Notas iniciais
Utilisés - Acostumada

Muito tempo desde o ultimo.

Sorry.

Tô planejando um intercambio e mal tenho tempo de comer, porque acreditem ou não eu ainda trabalho. =)

Mas me esforçarei ao máximo ;D

Abri os olhos com a claridade que invadiu o quarto, ótimo, tinha esquecido de fechar a cortina. Bufei virando o rosto pra baixo e me afogado no travesseiro. Era macio demais. É, eu ainda estava em Paris, e todas as imagens que passavam na minha cabeça dos dias anteriores eram reais.

Agora eu acredito mesmo que a vida tem jeito interessante de agir. E eu sei que isso deve soar como aquelas falas de programas matinais, com uma apresentadora que informa de tudo pras donas de casa. E cita milhões de frases bobas de auto-ajuda.

Eu me lembro perfeitamente da minha vida de menos de uma semana atrás. Aliás, era bem simples. Resumia-se a faculdade, amigos, barzinhos, meus vizinhos e aos meus pais. Meus pais! Mal tinham parado pra pensar nos dois, eles surtariam se soubessem de tudo.

Talvez eu até conseguisse fazê-los entenderem sobre a máfia, o seqüestro, meu amor doente. Mas ao ouvir a frase “Eu tranquei a faculdade”, algo grande e ruim aconteceria. Disso eu tinha certeza absoluta.

Eu sei que todos devem pensar: Eles nem vão se importar com a faculdade ao saber o porquê de você estar em Paris. É aí que todos se enganam. Mas tudo bem, provavelmente não conhecem meus pais.

No meio da minha adolescência em cidade pequena fui atropelada por um carro de um vendedor de fruta, sim, eu sempre fui bem desligada com a realidade ao meu redor, mas como eu disse era vendedor, não estava há mais de 20 Km/h.

Mas voltando aos fatos, fui levada pro hospital e por sorte o máximo que aconteceu foi um tornozelo torcido, e ao acordar e ver meus exemplares adivinha a frase que eu ouvi?

Podiam ter sido do tipo pais convencionais:

“Filha, que bom que acordou. Como está se sentindo?”

Ou do tipo pais preocupados:

“Filha! Céus! Que bom que está bem! Quase nos matou de preocupação menina!”

Mas não, esses são meus pais:

“Porque diabos não tava na escola hoje de manhã?”

De qualquer jeito não eram os meus pais que me preocupavam agora, nem mesmo os mafiosos que me cercavam e me hospedavam. Sim, eu vejo tudo pelo lado positivo, e encaro essa nova situação como uma visita paga a França. É mais fácil de lidar. Como dizem: “É tudo questão de perspectiva”.

Mais meu maior problema agora eram as malas, continuavam no mesmo local esperando que eu tomasse alguma atitude. Pelo menos eu abriria alguma delas hoje, afinal não é porque se está na França que se perde os velhos costumes de higiene, se bem que eu acho pura balela essa história de que europeu não toma banho todo dia.

Levantei ainda cambaleando, pelo menos eu tinha dormido o suficiente dessa vez. Depois de um bom banho provavelmente estaria novinha em folha, pra encarar tudo o que acontecia com mais lucidez, ou pelo menos sem quebrar mais vasos persas.

No banheiro tinha tudo o que eu precisava que infelizmente não tinha tido tempo de colocar na mala: toalhas, sabonetes e até uma banheira que caberia quatro versões de mim. Aquilo era fantástico, no fim não era tudo tão ruim.

Tomei um banho bem mais rápido do que eu gostaria já que a minha barriga me lembrava das minhas outras necessidades. Tinha saído na noite anterior pra comer alguma coisa e acabei atacando um cara antes de alcançar a cozinha, e a conseqüência de tudo acabou me fazendo voltar ao meu refúgio quente e aconchegante do quarto.

Tudo não estava mais tão embaraçado na minha cabeça, é como se no meio do mar uma corrente te agarrasse e te forçasse a seguir, e por mais que toda a situação conspire contra você. Você não sente a agonia de quem se afoga. Porque de alguma forma a sensação de ser carregada pro desconhecido é excitante demais pra não se ser provada da melhor forma possível.

E no fim eu estava na casa do amor da minha vida, em uma cidade deslumbrante. Ele podia não ser tudo o que eu descreveria como um homem perfeito e a relação perfeita que tinha nos feito interagir. Mas essa era a melhor parte, porque eu nunca tinha sequer cogitado assim, era território inabitado até pra minha imaginação, que modéstia a parte... é extremamente vasta.

Coloquei uma calça jeans e uma camiseta qualquer preocupada só em sair logo do quarto e chegar a cozinha, mas precisava estar no mínimo apresentável, já que visivelmente nos últimos dias eu não tinha me preocupado tanto com isso.

Amarrei o cabelo em um rabo de cavalo enquanto deixava o cômodo, mas não sem antes olhar pras malas mais uma vez, ah como eu queria que elas se desempacotassem e entrassem no guarda roupa sem nenhum movimento meu. E isso não é preguiça, é impaciência.

Assim que cheguei no corredor percebi que algo não estava igual, tinha empregados caminhando de um lado pro outro apressados e um barulhos de louças e talheres incomum. Caminhei até alcançar o corredor que levava a cozinha observando os movimentos apressados dos que trabalhavam.

-Avez vous déjeuné? – Ouvi uma mulher falar, mas só depois de alguns segundos percebi que era comigo.

-Eu não falo francês. – Murmurei com minha mímica usual apontando minha boca e fazendo sinal negativo com o indicador.

Ela sorriu e apontou a bandeja que carregava. Tinham várias tigelas com diversas diferentes frutas picadas e alguma espécie de creme em uma tigela, provavelmente iogurte sem sabor ou açúcar.

-Café da manhã! – Disse sorrindo supondo o que ela queria dizer. – Não, não tomei não.

-Alors venez avec moi. – Ela murmurou com o mesmo sorriso, não tenho idéia do que ela disse, mas me olhou apontando pra escada como se indicasse pra eu segui-la, o que eu fiz já que nesse momento qualquer chance de comer o que quer que fosse estava valendo.

Subimos uma escada que ficava um pouco antes do corredor que levava a cozinha. Por um momento pensei em oferecer ajuda pra carregar o que ela levava, mas meu francês pobre só atrasaria mais ainda minha possibilidade de comer algo logo.

Chegamos ao segundo andar e ele era completamente diferente do primeiro, o que agora me lembra que ninguém me ofereceu um tour pela casa, não que eu fosse querer um nas situações passadas, mas acho que seria legal alguém ter se oferecido.

Os tons continuavam bem sérios e escuros, mas o ambiente por inteiro era bem mais iluminado e vivo. Provavelmente efeito da sacada enorme e bem iluminada a poucos metros de nós, e pra minha felicidade era pra lá que caminhávamos.

Duas vozes soavam fortes agora além do som de talheres que ficava cada vez mais forte, a língua utilizada era francês, o que tornava bem mais complicado pra eu reconhecer cada uma das vozes. Mas por fim minha agonia pela imprecisão acabou, e é claro a outra agonia por estar em ambiente proibido chegou a níveis alarmantes.

-Isabella! – Uma voz infantil soou me levando até o rosto sorridente de Paola, o que me levou a bela mulher loira ao lado dela. Não aparentava ter mais de quarenta anos, tinha os menos olhos azuis de Paola apesar do cabelo não ter um tom tão claro quanto o da pequena.

-Olá. – A ouvi murmurar com um sorriso, era o cumprimento com o sotaque mais carregado que eu tinha ouvido até aquele momento. E eu simplesmente respondi um mero oi com um sorriso. – Eu Liliane.

Assenti pra quando ela se apresentou, ou menos acho que tentou. A beleza dela era tão clássica e convencional, claro que não era mais tão jovem. Mas podia ter certeza de que poucos anos antes era uma perfeita versão do Oliver feminina, o que como todos já sabem, vai além do deslumbrante.

-Sentar e comer conosco. – Ela murmurou simpática revelando mais ainda do sotaque acentuado por demais.

-Oui, oui! Come com a gente Isabella! – Paola quase gritou mostrando a cadeira em frente a dela, que me levava a sentar ao lado da mulher que provavelmente devia ser minha possível futura sogra.

-Não temos muita... – A mulher falava olhando pra mim enquanto eu me aproximava da cadeira, mas fez a pausa pra fitar Paola como se pedisse ajuda. – Femmes?

-Mulheres! – Paola respondeu com um sorriso.

-Não muitas mulheres por na casa. – Ela completou e eu sorri afirmando com a cabeça, não ia corrigir o português de uma matriarca mafiosa que podia ser a mão do meu futuro marido certo?

-Eu contei pra mamãe tudo sobre você! Sobre Brasil e sobre como nós vamos pro baile juntas hoje! E também sobre como você sabe sobre o Jean e aprova nossa relação. – Ela fez uma pausa pra respirar e eu sentava me perguntando como alguém conseguia falar tanto em tão poucos segundos. – Precisamos comprar roupas! Vestidos lindos e grandes e também...

-Cesser Paola! – A mulher interrompeu colocando uma das mãos sobre o braço da filha, agora isso era mais que certo. – Isabella besoin de manger le petit déjeuner.

Não entendi muito, mas eu estava meio que concentrada no pão com geléia a esse ponto também. Não tinha uma refeição descente há mais de 24 horas, não estava lembrando muito das dicas de aulas de etiqueta.

E de qualquer jeito Paola parou de falar com a frase da mãe, voltou ao café da manhã e eu até pensei em pedir tradução, mas eu já falei sobre o creme perfeito que eles serviam com as frutas? Não sei o que é, mas não era iogurte, e é magnífico.

-Feliz em você aqui. – A mulher começou depois de alguns minutos, quando eu já comia de forma menos selvagem minha segunda torrada. – Jus de fruits?

Ela perguntou com uma garrafa de suco na mão olhando meu copo vazio, já tinha terminado uma tigela de fruta com o creme branco e uma torrada e meia sem pensar em beber nada. Acenei positivamente enquanto ela servia meu copo sorrindo.

Parei com a torrada enquanto ela me servia percebendo tudo de repente, era ela enfim a mãe do Oliver. Não era louca, psicótica e nem parecia ter uma arma na cintura. Não era exatamente o que eu esperava dela, principalmente agora que ela me entregava um copo de suco que ela mesma colocara com um sorriso. Nem mesmo esnobe ela era, ou talvez fosse só porque não falava minha língua direito mesmo.

-Je parle maintenant? — Ouvi Paola novamente enquanto experimentava o suco. O francês em excesso já nem me perturbava tanto, estava quase me acostumando enfim. Ou era a comida que me permitia dar pouca atenção a conversa mesmo.

-Oui, Paola. – A matriarca Chevalier respondeu e pude sentir o olhar ansioso da pequena sobre mim.

-Como tentei dizer antes! Vamos comprar vestidos hoje! Muitos e muitos! Porque todos vão estar no baile, e como você já me prometeu vai também. – Incrível como ela distorce a realidade ao favor de si mesma. – Mamãe não pode ir comigo então você vai, não é?

-Só se ela quiser ir, Paola. – A voz de Enzo soou, e eu senti como se não o ouvisse faz tempo. O que era estranho já que no dia anterior tinha me encontrado com o rosto mais familiar pra mim naquela casa. – Bom dia, Isa.

-Bom dia, Enzo! – Respondi com entusiasmo, era como ter certa conexão com alguém conhecido e seguro em uma realidade tão incerta.

-É claro que ela quer ir! – Paola finalmente rebateu chateada com o comentário dele. – Não quer, Isa?

-Bonjour Lili! – Enzo disse cumprimentando a bela loira enquanto ignorava Paola que olhava pra ele e pra mim intercaladamente.

-Bonjour Enzo! Combien de temps il loin de moi? Oliver et Bruno est venu avec vous? — Ela parecia ter muitas frases pra quem apenas respondia um bom dia, e eu também entendi os nomes Bruno e Oliver na frase.

Pronto. Estava decidido, ia começar a ter aulas de francês nem que fosse com a Paola.

-Oui, oui. – Ele murmurou sentando na cadeira ao lado de Paola depois de bagunçar os bem arrumados cachos dela, com várias reclamações em francês em resposta claro. – ILs doivent être á venir.

-Pourquoi ne m'avez pas averti?

-Nous ne pensons pas nécessaire. – Tinha parado de prestar atenção na conversa até esse comentário. Não importava a língua, reconhecia a voz dele em qualquer lugar.

-Pourquoi pas? – O tom de voz dela se elevou de repente e ela olhava fixamente pra um ponto atrás de mim, o que eu claramente fiz no exato momento também. – Je suis votre mère et vous devez savoir...

Oliver, ele estava com o cabelo molhado com alguns fios caindo sobre o rosto de forma desleixada, a geléia ou até mesmo o creme não eram nada ao lado do amor da minha vida. Era ele, apenas ele que eu queria de café da manhã pro resto da minha vida.

-Oui, oui maman – O ouvi dizer com uma voz muito fofa, voz que nunca se dirigiu a mim no mesmo tom diga-se de passagem. Além de passar reto por mim em direção a loira, eu só perdoaria por agora. Já que por enquanto ela era a mãe dele e eu a guria de uma relação ainda não-oficial.

Liliane provavelmente ainda queria argumentar algo quando ele envolveu os braços nela e depositou um beijo em sua bochecha, Oliver, a cada dia mais encantador.

-Vai comigo, não vai? – Eu conseguia ouvir a voz, mas Oliver não me deixava tirar os olhos dele. – Isabella!

Voltei atenção a Paola que tinha quase gritado agora, me olhava com certo desespero ansioso, e eu acenei positivamente. O que mais eu teria pra fazer? Ficar trancada no quarto suspirando pelo homem que nem me dava um abraço ou um beijo quando me via na mesa do café da manhã?

-Vou sim, Paola. – Respondi com um sorriso e ela abriu um maior ainda.

-Pra onde? – Oliver perguntou caminhando novamente na minha direção, meu coração bateu mais forte, mas sem suspense. Ele só queria sentar na cadeira vaga ao meu lado. O que não significou menos pra minha mente afoita.

-Comprar vestidos! Iremos ao baile hoje frére!

-Eu entender não tanto português... – A mulher loira começou olhando na minha direção agora, enquanto Paola ainda tagarelava sobre vestidos descontroladamente. – Mas praticar você bom.

-Ninguém fala português aqui sem meu pai, e como ele viaja muito... – Oliver explicou. Mesmo que eu não tenha feita minha usual cara de confusa, achei gentil.

-Porque não pratica mais com a Paola? – Perguntei e todos consideraram uma piada. Exceto obviamente a pobre caçula Chevalier.

-O português da Paola não é nada que dê pra passar adiante, se é que você me entende. – Brincou Enzo levanto um tapa da menina em resposta.

-Paola no paciência ensinar Isabella. – A matriarca explicou com um tom mais gentil e eu assenti. Disso eu podia ter quase certeza conhecendo a personalidade elétrica dela.

-Porque falam português com o seu pai e não com sua mãe? – Perguntei. Sim na minha cabeça ambos eram mafiosos franceses, ou italianos. Olha o preconceito.

-Papa é bresiliénne. – Paola respondeu terminando o suco e por algum motivo eu me surpreendi demais com aquilo. Fazia todo o sentido já que não devem ser todas as famílias na frança que todos os seus membros falam ou entendem pelo menos um pouco de português.

-Viu? É por isso que eu disse que seu português é horrível. Papai é brasileiro, Paola. Isso que deveria ter dito.

-Ela entendeu, stupide! – Paola rebateu recebendo uma provável bronca da mãe pelo tom. Talvez stupide signifique mesmo o que eu supus.

A conversa na mesa continuou sem mim por alguns minutos, o pai do Oliver era brasileiro, o que me dava sim certo conforto. A mãe era gentil e não uma arrogante assassina já na casa dos quarenta. E aquela mesa do café era algo que mesmo sendo a primeira vez eu já me sentia familiarizada.

Acho que era isso que mais me assustava.

Eu não estava mais seqüestrada, hospedada ou ameaçada.

Estava começando a me sentir acostumada.

Confortavelmente acostumada.

Notas finais
Avez vous déjeuné? - Já tomou café da manhã? (É uma maneira nem tão formal de se perguntar.

Alors venez avec moi. - Então venha comigo.

Cesser Paola! - Para Paola.

Isabella besoin de manger le petit déjeuner. - Isabella precisa tomar café da manhã.

Jus de fruits? - Suco de frutas? (Esse era bem óbvio, né? Mas viram, agora todos sabemos algo em francês =)

Je parle maintenant? - Posso falar agora?

Bonjour - Bom dia.

Bonjour Enzo! Combien de temps il loin de moi? Oliver et Bruno est venu avec vous? - Bom dia Enzo! Quanto tempo ficou longe de mim? Oliver e Bruno vieram com você?

ILs doivent être á venir. - Eles estão vindo.

Pourquoi ne m'avez pas averti? - Porque não me avisaram?

Nous ne pensons pas nécessaire. - Não achamos que seria necessário.

Pourquoi pas? - Porque não?

Je suis votre mère et vous devez savoir... - Eu sou sua mãe e você deve saber...

Oui, oui maman - Sim, sim mamãe.

Acho que traduzi todas as necessárias, né?

Bom mais uma vez sinto a demora e buuh, adoro vocês e todas as reviews que mandaram. Valeu mesmo o apoio e tudo mais.

Eu estou sem tempo, mas não se preocupem, não vou abandonar moi et como várias pessoas perguntaram. Posso apenas demorar um pouco mais.

Adorei todas as sugestões e outras coisas que mandaram em reviews, todas são levadas em consideração, até mesmo as que sugerem Isabella e Tio Philipe, nunca tinha pensado nessa possibilidade D:

Nem sei dizer o quanto adoro o apoio de todos que leêm e tudo mais, vocês nem me deixam pensar em abandonar. Pobre Isabella tem que ter um fim pra tudo isso, certo?

Bjooooooooo a todos os leitores mais lindos do mundo.

Agora o de sempre... reviews? Recomendações? Façam um autor mais feliz =)
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.