Moça, seu namorado é gay
9 9 – Aproximação perigosa
Notas iniciais

9
– Coração? – Sasuke acendeu as luzes e deu de cara com um amontoado de panos em cima da cama de Haruno. Mas, oh, não era só um amontoado de panos. Era um amontoado de panos mais Haruno. – Coração, é você quem está aí?
Ele deixou a porta de seu quarto aberta quando se aproximou da cama. Sentou-se. Ficou observando bem o amontoado de panos e como o amontoado tomava a forma de um corpo feminino. O relógio despertador indicava 07:13 em letras vermelhas. Ele mexeu delicadamente no amontoado (mais um corpo), tentando despertar o ser que estava debaixo das cobertas. – Coração...? – Mexeu, sussurrou e se aproximou para ouvir a respiração.
Haruno gemeu algo incompreensível e se remexeu, afastando a mão de Sasuke de cima dela, como se dissesse com o corpo “estou querendo dormir, não vê? Deixe-me em paz”.
Ele tentou mais uma vez: – Coração, você está dormindo?
– Estou – dessa vez ela respondeu, com a voz sobrecarregada de sono.
Como estava dormindo se respondeu?
– Está doente?
– Só estou cansada, Sasuke, é só isso... – Mas sua voz estava abatida demais para uma pessoa que estava apenas cansada.
Ele tirou o lençol que cobria seu rosto e se aproximou para ouvi-la. – Tem mesmo certeza que não está doente? Você me parece estranha... – Ele aferiu sua temperatura na fronte com a mão. Estava afebril. Então o que mais seria? O que estava abatendo a sua menina de olhos verdes e cabelo rosa?
– Podemos deixar o nosso programinha para outro dia? – Haruno perguntou com a voz embriagada de preguiça.
Ele riu. – Quer dizer que todo esse tempo você estava aqui dormindo? Não estava se arrumando como disse que faria? – Ele alisou os cabelos dela enquanto dormia (lê-se “fingia dormir”). Como eram macios...
– Até tentei... – Ela deu um risinho. – Mas a cama me chamou. Parecia-me tão tentadora! Foi mal, Sasuke-kun, não consegui resistir a seu charme.
Brincando daquela forma, Sasuke concluiu que ela estava bem e ficou feliz por isso. Tão feliz que resolveu puxá-la da cama pelos pés. Posicionou-se em cima dela, agarrou suas pernas e puxou. Haruno segurou-se na cabeceira, tentando ir contra a sua força. Riu. Riu como nunca. – Pare com isso, Sasuke-kun, eu não vou sair daqui! Sasuke-kun!
– Sim, você vai sair daí. Agora! – Puxou com tanta força que as mãos de Haruno deslizaram do móvel e ela acabou se desprendendo. Sasuke foi subindo pelas coxas até chegar ao quadril e tirá-la da cama por completo. Não que ainda não estivesse lá, suas costas estava colada ao seu tórax e ali era um novo mundo. Ele passou um braço pela sua barriga e a manteve imóvel, sem se debater. – Vamos cair na night hoje, não vamos? – Sussurrou por cima de seu ombro.
Com você eu vou até o fim do mundo... – Eu não teria tanta certeza disso se fosse você – no entanto, foi o que ela respondeu.
– Sim, nós vamos. – Ele empurrou-a de volta para cama. Haruno deu um gritinho surpreso. – Apronte-se!
Sasuke deixou seu quarto com um sorriso brincalhão no rosto e Haruno ficou cá com seus pensamentos. Seria mesmo uma boa ideia ir para a balada? Fazia tanto tempo que não ia a uma. E quando ia, ia sem o consentimento de seus pais. Sua mãe mesmo estava sempre dizendo a ela as atrocidades que aconteciam nesse tipo de festa. Drogas à vontade, sexo por todos os cantos, brigas, desvalorização dos valores morais e mais uma penca de coisas. Haruno não estava preocupada com isso. Antes, ia sempre com as amigas. Falsificaram identidades uma vez, para fingir ser maiores e donas de suas próprias vidas. A dela ainda estava guardada na gaveta. Nunca foi descoberta. Mas agora iria com Sasuke. Com Sasuke significava... Tantas coisas.
Prometeu pra si mesma que não colocaria uma única gota de álcool na boca. O álcool seria o fato desencadeador de lágrimas, confissões e atitudes desesperadas. Estava tentando fugir desse tipo de coisa.
Foi se arrumar.
Haruno não gostou do que viu quando abriu o guarda-roupas e estava pensando em uma maneira de fazer milagres. Queria estar bonita. Mas nada que tinha ali parecia ir de favor a ela. Roupas que já repetiu várias vezes e algumas que até já estavam fora de moda. Não que Haruno não tivesse bom gosto. Era a pessoa com o maior bom gosto do mundo quando o assunto era moda. O que Haruno não tinha mesmo era dinheiro.
Mesmo assim, ela achou que a combinação do vestido preto com lantejoulas – super curto, diga-se de passagem – e a jaqueta jeans por cima salvariam a sua noite. Aquele salto debaixo da cama parecia combinar com o look também. Resolveu usá-lo. Só Sasuke sendo louco para convidá-la para sair em uma dia tão frio. Agasalhos não eram roupas que combinavam com uma boate. Definitivamente. Mas para se manter o máximo aquecida quanto podia, Haruno pôs também uma meia preta com detalhes em renda. O cabelo bagunçado, a franja escovada e olhos esfumaçados pareciam dar à Haruno um ar de mulher fatal conjuntamente com o batom vermelho vivo. Não estava uma vadia. Estava sensual e felina.
Será que a homossexualidade de Sasuke resistiria a isso?
A sua heterossexualidade sabemos que não.
[...]
Sasuke observou Haruno deixar o quarto. Deus do céu, como uma menina de dezessete anos poderia ficar assim tão sensual? Ele a comeu com os olhos. Mas rapidamente disfarçou, porque ela poderia notar a sua expressão nada inocente. – Está linda! – Foi tudo o que ele disse para não parecer mais complacente com a sua perversão.
– Obrigada. – Ela não acreditou que estivesse linda, estava apenas “apresentável”. Ela acreditou que Sasuke tivesse tentando agradá-la para não desistir da ideia. – Você também não está nada mal...
– Qual é, eu estou um gato, pode dizer. – Ele deu uma volta para ela conferir sob outros ângulos.
– Está razoável... – Mentiu e sorriu.
Mas a verdade era que o achava muito charmoso dentro daquela jaqueta de couro cor de cobre. A blusa azul marinho social três quartos por debaixo dela destacava-se assim como dois cristais em um tapete. A sua calça jeans nem era apertada e nem tão folgada demais, era na medida perfeita para deixar salientes as coxas de Deus grego. Haruno imaginou como seria aquelas pernas mandando ver em cima dela. Afastou o pensamento, balançou a cabeça e sorriu. Estava ficando pervertida demais e nem sabia o porquê.
– Por favor, madame. – Sasuke ofereceu o braço em forma de L. Haruno ficou olhando para ele sem entender. Ele suspirou exasperado e colocou gentilmente a mão de Haruno na parte interna de seu cotovelo. – Assim, madame.
Então ela entendeu. – Ah! Era isso? – Ela riu nervosa. – Gostava mais quando me chamava de Coração...
Haruno se sentia um pouco estranha toda vez que ele ficava tão perto dela como daquele jeito. Meio sem equilíbrio e inquieta, até seu estômago se comportava de maneira anormal. Sentia como se tivesse borboletas ali dentro fazendo uma festa, voando freneticamente e colidindo com a sua parede estomacal.
– Ah, você gosta que a chamem de Coração? – Seu sorriso foi malandro.
– Por que me chama de Coração?
– Deve ser porque, quando te vi, sabia que você ia disputar com ele pelo controle da minha vida.
– Que gay!
– De fato. – Concordou sorrindo. – Mas se não fosse, o meu gesto extremamente romântico teria levado você para minha cama ou, no mínimo, feito você se apaixonar por mim.
Claro que ele estava brincando, mas Haruno levou a brincadeira à sério e ficou irritada. – É preciso mais que isso para me fazer ficar apaixonada, e é preciso muito mais que uma cantada pra me levar pra cama. Não me subestime por ter o coração quebrado, Sasuke, eu não sou uma garota fácil.
Ela largou-se dele e saiu batendo pé, sozinha, em direção à porta. No entanto, ele foi rápido o suficiente para trazê-la de volta pelo braço. Melhor que não tivesse feito isso. Buscou-a para perto e agora suas bocas estavam próximas demais, atentas, a respiração saindo quase no mesmo ritmo. Os corações batendo na mesma intensidade e intervalo de tempo. Que conexão absurda! Era a chamada linha vermelha do destino?
Não era. Porque se lendas existissem mesmo, as coisas seriam mais fáceis para Haruno. No entanto, a vida foi muito difícil pra ela e continuava sendo até mesmo agora.
– Próximo demais... – Haruno sussurrou inconscientemente, com os olhos grudados naqueles lábios que aparentavam ser tão macios quanto o cabelo negro do dono. – Próximo demais...
– Desculpe. – Sasuke, que estava envolvido no mesmo tipo de hipnose que ela, acordou e tomou um choque com a realidade. Soltou-a e desviou o seu olhar, nervoso e agitado. Caraca! Estava tão nervoso quanto na primeira vez que beijou uma menina. E isso foi há 10 anos. – Desculpe, eu não quis te ofender se foi isso o que aparentou, eu só...
– Eu sei.
– Sério, eu...
– Eu sei. – Repetiu. – Está desculpado, Sasuke.
– Que chato, cara, agora vai ficar esse clima pesado entre a gente. Eu sou um idiota.
Haruno sorriu. – Sim, você é. Mas parece que as pessoas idiotas me fazem bem. Vamos? – Ela estendeu a mão para ele, esperando que ele a envolvesse em seu braço como da primeira vez. Ele o fez sem pestanejar e com aquele sorriso que Haruno tinha a certeza que, se não fosse homossexual, já teria rasgado muitas calcinhas por aí.
De fato, ele rasgou algumas. Mas no momento só estava pensando em uma.
[...]
Os dois tão logo se acomodaram no carro, Haruno foi logo dizendo:
– O senhor se comporte, Sasuke. Não vá dar em cima do primeiro barman gato e sarado que vê pela frente. Lembre-se que você está levando a irmãzinha aqui com você.
– Ah, e quem é a irmãzinha? Você? – Ele deu um sorrisinho de canto, com ar de deboche. Não queria admitir, mas Haruno o achava lindo quando fazia aquela cara típica.
– A própria! – Mostrou-se com um ar superior, mas brincalhão. Se continuassem assim, logo a cena tensa de minutos atrás seria esquecida.
– Fique tranquila, irmãzinha, eu estou indo me encontrar com uns amigos. – Deu partida no carro e mostrou atenção ao volante e à estrada. – Você não me disse o que achou do meu carro novo. Gostou?
Sasuke trocou o seu linea vermelho por um modelo mais recente e branco. Haruno ignorou a sua segunda pergunta e respondeu a primeira, que na verdade não era bem uma pergunta, mas ela interpretou como se fosse.
– Amigos gays, eu suponho. Amigos gays que em bando darão em cima do barman e eu ficarei olhando pra cena com cara de taxa. Largadona. – Ela revirou os olhos e afundou no banco.
– Isso soou meio preconceituoso. Meus amigos são héteros, para a sua informação. Qual é! Gays não podem ter amigos héteros como qualquer pessoa normal? Será que somos uma raça distinta? – Sasuke fez uma careta para o volante, sem desviar a atenção para Haruno.
Haruno fez uma outra careta. – Você sabe que não foi isso que eu quis dizer.
– Eu sei que não. – Riu. – Só estou tirando uma com a sua cara. Quer chiclete? – Ele ofereceu uma caixa, depois de ter pegado no porta-treco do carro. Era novo, mas já tinha um monte de coisas lá. Entre as coisas, Haruno pôde ver um pacote de preservativo. Seus olhos eram rápidos e precisos e diagnosticou sabor pimenta. Puta merda! Pimenta? De repente, ela sentiu até calor...
Mas rapidinho voltou ao normal. Por que ficara assim? Efeito visual do preservativo ou imaginação quanto ao sabor dele? De pouco importava, sabia que aquela camisinha nunca seria usada com ela.
– Não, obrigada. Estou tentando cortar os doces. Sou diabética.
– Diabética?! – Ele estranhou e dessa vez tirou os olhos do volante. – Está me dizendo que moramos juntos há meses e nunca me contou que era diabética? O que mais será que eu não sei sobre você? – Seus olhos assumiram um tom curioso, como se soubesse das coisas que ela queria esconder do resto do mundo.
– Não é como se eu fosse andar por aí com uma placa nas costas dizendo “Ei, você sabia que eu tenho diabetes? Não me ofereça doces!”.
– Não é para prevenir que coma doces que eu acho importante saber disso. É que eu não sabia disso, esse é o problema. Não somos abertos um com o outro.
Se ela não contava um simples fato desses, jamais contaria outras coisas em quais Sasuke e toda a sua tropa de agentes do FBI estavam interessados. Afinal, mesmo que ela não desconfiasse e mesmo que ele não ficasse tentando sugar qualquer informação a cada cinco minutos, ela era uma chave importante na investigação que o trouxe para Tóquio.
Ou Sasuke andaria por aí fingindo ser gay por simples divertimento? Sem chance! Ser zoado pelos amigos não tinha nada de divertido... Até porque eles não tinham nada a ver com o FBI, não entendiam o seu lado camaleão, que tinha que se adaptar à realidade e às condições de busca do momento.
– Saber que eu sou diabética não é uma informação relevante. Relaxe...
Relevante para quê?! Sasuke enrijeceu. Ela sabia de algo ou era só impressão sua? Resolveu apostar primeira alternativa.
Apostou bem. Foi apenas uma coincidência.
– Engano seu. – Ele sorriu. – São coisas simples assim que nos informa verdadeiramente o que são as pessoas e que nos fazem gostar mais delas ou não. Imagine você namorando um cara que é um príncipe com você e, depois de algum tempo, você descobre que ele... Bem, que ele costuma arrotar em público.
– Já vi você arrotar... – Ela estreitou os olhos, acusando-o.
– Não em público! – Defendeu-se.
– Deixa eu adivinhar... Karino arrotava em público.
Mas que Karino!
– É... – Ele riu por dentro. Nem ele e nem Karin costumavam arrotar em público, foi apenas algo para comparar.
– Já sei por que ele terminou com você. Foram os seus modos – brincou, mas não teve noção de quão doloroso foi para Sasuke.
– Se fossem só os meus modos, teríamos chance. Fui eu por inteiro. Eu fui um idiota. Eu sou um idiota. – Ele riu se auto-depreciando. Triste vê-lo assim.
– Idiota você não é... Talvez Karino é quem o seja, por não ver o quanto você mudou e se arrependeu. Você ainda vai encontrar um cara que te ame de verdade! – Ela pegou em sua mão que estava no volante e disse isso olhando em seus olhos, quando ele se perdeu nos dela.
– Você também, Coração. Você também vai encontrar um cara que te ame de verdade – ele falou isso com toda a sinceridade do mundo, querendo ser esse cara.
Haruno, como vinha fazendo com mais frequência, lamentou por Sasuke ser gay.
Na boate, sentiu-se deslocada.
Aquela casa de shows era diferente de qualquer lugar onde já tivesse ido com as amigas. Era um dos lugares mais badalados da cidade, mas pela elite. A entrada custava muito cara e as bebidas eram das mais fortes, das melhores, das mais caras. Nunca que ela teria conhecido aquele lugar se não fosse por Sasuke. Sentiu-se envergonhada por não poder pagar o que consumiu – começando pela entrada. Digamos que não era a noite das damas... – e agradeceu por Sasuke ter efeito isso por ela. Ele apenas disse que tinha feito o convite, e como homem – porque ser gay não significa que você perdeu o órgão sexual, significa que o seu gosto sexual é diferente! Só isso –, pagaria a conta para a dama. Embora ela não se achasse uma dama... Ela discordava de Sasuke em n coisas.
Ele puxou um lugar para Haruno na mesa do barman, que aceitou e sentou-se ao seu lado.
– Não vá dar em cima dele... – Ela chegou junto de seu ouvido para sussurrar em tom de brincadeira.
Ele sussurrou de volta. – Você gostou dele?
Queria, fielmente, uma resposta negativa dela. Deus do céu... Estava ficando louco e possessivo e nem estava se dando conta?
Acompanhou os olhos da garota em direção ao saco de músculos e anabolizantes.
– Não faz o meu tipo...
Sentiu-se aliviado.
– O que bebe, Coração?
– Eu não bebo... – Disse sem graça. O que estava fazendo em uma boate se não ia beber nada? Poderia até usar a dança como desculpa, mas definitivamente, quando queria dançar, ela não saía para as boates. E sim para as competições.
– Não bebia... – Ele deu um sorriso malicioso. – Dois martinis. Prepare um mais fraco para a moça.
– Oh, não, Sasuke. Não, não, não...
– Relaxe, eu não vou deixar com que fique bêbada. Você lembra? Sou seu irmão mais velho. – O seu sorriso, no entanto, não dava nenhum tipo de segurança à Haruno.
O primeiro gole saiu queimando tudo por dentro dela. Aquilo estava fraco? Uma pinoia! Achou a bebida forte, mas o gosto não era tão ruim quanto presumia, exceto pelo gosto do álcool que lhe dava uma ânsia de vômito, mesmo que em pequena proporção. Bebeu lentamente, olhando atentamente para o copo que nunca parecia se esvaziar. Parecia até que ficava mais cheio à medida que bebia aquele troço. Argh! Sasuke pediu o segundo ainda quando ela estava tentando chegar à metade do primeiro. Ele sorriu quando viu.
– Não gostou, certo?
– Não muito... – Resolveu ser sincera com um sorriso encabulado.
– Vamos, passe esse copo pra cá! – Ele pegou a bebida e tomou-a toda de uma vez. – Estava mesmo um pouco forte para uma primeira vez... Vamos tentar outra bebida.
– Não, Sasuke, acho melhor não.
– Uma mais leve para a moça – pediu ignorando-a.
– Vodca, suco de cramberry, lícor de morango, frutas vermelhas, suco de limão, lícor de amêndoas e purê de frutas vermelhas – o barman listou os ingredientes usados na bebida que estava preparando para Haruno.
– Parece boa, não acha, Coração? – Sasuke sorriu pra ela.
Ela soltou um longo suspiro e provou da bebida quando estava pronta. Gostou. Era bastante doce e o sabor do álcool imperceptível. Bebeu mais rápido que a anterior e, dessa vez, esvaziou o copo. Sasuke fez uma expressão apreciativa e bateu palmas zombando dela.
– Você gosta mesmo é das coisas doces...
– Por que é que você acha que adquiri diabetes? – Ela abriu um sorriso.
– Bem lembrado! Chega de coisas doces por hoje. Vamos tentar algo diferente.
Dessa vez, Haruno não fez objeção. A terceira bebida preparada foi baseada em bacardi, rum, água com gás, hortelã e xarope de açúcar. O barman explicou a Sasuke que a bebida só faria um efeito se Haruno consumisse a versão gigante. A bebida em si não era forte. Não queria que Haruno ficasse bêbada, queria que ela ficasse apenas... Quente. Quem sabe assim, eles pudessem conversar mais abertamente e ela acabasse confessando algo de suma importância para a investigação.
Talvez ela acabasse confessando algo a mais também, mas isso era coisa da cabeça de Sasuke. Ou não.
[...]
Estavam sentados lado a lado, mas não tão próximos a ponto de serem confundidos com namorados ou a ponto de serem confundidos com um casal recém-brigados, e nenhuma das duas razões impedia que alguma mulher lançasse para Sasuke um olhar com desejo, uma discreta mordida de lábios e uma piscadela. Algumas eram muito visíveis e faziam isso quase de forma escandalosa. Mesmo sabendo que aquela não era a praia dele – pelo menos, era o que achava –, ainda assim, Haruno sentiu-se incomodada. Mas não estavam em uma balada GLS e ela agradeceu por isso, então era melhor ficar satisfeita e não reclamar.
Já com ela, acontecia diferente. A presença de Sasuke ao seu lado parecia intimidade qualquer homem que ousasse chegar perto de Haruno.
Ela resolveu que iria puxar conversa. Não estava aguentando mais só vê-lo beber e ficar observando. Até que o chamaria para dançar, mas não estava se sentindo à vontade para levantar e ir ao centro da pista de dança. Estava se sentido tão ridícula ali e nem sabia o porquê. Apenas queria estar em casa, chorando, e se estava ali, era por ele. Tinha que parar de ceder aos seus caprichos, ou melhor, de fazer coisas pensando em agradá-lo, porque isso a machucava. Estava, conscientemente – e isso incomodava! –, começando a fazer isso com segundas intenções. Mas porra! Era o Sasuke! O seu colega gay de apartamento!
Ela pediu por conta própria um Martini e bebeu com dois goles. Será que assim conseguiria tirá-lo da cabeça apenas por um instante? Quem sabe não... Estava com uma vontade louca de arrancar aquela jaqueta e talvez o culpado fosse o álcool, que tinha fama por amplificar sentimentos.
– Ei, vamos com calma, eu prometi a você que não deixaria que ficasse bêbada. – Ele tirou o copo das mãos dela, mas já estava vazio.
O álcool desceu tão quente e rasgando dentro de Haruno que teve vontade de vomitar tudo o que bebeu, mas se conteve. Até mesmo o cachorro quente que comeram no meio do caminho teria dado bye, bye.
– Para de ser chato, Coração – ela usou o apelido que ele usava –, você queria que eu bebesse...
– Beber e ficar bêbada podem ser palavras separadas, entende? Isso acontece quando se bebe socialmente.
– Beber socialmente... – Ela testou as palavras. – Beber socialmente... Qual o sentido de beber uma coisa tão ruim se não for para ficar bêbado? Não vejo sentindo algum nisso.
– Mas há. – Ele riu.
– Você é tão lindo quando sorri... – Ela encostou a cabeça no balcão e suspirou, olhando para ele. Admirando.
– Você acha?! – Ele sorriu mais uma vez, mas não foi de propósito. – Você também é linda quando sorri, Coração... – Ele tocou a ponta do seu nariz, brincando.
– Isso é papo de hétero – disse com um sorrisinho.
– É, não é? – Fez o mesmo. – Mas amigos também podem elogiar e, aliás, porque não estava sorrindo hoje? Me pareceu bem triste quanto te vi...
– Uns problemas...
– Você não quer me contar?
– Acho melhor não...
– Não somos amigos?
– Somos... Mas...
– Vamos, me conta.
– Sem pressão, Sasuke. – Ela não estava bêbada a ponto daquelas palavras lhe convencer. Uma música que Haruno gostava começou a tocar. Ela ficou animada. – Adoro essa música.
– Vamos dançar! – Sasuke tomou o resto de sua bebida (quantas esse cara já tomou?) e a puxou pelo braço, não dando chance para que recusasse o convite. Levou-a para o centro da pista e fez questão de ficar colado ao seu corpo. Agora, sim, pareciam um verdadeiro casal. Atrevido casal.
Sasuke era do tipo mais observador enquanto Haruno se esfregava nele, dessa vez, sem segundas intenções. Apenas dançava conforme a música exigia. Era o segredo de uma dançarina que um tinha o sonho de ser uma profissional um dia. Expressar com o corpo a letra da música.
Nisso, os amigos de Sasuke chegaram e os encontraram, e um deles foi atrevido o suficiente para perguntar:
– Sua peguete da noite? – Ele olhou Haruno da cabeça aos pés, perguntando-se se o amigo não ia dividir a carne.
– Peguete?! – Haruno parou de dançar assim que eles se aproximaram.
Não eram muitos, apenas dois. Dois homens e uma mulher com seus vinte e quatro anos. Haruno se perguntou se era a única mais jovem do grupo. Tão jovem que não entraria em uma boate qualquer sem apresentar a identidade, mas estava em uma boate onde quem mandava eram aqueles que pagavam caro para entrar. Pessoas que pagavam para conseguir certas regalias.
Sasuke fez uma cara feia por cima do ombro de Haruno sem que ela visse. Seu amigo logo entendeu e contornou o que disse: – Ah, esqueci que você é gay. Então... – Ele se aproximou de Haruno e a agarrou pela cintura. – Deixa a menina pra quem curte. O Sasuke é gay, docinho, mas você pode apostar que eu não.
– Sério?! – Haruno o afastou, empurrando-o delicadamente com as mãos como se sentisse nojo e o simples fato de estar tocando nele fosse impuro. – Prefiro virar lésbica a ficar com caras como você.
Sasuke, o seu outro amigo e a mulher caíram na gargalhada. O amigo atrevido ficou irritado.
Seu nome era Suigetsu e aquele sim era um asiático nato. Seus cabelos brancos e lente roxa eram apenas influência da cultura gótica – e bizarra para alguns ocidentais – japonesa. Importava-se com poucas coisas ao seu redor e estava ao lado de pessoas que realmente lhe proporcionavam algum divertimento. Quando eram mais novos, Sasuke e ele apostavam para ver quem pegava mais garotas na balada e chegavam a dividir algumas, época em que Sasuke era frio, calculista e se assemelhava muito a ele. Houve uma época em que ele teria o mesmo tipo de atitude hostil. Desde que mudou, Suigetsu costumava dizer que ele tinha ficado chato, mas que continuava, no fundo, sendo o cara legal que ele conheceu, é por isso que não deixou de andar com ele. Eram amigos, apesar das novas diferenças que pareciam colocar entre eles um abismo.
– Língua afiada essa da sua amiga... – Ele estreitou os olhos.
Sasuke passou uma mão por cima de ombro de Haruno. – Não é uma linda, o meu Coração?
– Sim, ela é linda... E garanto que até o final da noite eu vou comer esse Coração.
– Coração-chan, vamos ao banheiro! – A mulher mais velha do grupo não hesitou em retirar Haruno de cena quando viu o clima ficar tenso. Fez isso antes mesmo que ela abrisse a boca para protestar. Viu Sasuke endurecer o rosto. Viu Suigetsu endurecer o rosto. Viu-o ficar confuso com a mudança de humor de Sasuke. Por quê?
– Não se atreva a dar em cima dela... Se não quiser que eu esqueça que somos amigos.
– Você viu como ela me tratou? Ninguém fala aquilo pra mim, Sasuke!
– Eu sou apaixonado por ela... – Sasuke o agarrou pela gola da camisa e soltou antes que algum segurança viesse apartá-los. – Não toque em um só fio do seu cabelo!
Sasuke saiu para o bartender.
– Fácil dizer isso quando já destroçou o coração da minha irmã...
– Deixe Karin fora disso – Sasuke se virou para dizer.
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