Mochileiros Em Misericórdia
3 Capítulo 3 - Os sinos do Seu João.
Notas iniciais
- Aonde está o Clock? – Perguntou Rodrigo, após algumas horas, quando todos estávamos reunidos descansando na sala principal, excerto o dito cujo.
- Ainda fazendo o tanque. – Disse Azul. – Falei com ele a algumas horas atrás. O projeto ainda parecia bem primário. Eu só vi um esqueleto de tanque.
- Droga, isso vai demorar. – Murmurou Moe.
Ouvimos três batidas na porta. Todos ficaram tensos.
- Quem sabe que estamos aqui? – Sussurrou o Doutor, perguntando.
- Acho que ninguém. – Respondi.
- Será que é um ladrão? – Perguntou Cobra.
- Ladrões não batem na porta. – Falei, indo atender.
O pinguim que havia batido na porta usava um robe marrom, similar a o de um frade. Ele me cumprimentou com uma reverência.
- O Seu João quer vê-lo, senhor. – Anunciou o frade. – Na Igreja local.
- Pera... quem é Seu João? Que igreja é essa? – Perguntei, confuso.
- Tem uma Igreja aqui perto. Fica à um quarteirão da minha relojoaria, ou seja, a mais ou menos uns cinco quarteirões daqui, no final de uma rua. – Disse a voz de Clock, vinda de longe, das profundezas do porão, aonde ainda estava trabalhando no tanque.
- Exatamente. – Concordou o frade. – Agora, com licença, tenho de me retirar. Compareça na igreja assim que puder. – Disse, virando-se para ir embora.
- Espera... quem é Seu João?! – Perguntei, enquanto ele já se afastava da porta, indo embora.
- Você descobrirá. – Respondeu ele, com uma risadinha, mas sem se virar para mim, e foi embora.
- Bom... acho que devo ir lá. – Pensei comigo mesmo. – Volto já, pessoal. – Anunciei, saindo e caminhando em direção à igreja.
Após alguns minutos de caminhada, cheguei à igreja. No topo da torre, um sujeito familiar: Ele estava na reunião da Liga dos Malfeitores. Se me lembro bem, Robotnik havia-o chamado de “A Raposa”. Ele estava tocando freneticamente os sinos da igreja. Quando ele viu minha chegada, desceu e me recebeu.
- O que quer? – perguntei.
- Desisti da Liga dos Malfeitores. Vi que estava errado. – Admitiu Raposa.
- E porque me chamou aqui? – Perguntei.
- Dar informações ao lado certo. – Disse ele. – Oh, e não me apresentei corretamente. João Raposo, ao seu dispor. O primeiro brasileiro à virar pinguim que se tem notícia.
- Epa, pera aí... brasileiro? – Perguntei, com estranheza.
- Sim. Eu era brasileiro, um humano, e cego. Acabei esbarrando em algo que parecia ser uma rachadura e vim parar aqui. Recuperei minha visão, que ficou quando excelente, e, quando vi, eu era um pinguim.
- Interessante... – Murmurei.
- Enfim, vamos ao que interessa. Eles vão se reunir num lugar diferente dessa vez... acho que gostaria de saber que será numa pequena construção perto do Saloon, o arsenal de Gatilho Rápido. Atrás do balcão tem um alçapão. Vá sozinho. Hoje, as oito da noite. – Disse Raposo.
- E como posso confiar em você? – Perguntei, desconfiado?
- Pois, como viajante do espaço-tempo, você e seu grupo são os únicos que poderiam me levar de volta para casa. – Admitiu João.
- Mas... – Murmurei. – Como você...
- Tenho olhos muitos bons. Muito bons mesmo. Minha visão exímia vigia muitos nessa cidade. As vezes para o bem, as vezes para o mal. Mas não se preocupe. Serei seu aliado. Prometo.
- Hm, obrigado. – Falei. – Agora, voltarei para... hm... meu grupo.
- Boa sorte, mochileiros. – Disse Raposo, com um sorriso.
Voltei à velha mansão de Robotnik e contei ao pessoal de Raposo e das informações que ele havia me dito.
- Será que é confiável? – Perguntou Azul.
- Um pinguim normal não saberia nem que o Brasil existe. Acredito nele. – Disse o Doutor.
- Idem. – Afirmei.
- Patéticos... – Sussurrou Moe.
- Acho que é confiável – Disse Rodrigo.
- Pra mim, tanto faz. – Falou Justin.
- Acho bom já irmos saindo. São 10 pras 8, e não queremos nos atrasar. – Comentei.
- CLOCK, VOCÊ VEM?! – Gritou Cobra, em direção ao corredor que levava ao porão.
- AINDA ESTOU TRABALHANDO NO TANQUE! – Gritou Clock de volta.
- Isso não vai ficar pronto nunca... murmurou Moe.
Saímos e fomos até a construção perto do Saloon indicada por Raposo, que estava encostado numa carroça ali perto. Estava disfarçado, mas reconheci seu sorriso característico.
Entramos e vimos o alçapão atrás do balcão, como indicado por João. Abri cuidadosamente, evitando ruídos, e vi o cenário lá dentro.
O novo centro de reuniões da turminha de Robotnik não era muito diferente do anterior. A mesma mesa e as mesmas cadeiras estavam lá, e os mesmos pinguins e o puffle de Gatilho Rápido. A única cadeira vazia era a de Raposo, por motivos explícitos. Esse ambiente era um pouco maior do que o último esconderijo. Alguns quadros de Robotnik estavam pendurados porcamente pelas paredes, como se tivessem sido colocados há poucos minutos atrás. Várias armas, pedaços de aparelhos robóticos, ferramentas, mapas e bolsas de couro abarrotadas de dinheiro encontravam-se espalhados pelas escrivaninhas, pelo chão e até na mesa de reuniões em si. E, para a minha surpresa, encostada num canto estava uma máquina de clonagem exatamente igual à que tinha na velha mansão de Robotnik – Uma cápsula vazia e outras cinco de vidro preenchidas de água. Porém, nenhum clone de Robotnik boiava nas cápsulas dessa vez. A última das cinco cápsulas parecia ter sido aberta recentemente, pois, em sua volta, haviam diversas pegadas de pinguim molhadas.
- Boa noite, senhores. – Disse o Conde Robotnik, soturno. – E bem vindos à mais uma reunião da Liga dos Malfeitores de Misericórdia.
Todos sentados na mesa fizeram um aceno com a cabeça.
- Como sabem, tivemos de mudar nosso local de reuniões, após alguns... incidentes desagradáveis no nosso último QG. – Prosseguiu Robotnik. – Mas ainda assim, tenho suspeitas de que Raposa, aquele traidor maldito, possa ter entregado nossa localização ao inimigo.
- Não seja pessimista, chefe. – Disse Jack, o Espantalho, o saco de batatas mal posicionado na cabeça retalhada. – Eles não seriam burros de confrontar-nos outra vez.
- Principalmente depois que conseguimos roubar o banco. – Disse Gatilho Rápido, manuseando uma bolsa de couro com várias moedas, quando foi interrompido pelo fantasma da mulher d’O Necromante atravessando sua barriga, o que o assustou e fez deixar a bolsa cair.
- Eu cuido das finanças por aqui. – Disse O Necromante, com um tom assustadoramente sóbrio.
- Mas, Conde, ninguém sabe do roubo do banco. Foi em sigilo absoluto! – Protestou Gariwald.
- Exato, caro prefeitinho. Ninguém sabe. Ainda. – Disse Robotnik. – Matamos o banqueiro, é verdade. Mas uma hora alguém vai descobrir. E quando essa hora chegar...
- ... O grupinho de moralistas que se denomina “Liga Extraordinária” virá nos deter. – Disse Flecha no Alvo, o puffle de Gatilho Rápido, zombeteiro.
- Não, idiotas! – Disse Robotnik, batendo na mesa. – Quando essa hora chegar, instalaremos o caos tremendo pela cidade.
- O prejuízo vai sobrar pra mim. – Reclamou Gariwald. – O prefeito dessa joça.
- Pense, seu inútil! Quando o prejuízo chegar, você poderá pagar com o dinheiro que pegamos do banco! – Disse o Conde Robotnik.
- Certo. – Murmurou Gariwald.
- Mas Conde, não entendo... – Disse o Necromante. – Você disse que convocaria essa reunião para mostrar-nos algo revolucionário. E até agora, não estou vendo nenhuma novidade.
- Calma, calma. – Disse Robotnik. – Vou mostrar-lhes a novidade agora mesmo.
Robotnik andou até a máquina de clonagem e deu alguns tapinhas no tubo que parecia ter sido aberto recentemente, orgulhoso. Os outros levantaram e o seguiram, ficando perto da máquina.
- Como sabem, a versão 1.0 da minha máquina de clonagem só consegue fazer um clone perfeito com um progenitor inteiro e vivo. Mas, agora, com a versão 2.0, precisamos apenas de um fragmento do DNA.
Então, Robotnik puxou do bolso uma pena azul.
- Ghe deixou isso aqui cair quando escapou de nossa última reuniãozinha. Infelizmente, as habilidades regenerativas de Senhor do Tempo dele não podem ser reproduzidas num clone. E, por algum motivo, a versão 2.0 da máquina deixa os clones mais estranhos, mais... malvados.
Um pinguim amarelo, de camisa laranja, chapéu vermelho e olhos pretos entrou na sala. Ele se parecia estranhamente comigo.
- Senhores... – Disse Robotnik, orgulhoso. – Apresento-lhes o Ghe Reverso.
Notas finais
- O título do capítulo é uma referência / homenagem à "The bells of Saint John", episódio de Doctor Who.
- O personagem Ghe Reverso é baseado no Flash Reverso, inimigo do super-herói Flash.
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