Modern Magic - Interativa
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Notas iniciais
Era uma bela manhã de sábado, o sol despontava no horizonte convidando todos a saírem de suas casas e aproveitarem aquele lindo dia de verão. Os raios alegres do astro-rei praticamente imploravam a Sean que fosse para o lado de fora. Mas um dia como aquele era perfeito demais para ser aproveitado sozinho. Sorrateiramente, esgueirou-se pelos corredores da casa adormecida, descendo as escadas em direção ao térreo. Ele havia adquirido o hábito de ver o nascer do sol quando não conseguia dormir. A sacada no segundo andar era perfeita para essa atividade, pelo menos na opinião dele. O único problema em acordar cedo era que se sentisse sono novamente não conseguiria voltar para seu cantinho do colchão uma vez que estivesse fora dele. A sua teoria era de que se um dia conseguisse vencer o abraço de urso de Dietrich, ele seria o campeão mundial de halterofilismo.
Ele dividia um colchão pequeno demais para três pessoas com Summer e Di no “dormitório” no qual se transmutara o porão e apesar de parecer desconfortável dormir espremido entre duas pessoas num colchão de solteiro, ele jamais reclamara. Era o melhor desconforto do qual já havia desfrutado. Apertado entre a ruiva e o albino, ele dormia serenamente, sem os pesadelos que o acompanharam por tanto tempo.
Na maioria das vezes, ele nunca precisou voltar a dormir. Era muito mais divertido assisti-los dormir e nessa manhã em especial tudo estava ainda mais engraçado. O rosto do albino havia se perdido entre os cabelos ruivos da garota enquanto o rosto dela estava encaixado entre o pescoço e o ombro dele. Sean olhou mais de perto e não conseguiu resistir ao impulso de rir.
– Mas o quê... – Dietrich começara a dar os primeiros sinais de vida. Acordado pelo ataque de risos insano do garotinho ruivo, ele demorou a perceber que estivera dormindo numa posição no mínimo constrangedora. Não demorou para que a ruiva acordasse tão desorientada quanto o seu colega.
– Sean? – ela perguntou sonolenta. – Por que tanto riso criança?
– A Sun baba enquanto dorme. – ele falou enquanto rolava no carpete de tanto rir.
– Eu babo?
– Ela baba? – perguntou Di. Ambos estavam desnorteados pelo sono.
– Olha pro seu ombro bobão. – ele disse esfregando os olhos para enxugar as lágrimas.
Ainda sem compreender, ele olhou para um de seus ombros.
– Não tem nada aqui.
– O outro, bobão. – o garoto apontou.
Summer foi mais rápida.
– Desculpa, olha só o que eu fiz com seu pijama. – ela falou olhando a parte molhada de saliva.
– Não tem problema. – ele falou coçando a cabeça, constrangido.
Summer parecia estar prestes a falar algo quando Maya apareceu do nada vinda de lugar algum.
– Ei, vocês estão com fome? – ela perguntou abrindo a porta e colocando a cabeça dentro do cômodo.
– E por acaso tem comida nessa casa a essa hora da manhã? – o albino perguntou.
– Obviamente que sim, temos três pessoas com insônia e uma que não dorme. Me desculpe se a Bela dorme demais, mas aqui quase sempre tomamos café cedo.
Os dois mais velhos fizeram uma cara de interrogação, obviamente não sabendo de quem se tratavam as pessoas. A morena suspirou.
– Se não estivesse ocupado demais dormindo, iria saber que eu quase nunca durmo e que o casal real está sofrendo de um caso terrível de insônia. Fazem três noites que nossa Ice Queen não dorme. Pelo menos o Ice King me dá um descanso.
– Ice Queen é essa sua bunda gorda. – gritou Fleur de algum lugar acima deles.
– Não negue docinho, você é definitivamente a Ice Queen. – ela gritou de volta. – Então, vocês vem?
– Tem panquecas? – Sean perguntou. – Eu estou morto de fome.
– Claro que sim querido. – ela respondeu gentilmente. – Nunca esqueceríamos suas panquecas.
Ele correu escadas acima e passou pela porta como um raio. Maya encarou os dois por breves momentos.
– Se quiserem algo, é só subir. – ela disse por fim.
*
– ... então eu olhei de perto e vi que a camisa do Di estava molhada de baba no ombro. – o albino e a ruiva ouviram Sean dizer. Aparentemente, haviam chegado no meio de algo. – A Sun estava dormindo com a boca aberta lá. Foi por isso que eu ri tanto. – ele concluiu tentando não rir com a boca cheia.
– Já era de se esperar do casal maravilha. – Maya gargalhou.
– Casal maravilha? – ele perguntou entrando na cozinha. Na mesa, Sean devorava um prato de panquecas enquanto a morena e a loira tomavam canecas de café. Havia toda sorte de comida disposta ali, o que Di considerou uma injustiça. Quem acordava mais tarde tinha que se virar para tomar um café da manhã decente.
– Sim, sim. – a morena disse gesticulando com a mão. – Você e a ruivinha são o casal maravilha, a loirinha e o emburrado são o casal real. O menino árvore e a maninha são o casal amizade.
– Menino árvore? – Summer pareceu confusa.
– Cabelo verde, mais alto que um poste e quando tá de frente parece que tá de lado, quando tá de lado parece que foi embora. Atende por Josh também. – Maya disse tomando um gole de sua caneca.
Os dois sentaram-se na mesa afim de comer algo. Seria um crime acordar tão cedo e não comer nada daquele verdadeiro banquete. Di estava no meio do segundo prato quando Sean levantou-se da mesa.
– Aonde vai pirralho? – ele perguntou.
– Tem creme no seu queixo Brachmann. – Fleur comentou. O albino olhou torto para ela. Ainda não se acostumara com o comportamento dela desde que voltara de sua missão de três anos. Ela estava no mínimo instável. Hora sentia vontade de matá-la, hora de abraça-la. Mais esquisito que isso, só vê-la vestindo-se como uma pessoa normal. Ultimamente ela tinha abusado das estampas florais e de vestidos no máximo na altura dos joelhos. Para os padrões Fleur de moda, aquilo era quase ser uma freira.
– Aonde? – ele perguntou tentando desesperadamente se limpar.
– Ali bobão. – Sean falou rindo e apontando para a região melecada de doce.
– Aqui, deixa que eu limpo. – Summer falou esfregando um guardanapo em seu queixo. – É o mínimo que eu posso fazer depois de babar sua camisa.
– Se peguem logo. – a loira disse revirando os olhos.
– Primeiro espera a gente sair e tirar a criança daqui. Não queremos o pobre menino traumatizado por culpa dos dois. – Maya falou zombeteira, já empurrando Sean porta afora.
– Espera! – ele exclamou. – Eu nem perguntei se a gente podia passear hoje ainda.
– Pergunta mais tarde. – a morena falou. Fleur levantou-se da mesa com a caneca ainda pela metade e foi atrás da amiga, lançando um olhar quase indecifrável para os dois antes de sair deixando um albino e uma ruiva extremamente confusos numa cozinha.
*
– Podemos ir naquele parque? – o pequeno garotinho ruivo perguntou com os olhos brilhando. Em toda a sua vida, nunca fora num parque.
– Podemos Di? – Summer perguntou. Os dois o encaravam com aquela cara de cachorrinho. Ele não pode resistir aos olhos azuis pidões.
– Certo crianças. – ele revirou os olhos. – Vamos ao parque.
O rapaz de cabelos brancos guiou os menores até o guichê, para que pudesse pagar as entradas.
– Três, por favor. – ele disse passando o dinheiro para a atendente.
– O senhor e quem mais? – ela perguntou. Como resposta, apontou para Sean e Summer, que brincavam de pega-pega. – Farei um família então, sai mais barato. Sua namorada e o irmão dela não? – ele assentiu com a cabeça. Podia ser uma mentira deslavada, mas um desconto era sempre um desconto. Pegou os ingressos e juntos, entraram.
– Este é uma réplica do que os nossos antepassados tinham como conceito de diversão. – explicou o albino. – Antes de toda a tecnologia inventada à quinhentos anos atrás ser destruída na terceira guerra mundial. A maior parte das coisas aqui não são eletrônicas. Estive num desses com minha família uma vez. – ele sorriu tristemente, nostálgico. – Eu me diverti muito.
– Eu quero ir naquele ali. – o garotinho apontou para uma montanha russa. – Parece legal.
– Vamos! – Summer exclamou empolgada, arrastando os garotos pelas mãos.
Nas subidas e descidas do brinquedo, os três gritaram e riram. A adrenalina eletrizava seus corpos e os fazia aproveitar cada momento.
– Podemos ir naquele ali? – a ruiva perguntou depois que eles desceram do carrinho.
– Na Casa dos Espelhos? Tem certeza? – Di perguntou.
– Qual é o problema?
– É só que...
– O Di tem medo do escuro! – Sean disse.
– Não tenho não. – o albino rebateu ofendido.
– Tem sim. – ele falou cantarolando. – O Di tem medo do escuro, o Di tem medo do escuro.
– Hmpf, venham. Vamos acabar logo com isso.
Dentro, o lugar era pouco iluminado. Um labirinto de espelhos de mais de cem metros de extensão.
– Aposto que chego primeiro! – exclamou o garoto empolgadamente.
– Não antes de mim! – riu Summer.
Antes que o rapaz de olhos verdes pudesse esboçar qualquer reação, os ruivos já haviam disparado para dentro do labirinto, deixando-o sozinho com seus reflexos. O som de passos ecoava, rompendo o silêncio que o envolvia. A semiescuridão o deixava desorientado, ele poderia negar até a morte, mas Sean tinha razão. Dietrich Brachmann tinha medo do escuro. A escuridão sempre havia lhe trazido péssimas surpresas, não era de se esperar que não gostasse dela.
Desnorteado, ele correu sem rumo pelo labirinto. Seu péssimo senso de orientação não o ajudava em nada nesse aspecto. Em certos momentos, ele ouvia as risadas de Summer ou Sean, o que lhe indicava que os dois estavam bem. Melhores que ele por sinal. Ele perdeu a noção de tempo lá dentro, não sabia se horas ou minutos haviam se passado desde que entrara. Frustrado, desabou no chão. Olhou para o teto observando as fracas luzes que iluminavam o recinto. Fechou os olhos e por longos momentos, não pensou em nada. Absolutamente nada. Estava tão absorto nessa atividade que acabou adormecendo.
– Di? – ele ouviu a doce voz de Summer chama-lo.
– Desculpa ter saído correndo sem avisar. – Sean disse sem graça. – A gente esqueceu que você se perde fácil.
– O que vocês fazem aqui? – ele perguntou sonolento, levantando-se com algum esforço.
– A gente veio te buscar. – a garota sorriu.
– Me buscar? – ele indagou confuso.
– Claro que sim, afinal, não é para isso que servem os irmãos? – Sean falou. – Para ajudar e irritar nas horas vagas?
– É pirralho, é pra isso. – o albino falou envergonhado. – Vamos, — ele colocou o pequeno sobre os ombros. – vocês tem que me mostrar a saída.
Os ruivos riram. Summer segurou o rapaz pelo pulso e juntos, saíram do imenso labirinto.
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