno o suficiente para me deixar nervosa com medo de ver um rosto conhecido.

As luzes amareladas iluminavam parcialmente o estacionamento onde dois ônibus aguardavam os próximos horários.

Algumas pessoas conversavam baixo próximas à pequena cafeteria ao lado da bilheteria enquanto um motorista fumava distraidamente perto das plataformas.

Procurei Gale imediatamente.

Mas não o encontrei.

Meu estômago afundou.

Mesmo assim conduzi Prim até um banco mais afastado, próximo à última plataforma, parcialmente escondido por uma coluna de concreto.

“Katniss... pra onde estamos indo?” A voz dela saiu baixa. “Por que estamos indo a algum lugar essa hora?”

Fechei os olhos por um instante.

“Eu vou explicar tudo, eu prometo.” Ajustei cuidadosamente a touca dela cobrindo um pouco mais seu rosto antes de fazer o mesmo comigo. Mesmo com poucas pessoas circulando ali, eu não queria correr o risco de sermos reconhecidas. “Pode não parecer agora... mas estou fazendo isso pelo nosso bem.”

“E a mamãe?” A pergunta me atingiu em cheio. “E o vovô?”

“Eles vão ficar bem.” Puxei Prim para um abraço numa tentativa desesperada de transmitir uma calma que eu definitivamente não sentia.

Porque a verdade era que eu só me sentiria segura quando estivéssemos longe daquela cidade. Cada barulho fazia meu corpo inteiro se tensionar.

Toda vez que alguém atravessava a entrada da rodoviária eu tinha a sensação de que Seneca apareceria acompanhado de algum funcionário do meu avô.

E se isso acontecesse... Eu não fazia ideia do que meu avô faria comigo, mas sabia que não seria algo bom.

Olhei novamente para o relógio preso acima da bilheteria.

Onze e quarenta e oito.

Gale estava atrasado.

E por mais que tentasse controlar os pensamentos ruins, o medo começava a me consumir lentamente.

Prim percebeu, pois simplesmente parou de fazer perguntas e permaneceu sentada ao meu lado segurando minha mão enquanto observávamos o movimento silencioso da rodoviária.

O ônibus para Tessalônica chegou às onze e cinquenta.

As portas se abriram com um ruído metálico enquanto algumas pessoas desembarcavam lentamente.

Meu coração disparou.

Observei cada rosto. Cada movimento. Cada pessoa atravessando as plataformas.

Mas Gale não apareceu.

“Katniss...” Ouvi a voz da minha irmã. E não consegui responder. “Não vamos embarcar?”

A pergunta quase destruiu o pouco controle que ainda me restava.

Continuei olhando fixamente para a entrada da rodoviária esperando vê-lo surgir correndo a qualquer momento.

Mas ele não veio.

O motorista anunciou a saída.

As portas começaram a se fechar lentamente.

E o som do motor ligando pareceu atravessar meu peito de forma brutal.

Sem dizer uma única palavra, observei o ônibus deixar a plataforma até desaparecer na estrada escura.

Prim permaneceu em silêncio ao meu lado.

E eu também.

Minha mente tentava desesperadamente encontrar alguma explicação lógica.

Talvez Gale tivesse sido impedido. Talvez algo tivesse acontecido no caminho. Talvez estivesse procurando outra maneira de irmos embora.

Então esperei.

Continuei sentada naquele banco afastado observando cada carro que passava do lado de fora. Cada pessoa entrando pela porta principal. Cada sombra atravessando as plataformas.

Esperando que Gale aparecesse com uma explicação. Com um novo plano. Com qualquer coisa que significasse que ainda estávamos juntos naquilo.

Mas ele nunca apareceu.

“Prim... acorda.” Não percebi em que momento minha irmã havia adormecido apoiada no meu ombro. Por mais que precisasse desesperadamente de respostas, eu sabia que não podia continuar ali até amanhecer. “Temos que ir.”

Ela abriu os olhos lentamente.

“Ir pra onde?”

Engoli em seco.

“Pra casa do vovô.”

Porque eu sabia que não existia nenhum lugar em Thalessi onde pudesse me esconder com Prim sem que meu avô eventualmente nos encontrasse.

E por mais que a ideia me destruísse por dentro, voltar era a única opção.

As últimas horas haviam sido um inferno.

E durante todo o caminho de volta a única coisa em que consegui pensar foi que algo muito ruim devia ter acontecido com Gale.

Entramos em casa pouco antes das quatro.

Prim não fez perguntas.

Talvez porque estivesse cansada demais. Talvez porque tivesse percebido que eu estava perto de desmoronar.

Entrei diretamente no meu quarto.

Joguei a mochila dentro do guarda-roupa com força antes de me sentar na cama.

Tentei controlar as lágrimas. Tentei afastar os pensamentos horríveis que insistiam em surgir.

Mas falhei miseravelmente.

Porque naquele instante tudo o que eu conseguia imaginar era Gale machucado. Ou pior.

E pela primeira vez desde que aquele plano começou, senti medo não apenas do meu avô.

Mas da possibilidade de ter perdido o único homem que amava.

Notas finais
É isso. Espero que tenham gostado. Gale não apareceu. Algum palpite sobre o motivo? Com a fuga dando errado, o que será que a dona Katniss vai fazer agora? E podem ficar tranquilos que teremos o loiro no próximo capítulo, prometo. Aliás em um momento que acho muito fofo entre eles. Desejo uma ótima semana para todos. Beijos!