Mochileiros Em Misericórdia

5 Capítulo 5 - Aula de história.


Notas iniciais
No capítulo anterior, um estranho Universo Reverso vira palco dos acontecimentos. Mas que lugar é esse?

- Universo Reverso? Do que diabos você está falando? – Perguntou o Doutor, com desdém.

- Veja bem, pouco depois que fui clonado, achei esse Buraco de Minhoca. Por algum motivo, esses pinguins são iguais a mim! Decidi que não contaria para ninguém sobre o buraco e só o utilizaria em caso de extrema emergência. Esses pinguins, que por um estranho motivo são versões reversas de vocês, me elegeram o líder desse planeta sem nome. Porém, diferentemente de mim, eles são burros e primitivos, o que os torna facilmente manipuláveis. – Explicou o Ghe reverso.

- UGAH! – Berrou a versão primitiva-reversa do Doutor.

Depois de um comando do Ghe Reverso, as nossas respectivas versões reversas nos rodearam ameaçadoramente.

- Estranho... esse lugar parece familiar... – Disse o Doutor.

- Doutor, agora não... – Murmurou Moe.

- Realmente, essa atmosfera avermelhada não me é estranha... – Falei, enquanto as versões reversas, nos rodeando, olhavam ameaçadoramente. Porém, pareciam tão primitivas que mal pareciam saber o que fazer conosco.

Eu e o Doutor percebemos, naquela hora, do que se tratava aquele lugar. A descoberta foi assentida por nós com uma troca de olhares que praticamente dizia: “Eu sabia que isso era Gallifrey desde o começo”.

- Boa tentativa em tentar disfarçar Gallifrey com o nome de “Universo Reverso”, meu caro clone, mas não colou. Como o planeta parece bem primitivo, é elementar de que isso foi num passado beeeem distante do planeta, aonde os Senhores do Tempo ainda eram criaturas primitivas e preferiam a forma de pinguins à humanoides. Acho que sequer sabem se regenerar. – Comentei para o Ghe Reverso.

- Droga... – Murmurou ele.

- Mas seu capricho foi admirável. Sabia previamente que viríamos ao covil de Robotnik, então tratou de pegar um bando de senhores do tempo em forma de pinguins e vesti-los assim, para acharmos que eram versões reversas nossas. Mas, eles são estranhos, como você... tem características peculiares. Sendo assim, sabemos que você foi fruto da clonagem de uma pena minha que continha um gene senhor do tempo primitivo. – Terminei de falar, já quase ofegando.

- Vivo esquecendo de quem herdei a habilidade dedutiva. – Praguejou o Ghe Reverso.

Cobra, subitamente, levantou e socou um pinguim que estava vestido para ser a versão reversa de Rodrigo.

- CORRAM! – Gritou, enquanto os inimigos ainda estavam atordoados pelo elemento surpresa.

Corremos em direção à saliência no ar que indicava o buraco de minhoca, as “versões reversas” correndo e quase nos alcançando, o Ghe Reverso os liderando.

Todos pulamos entre o buraco de minhoca e voltamos para o covil de Robotnik, aonde logo o Doutor sacou sua chave de fenda sônica para fechar o buraco e impedir os inimigos de nos alcançarem.

Estava quase fechando, quando de repente, Ghe Reverso começou a sair do buraco.

- Peguei voc-

Ele não pode terminar a frase, pois o buraco fechou e o que já tinha passado dele caiu no chão. Sim, o que já tinha passado. Ghe Reverso não tinha passado inteiramente pelo buraco de minhoca – Tinha passado apenas da cintura pra cima – E essa parte, cortada, caiu no chão, tão inofensiva quanto um saco de batatas.

- Parece que vocês venceram... – Murmurou ele, triste, e com um tom doentio. – Logo morrerei.

- Não precisa morrer, Ghe Reverso... – Murmurei, segurando o que tinha sobrado dele. – Você é um Senhor do Tempo! Poderia vir pro nosso lado, e juntos, salvaríamos essa cidade!

- Ir pro seu lado? – Murmurou ele, com desdém. – Prefiro morrer!

- NÃO! REGENERE-SE! REGENERE-SE!

- Não acho que posso, Ghe... sou um clone.

- Clonado de um gene primitivo, genuíno, elementar dos Senhores do Tempo! Não é como um clone criado à partir de uma célula comum! REGENERE-SE!

- Adeus, Ghe. – Disse ele, abrindo um sorriso sádico, suspirando e fechando os olhos. Pude sentir seus dois corações pararem de bater.

Olhei triste para aquele corpo cortado e sem vida por um tempo. O Doutor veio ao meu lado, me consolar.

- Me lembra a morte de um velho conhecido... – Murmurou o Doutor.

Voltamos à velha mansão de Robotnik, com o corpo do Ghe Reverso. Guardamos o corpo numa das cápsulas cheias d’agua no porão.

- Bom, e agora? – Perguntou Justin. – Pelo que parece, a Liga dos Malfeitores foi desformada.

- Realmente – Refletiu Cobra. – O que faremos agora?

- Cadê o Clock? – Perguntou Moe.

- AINDA TRABALHANDO! – Respondeu a voz dele, dos fundos.

- Cara, você ainda está trabalhando nesse tanque? – Murmurou Moe, ranzinza.

- POSSO FAZER RÁPIDO, OU POSSO FAZER BEM FEITO! – Ralhou a voz de Clock, vinda dos fundos da casa.

- Que tédio. Essa casa tem TV? – Perguntou Rodrigo.

O Doutor apontou sua chave de fenda sônica para um velho aparelho televisivo que logo ligou.

Estava sintonizada num canal de notícias. A âncora do jornal era uma pinguim de aparência idosa, se suéter, cabelos castanhos e um crachá de nome “Sarah Smith”. O Doutor olhou pra ela com um sentimento nostálgico, como se a conhecesse.

- E a criminalidade em Misericórdia vem sub-

A imagem de Sarah Smith e o jornal foi distorcida e surgiu uma nova no lugar. Era um pinguim soturno, bigodudo e com marcas de agulhas tranquilizantes em seu pescoço. Robotnik. Ele estava segurando o prefeito Gariwald em forma de “gravata”, apontando uma arma para sua cabeça.

- Olá, caros habitantes de Misericórdia. Perdão por interromper seu entretenimento televisivo. Creio que todos já me conhecem, mas para quem não, sou o Conde Gerald Robotnik. Tenho aqui, como refém, o prefeito da patética cidadezinha de Misericórdia, o velho Gariwald. Agora são 16:35. Quero 8 bilhões de créditos até as 17:00. [NOTA DO ESCRITOR: “Créditos” é a moeda usada em Misericórdia, assim como a utilizada em vários locais da série Doctor Who. São como um pequeno cartão de crédito de plástico, que passa de mão em mão como o dinheiro para nós]

- Cretino... – Murmurou Moe.

- Joguem os créditos dentro do grande Poço Municipal. E aí de quem ousar tirar um mísero crédito de lá. – Continuou Robotnik, olhando ameaçadoramente para a câmera, e depois para Gariwald. – Caso a meta de 8 bilhões não seja atingida, os miolos do seu caro prefeito Gariwald vão se espalhar pelo meu esconderijo secreto. Enfim, o que estão esperando! Vão jogar os créditos no poço! Ou vocês nunca mais verão esse velho pinguim novamente! – Disse, pressionando, de forma ainda mais ameaçadora, a arma contra a cabeça de Gariwald.

A imagem voltou para o jornal de Sarah Smith, que parecia horrorizada com a transmissão que interrompera seu noticiário.

Sarah pegou a carteira desesperada e saiu correndo.

- O QUE ESTÃO ESPERANDO! JOGUEM OS CRÉDITOS NO POÇO! – Gritou sua voz, desesperada, já fora do alcance da tela.

Desliguei a TV.

- Parece que Robotnik arranjou outro modo de extorquir o dinheiro da cidade, já que seu plano original foi sabotado por nós. – Falou Azul.

Azul tirou seu gorro e olhou para dentro, desanimado.

- Não tenho nenhum crédito. Alguém?

- Não. – Respondi.

- Zerado. – Falou o Doutor.

- Nasci sem nenhum tipo de dinheiro. – Disse Cobra.

- Nem usam essa moeda no meu planeta! – Disse Rodrigo.

- Idem. – Declarou Justin.

- Eu sequer tenho bolsos pra guardar o tal crédito. – Resmungou Moe.

- O Clock mora nessa cidade! CLOCK! VOCÊ TEM ALGUM CRÉDITO?! – Perguntei.

- VINTE E DOIS! PORQUE?! – respondeu sua voz, de longe.

- É URGENTE! PRECISAMOS DE TUDO!

Alguns segundos depois, Clock apareceu. Parecia cansado, devido ao trabalho. Entregou uma sacola com 22 cartõezinhos na mão do Doutor.

- Confio em vocês. – Disse Clock, com uma voz exausta de tanto trabalhar. (e gritar) – Agora tenho que voltar ao tanque.

- A propósito, onde é o poço municipal? – Perguntou o Doutor.

- À dois quarteirões do Sallon, ao norte. – Respondeu Clock.

Agradecemos e saímos da casa correndo em direção ao poço.

Ao chegarmos lá, nos deparamos com uma enorme fila de pinguins segurando créditos, fila essa que ia em direção ao posso, aonde eles jogavam os créditos e iam embora, com um olhar preocupado.

Jogamos os créditos dados por Clock.

- Espero que isso ajude. – Suspirou o Doutor, esvaziando a sacola de créditos no poço.

- Demoramos muito na fila. – Disse Moe. – Já deve ter se passado um tempinho.

O Doutor tirou de seu bolso um pequeno relógio de bolso prateado, abriu e conferiu o horário.

- 16:58. – Disse o Doutor.

- Espero que isso dê certo. – Disse Cobra.

- Vamos esperar para ver. – Falei, tenso.

Após dois minutos que pareciam intermináveis, do lado oposto do poço, um buraco começou à ruir no chão, até abrir um círculo. Desse círculo, levantou-se uma pequena plataforma, aonde estavam Robotnik e Gariwald, com uma arma apontada para sua cabeça. Um pequeno robô franzino e aparentemente incompleto, baixinho, com a metade do tamanho de Robotnik, encontrava-se junto à eles, tateando freneticamente os botões de uma velha calculadora digital.

- E então, Clank, quanto deu a soma de tudo? – Perguntou Robotnik calmamente, como se estivesse comprando meio quilo de alcatra no açougue de um mercado.

Após mais alguns segundos tateando freneticamente a pequena calculadora, o robô terminou o cálculo. O esforço havia sido tanto que ambos os seus braços caíram. Ele virou-se para Robotnik e deu a resposta.

- Oito bilhões, setecentos e quarenta e cinco créditos, senhor. – Disse Clank.

- Que beleza! – Exclamou Robotnik, feliz com um sorriso que ocupava o bico inteiro. – Viram como as coisas ficam bem mais fáceis quando vocês cooperam, cidadãos? Cumpriram toda a meta exigida e ainda com mais alguns lucros de folga! He he! – Ria ele, glorioso. – Clank, ative os braços reservas. Precisaremos deles.

Os olhos de Clank piscaram numa entonação verde, e então braços novinhos e folha se construíram automaticamente no lugar do coto dos antigos.

- Perfeito. Agora venha. – Disse o Conde.

Ainda segurando Gariwald e a arma, Robotnik andou (olhando mal-encaradamente todos que se atreviam à manda-lo um olhar de desaprovação) até o poço, aonde, subitamente, pulou dentro, junto com Gariwald e Clank.

Após gritos de “GERÔNIMO!” de Robotnik e um grito de “SOCORRO!” de Gariwald, nada mais foi ouvido. Pelo menos, por meia hora. Após essa meia hora, uma escada saiu acanhadamente para fora do poço, De onde saíram Robotnik, ainda segurando Gariwald em forma de gravata e a arma entre seus dentes, e Clank, segurando em suas costas um grande sacolão cheio de créditos.

- Para o esconderijo secreto. – Ordenou Robotnik à Clank, quando voltaram à terra firme.

Clank, de repente, voou, disparando em alta velocidade para cima, e depois, indo em direção ao esconderijo. Porém, sabiamente, só o fez ao estar tão alto que estivesse acima das nuvens, para evitar que alguém descobrisse a localização do tal esconderijo.

- Pronto, Robotnik! Tem seu dinheiro! Agora largue nosso prefeito! – Gritou uma cidadã aleatória em meio à multidão.

Robotnik jogou Gariwald no chão, chutou sua cara e cuspiu nele. Apesar disso, ninguém tinha coragem de aproximar-se deles. A multidão fazia um largo círculo em volta de Robotnik, deixando ele e Gariwald num espaço bem grande no meio.

- Poucos sabem, mas, além de cientista, gênio do crime e vilão, eu já fui professor. – Começou Robotnik, num monólogo. – Então, preparem seus ouvidos, pois agora teremos uma pequena aula de história.

Alguns múrmuros aflitos e abafados percorreram a multidão, mas ainda assim ninguém teve coragem de ir lá na frente e impedir Robotnik. Cobra hesitou, mas foi impedido pelo Doutor, que apenas justificou com um sussurro de “Ele tem uma arma. Vamos esperar”.

- Durante a idade média... – Disse Robotnik – Quando um criminoso era capturado, ele ficava preso por cerca de um dia enquanto as autoridades locais decidiam seu destino. Às vezes eram encaminhados à guilhotina, às vezes à forca, e o favorito dos cidadãos daquela época: Queimado na fogueira. A maioria dessas execuções eram feitas em praças públicas, pois o povo era sanguinário, e gostava de ver os criminosos serem punidos.

- AONDE QUER CHEGAR COM ISSO, SEU MALUCO?! – Gritou alguém da multidão.

- Calma, calma, logo logo chegaremos lá. – Justificou Robotnik. – Como eu já disse, o criminoso ficava preso por um dia até seu destino ser decidido. Porém alguns cidadãos não gostavam da demora, e decidiam exercer a justiça com as próprias nadadeiras. Assim, quando um criminoso era pego, alguns cidadãos, chamados de matadores de aluguel, executavam-no na hora. E é isso que vou fazer com o prefeito de vocês agora.

Diversos gritos de protesto surgiram em meio à multidão, até que Robotnik deu um tiro para o alto, pedindo silêncio.

- “Por que?!”, vocês perguntam. “O prefeito não é um criminoso!”, vocês dizem. – Disse ele. – Muito bem. Irei contar-lhes o porquê. O prefeito dessa cidadezinha é tão criminoso quanto EU! É um político corrupto que aceitou fazer parte da MINHA Liga secreta, e iria roubar conosco, porém fugiu no último segundo, forçando-me a realizar o plano sozinho. Os outros membros fugiram, é claro. Mas ele foi o primeiro que consegui achar. E será o primeiro à saber que nunca se deve abandonar Robotnik.

O Conde apontou a arma para a cabeça de Gariwald, que, a essa altura, já estava chorando. Robotnik estava prestes à puxar o gatilho, quando, subitamente, uma enorme fusão entre um tanque e uma escavadeira gigante surgiu do chão, abrindo um enorme buraco no chão e arremessando Robotnik, Gariwald e a arma para três cantos difententes.

A escotilha do tanque-escavadeira gigante abriu-se, e de lá, saiu Clock.

- Precisam de ajuda, pessoal? – Perguntou.

Notas finais
Referências usadas no texto:
- O jeito em que o Ghe Reverso morre é inspirado no fatality de Noob Saibot em Mortal Kombat 9.
- As últimas palavras de Ghe Reverso são inspiradas nas últimas palavras d'O Mestre, em Doctor Who. (A primeira morte do Mestre de John Simm)Isso justifica à menção do Doutor à "morte de um velho conhecido".
- A repórter Sarah Smith é baseada em Sarah Jane Smith, personagem de Doctor Who.
- O jeito em que Robotnik sequestra Gariwald e pede resgate foi baseada na atitude do Duas-Caras no quadrinho "O Cavaleiro das Trevas", (Não confundir com o filme) de Frank Miller.
- O jeito com o qual Robotnik é pomposo durante o resgate e conta histórias é um mesclado de Bane (do filme O Cavaleiro das Trevas Ressurge) e Mandarim (De Homem de Ferro 3, não o dos quadrinhos)
- O robô de Robotnik, Clank, foi inspirado no robô de mesmo nome do jogo Ratchet & Clank.
- A súbita aparição de Clock no final foi inspirada na aparição inusitada de Rose Tyler na 4ª temporada da série nova de Doctor Who.

UFA! Acho que é só isso.