Moeda de Troca

22 Bucha de Canhão


Notas iniciais
Agradeço pelo tempo que esperaram pela atualização. Boa leitura!

No Santuário, com o retorno de Athena e seus cavaleiros, que estavam consigo na reunião com Poseidon e Hades, trouxeram uma atmosfera de tensão no recinto. Antes que Camus pudesse dizer algo para seu pupilo Hyoga, Shaka o interceptou com o olhar. O aquariano mais velho percebeu que a intenção do Cavaleiro de Virgem era que deixasse a deusa se pronunciasse primeiro. Saori ditaria o ritmo da nova música que iria embalar o Santuário. Até algo no olhar dela estava diferente e pelo teor da conversa que escutou naquela ilha, a estratégia nova estava em depreciar Shun, por egoísmo, assim tiraria o peso que carregou no passado por tê-lo entregue a Hades.

— Atenção, cavaleiros e aprendizes! — deu um sorriso confiante — Não nos encontramos no melhor cenário, globalmente falando. A reunião de hoje, além de trazer um choque de ideias, trouxe uma novidade — um burburinho começou e era justamente o que Saori queria, atrair mais holofotes para si mesma — Sei que há poucos anos, o que trouxe a maioria de vocês de volta foi o acordo feito entre deuses e estamos respeitando o acordo de paz. Contudo, preciso trazer algo à tona. Shun, que foi considerado e lembrado como um cavaleiro mártir, hoje é um representante dos interesses de Hades.

— Está dizendo que ele se tornou um espectro? — um curioso perguntou.

— Meu irmão não é um espectro! — bradou Ikki — Por favor, explique-se melhor, minha deusa — o leonino tentava se controlar por dentro, pois o jeito que Saori falava de Shun era ácido e maldoso. Apesar dela não ter tido conhecimento sobre tudo que acometia seu ex-cavaleiro. Ele sabia que seu irmão não merecia ser feito de bucha de canhão.

— Pelo o que eu entendi, ele não é um espectro, tampouco utiliza as vestes de um — ela deu de ombros — O que interessa é que ele não vive em uma prisão, como muitos pensavam que eu o havia entregue. Shun parecia bem e saudável, ou estou errada? — olhou para Camus e Shaka.

— Ele estava bem e agora é uma pessoa de confiança do Imperador do Submundo — disse o loiro — No entanto, não podemos esquecer de seu sacrifício por nós e não creio que esteja nas intenções do rapaz fazer uma retaliação de nossa deusa. Shun sobrevive do outro lado do tabuleiro agora.

— Pelo acordo de paz, ele não é um inimigo — disse a mulher a contragosto — Se Shun encontrou seu caminho ao lado de Hades, não há nada que possamos fazer. Estarão restritos a vê-lo apenas em nossas missões diplomáticas especiais. Fora dessa condição, eu considerarei conspiração. Espero que estejamos entendidos — usou seu cosmo para transportar-se aos seus aposentos.

— Mestre Camus! — chamava o Cavaleiro de Cisne — Isso tudo é verdade mesmo?

— Aquário e Cisne, por favor, olhem para além do que parece óbvio — disse Shaka enigmático — Camus, depois preciso conversar contigo em particular. Venha até minha casa ao anoitecer.

Shun dormia na enfermaria do Submundo. A dose de calmante alta administrada o fazia parecer dormir com serenidade, mas por baixo das feições calmas, terríveis pesadelos o assombram. O jovem não conseguia conceber a ideia de que seria vilanizado por quem sempre tentou honrar, mesmo que em um território em que Athena não era bem quista. Tinha uma proibição velada, mas em seus pensamentos, Shun nunca desejou o mal da deusa a quem serviu por tantos anos. Sentia-se contra a parede e em frente a um buraco ao mesmo tempo. Antes que pudesse “cair” sentiu mãos frias envolvendo o seu rosto suado.

— Não precisa abrir os olhos, se você se sente exaurido — a voz forte de Hades tomou conta do ambiente — Já sei de tudo. Não gostaria de vê-lo nesse estado, ainda mais por ela — deu um suspiro longo para controlar a própria raiva — Apenas continue a ser o rapaz justo, gentil, educado e assertivo que aprendeu a ser. Hoje eu compreendo o quanto os sentimentos mexem com os humanos ao ponto de adoece-los.

— Senhor Hades… o buraco… — delirava em meio a febre — Todos a quem amo devem me odiar agora…

— Duvido que o seu irmão ou boa parte daqueles cavaleiros sejam tão patéticos a ponto de acreditarem nela e não no que você construiu até aqui — retirou com os dedos a franja da testa do mais jovem e avaliava a febre — Aqui você se tornou um símbolo de força e resiliência. Pode estar doendo muito agora, mas não perca o progresso feito. Não dê esse gosto à ela. Foi ela quem o traiu, não o contrário. Nunca se esqueça.

— Eu entendo… o lado dela… mas, dói, sabe? — ele entrou em estado de negação — Parece um pesadelo…

— Havia um risco junto com o cargo que lhe confiei. Só não pensei em quando deixei que tivessem uma conversa particular, que eu sabia que você precisava até para falar sobre seus sentimentos ao longo desses anos, aquela… aquela mulher te golpeasse como uma víbora.

— O que posso fazer? Até meu irmão se não for cauteloso, não poderá me ver ou será considerado um traidor, qualquer amigo meu do Santuário será acusado de traição! — o pico de ansiedade fez sua pressão arterial aumentar e a enfermeira pediu para que Hades contivesse Shun para administrar outra medicação — Meu coração não vai aguentar ver o ódio nos olhares de quem amo — já estava voltando a ficar corriqueiro as demonstrações de fragilidade e sentimentos.

— Será algo que terá que suportar, Shun. Se eles não forem espertos o suficiente para não perceberem que há algo errado nessa história, apenas mostrará a burrice e o valor do que sentiam, uma amizade rasa como uma pequena poça d’água criada pela chuva e que evapora facilmente com forte exposição ao calor — deslizou seus dedos limpando as lágrimas de seu representante diplomático — Descanse, coma alguma coisa e mantenha sua mente ocupada depois. Sempre pense dois passos à frente do que Athena. Use mais a sua inteligência, principalmente diante deles, e deixe os sentimentos em segundo plano. Equilibre a razão e a emoção, Shun, não se esqueça.

— Tens razão. Obrigado por estar aqui comigo, o senhor é tão diferente dela…

— Somos diferentes, eu não sou desleal como ela está sendo contigo. E também confesso que melhorei durante esse tempo, compreendo melhor a humanidade graças a sua influência. Por outro lado, Athena se fechou dentro do próprio ego, isso me recorda um pouco dos tempos mitológicos. Podemos ter essa conversa em outro momento caso queira.

— Sim.. por favor… — Shun voltava ao estágio sonolento enquanto sua febre era controlada.

Hades saiu da enfermaria e começava a pensar em seus próximos movimentos. Ele precisava que Shun estivesse bem, não apenas por seus interesses, mas desejava ver aquele jovem feliz.

“Feliz?!” — pensava confuso — “Desde quando eu comecei a desejar que outrem fosse feliz?” — voltou para Giudecca — “Outrem não, Shun. Ele é merecedor, seu coração é puro e não merecia ser apunhalado assim!”.

— Senhor Hades?

— Pode falar, Minos — voltava ao semblante sério — Aconteceu mais alguma coisa?

— Eu gostaria de compartilhar um pensamento.

— Prossiga.

— O Cavaleiro de Virgem, Shaka. Eu acredito que ele que esteve presente e presenciou tudo na ilha entre meu pupilo e Athena fará o que é certo.

— Como assim? E arriscar seu próprio pescoço?

— Creio que as pessoas certas saberão da verdade e guardarão em segredo o que sabem.

— Pelo bem do rapaz, espero que essa possibilidade aconteça.

No Santuário, Camus e Hyoga tiveram uma breve conversa que logicamente tocou no nome de Shun. O Cavaleiro de Ouro conseguiu entender um pouco do que Shaka quis dizer nas entrelinhas e procurou dar uma explicação prática do que ele viu e ouviu na reunião entre os deuses. Que o amigo de Hyoga parecia bem cuidado, sua maturidade e inteligência se destacaram, apesar da hostilidade na qual foi primeiramente recebido. Também contou que Shun e Saori tiveram uma conversa privada, na qual não teve participação e que apenas Shaka e Minos o acompanharam antes de cada parte ir embora para seu devido lugar. Hyoga não estava plenamente satisfeito e decidiu que conversaria com Ikki. Enquanto isso, Camus conversaria seriamente com Shaka.

— Aqui estou, Shaka. Tenho permissão para entrar?

— Por favor, entre. Vamos para um local com mais privacidade — caminharam até o jardim da Casa de Virgem — Ainda bem que você veio.

— Depois de colocar uma pulga atrás da minha orelha e o convite direto, não haveria chances de eu não estar aqui, Shaka.

— Eu te peço para que sente e entre em estado de meditação. Nem essas paredes são confiáveis, logo, conversaremos em outro plano.

— Está bem — Camus se sentou no chão e acompanhou Shaka na meditação guiada que ele fazia.

— Primeiramente eu preciso te mostrar o que eu presenciei quando estive com nossa deusa, Shun e Minos na ilha. Mas, já mando o aviso de que precisará conter suas emoções.

— Deve estar brincando comigo, Shaka. Ou por acaso se esqueceu da minha alcunha como “cavaleiro de gelo”?

— Precisará ter nervos de aço para não espalhar o que vai ver e ouvir pelos quatro cantos do Santuário ou nossas cabeças estarão em jogo, entendeu?

— Certo, mas não vai confiar esse segredo a mais ninguém além de mim?

— Acredito que alguns cavaleiros já ficaram espertos ao captarem as minhas palavras e as de Ikki, mas não podemos fazer nosso primeiro movimento agora. Espero que sua conversa com Hyoga não tenha plantado mais dúvidas na cabeça dele.

— Eu tive um cuidado a mais para olhar aquela reunião antes de falar com ele. Não fui duro como fui com Shun.

— Ótimo! Até porque aquele rapaz não tem culpa de nada. Apenas teve que se adaptar às circunstâncias nas quais se encontrava — procurava manter a calma para que o elo entre as mentes deles não se rompessem antes de mostrar o que deveria — Já aviso que será amargo.

— Estou pronto — as memórias de Shaka fluíram na mente de Camus que estava abismado com o comportamento de Saori — Isso é muito grave! Pobre rapaz!

— Creio que ele esteja melhor lá do que nós estamos aqui. A deusa Athena desta era está se corrompendo, voltando ao seu ego primitivo dos Tempos Mitológicos.

— Incrível ela não o ter amaldiçoado como fez com a Medusa!

— Mas, o declarou como um traidor, o deixou com o status de pária. Algo que não é bem visto até os dias atuais.

— Esse acordo de paz está por um fio.

— Por quanto tempo ele resistirá, nós não sabemos, mas precisamos estar atentos para agir na hora certa. Afinal, como cavaleiros, nós defendemos a paz e a justiça.

— Consegui entender onde quer chegar. O melhor que podemos fazer agora é estarmos atentos e talvez dar pequenos sinais a quem quiser entender. A paz desse planeta está escorada na injustiça cometida contra esse rapaz.

— Que Hades se mantenha calmo e Shun resiliente pelo máximo de tempo possível!

— Também espero isso. Agradeço pelo esclarecimento, Shaka.

— Disponha, Camus. Precisa voltar para sua casa e eu fazer a minha ronda noturna. Com certeza serei vigiado por Athena. Afinal, eu sei do segredo sujo dela.


Notas finais
Uma outra virada de chave está acontecendo. Agradeço aos incentivos que me fizeram retornar, foram tempos difíceis para a minha saúde e muito trabalho também. Posso demorar, mas não desisti, ok? Até o próximo capítulo!