Moeda de Troca
21 Saori e Shun
Notas iniciais
Eles já se encontravam em um território neutro. Shaka os transportou para uma ilha próxima da reunião. Shaka e Minos estavam há uma certa distância da deusa e do humano que representa os interesses de Hades. Sem dizer nada, Shun apenas sentou-se na areia da praia e afofou um espaço ao seu lado esquerdo, convidando a moça a sentar-se perto de si. E assim, Saori o fez.
— É estranho começar uma conversa depois de tanto tempo longe um do outro — disse Shun com aquele tom caloroso, ao mesmo tempo amável e familiar que Saori conhecia. Estava diferente da postura formal que assumiu durante a reunião.
— Shun, você me confunde! — disse com a voz esganiçada.
— Na verdade, tudo foi confuso por tempo demais e ainda é — tentava suprimir os sentimentos que imploraram para transbordar — Mas, é bom te ver de novo.
— Falar assim depois de me trair parece uma brincadeira de mal gosto — levantou-se e Shun a acompanhou.
— Eu nunca a traí, Saori — uma lágrima de dor escorreu por sua face — Eu aceitei ser a sua moeda de troca entre deuses quando eu ainda era visivelmente incapaz de responder por mim mesmo. As estrelas de minha querida e antiga constelação guardiã Andrômeda me atravessaram shurikens em chamas. Acho que deve ser essa a sensação de ser abandonado para morrer brutalmente pela própria mãe — enxugou sua lágrima com a mão — Eu deixei de ser o seu cavaleiro naquele dia que desmaiei em meio a dor nos braços do meu irmão e depois acordei no Submundo. Posso não ser mais o Shun de Andrômeda, cavaleiro de Athena, mas sentia que continuaria como o amigo da Saori que se encontrava distante e que sempre lhe desejou o melhor.
— Você está certo, irritantemente certo. Droga! — Minos e Shaka ainda os observam na cena de longe e ambos pareciam entender bem os sentimentos dos dois — Me perdoe por te acusar ao invés de te abraçar, meu amigo — Envolveu o rapaz em um abraço e ele correspondeu. Se ela ainda tinha alguma incerteza sobre a índole de Shun ter mudado acabou ou ele aprendeu a atuar bem nos domínios de Hades.
— De certa forma, os seus sentimentos também são válidos — se afastaram devagar — Creio que tenha esperado que eu estivesse preso esse tempo todo e eu mal acabei de receber uma posição de muita confiança do Senhor Hades. Nem nas melhores possibilidades que eu poderia imaginar anos atrás, eu poderia pensar que estaria aqui.
— Foi muita pressão e hostilidade que recebi nos últimos anos por causa de minha decisão. Despejar a culpa em alguém é mais fácil do que assumir, mas creio que os papéis irão se inverter a partir de agora.
— Papéis invertidos? — não podia acreditar no que ouvia de sua antiga amiga — Nenhum papel será invertido, Senhorita Kido — realinhou sua postura — Além de ter ficado tanto tempo doente, eu também recebi pressão e hostilidade de grande parte do Submundo. Não me encare como se fosse a única que tenha sofrido, por favor. O que acontecerá a partir de agora será que as pessoas que te temem, mas apoiam, a apoiarão e eu carregarei a alcunha de “traidor” a cada encontro nosso. Eu serei o bode expiatório do Santuário, já entendi.
— Shun, me perdoe mais uma vez, mas o que disse agora pode ser considerado feito — disse depois de se recompor a deusa — Assim será mais fácil para que eu possa comandar o Santuário sem mais receber aqueles olhares que tentam disfarçar, mas que eu sinto pelos cosmos.
— Se era isso tudo o que tinha para dizer, está bem, podemos ir embora — o coração do virginiano estava despedaçado, mas precisava se manter forte por mais dois minutos pelo menos.
— Uma última coisa antes dessa despedida temporária. Se você e Ikki de Fênix forem se encontrar, que isso seja indetectável ao Santuário, pois mesmo com o acordo de paz, farei dele um desertor. O Santuário precisa ser governado com mãos de ferro a partir de hoje. — chegou perto do ouvido de Shun e completou dizendo baixinho: — Além de te agradecer, é a única brecha que posso te dar — se afastou — Estamos entendidos?
— Certamente, deusa Athena — despediu-se cordialmente e caminhou para a direção de Minos e ela fez o mesmo indo até Shaka.
Os quatro haviam partido da ilha e seus sentimentos junto. Shaka sabia o que não deveria dizer para seus colegas cavaleiros, pois percebeu que a informação era do tipo “sigilo de Estado”, mas não pode deixar de admirar a única pessoa que até o momento seria digna de ser o seu sucessor da armadura dourada de Virgem. Já Saori, ao mesmo tempo que sentia por Shun e Ikki, precisava restaurar sua confiabilidade pautada em uma mentira maldosa. Minos ficou admirado com seu pupilo e ao mesmo tempo preocupado, ainda mais quando amparava a sua queda no chão do Submundo, do lado de fora de Giudecca.
Shun estava passando mal, suando frio e começou a vomitar ali.
— Shun, ei! Você está conseguindo me ouvir?
— Desculpe, mestre — disse enquanto tossia e começou a chorar ali, inconsolável.
— Você não tem pelo o que se desculpar. Quem tem alguma culpa nisso é ela, pela segunda vez — não demorou para notar a crise de ansiedade do pupilo e o levou até a enfermaria. Os métodos convencionais não conseguiam tirá-lo daquele estado, então uma dose forte de calmante foi administrada para induzi-lo a dormir rapidamente — A senhora, por favor, cuide bem dele. Eu preciso reportar tudo o que sei ao Senhor Hades. Voltarei logo.
— Não se preocupe, Senhor Minos. Já faz tempo que esse jovenzinho não me dava trabalho — falou a velha enfermeira — Estarei monitorando a situação dele, vai demorar para despertar.
Minos voltava para dentro da Giudecca desacompanhado de Shun e quando seus olhares se encontraram com os de Pandora, ela sabia que havia acontecido algo com o seu irmãozinho do coração e partiu para a assinatura anterior do cosmo de Griffon na enfermaria. Solitário, Minos precisava ter calma para relatar tudo sem que Hades se exaltasse e quebrasse o acordo naquele momento.
— Onde está ele?
— Eu vou contar tudo o que aconteceu, mas precisará de paciência para não romper precipitadamente com o acordo de paz.
Hades sentou-se em seu trono para ouvir o juiz do Submundo. E seu subordinado estava certo. O deus se controlava para não romper com o acordo. Athena ainda se afundará sozinha, era o que estava pensando. Apenas pediu para Minos o deixar sozinho por um tempo e deu ordens para colocar Shun em seu quarto no Castelo Heinstein quando estivesse mais estabilizado. O Imperador do Submundo precisava descontar sua fúria em seu Inferno de Sangue, na sexta prisão. Ali poderia ser impiedoso à vontade.
— Essa deusa cretina ainda pagará pelo o que ela te fez, Shun — olhava para o rio e ouviam as vozes das almas gritando de dor — Se eu pudesse te jogar aqui dentro, o seu castigo seria pouco, Athena.
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