Moça, seu namorado é gay
7 7 – Um abraço é o suficiente
Notas iniciais
Isso significa que ela pode conter erros ortográficos e de concordância verbal. Se achar algum, eu agradeceria muito que anotasse no bloco de notas e mandasse para mellorine189151@gmail.com ou ainda por MP.
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Obrigada por mais duas recomendações, Dih e Mellanie ♥

7
Onde, afinal, é o melhor lugar do mundo? Meu palpite: dentro de um abraço. (Martha Medeiros)
– Estou fracassada no quesito ideias. Por mais que eu pense, não consigo pensar em nada legal para fazermos. – Haruno suspirou, largada no sofá como se fosse um garoto de 15 anos.
– Querida – disse Ino, largada da mesma forma na extremidade do outro sofá –, nós todas estamos na mesma situação. Fracassadas. Mas você sabe que os motivos são bem outros. Não é falta de ideias, não é falta de competência, não é falta de talento. É falta de vergonha na cara daqueles jurados que foram comprados.
– Não sabemos se eles foram comprados, Ino – advertiu Tenten –, não podemos acusá-los sem provas.
– As The Dolls ganharam, mesmo que a nossa apresentação tenha sido melhor do que a do ano passado e melhor do que a delas, você quer prova maior que isso? Nós as vimos se apresentando. Não foram tão boas assim...
– Eu achei que elas foram muito boas... – Tenten falou diminuindo o tom de voz. Mas, mesmo assim, Ino escutou e protestou:
– Qual é! – Ela gritou com a menina. – De que lado você está?
– Do no-nosso, mas—
– Não sei quanto a vocês, meninas – Ino interrompeu Tenten –, mas depois da derrota de hoje, estou odiando ainda mais as The Dolls.
As outras meninas estavam largadas no chão se entupindo de doces.
– Sabe o que eu acho? – Chisui, que era considerada a mais “cabeça do grupo”, deu sua opinião e todas pararam o que estavam fazendo para prestar atenção. Não que elas estivessem fazendo grande coisa... Estavam apenas comendo mesmo. Com cara de derrota. – Acho que a subestimamos. Elas foram boas e temos que admitir que a mudança delas depois de um ano foi absurda.
– Mesmo que elas tenham ganhado por justa causa isso não diminui a minha indignação – foi a vez de Temari se pronunciar. – Pelo contrário, isso diminui a gente ainda mais. Significa que a subestimamos e não nos preparamos adequadamente. Estou me sentindo mais lixo ainda. Olhamos para frente apenas como fazem os cavalos. Esquecemos de olhar para os lados e isso culminou na nossa derrota.
Como uma reação em cadeia, todas as outras assentiram com a cabeça, que se sentiam como Temari descrevia. Haruno bufou e interviu:
– Eu não usaria a palavra “derrota”. Vocês estão parecendo velhas. E olha que elas são mais animadas do que vocês na reunião do grupo da terceira idade. Até quem já está morto estão se remexendo mais do que vocês dentro do caixão! – Mentalmente, ela pediu perdão aos céus pela triste comparação. Os mortos que descansem em paz...
– Você só esqueceu que aqui é a Ásia e que não usamos caixão para os mortos. Eles são cremados! – Ino riu da cara dela, querendo debochar.
– Qual é, não posso nem mais comparar? – Haruno fez um muxoxo. – O que importa é que devemos parar de reclamar como se hoje fosse o último dia de nossas vidas em que estamos tentando algo em uma competição. Certinho? Teremos outras chances. Só temos que tentar mais uma vez, e mais uma vez, e mais uma vez.
– Gente, o que a Sakura-chan tem? – Anko, uma das integrantes, perguntou incrédula.
– Não estou reconhecendo você, Sakura! – Ino estranhou com uma careta. – Dentre nós, era a mais destemida e animada em ganhar a competição. Mas eu já sei o que é... É esse cara com quem você está morando que anda colocando muita merda na sua cabeça. Ele não está te fazendo bem. Não mesmo!
– Pelo contrário – Haruno defendeu o colega de apartamento –, ele me fez um leque de outras possibilidades. Não fale assim dele! Claro que o meu sonho é ser uma dançarina profissional, mas se eu não aprender a encarar dias ruins, como irei crescer? Nem tudo são flores, mas os espinhos também fazem parte do jardim.
– A Sakura-chan tem razão, gente... – Tenten concordou.
– Não me chame de Sakura.
– Desculpe.
– Está apaixonada. – Temari riu enquanto voltava a serrar as unhas. Estava sempre fazendo isso.
O conjunto de amigas suspirou em coro.
– Não estou, não – Haruno tentou convencer alguém. Tentou.
[...]
Sasuke foi buscar Haruno que estava com as amigas na casa de Ino.
Ele abriu a porta do carro para que ela entrasse como qualquer homem com cavalheirismo faria em pleno século XXI. Ela entrou e sorriu com o seu gesto, esperando ele contornar o automóvel e se sentar no banco do motorista.
– Eu preciso ir a um lugar – ela disse quando ele entrou e ligou o motor. – Será que você pode me deixar nesse lugar?
– Claro. Onde é?
– Aqui. – Ela mostrou um papel com o endereço escrito.
– Mas não é em Tóquio... – Ele olhou pra ela tentando adivinhar o que ela queria fazer naquele lugar. Ele voltou a encarar o papel e leu: – É em Saitama.
– É bem aqui do lado. O que custa? – Haruno fez um muxoxo.
– Não custa nada. São 45 minutos. É só que... O que você vai fazer lá?
– Coisa minha. – Ela baixou o olhar. Queria dizer, mas ao mesmo tempo não queria.
– Ok então. – Sasuke acelerou.
Os primeiros vinte minutos de viagem foram silenciosos, e Sasuke não queria quebrar o silêncio. Haruno, por outro lado, queria muito. Mas não falou nada, ficou observando a estrada pela janela, embora a paisagem não tivesse nada de muito atrativo. Gotas de chuva começaram a salpicar o vidro e Haruno sentiu frio. Já tinha trocado a roupa de dança por uma normal, com blusa de manga creme, jeans e tênis. O cabelo estava amarrado no topo da sua cabeça. Estava simples, mas bem vestida para uma menina da sua idade. Nada de mais, nada de menos.
Sasuke arriscou dirigir com uma única mão no volante e pegou sua jaqueta que estava jogada no banco de trás. Deu para ela. — Aqui... Está com frio.
– Não precisa – ela disse timidamente.
– Pega logo isso, Haruno – disse sem muita paciência.
Haruno. Ela não gostou do tom que ele usou pra falar Haruno. Haruno não ficava bom na voz dele. Não gostava que a chamassem de Sakura. Mas Sakura, em sua voz, até que se tornava um nome bonito de alguém ter. Mas os motivos para ela não gostar daquele nome era tão sombrios que preferiu não tocar no assunto, para não atiçar qualquer pergunta como “e por que é mesmo que não gosta de ser chamada de Sakura?”.
Ela aceitou o casaco e se vestiu. Era quente e tinha o seu cheiro. Quase se sentiu embriagada.
– Ficou triste porque perderam o concurso? – Perguntou para quebrar o gelo.
– Não – disse dando de ombros.
– Sério? – Olhou pra ela.
– Sério – respondeu simplesmente.
– Que bom... – Ele não soube mais o que dizer.
Embora ele tivesse achado que as meninas foram muito boas e que deveriam ter ganhado o prêmio, ele não tinha visto a apresentação do grupo vencedor porque estava salvando Haruno, não poderia argumentar. Talvez o prêmio tivesse sido justo. Não iria usar palavras para iludi-la, porque sabia que aquela mulher era forte o suficiente para lidar com a verdade. E todas as palavras de apoio foram verdadeiras. Ganhou de um jeito ou de outro.
Então porque conseguiram entrar no coração daquela guerreira e a machucam tanto?
Ele simplesmente não conseguia entender.
O ar dentro do carro ficou tenso. – Vou acompanhar o meu pai na sua transferência.
Sasuke aproveitou que Haruno decidiu contar o que ia fazer em Saitama e arrancou mais informações. Tudo que tinha a ver com ela o interessava. Por motivos profissionais e pessoas também.
– Transferência? Do seu pai...? – Ele olhou para ela rapidamente e perguntou, sem deixar, no entanto, de prestar atenção na estrada. Mas ela estava calma. É só que a chuva, ainda mais à noite, poderia dificultar a sua visão e o seu trajeto. Haruno o advertiu que prestasse mais atenção à estrada. Ele pediu desculpas e continuou: – Mas para onde seu pai vai se transferir? Onde está?
– Esse endereço que te mostrei é de um hospital. Ele está internado e vai ser transferido para um hospital psiquiátrico. Ele está... Doente mentalmente. – Doía a ela saber da situação do pai, mas era melhor do que saber que ele vagava sozinho pelas ruas, sem ajuda, no relento e no frio da noite, sem família, sem se alimentar, doente, com mais tantas outras dificuldades. Em um hospital psiquiátrico, pelo menos, ele poderia cuidar da sua saúde.
– O que ele tem? – Sasuke perguntou com cuidado. Viu como ela ficou fragilizada ao falar do pai. Mais um assunto que deixava Haruno fraca. Família. Família e amor.
– Nós tínhamos dinheiro. Não éramos multimilionários, mas vivíamos bem. É por isso que eu moro naquele apartamento que outras pessoas com a minha atual classe social não poderiam ocupar. Mas papai perdeu tudo no jogo. Dívidas e mais dívidas. Afundou-se no álcool também. E aí mais dívidas. Meus pais se divorciaram e ele sumiu. Não deu notícias. Somente uma vez quando foi parar no hospital. Mas aí ele fugiu antes de ter alta e não tivemos mais notícias dele. Agora ele apareceu de novo, em Saitama, onde eu descobri que minha irmã está morando. Está internado com crise de abstinência. O médico disse que ele desenvolveu Esquizofrenia por conta da abstinência química.
– Isso é muito triste – ele falou cheio de ressentimentos. – Você disse que descobriu que a sua irmã está morando em Saitama...?
– Ela também fugiu de casa, mas por outros motivos. Ela namorava um rapaz que tinha passagem na polícia. Nem mamãe e nem papai a queriam com ele. Ele foi preso várias vezes. Mas minha irmã fugiu pra se casar e ficar com ele. Nós imaginávamos que ela tinha ido para muito longe, fiquei surpresa quando soube que ela estava a menos de uma hora distante de mim. A gente sempre se comunicou por e-mails, ela sempre soube onde eu morava, mas ela nunca me disse onde ela morava. Veio me procurar hoje pessoalmente para contar sobre o papai.
Sasuke estava surpresa pelas revelações de Haruno. Só faltava agora dizer por que ela não gostava do nome, mas sobre isso preferiu ficar calado.
– Vai dar tudo certo... – Ele pôs sua mão por cima da dela.
– Eu espero que sim, Sasuke-kun.
[...]
Haruno chorou quando foi dormir. Lembrou-se de como o pai estava agitado e de como não se lembrava de nenhuma das filhas. Falava coisas sem nexo. No momento em que estava sendo transferido, segurou-se. Não deixou escapar uma única gota de lágrima por mais simples que fosse. Manteve-se forte na frente da irmã, que desabava. Chorava por ver o pai naquele estado deplorável, mas tinha boas expectativas para ele no futuro. Haruno despediu-se dela com um beijo no rosto e jurou que não contaria à sua mãe onde Sacki estava morando, em troca, Sacki teria que visitá-la pessoalmente sempre que possível.
O dia seguinte amanheceu chuvoso com leve indício de geada. Ainda assim, estava um dia radiante. Um dia aberto a novos sorrisos, possibilidades e laços.
Haruno estava tomando seu café da manhã com Sasuke na cozinha. Decidiu que cuidaria da bagunça do apartamento mais tarde, depois das aulas, no intervalo de tempo que antecedia a chegada da hora de ir trabalhar no Konoha Musical. A rotina era sempre a mesma, mas não reclamava. Pelo contrário, até gostava. E muito. Era a sua rotina perfeita. Ir para o colégio pela manhã, ver as amigas, passar a tarde escutando música quando não apareciam clientes e à noite, estudar ou fazer algo divertido com Sasuke.
– Manteiga? – Haruno perguntou a Sasuke que procurava, aparentemente, algo para incrementar seu pão. Ela comia rosquinhas com orégano. As rosquinhas eram as suas fieis companheiras e não poderiam faltar no café da manhã. O café, propriamente dito, poderia. Mas não as rosquinhas. Doía lembrar que um tempo teve que economizar e não pôde comprar rosquinhas.
– Obrigado, Coração – Sasuke agradeceu e estendeu a mão para pegar o pote com manteiga dentro. – Coração, hoje eu vou passar o dia fora. Se tudo der certo, a partir de amanhã vamos começar a trabalhar em uma investigação de grande porte, não sei como ficará o meu horário. Talvez passe muito tempo fora.
– Mas o que você faz não pode ser feito em um computador? E o computador pode ficar aqui, não pode? – Estava com medo de que Sasuke tivesse horários livres que não batessem com os seus.
– Não é assim tão fácil... – E riu e tentou explicar: – Eu vou para um local trabalhar conjuntamente com uma equipe de hackers, entende? Todos trabalhando ao mesmo tempo, trocando ideias...
– Telefones existem para isso. – Sasuke riu do bico que ela fez. – Não se esqueça de trancar bem a porta quando sair. Que horas vai? – Perguntou com a boca cheia de farelos. Depois lambeu os dedos. Nada agradável para uma dama fazer isso na mesa, mas ela não se considerava uma dama, então estava pouco se importando.
– Daqui a pouco... – Não definiu bem o horário. – Estava pensando em comprar um animal de estimação pra você não se sentir tão só, topa?
– Não – ela respondeu sem pensar muito, a resposta já estava na ponta da língua. Automática. – Bicho aqui dentro? Nem sonhe.
– É um presente pra você... – Explicou-se, mas ele gostava de cachorros. Queria um. Desde a morte de Stincy não tivera mais nenhum.
– Eu sempre vivi só e muito bem, obrigada. – Impediu qualquer outro protesto levantando a mão para que Sasuke ficasse calado enquanto terminava a fala. – Não quero andar tropeçando em um saco de pulgas e cocô de cachorros. Sasuke, você mal arruma a sua bagunça quanto mais a de um cachorro. Você não coloca nem o lixo pra fora. Nem pensar!
– Mas Coração...
– Nada de “mas”.
– Que tal um pássaro? – Tentou persuadi-la com a ideia de um novo animal. – Não faz muita bagunça já que fica a maior parte do tempo dentro de uma gaiola e também come pouco.
– Mas espalharia alpiste na minha casa. Obrigada, mas não.
– Quando foi que você ficou tão chata? – Sasuke resmungou.
Haruno terminou de tomar o seu café e levantou da mesa. – Quando eu nasci.
Não entendeu em nada o seu humor. Estava de TPM?
Ela terminou de arrumar o material dentro da sua bolsa e calcou as meias e os sapatos. Olhou para o relógio de pulso. Ótimo, não estava atrasada. Era uma das poucas vezes em que isso acontecia. Tinha consciência do motivo: não dormiu bem durante a noite e acordou mais cedo do que o costume. Por vários motivos. Pensou no seu pai a noite toda, pensou em Hinata tirando sarro dela pelo rosto do ano e pensou na mão de Sasuke tocando a sua. Sentiu raiva dele, sentiu raiva de si mesma. Descontou no café da manhã falando com ele de forma rude. Mas que culpa tinha o pobre? Ela teria que vencer isso, teria que por na cabeça que ele era homossexual e que ela tinha que respeitá-lo. Só porque estava apaixonada por ele tinha o direito de exigir algo? Não tinha. Sentiu-se culpada e, quando terminou de se aprontar, pensou em pedir desculpas. Mas viu Sasuke arrotando na mesa – odiava isso – e desistiu, revirando os olhos.
Ela apenas gritou antes de fechar a porta: – Estou indo para o colégio! Tranque bem a porta.
– Custa aceitar o presente? – Ele gritou de volta. – Eu cuido do cachorro, prometo!
– Quando eu chegar, a gente conversa. Só não me surpreenda com um animal hoje! – Ela disse e fechou a porta.
Lá fora nevava, mas uma neve bem ralinha, que era gostosa quando caia no rosto. Haruno acelerou o passo até a estação de trem. O colégio ficava bem próximo de onde morava, mas ela resolveu ir antes a outro lugar. Ainda era cedo e não se atrasaria para as primeiras aulas. Queria comprar algo para alguém.
Procurou no seu celular alguma música com cara de chuva e tudo e parou quando encontrou Skinny Love. Não tinha bem a cara de chuva que ela estava procurando, mas a música era boa demais para deixar passar. Ficou escutando aquela mesma e antes que ela acabasse, chegou ao seu destino. Parou diante dos trilhos e ficou observando as pessoas agasalhadas e amontoados ao seu redor.
Sacudiu a jaqueta de couro – que Sasuke emprestou – para que os floquinhos de neve caíssem e sentiu o cheiro do dono. Inalou. Que jeito bom de começar aquele dia. Estava indo para o colégio logo em seguida e tinha que manter-se seca.
Correu seus olhos na multidão com se estivesse encontrando por alguém, mas a verdade era que ela estava querendo mesma era evitar alguém. As feridas não estavam completamente cicatrizadas, mas não havia porque mexer nelas nem com soro fisiológico, não era hora de trocar o curativo, em termos metafóricos. Ele não tinha porque estar ali. Naruto tinha um Chevy Impala. Mas ela costumava se encontrar com ele naquela estação. Achava romântico, como se fosse um namoro escondido.
Não entendeu porque estava procurando por ele. Talvez para dizer que seu coração estava batendo forte por outro alguém? De que adiantaria também, se Naruto iria rir da impossibilidade? Haruno e Sasuke jamais poderiam ficar juntos na vida. Não como Haruno queria. Eles podiam, Sasuke também, no fundo, queria, mas ela não sabia. E era importante que não soubesse. Onde ficaria seu coração se soubesse que foi enganada pelo seu melhor amigo? Não confiaria mais em ninguém e morreriam as poucas esperanças que ela ainda tinha nas pessoas.
Sentiu um pouco mais de frio e se encolheu, fechando-se no seu mundinho, movida apenas pela música emitida no telefone celular que estava conectado a fones de ouvido. Tinha que comprar luvas novas e um cachecol também.
Voltou a pensar. Por que as preocupações? Naruto nunca mais voltaria a procurá-la, afinal de contas. A última vez em que fez isso foi apenas para transar, mas ela recusou. Então sem chances. Tinha que tirar aqueles dois homens de sua cabeça. Nem loiros, nem moremos, talvez fosse o momento certo para começar a investir nos ruivos como Ino estava fazendo com o tal de Gaara. Ela teve sorte com ele, talvez os ruivos fossem a sensação do mundo, talvez ela pudesse encontrar um bom ruivo pra ela também. Certamente ela encontraria um homem que a faria sofrer menos. Estava convicta de que os homens perfeitos eram compromissados ou gays, como Sasuke. Fora ser bagunceiro, insistente e preguiçoso, esse era seu único “defeito”.
De qualquer forma, queria apenas ir para o colégio e fingir que seria um dia normal, sem muitos contratempos, imprevistos ou humilhação. Suas amigas estariam lá para apoiá-la, para suportar os desaforos. Mas ainda assim, termia. Temia, inclusive, por elas. No curto tempo que passou esperando pelo metrô, ainda pensou se tinha agido corretamente. Aceitar a derrota e fingir que estava tudo bem, que no próximo ano era só correr atrás do seu sonho mais uma vez, nas competições da vida, porque era seu último ano no colégio. Iria para Paris cursar faculdade de dança mesmo ou ficaria ali e cursaria Medicina na Universidade de Tóquio assim como queria a sua mãe? A sua felicidade ou as expectativas das pessoas que lhe cercavam? Novamente as palavras de Temari invadiram sua mente. “Você está apaixonada”, e talvez estivesse mesmo, mas negaria sempre que alguém perguntasse. Estava tentando negar pra si mesmo, inclusive.
Que mal tem em se apaixonar, não é mesmo?
Essa pergunta teria uma resposta fácil se não fosse feita à Haruno.
Agradeceu e deu um suspiro de alívio quando o veículo veio se aproximando de sua posição. Aquele deveria ser um dia de sorte – ou não –, porque ele estacionou e a porta ficou de frente a ela. Muitas eram as pessoas que necessitavam desse meio de transporte, mas naquele dia, por poucas vezes na vida, conseguiu um lugar para se sentar. Normalmente ficava em pé. Mesmo que tivesse os movimentos milimetricamente cronometrados quando se tratava de dança, Haruno ainda conseguia ser desastrada em algumas situações, como se equilibrar em um ganho de metrô e não cair por cima de ninguém. Nunca se acostumou com o congestionamento, mesmo que estivesse sempre precisando do metrô quando precisava se locomover para cantos mais afastados do centro.
Sentou-se e voltou o pescoço para a janela, espiando a neve cair lá fora. A visão era linda. Haruno sorriu.
– Sakura-chan! – Alguém veio chamando por ela no meio da multidão. Só por pronunciar o seu verdadeiro nome, a jovem soube que aquele, definitivamente, não seria um dia de sorte, como pensava inicialmente. – Sakura-chan! Sakura-chan!
Haruno se virou, ainda que não quisesse, para ver quem era e comprovou: sorte uma pinoia!
– Lee... – Forçou-se a sorrir, cerrando os punhos. Achou bastante atrevida a atitude que o garoto teve de sentar-se ao seu lado e retirar os seus fones dos ouvidos. – Há quanto tempo... – Disse rispidamente. – Tanto tempo que pensei que tinha deixado a escola. Que pena. (Que pena que não deixou a escola mesmo, que pena que eu ainda estou te vendo, que pena que você apareceu na minha vida).
Que pena?! Risos.
– Ah, não, Sakura-chan... – Ele bagunçou os cabelos, envergonhado por estar ao seu lado. – Lá tem muita gente legal. Lá tem a professora Carla, lá tem o meu pai que trabalha como serviçal, lá tem os meus amigos e... Lá tem você, Sakura-chan. – O garoto corou de uma forma fofa. Tímido, bobo, mas fofo. Só Haruno não entendia isso. Não que gostasse de tratá-lo mal, o seu único problema era que era pegajoso demais, e apaixonado por ela. – Eu nunca vou sair de perto de você, Sakura-chan!
A pronunciação de seu nome por três vezes consecutivas deixou Haruno louca. Queria esganá-lo e que se danasse a sua ingenuidade. Até porque houve um momento em que ele não foi nada ingênuo com ela e disso jamais esqueceria. Na verdade, na época, foi muito experto. Trocou a sua liberdade por um beijo. Sim, estamos falando do mesmo garoto que Haruno teve que beijar para sair do armário quando Hinata a trancou lá. O peste tinha acesso às chaves.
Lee, um típico asiático de cabelos muito negros e sobrancelhas grossas.
Tentou pensar em algo bom. Bem, pelo menos não era Naruto Uzumaki que faria uma viagem ao seu lado.
– Não... – Ela riu sem vontade. – Não acho que o colégio Lohan tenha pessoas legais. Na verdade as pessoas lá são bem mesquinhas.
– Você não gosta das suas amigas, Sakura-chan? – Lee pareceu assustado com a declaração de Haruno.
É claro que eu não me refiro a elas, idiota!
Uma veia saltou na testa de Haruno.
Ela queria acrescentar um monte de coisas à sua fala. Era sempre assim quando dava de cara com ele, estava sempre querendo acrescentar algo, mas nunca se atreveu.
– Eu gosto muito delas, Lee... – Esclareceu com um sorriso sincero. – Não estava falando delas.
– Então estava falando de mim? – Quase gritou e atraiu olhares curiosos para os dois.
Haruno ruborizou de vergonha com o excesso de olhares em cima dos dois e tentou se esconder dentro da jaqueta de Sasuke. Sem sucesso. Tudo o que encontrou foi o seu perfume e ela sorriu ao inalá-lo, apaixonada.
– Me diz, Sakura-chan, você me odeia? – Perguntou triste, arrancando Haruno do cheiro do amado.
– Não te odeio, Lee... – Disse por fim, sentindo pena, e sorriu. – Tire isso da sua cabeça, ok? Não te odeio.
Lee. Um idiota bobo para a maioria das pessoas. Tão ingênuo que não se importava com o bullying que sofria constantemente pelos valentões do colégio, que roubavam seu lanche, caçoavam do jeito como se vestia, faziam piadinhas toscas. E foi assim que depois de muito tempo pararam de lhe importunar. Haruno se perguntava como aquele garoto, o Lee, o bobão, poderia ter chegado a ser chantagista uma vez. Certo que o amor muda as pessoas, Haruno era a experiência em vida, mas mudaria a esse ponto?
Lee ficou feliz pelo que Haruno disse.
– Sakura-chan – de novo disse seu nome –, você está saindo com alguém?
Haruno arregalou os olhos. Mas que pergunta!
– Lee...
– A gente poderia ir tomar um sorvete, né, Sakura-chan? Eu recebo minha mesada na sexta, a gente pode ir no sábado.
Ele queria gastar o dinheiro de sua mesada com ela? Aquilo foi, de longe, a coisa mais fofa que um garoto tinha feito a ela. Um garoto heterossexual, quer dizer.
Certo que o tempo não estava nada agradável para um sorvete, mas a intenção era o que realmente importava. Mesmo que ele tivesse errado uma vez, gostava dela, e Haruno tinha certeza disso. O amor poderia nascer das situações mais inusitadas, Ino vivia dizendo que ela precisava de um novo amor, então por que não? Era só um sorvete e não tinha como Lee obrigá-la a nada dessa vez.
– Pode ser um programa divertido – resolveu aceitar. E o seu sorriso foi realmente muito sincero, não estava fingindo nem nada. – Mas a gente pode ir tomar um café? É porque está muito frio para tomar sorvete e eu acho que sábado estará nevando como hoje.
– Tudo o que você quiser, Sakura-chan! – O garoto mal podia contar a alegria. Segurou suas mãos e agradeceu. – Tudo o que você quiser!
Quem sabe assim eu possa esquecer um pouco o Sasuke-kun...
Internamente, Haruno já começava a aceitar que estava apaixonada pelo seu colega de apartamento.
– Mas me diz, para onde está indo? – Perguntou a ele.
– Ah, eu estou indo para...
[...]
– Claro que eu já comecei a investigar! – Sasuke rosnou irritado. – Está pensando que eu durmo em serviço? Estou cada vez mais próximo de pistas importantes e já tenho cá comigo algumas pistas.
– É bom mesmo... – Seu irmão mais velho falou desconfiado no outro lado da linha. – Fique atento. Estamos em uma peixada. Essa menina tem conexão para os Uzumaki e os Hyuuga. Deve ser investigado até o fundo do seu útero.
Sasuke não gostou da forma como o irmão mais velho falou de Haruno, mas nada pôde fazer. O que diria? Que estava apaixonado e que não deixaria que lhe tratassem daquele jeito? Cedo demais.
– Era só pra isso que ligou? Pra saber se as coisas estão indo bem? Estão indo bem, tchau... – Sasuke sentou-se no sofá e colocou os pés em cima da mesa de centro (Haruno o mataria se o visse nesse momento).
– Calma aí... – Itachi, como se chamava seu irmão, impediu-o de desligar. – Já comeu?
– Se eu já comi?! – Sasuke franziu o cenho. – Que é isso, cara?
– Você está fazendo o que com essa menina em um apartamento? – O outro riu. – Não está nem sequer tirando uma casquinha? Você não era assim, Sasuke.
– Quem me dera se ela fosse uma vadia... As coisas seriam bem mais fáceis. – Ele acendeu um cigarro e fumou, coisa que fazia apenas quando Haruno não estava por perto. – Estou fingindo ser gay. Ela não me aceitaria aqui de outra forma.
– GAY?! – Itachi caiu na gargalhada. Lutou muito para recuperar o fôlego e só conseguiu depois de algum tempo. – Você poderia virar namorado dela, cara... Mas gay? – Riu de novo.
– Isso mesmo! Vem cá me dá um beijinho...
– Beija essa tua bunda branca!
Os dois riram.
Sasuke prosseguiu: – Mulheres são estranhas. Elas confiam mais nos amigos do que no cara que tá com elas. E não seria nada fácil namorá-la. Saiu de uma relação ruim com o Uzumaki e não está dando chance para mais ninguém. Amigo gay é diferente, é confiável.
– Ai, Sasuke-kun, vamos fazer uma coisa juntas... Vamos pintar as unhas. Escova meu cabelo? – Itachi forçou voz de mulherzinha, imitando Haruno.
– Idiota...
– Bundão! – O outro voltou a rir. – Não se apaixone. Não esqueça porque você está aí.
– Eu sou um dos melhores hackers que o FBI já teve em mãos e estou me tornando um bom agente também. Não vou vacilar.
– Assim espero...
[...]
– Olha só quem chegou cedo! – Riu com um sorriso debochado.
Haruno revirou os olhos quando deu de cara com Hinata, que estava no colégio já fazia um bom tempo, como se previsse os movimentos de Haruno. Haruno sentiu que o esforço de ter saído de casa um pouco mais cedo teria sido em vão e que poderia muito bem ter ficado mais cinco minutinhos enrolada no seu edredom com estampa de coelhinhos.
– Bom dia pra você também, Hinata – ironizou; caminhou até o seu lugar, puxou a cadeira e sentou-se.
– Já se recuperou da derrota de ontem? Preciso lembrar que são as vencedoras desse ano? Hein? Hein?
Haruno prometeu a si mesma que se manteria neutra diante das ofensas, o que deixava Hinata ainda com mais raiva e incentivada a investir pesado.
– Ontem eu transei com o Naruto! – Ela se encostou à sua carteira. – Foi tão gostoso! – Ela fez uma expressão de pura malícia e mordeu os lábios.
– Legal... – Deu de ombros. Houve um tempo em que Haruno se importaria, mas não mais. – Só isso?
– Como assim “só isso”? – Hinata pareceu ficar ofendida. – Está se fazendo de forte, né? Espere até chegar a segunda-feira e eu desfilar com o título para o colégio inteiro, quero ver sua cara no chão!
Haruno fechou os olhos e suspirou.
– Já posso fazer o que estou com vontade de fazer há muito tempo? – Haruno se levantou de súbito da cadeira e deixou que seus livros caíssem. Hinata recuou dois passos, com medo, as suas amiguinhas não estariam ali dessa vez para protegê-la. Talvez Haruno estivesse com algum objeto cortante e pontiagudo, arrependeu-se das provocações. – POSSO? – Hinata recuou até bater em uma carteira. – Lá vai!
Como resposta imune, fechou os olhos. Mas para a sua surpresa, o que veio de Haruno foi algo muito diferente. Foi um... Abraço?
– Você estava esperando por isso há muito tempo, não estava? Não minta. Eu sei que sim... – A voz de Haruno assumiu um tom melancólico e, ao mesmo tempo, fraternal. – Você só precisava de um abraço, Hinata. Não há de quê.
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