Mnemosyne

1 These memories with you


Notas iniciais
Essa história se passa entre os episódios 15 e 16 de ELdarya, então com certeza terão vários spoilers para quem ainda não conhece a história até esse ponto, então cuidado caso não queira saber de algumas coisas :3

Depois de vários dias tentando convencer a Miiko a lhe dar permissão para criar uma nova poção, essa especificamente para a humana que tinha caído por acidente em Eldarya e agora estava amaldiçoando tanto ao Chefe da Absinto, o mesmo elfo de cabelo azul que estava rodando o Quartel general atrás da garota, quanto a Guarda de Eel. Esses, segundo ela, haviam lhe traído pelas costas. O que com certeza não era exagero da parte dela.

Ezarel estava procurando a garota para lhe propor realizar o que descobriu a alguns dias, e apesar de estar cansado de não encontrar Erika em nenhum canto, nem mesmo no seu quarto, ainda conseguia agradecer mentalmente por não a encontrar. Ainda não havia pensado direito no que falaria a ela.

No dia anterior

— Você tem certeza? Não é arriscado demais assumir que tudo vai ficar bem? — Miiko tentava ao menos deixá-lo consciente de não era apenas uma aposta alta, além de que podia ser mais um erro cometido com a jovem humana que tinha sido acolhida pelo QG.

Depois de finalmente descobrir em um livro antigo cedido por Huang Hua e Feng Zifu sobre a poção Mnemosine, a Guarda de Eel tinha decretado que aquela seria apenas uma possibilidade, visto que os pré-requisitos a serem cumpridos não eram tão simples e os resultados dependiam totalmente dos mesmos. A poção de reversão estava ali como se o livro lhes oferecesse a faca e o queijo na mão da guarda, mas mesmo assim fora arquivada. Não havia motivos para dar esperanças a Erika sobre algo que ainda não podiam lhe devolver, por isso quando a menina perguntou Miiko apenas lhe disse que as buscas estavam indo o mais rápido que podia, mas que não haviam encontrado nada.

No entanto, não era uma poção impossível de se fazer. E depois de várias discussões, o alquimista-chefe de Eel tinha conseguido enfim confrontar Miiko diretamente sobre prepara-la. A Kitsune continuava tão desagradada quanto quando Ezarel apareceu com o livro mostrando a solução que encontrara, e bastou um rastro rápido do olhar de Miiko para retorcer o cenho e dizer que não. Mas depois de tantos dias insistindo, e sem conseguir fazer com que Valkyon ou mesmo Nevra convencessem o elfo a desistir da ideia, resolveu ouvi-lo. Suspirando derrotada depois de tudo, sabia que não era boa ideia.

— Está tudo bem, eu estou preparado. — Ezarel estava mais confiante do que ela esperava, não era uma decisão fácil mesmo se alquimia era a especialidade do elfo. Talvez porque não fosse apenas por isso.. Mas ele a encarava firme — É melhor do que ficar sem fazer nada depois de tudo o que aconteceu, sem falar que é justo. Pode-se dizer que eu mereço.

— Ezarel... — Miiko não conseguiu evitar encarar o garoto com uma expressão de culpa. Já havia passado mais de um mês, mas conseguia notar que algo não estava bem com o seu amigo. Ele havia discordado da poção inicialmente no fim das contas, mas não era só isso. Ele parecia realmente magoado por não ter conseguido manter nem mesmo uma relação próxima com a Erika, e mesmo que a Ewelein estivesse tentando tolera-lo um pouco mais, não parecia nem de longe ser o suficiente. Nunca imaginou que as consequências da poção afetariam tanto o outro — Isso não é responsabilidade sua, é minha. Como líder, quem assumiu a culpa fui eu por ter pensado nessa solução em primeiro lugar.

— Eu aceitei e acobertei a mentira sobre o efeito, é a mesma coisa. — O olhar do outro muda para algo mais frio, de quem não aceitava uma resposta negativa sobre aquilo. Mesmo que quisesse, Miiko apenas abriu a boca e não disse mais nada, apertando um pouco o cetro nas mãos. Não havia mesmo o que pudesse dizer a ele... Talvez Leiftan pudesse lidar com as palavras melhor do que ela ali, mas ele estava longe em missão e só chegaria em alguns dias. Sem uma resposta, o outro continuou — Nada vai me fazer mudar de opinião, eu vou assumir os meus erros como prometi a Erika.

— ..Mas você sabe que ela não aprovaria um absurdo desses não é? — Por fim falou, depois de um momento em silêncio. Não queria ter que chegar a esse ponto, mas Miiko sentia que devia adiar essa decisão o quanto antes. Talvez porque esperava que Ezarel desistisse dessa possibilidade e tentasse achar outra... Mas tinha consciência de que mesmo convicto dessa ideia, Ezarel não havia deixado de estudar os livros antigos de línguas que compreendia juntamente com Ykhar. Ainda procurava uma alternativa, mas dessa vez apenas o viu abaixar a cabeça levemente.

— É por isso mesmo que não vou contar até o fim. Não quero que ela fique ainda mais sem pensar em si mesma, ela já pensa demais em nós. — Miiko não deixou de se surpreender com a fala do outro, sentindo um pouco mais da culpa caindo sobre si. Porque não tinha argumento algum que pudesse contrariar a afirmação dele

— Ezarel.. — Miiko acaba deixando escapar um tom de voz mais amargurado do que gostaria, fazendo o maior a encarar outra vez. Não sabia se tinha sido por ter notado as suas emoções, ou se ele queria enganar a si mesmo, mas por um momento Ezarel conseguiu colocar um sorriso impertinente no rosto, encarando ela como costumava fazer quando se enchia de razão por motivos nenhum.

— Que olhar é esse? Pode nem dar certo não é? Eu não posso pedir a mais ninguém para fazer isso por mim, mas não posso garantir que sinto grandes coisas por aquela humana. — Ezarel mantinha o sorriso irônico como se não tivesse falando algo cruel como a coisa mais natural do mundo, sendo encarado com certa surpresa pela chefe — No fim pode até dar em nada, você não acha?

— ..Não vai mesmo reconsiderar? Ainda estamos buscando outras soluções-

— Eu sei disso — Ezarel acaba interrompendo a garota, e ela percebe que realmente diria algo redundante. Sabia que ele só não estava a frente de tudo porque a Ykhar e o Kero faziam questão — Mas pode não haver mais nada também. Eu não quero desperdiçar essa chance, o tempo é curto demais.

Também havia esse ponto a ser considerado. O "antídoto" que encontraram tinha um tempo limite de eficácia. Se fosse antes dos primeiros 2 meses, as chances de dar certo eram praticamente garantidas. No entanto, a partir da terceira lua cheia, os efeitos da mesma diminuíam potencialmente o seu efeito, e diminuiria cada vez mais até chegar um momento em que ela seria totalmente inútil. Por isso Ezarel estava querendo acelerar a decisão final da Miiko. Quanto mais demorasse, menos poderia garantir que podia fazer alguma coisa sobre as memórias da família da garota.

Mais um momento de silêncio entre os dois, até por fim Miiko suspirar profundamente.

— Tudo bem, eu te dou permissão. — ela fecha o cenho totalmente, as faíscas azuis do cetro crepitavam levemente enquanto ela tentava colocar seus pensamentos em ordem um a um — Eu vou assumir todas as responsabilidades por esse seu plano louco quando me questionarem, talvez até perca de vez a liderança do QG e espero muito que você esteja considerando isso, — ela aponta o indicador diretamente ao garoto, que acaba inclinando um pouco o corpo para trás, mas parecia te-lo feito mecanicamente, pois não deixava de esboçar uma expressão surpresa, que só aumentou quando a menor continuou — mas você sabe que não vai me convencer a cair nessa história não é? Você não engana mais ninguém além dela.

O elfo se permitiu relaxar e dar um sorriso mais ameno, coisa que Miiko não via com frequência. Na verdade, fazia tanto tempo que não tinha como não pensar que era um mau presságio.

— Obrigado Miiko, de verdade. — Ezarel leva as mãos até a cabeça da kitsune, bagunçando de leve. Mesmo sendo a líder do QG, não era tão incomum quanto gostaria, ainda mais quando o elfo era bem mais alto que ela. Acabou rosnando baixinho para ele, rechaçando a mão que estava bagunçando os seus cabelos.

— Não me agradeça por isso. E vou te bater quando tudo acabar por estar sendo um idiota inconsequente.

~~x~~

Finalmente, Ezarel achou quem procurava. Alguém poderia ter lhe dito que ela estava em missão à praia, teria ido direto até lá em vez de fazer o elfo rodar o QG inteiro resmungando para quem cruzasse o seu caminho. Erika estranhou ter tão repentinamente uma conversa séria com o elfo, mas não impediu o maior de falar sobre o assunto que queria. Foram até o local da praia onde já haviam conversado em outros momentos, sentando no chão de areia e grama, encima de duas pedras. Depois de uns 15 minutos explicando por alto sobre a descoberta do livro e da solução poder ser possível, Ezarel esperava uma reação maior por parte da garota. No entanto, ela apenas se manteve séria, estreitando o olhar várias vezes na sua direção.

— ..E é isso. Eu sei que pode ser difícil confiar em mim mais uma vez, mas você pode me dar esse último voto de confiança? — como já vinha fazendo a algum tempo, os pedidos de Ezarel que costumavam soar como ordens na maioria das vezes, agora carregavam certa insegurança sempre que o assunto envolvia Erika. E ela não parecia nem um pouco receptiva com aquela ideia, tal como imaginou.

— Ainda bem que reconhece. — Erika cruza os braços ao redor dos joelhos, encarando o mar friamente. Ainda tinha medo daquela imensidão, mas naquela hora o mar era um conforto a mais, para não ter que encarar o rosto ansioso do seu lado — Eu não tenho mais nada que me faça confiar em você para aceitar Ezarel. Não vou fazer outra poção junto com você.

— Por favor, nós não temos tempo.. — Ezarel morde o lábio de leve, quase estalando a língua. Não tinha como argumentar contra isso, apenas tinha a ideia e nada mais. Mas precisava que ela aceitasse, senão não teria sentido algum. A poção não faria o efeito certo se ele fizesse sozinho — Além do mais, o que você poderia perder agora?

Ezarel não podia se arrepender mais de ter dito aquelas palavras quando viu o rosto da garota ficar ligeiramente mais sombrio, virando enfadada na sua direção outra vez.

— Ah, é claro, eu não tenho nada mesmo a perder. — Erika levanta do chão, encarando o elfo de cima com o semblante totalmente irritado. Por que tinha se dado o trabalho de ouvir no fim das contas? — E é por culpa de quem? O que te fez pensar que isso daria certo? — a garota acaba revirando os olhos, se preparando para dar meia volta e continuar a sua missão. Só estava esperando Lily voltar da sua exploração de qualquer forma. No entanto, não pensou que não fosse ouvir uma reclamação imediata do outro.

— Ok.. Não foi isso que eu quis dizer, me desculpe por ter sido insensível. — Ezarel abaixa o olhar por um momento, estava invertendo as coisas e falando coisas erradas, estava genuinamente se sentindo mal por não ter planejado o que diria. Depois de voltar a encarar Erika, que ainda mantinha um misto de irritação e confusão na expressão, foi a vez dele voltar os olhos para o mar — Eu só quero tentar consertar as coisas... Eu não estou mentindo, encontramos nas nossas pesquisas em conjunto com os livros cedidos pela Huang Hua, o efeito anula o feitiço que está em você.

Erika ainda estava surpresa pela calma do outro, e de como ela mesma não conseguia duvidar que ele estava falando a verdade. Mesmo querendo abominar totalmente a ideia de ter que fazer mais uma poção ao lado do outro, no fundo sabia que estava alimentando esperanças de que ele estivesse falando a verdade. Não conseguia se enganar tão bem assim. Às vezes ficava mais irritada consigo mesma por ser tão simplória.

— E o que me garante que não é uma poção que me faça esquecer sobre esse assunto e sequer lembre que perdi a minha família? Porque isso pode existir aqui, com certeza. — Erika aperta os lábios de leve, só a ideia já lhe dava repulsa o bastante. Não queria ficar mais uma vez perdida, dessa vez agora sem sequer saber o porquê.. apenas a ideia era horrível — Eu não duvido de mais nada vindo de vocês..!

Antes que percebesse, Erika estava pisando duro no chão, os punhos apertados como se estivesse pronta para rebater com um golpe qualquer coisa que Ezarel falasse para se defender. Talvez as ideias da Caméria fossem um pouco radicais demais quando era para expor suas emoções e os seus medos.. No entanto, a adrenalina passageira provocada pela cólera repentina foi se desfazendo quando o outro lhe encarou como se tivesse sido golpeado a golpes frios e precisos. Talvez tivesse exagerado um pouco na hora de dizer, mas não era como se tivesse mentido. Ainda não estava nem um pouco pronta para encarar de frente todos os que se envolveram nisso.

Porque no fim, nem ela mesma se encarava quando falavam nesse assunto.

— Não é nada disso... — Ezarel fala quase num sussurro, apoiando o peso nas pernas e levantando do chão. Dessa vez Erika foi obrigada a olhar para cima se quisesse continuar encarando o elfo na sua frente, o olhar do outro totalmente concentrado em qualquer movimento da garota. Ele leva uma das mãos até um dos punhos fechados, acariciando de leve a mão fechada, conseguindo ao menos que a força se desfizesse, embora não parasse com o carinho.

Isso fazia com que Erika sentisse o calor que estava no seu peito ir aos poucos para o seu rosto, embora a surpresa pelo toque não deixasse transparecer o quanto ela estava embaraçada com aquilo. Não era a primeira vez, mas sempre conseguia reagir da mesma forma quando recebia algum toque do elfo. Talvez por ter se acostumado a ideia de que ele odiava ser tocado e que naturalmente não devia fazer isso, mas quando era o contrário não conseguia fazer o que tinha em mente desde que tomou a poção: rejeitar aquele toque.

— Erika, eu te prometi não foi? Que faria de tudo para consertar o meu erro — Ezarel encara a garota firme, deixando o carinho de lado para apertar a mão da garota de leve, segurando-a como se não quisesse deixa-la ir — Nós não temos tempo, se não fizermos até a próxima lua, o feitiço vai se fortalecer cada vez mais, até não sermos mais capazes de reverter.

— Ezarel.. — Erika retruca como quem queria encerrar o assunto, mas não conseguia ver um traço de que Ezarel desistiria de faze-la tentar. Achava aquilo extremamente frustrante, pois sequer conseguia reconhecer se ele estava mentindo para si outra vez em nome da Guarda ou se estava sendo genuinamente sincero. Se confiasse apenas nas suas emoções, faria sem pensar duas vezes, no entanto.. A sua razão também não queria dar o braço a torcer — Eu não consigo. — diz por fim suspirando, se desvencilhando do toque na sua mão — É difícil para mim, você devia saber disso.

— Eu sei disso... — Erika sentiu que aquelas palavras tinham machucado mais Ezarel do que ela previa, viu a boca do outro formar uma linha enquanto ele apertava os lábios, como se pensasse em algo e tivesse a plena certeza de que não daria certo, mas por fim voltou a encara-la, mais uma vez decididamente — Mas eu preciso que você confie em mim só mais essa vez. Eu juro que não é nada disso que você está pensando. Me diga que aceita, por favor.

Erika pensou em retrucar mais uma vez, mas estava ficando sem saída. Talvez devesse esperar esses dias que faltam para saber se essa história era verdade ou era apenas mais um plano da Guarda reluzente que falharia? Mas sabia que se odiaria se soubesse que deixou passar uma chance de ouro dessas, já que pela explicação de Ezarel, não havia mesmo mais tempo. Estava começando a se odiar ainda mais por não conseguir deixar tudo de lado e fingir que não ouviu nada, em vez de mais uma vez estar contando com a ajuda do QG com coisas que não compreendia. Por fim, Erika apenas levou uma das mãos à têmpora, massageando encima.

— Eu te respondo amanhã, tudo bem? — disse por fim, abaixando a cabeça usando a mão como escudo. Na verdade, não queria ver que tipo de expressão Ezarel tinha no rosto, não seria bom para si ver se ele estava feliz, triste ou frustrado, ou no pior dos casos: esperançoso. Ainda não havia mudado totalmente de ideia, mas só de pensar que tinha a solução dos seus problemas a seus pés, já sentia o coração palpitar. Não conseguia negar esse sentimento. Talvez fosse um pouco cruel, mas deixaria o outro no mesmo estado que o seu com essa resposta indefinida.

— Amanhã... Tudo bem, ainda temos tempo até amanhã. — ouviu ele sussurrar na sua frente, o tom de voz mostrava que ele estava surpreso. Mas quando levantou o olhar de novo, ligeiramente curiosa em saber o que provocou nele, se surpreendeu em ver apenas o perfil pensativo do outro, e logo as suas costas seguindo em direção a escadaria de arenito, lhe respondendo cada vez mais distante — Me encontre pela manhã no laboratório, vou estar esperando lá.

Erika ficou parada na praia, encarando o caminho feito pelo outro sem entender nada. Não acreditava que ele tinha lhe largado ali cheia de dúvidas e minhocas na cabeça sem nem mesmo se dignar a lhe acompanhar de volta depois de ter perdido tanto tempo na praia. Apenas esperava que Ykhar lhe desse um desconto pelo atraso com o relatório que devia ter feito a quase meia hora atrás.

x-x-x-x

— Como você demorou! — Ezarel estava rodando um tubo de ensaio com um liquido estranho que mudava de cor a cada movimento. Mas a cara emburrada de Ezarel estava chamando mais a atenção da garota do que o tubo, que ele deixou no lugar quando pisou dentro da sala de alquimia — Eu tive tempo de limpar duas vezes esse salão até você decidir aparecer, estava quase indo te procurar!

— Eu estava pensando ok? — depois da surpresa ter passado, foi a vez de Erika responder também irritada, indo até ele a passos duros até encara-lo de perto, os cenhos franzidos se encarando como se fossem engalfinhar a qualquer instante — Foi difícil chegar a uma conclusão do dia para a noite, sabia? ainda mais porque não consigo confiar totalmente em nada do que você me disse! Mas.. — o tom irritado de Erika foi esmorecendo aos poucos quando viu a expressão do outro mudar da irritação para algo ameno, como se tivesse atingido justamente onde doía e ele não pudesse disfarçar o que sentia sempre que acabavam caindo nesse assunto. Não se sentiu tão bem como imaginava, então acabou cedendo um pouco mais também, recolhendo um pouco do seu ego para si outra vez — Bem.. acho que prefiro não arriscar que o feitiço se fortaleça.

Se Ezarel tivesse as orelhas de coelho da Ykhar, com certeza teriam demonstrado os sentimentos dele indo de desanimação a euforia em um instante, com o brilho que surgiu nos seus olhos quando ouviu o que queria. Erika conseguia se sentir ligeiramente arrependida de ter aceitado aquela loucura, mas quando viu os olhos azuis animados daquele jeito se amaldiçoou por achar tão.. fofo.

— Já temos um início ao menos. — Ezarel não pode evitar sorrir animado, mesmo que fosse sob o olhar da garota que dizia exatamente tudo o que ela pensava; e mesmo se lhe irritava um pouco por estar sendo visto como um mascote que ganhou um pouco de carinho, não iria contestar isso agora. Apenas continuou sorrindo como se tivesse ganhado um enorme pote de mel — Obrigado pelo voto de confiança, é importante para mim.

Erika ficou sem palavras na hora. Depois de meses convivendo no QG, ela sempre tinha uma resposta preparada para cada coisa que Ezarel lhe dizia quando conversavam, sempre provocando o elfo tanto quanto ele a provocava, mas quando ele resolvia ser sincero, nunca sabia como reagir. Era como se visse outra pessoa e perdesse a coragem de falar tudo o que sempre falava e ficasse como uma adolescente boba na frente de um cara popular. Mas não podia ser assim naquela hora, não podia simplesmente se deixar levar. Por isso apertou os lábios (tinha quase certeza que deixou a boca aberta na frente dele e se amaldiçoou por isso), voltando a ficar com o olhar duro.

— Mas se eu sentir algo de errado com essa poção, eu não vou hesitar em jogar fora dessa vez entendeu? — a garota falou categórica, e mesmo se sentiu que cortou um pouco o clima falando daquele jeito, não podia evitar. Desde que chegou a Eldarya tinha conseguido um par de traumas, e esse com certeza era um dos maiores que tinha. O sorriso do outro não diminuiu realmente, mas o olhar ganhou um tom de quem estava ligeiramente envergonhado pelo que ouviu. Por isso em vez de continuar a encarar a garota, começou a mexer nos ingredientes organizados na mesa como se não estivesse conferindo aquilo pela milionésima vez.

— Eu preferia que você não fizesse isso.. Mas tudo bem. Você tem esse direito. — não conseguia disfarçar tanto o tom constrangido, mas não estava encarando a garota. Aquele limão de fogo parecia a coisa mais interessante do mundo naquele momento, ou era isso que dizia a si mesmo — Não será necessário, no entanto. Você verá.

Um silêncio constrangedor se fez presente ali enquanto Ezarel encarava tudo, menos a faeliana do seu lado. Erika não tinha nem como reclamar, já que foi ela mesma quem provocou isso, mas ele podia ao menos fazer um esforço para voltarem ao assunto principal não? Afinal, não foi ele mesmo quem disse que não tinham muito tempo para terminar aquilo?

— Então.. O que precisamos fazer? — resolveu por fim cortar o silêncio, enquanto o outro encarava uma pequena prancheta seriamente, embora Erika chutasse que ele fazia aquilo apenas para fingir concentração, já que ele não estava realmente concentrado do jeito que ela estava acostumada a ver.

— Oh, sobre isso. — ele levantou o olhar da prancheta até ela, vendo que a garota parecia estar no mínimo curiosa para a mesa, vendo vários ingredientes diferentes e esperando as ordens sobre o que teria que fazer, já que sempre lhe sobrava a parte mais interessante do preparo da poção: procurar os ingredientes que faltavam. Mas recebeu um sorriso debochado do maior quando ele lhe encarou — Como um certo alguém demorou a manhã toda para aparecer aqui no laboratório, eu fui atrás dos ingredientes e preparei tudo o que precisava ser feito.

Erika piscou algumas vezes, perplexa. Claramente não tinha cogitado aquilo, mas agora que olhava, tinha muita coisa ali para precisar de mais coisas ainda, então ele tinha mesmo pego tudo de antemão?

— O que você faria se eu decidisse não aceitar fazer essa poção? — não conseguiu evitar perguntar quando se aproximou mais da mesa, como se fizesse uma checagem real se tudo estava ali como planejado, mesmo que não soubesse sequer o que a poção precisava.

— Te obrigaria a me reembolsar com suas porções de mel por uma semana. — o tom de Ezarel tinha uma casualidade e certeza tão grande que a garota sequer duvidou da veracidade daquilo. Encarando-o com o rosto chocado, como se tivesse "Você não acha isso injusto?" bem estampado na própria testa, o que acabou fazendo o elfo rir — Eu estou brincando, vai. Eu gastei minhas maanas porque quis, no máximo daria outro proveito para os ingredientes. Não é nada de outro mundo para um brilhante alquimista como eu. — inflou o próprio peito como se tivesse dito a coisa mais óbvia do mundo, ouvindo um "idiota" murmurado pela garota, mas ignorou totalmente — Vem, eu vou te explicar o que você precisa fazer.

Depois de várias alfinetadas sobre não saber como lidar com os ingredientes da poção, Ezarel fazia Erika seguir os seus passos um a um, ensinando pacientemente como tratar cada um deles. Erika obviamente notou ingredientes familiares, a famigerada água de Lete estava ali, e ela sabia que Ezarel percebeu quando ela encarou a pequena garrafa, mas nada disse. O que quer que eles precisassem expressar ficou preso dentro de cada um enquanto a poção era feita. Por fim, depois de o que pareceram horas fazendo todo aquele procedimento, Ezarel assumiu a frente por um momento, depois de estender um pequeno caderno e uma pena a Erika.

— Escreva o seu nome e os nomes dos seus pais nesse papel. — Ezarel parecia concentrado demais em encarar o próprio trabalho para perceber que Erika ficou estática encarando o papel e a pena, ficando imóvel encarando os objetos. Ezarel não parecia ter percebido o que tinha acabado de pedir.

Porém, mil coisas passavam pela cabeça de Erika naquele momento. Era como se tivesse chegado finalmente ao limite do que podia tolerar em chegar perto da alquimia, ter que repetir o que lhe custou a sua existência era uma tarefa árdua que ainda não estava preparada a repetir, estava tremendo só de pensar no pior. No entanto, quando pensou que deixaria tudo cair no chão, sentiu duas mãos por cima das suas, segurando levemente como apoio. Achou que devia se preparar para uma bronca, porém ela não veio.

— Sinto muito.. mas o procedimento é quase o mesmo. É difícil, não é? — Erika foi surpreendida pelo tom compreensivo que veio do rapaz, subindo o olhar do caderno até ele apenas para encontrar um sorriso ameno, como quase nunca via no rosto dele. Ezarel naquela hora parecia querer conforta-la mais do que prosseguir com a poção, mesmo sabendo que devia apressar os passos caso não quisesse falhar.. Quando viu as mãos trêmulas diante de si, apenas queria trazê-la de volta a realidade, mais do que tudo. Mas ao mesmo tempo sabia que não podia perder tempo, então se obrigou a ficar mais sério — Pense que é uma reversão, você precisa citar o que você quer reverter não é?

Erika apenas consentiu com a cabeça de leve, respirando fundo. Repetindo a si mesma o que tinha acabado de ouvir. Era uma reversão, uma reversão.. Respirou fundo mais uma vez, agora encarando o papel.

— ..Tudo bem, eu acredito. — disse por fim, começando a escrever. Claro que anda tremia como se tivesse no meio do Alaska e estava fazendo seus piores garranchos encima da mesa, mas era o melhor que podia. Estava tentando enfrentar os seus medos por uma causa maior... Ou esperava que fosse. Tinha que ser. Entregou o papel a Ezarel, que jogou dentro da pequena caldeira que usavam. Tudo foi se dissolvendo devagar enquanto o outro mexia, até não sobrar mais nada. A garota engoliu em seco, não tinha que recitar algo na hora de jogar os nomes? Quase deu um pulo quando ouviu a voz de Ezarel lhe cortar os pensamentos.

— Então só falta mais uma coisa.. Vem aqui, troca comigo e me passa isso. — Ezarel não espera realmente Erika se mexer para puxa-la até o seu lugar e pegar o caderno e a pena, apenas fazendo um gesto com a mão para ela continuar mexendo enquanto ele escrevia algo no papel. Assim que terminou, jogou o papel dentro da poção também. Foi apenas por isso que ela viu o que estava escrito.

— Por que o seu nome também? — Erika não conseguiu simplesmente não perguntar. Por alguns momentos sentiu que tinha feito uma pergunta indevida, já que a resposta não foi imediata. Porém, apenas viu Ezarel suspirar de leve, encarando a poção que ela mexia.

— ..Porque vamos precisar de um pouco mais de maana interior dessa vez. Da primeira vez a sua era o bastante, mas agora é diferente. Como quem te auxiliou antes também fui eu, será mais fácil eu te ajudar. — Ezarel respondia tudo aquilo de uma forma mecânica, como se a pergunta fosse ser tão óbvia que ele já tinha pensado em uma resposta simples e rápida. Mas no fim acabou dando mais um dos seus sorrisos arrogantes — Isso te faz confiar mais no efeito da poção?

— Não sei ao certo.. — a garota responde um pouco irritada, por ter sido totalmente lida por ele, mais uma vez. Em resposta só ouviu mais uma risada típica dele, enquanto ele parava de mexer a pequena caldeira.

— ..Você é difícil hein? — ele não conseguia evitar, mesmo sabendo que não devia cobrar algo diferente dela. Talvez fosse apenas parar ver o rosto daquela garota ficar fechado, o jeito que ela franzia a testa e acabava fazendo inconscientemente um bico com os lábios era um charme que odiava admitir, mas adorava. E nunca falhava em conseguir irrita-la como queria. Erika apenas continuou murmurando sobre a culpa ser totalmente dele de não ser confiável e não dela, mas nada que abalasse muito o elfo, que parecia mais se divertir com aquilo na hora do que realmente machucado pelas palavras de uma jovem irritada.

— Ok, chega de conversa. Vamos nos concentrar outra vez, repita junto comigo o feitiço.

Mais uma vez, Erika repetiu as palavras com certa dificuldade, mas no fim, tinha a impressão de que tinha feito tudo certinho. Não sabia se era apenas ilusão sua, mas sentia como se tivesse realmente feito algo mágico outra vez. Mas como da última vez, assim que falou a última palavra, sentiu o coração comprimir. Talvez fosse efeito do feitiço, não sabia dizer, mas novamente sentia como se fosse um péssimo sinal...

— A próxima lua cheia será amanhã. — os pensamentos de Erika foram cortados assim que ouviu a voz de Ezarel, que estava transferindo aquele liquido fino para outro recipiente — Se colocarmos agora será tempo o suficiente para a poção conseguir o efeito que queremos. Você poderá toma-la daqui a dois dias, terá tempo para decidir se vai ou não. — apesar do que dizia, Ezarel estava concentrado demais em tirar as impurezas que restassem em meio ao líquido da poção, deixando apenas uma água quase cristalina cair dentro do frasco.

Quando apenas o barulho de líquido batendo no fundo do recipiente de vidro era ouvido dentro da sala de alquimia, Erika estava incerta se podia falar o que queria, mas Ezarel não parecia perceber a agonia da garota, ou no mínimo estava se esforçando em ignorar. Mas não demorou até Erika tomar coragem.

— Você me garante que eu posso mesmo desistir de tudo? — ela começa um pouco receosa, já que agora que já tinha acabado tudo, seria no mínimo irritante para Ezarel jogar tudo fora, principalmente para quem teve todo o trabalho de fazê-la. Mas ele não parecia se incomodar tanto com a pergunta quanto ela pensava, apesar de ter dado uma pausa antes de confirmar com um "sim" mecânico enquanto continuava o seu trabalho. Isso deu mais coragem para ela continuar, ainda que não conseguisse evitar ficar com o rosto levemente vermelho — Não vai me.. forçar de novo a beber não é?

Talvez fosse exigir demais que Erika não tocasse nessa parte, mas o medo dela tinha fundamento, na visão do elfo. Por isso resolveu guardar suas ironias para si naquela hora e leva-la a sério. A resposta veio assim que ele terminou o que fazia, transferindo o líquido para um frasco menor e tampando com cuidado.

— ..Não vou fazer isso. Eu prometo.

A resposta séria que veio do rapaz surpreendeu Erika, mesmo que ela soubesse que ele nunca conseguiu de fato brincar com esse assunto quando o envolvia. Para quem havia dito meses atrás que estava fazendo demasiado drama quando descobriu que não era uma simples humana Ezarel tinha mudado demais, Erika nunca pensou que um dia fosse conseguir conviver tão bem a ponto de conseguir achar prazer em viver dentro da Guarda de Eel. Mas esses dias também já passaram...

— Então.. nos vemos daqui a dois dias? — Erika iniciou outra vez, tentando voltar ao seu estado mais neutro. Ezarel apenas esboçou um sorriso de canto, enfiando a poção dentro da pequena bolsa na sua cintura, encostando na mesa e a usando como apoio.

— Aqui no laboratório, depois do jantar. E vê se não se atrasa dessa vez, senão eu vou cobrar mesmo minhas rações de mel.

Dois dias depois

Erika tinha a impressão de que Ezarel tinha praticamente sumido da sua vista nesses dois dias em que teve que esperar para a poção ficar completa. No fundo, ainda que ele dissesse que deixaria a escolha de tomar ou não poção a cargo dela, não esperava que ele realmente fosse lhe deixar em paz. Não era uma decisão importante? Por que ele estava deixando tudo ocorrer como se ele tivesse lhe chamado para um encontro e ela pudesse ou não aceitar? Mas o pior, é que não tinha tido coragem de contar para ninguém sobre isso, e ninguém parecia ao menos ter alguma ideia do que acontecia. O QG, a Guarda reluzente, até mesmo Karenn e Nevra estavam estranhamente agindo como se tudo estivesse normal.

Teria sido um pedido do Ezarel? Mas não achava que todos conseguiriam disfarçar tão bem. Quase não dormia a noite pensando que aquele Mascarado fosse lhe deixar mais um bilhetinho dizendo que estava sendo ingênua outra vez, mas se ele soube de algum plano maligno, resolveu deixá-la na ignorância. No fim, não tinha achado esse silêncio tão bom quanto esperava, mas desse jeito poderia refletir sozinha sobre o que escolher, sem influências. Por isso foi mais do que decidida a noite na hora em que marcaram no Laboratório de alquimia. Não se surpreendeu quando viu que Ezarel já estava lá, lhe acenando assim que abriu a porta.

— E então? Decidiu o que vai fazer? — Ezarel sorria como quem tinha recebido a melhor notícia da noite, esperando Erika se aproximar para entrega-la um pequeno frasco de vidro fechado com um líquido levemente avermelhado, sorrindo ainda mais quando a garota o segurou, encarando o objeto e girando a tampa — Aliás, só por precaução eu coloquei num frasco reforçado a poção, caso você queira quebrar jogando no chão.

— Obrigado pelo voto de confiança, e sim, estou a um passo de jogar tudo fora depois de abrir. — Erika fez menção de virar o copo inclinando, pondo bem na altura da visão do elfo, que por um instante empalideceu e acabou pegando de volta num raio. Até notar o sorriso irônico da garota, que sequer tinha aberto de verdade o frasco.

— ..Você é uma estraga prazeres. — o elfo conclui com o cenho franzido quando vê o frasco intacto, mesmo ela tendo mostrado de propósito que tinha aberto. Não acreditava que tinha caído nisso, estava ficando enferrujado perto dela.. Acabou devolvendo outra vez, vendo a menor lhe encarar como se tivesse cometido uma enorme e vergonhosa gafe. — Aqui está ela, decida por si mesma.

Erika acabou encarando a poção de verdade dessa vez, sentindo um frio na barriga só de pensar no pior. Da outra vez chegou tão possessa dentro da sala de alquimia que sequer parou para pensar, mas agora que estava calma, ou pelo menos o máximo que podia estar, percebia que era algo decisivo demais.

— Me diz Ez.. Não tem mesmo nada nessa poção que me faça esquecer de tudo não é? — Erika diz enquanto encara o líquido, mexendo levemente dentro do vidro. Talvez devesse mesmo ser cautelosa quanto a isso? — Eu posso confiar nisso mesmo?

Antes que levantasse o olhar, sentiu outra vez as mãos do rapaz sobre as dela, segurando o vidro e mantendo parado. Por instinto, acabou olhando para cima, encontrando o rosto de Ezarel mais perto do que esperava. Não conseguiu evitar ficar ruborizada com o rosto sério lhe encarando.

— Não tem. Como eu disse, essa poção serve para anular a outra. Todas as lembranças ainda estarão com você quando tudo acabar.. — Erika sentiu as mãos de Ezarel apertarem um pouco mais em torno das suas, mas logo o toque acabou, quando o mesmo se afastou de novo — Eu te garanto.

Erika deu uma última olhada para o recipiente e para Ezarel. Mordeu o lábio inferior, devia estar muito louca em confiar desse jeito outra vez nele, mas virou todo aquele líquido na boca outra vez, sentindo primeiro um gosto doce que se assemelhava a cereja e logo algo amargo como café descendo na sua garganta. Sentia algo pulsar levemente dentro de si, na qual tinha a leve impressão de ser efeito placebo, mas que na hora lhe deixou com uma paz interior que não sentia há muito tempo. Poderia dizer se o seus pais lembravam de si mesmo?

— Como se sente..? — Erika foi chamada a atenção outra vez quando ouviu o tom preocupado de Ezarel, que já tinha até mesmo tirado o recipiente da sua mão e ela sequer tinha notado. Encarou o elfo, piscando algumas vezes enquanto levava a mão a garganta, ainda confusa.

— Me sinto.. estranha. — não havia outra forma de descrever aquela sensação que não fosse estranha, na visão de Erika — Sinto que foi como da outra vez, mas... Não é a mesma coisa. Não aconteceu nada. — a garota encara Ezarel com um semblante levemente culpado — Eu lembro mesmo de tudo.

No entanto, o sentimento de culpa foi substituído pela surpresa quando viu o elfo fazer a sua pior expressão de frustração, levando as mãos a cintura e suspirando profundamente.

— Droga, então eu falhei.

— O que..!? — Erika estava tão surpresa que não conseguia nem pensar no pior, mas apenas sentiu o cenho franzir totalmente e as mãos tremerem de raiva quando notou que Ezarel estava se controlando totalmente para não cair na risada na sua frente — Que droga Ezarel, não brinca com esse tipo de coisa! — a garota chegava a apertar os punhos tão forte que estava a um passo de começar a socar o peito daquele elfo debochado — Você não tem sentimentos não?

— É mais forte que eu — ele fala como se tivesse conseguido pontuar mais uma vez contra a ingenuidade da garota, levando a mão a boca para tentar controlar o riso, enquanto a menina rolava os olhos, cruzando os braços — pff, você devia ver a sua cara!

— É impossível te levar a sério!

— Ok, eu vou te deixar em paz tudo bem? — Ezarel dava uns tapinhas no topo da cabeça da garota, que apenas ficava um pouco mais vermelha por estar sendo tratada como uma criança. No entanto, em vez de recolher a mão do topo da sua cabeça, sentiu a ponta do indicador do rapaz tocando na sua bochecha, chamando a atenção para que ela o encarasse — Só quero fazer mais uma coisa antes de te deixar ir.

— O que? Vai me.. — a voz irritada da garota foi se esvaindo assim que percebeu que Ezarel se aproximava cada vez mais do seu rosto, ficando estática quando sentiu os lábios encostarem nos seus. Sentiu uma das mãos do outro ir até a sua nuca, inclinando levemente o seu rosto para cima, enquanto a surpresa do ato não permitia a Erika fazer mais do que segurar na roupa do outro.

Não acreditava que estava sendo beijada de uma maneira tão inesperada. Não conseguia pensar em nada muito claro, mas com certeza afasta-lo não era uma opção. Já desconfiava há um tempo dos seus sentimentos, mas nunca quis admitir. Por isso acabou timidamente correspondendo, aproximando mais o corpo e deixando o caminho livre para ter um beijo mais profundo, o que não foi despercebido pelo outro.

Sendo segurada pela cintura, Erika correspondia ao beijo como se nunca tivesse sido guiada em um, enquanto Ezarel mantinha um ritmo lento quase proposital, como se quisesse aproveitar cada sensação que podia sentir naquele beijo. Nem mesmo tinha perdido todo o fôlego quando se separaram, esboçando un sorriso satisfeito quando abriu os olhos e viu o rosto totalmente ruborizado e os labios entreabertos de Erika.

— Ez, você.. — Erika por fim parecia ter voltado a realidade, soltando o fino colete branco e levando a mão ao cabelo nervosamente, jogando-o para trás da orelha como se isso fosse a coisa mais importante naquela hora. Foi quando sentiu as mãos do outro abandonarem o seu corpo e irem diretamente ao seu rosto, segurando-o levemente.

— Desculpe, eu não consegui me controlar.. — Uma ponta de arrependimento começava a brotar no elfo quando notava que Erika não parecia saber o que fazer na sua frente. Twlvez tivesse sido confiante demais? — ..Um pouco demais?

— N-não é isso, mas.. — Erika não sabia nem como encarar o outro daquele jeito, de repente tinha sido beijada por quem menos esperava, justamente porque esse alguém mal deixava que ela o encostasse minimamente, e agora segurava o seu rosto como se fosse a coisa mais delicada do mundo — E-eu só fui surprendida..

Erika viu o semblante ligeriamente preocupado ceder mais, dando lugar ao alívio. Ezarel soltou o seu rosto, no entanto, no lugar de se afastar, seus braços deslizaram por cima dos ombros de Erika, a puxando para um abraço. Pela primeira vez, Erika tinha um contato tão íntimo a ponto de ser capaz de ouvir o coração do outro bater tão acelerado quanto o seu, mesmo que se olhasse para cima, fosse ver um semblante tranquilo.

— Então tudo bem. — ouvia a voz abafada por conta da proximidade, mas podia sentir que Ezarel estava feliz com aquela resposta, no entanto, parecia ter ficado ligeiramente mais sério quando continuou — Me desculpe por sempre ter escondido coisas de você, por ter deduzido o que era melhor para você antes de perguntar... — Ezarel por fim se afasta, os olhos a encarando com certo pesar — Eu realmente sinto muito.

— Ezarel.. — Erika não conseguia deixar de sentir que algo parecia muito errado, encarando-o receosa de que os seus pressentimentos pudessem estar certos — O que isso quer dizer?

— ..Apenas quis dizer isso mais uma vez depois de ter resolvido tudo. Sinto que já te disse milhares de vezes, mas ainda não acho que seja o suficiente. — um sorriso mais ameno surge nos lábios do maior, como se tivesse tirado um peso enorme das costas — Dessa vez, você me perdoa?

— Eu.. — a garota encarava o elfo, sem saber o que que sentia realmente naquela hora. Estava obviamente feliz, se era como ele tinha dito, então tinha conseguido a família outra vez. Não estava nem perto do seu objetivo de voltar para casa, mas pelo menos menos o minino já tinha. Ao mesmo tempo, não sabia se agradecia a Ezarel por ter feito o que fez ou se apenas via aquilo como uma compensação, já que foi ele quem arruinou tudo para começo de conversa. Mas no fim, apenas suspirou, sorrindo de leve. Claro que sabia qual era a resposta — vou considerar o seu esforço. Eu ainda não posso ir até os meus pais, mas posso ficar contente em saber que voltei a ter uma família que lembre de mim... Então obrigada Ezarel.

Ezarel foi pego totalmente desprevenido, mostrando uma expressão surpresa que nunca pensou que mostraria a ela. Mas para a sua sorte, Erika não parecia ter percebido nada, nem mesmo entendido o que queria dizer antes. Afinal, foi apenas um capricho seu, já que não havia mais como voltar atrás nem se quisesse. Por isso voltou a sorrir.

— Obrigado, isso é mais do que o suficiente para mim. — por um momento Ezarel fez menção de se aproximar outra vez, mas acabou parando no meio do trajeto. O que surpreendeu a garota, pois ele parecia se policiar de última hora e se conteve. Ezarel apenas deu meia volta, acenando de costas a ela — Bem, eu tenho que ir agora. Você devia ir dormir também.

— Ah.. tudo bem. — apesar de confusa com o que tinha acontecido a alguns momentos, Erika apenas vai seguindo os passos do outro, que já estava no fim da escadaria, mas não ia em direção aos quartos e sim para fora do QG. Pensou em segui-lo, mas não sabia sequer o que dizer a ele depois daquele beijo.

Resolveu fazer o seu próprio caminho até o quarto, ainda que duvidasse que fosse dormir tão cedo.

~~x~~

Depois de ter rolado na cama por horas na noite anterior, Erika ainda conseguiu acordar de bom humor. Talvez não devesse fantasiar tanto assim, já que ainda estava longe de voltar para casa, mas sentia que o vazio que estava consigo desde quando descobriu sobre o efeito da poção que apagou a sua existência tinha sido preenchido outra vez. Tinha um lugar para onde voltar. Sentia-se totalmente viva outra vez.

Ainda não sabia o que pensar sobre Ezarel. Talvez por isso tivesse entrado tanto em conflito consigo mesma durante a madrugada. Logicamente, se fosse embora, teria que deixa-lo em Eldarya. Mas também não conseguia negar que não era indiferente a ele... Na verdade, isso era apenas um eufemismo. Sabia que só estava negando para não ser pior, mas depois do dia anterior, talvez não fosse tão ruim ter algo com ele. Não acreditava que estava viajando como se tivesse 16 anos.. Enquanto cutucava os restos de um mingau esquisito no salão principal, em meio aos seus devaneios, foi quando percebeu Kero lhe chamando.

— Sim? — Erika responde ainda com o cotovelo apoiado na mesa e a mão apoiando seu rosto, mas ajeita um pouco mais a postura na cadeira quando nota que o unicórnio estava um tanto agitado.

— Miiko me pediu para te chamar até a sala do Cristal, ela tem um pronunciamento a você. Parece ser algo urgente. — Kero estava mesmo nervoso, seria normal se Ykhar estivesse nesse estado, mas quando ele estava desse jeito era porque algo tinha acontecido. Só esperava que não fosse algo grave, e não conseguiu evitar pensar que já havia encontrado a maioria das pessoas que conhecia, menos Ezarel.

— Ah.. — sentiu um pequeno calafrio percorrer o seu corpo com aquele pensamento. Por que ficou preocupada tão repentinamente? Talvez fosse apenas a sua mente lhe pregando peças, Kero nunca viria tão pouco perturbado se fosse algo grave.. Mas mesmo assim não quis enrolar mais — Tudo bem Kero, eu já vou indo.

Caminhando até a Sala do Cristal, Erika sentia como se tivesse um pequeno nó na garganta. Sempre que era chamada sem estar solicitando alguma missão, era porque algo estava acontecendo. Era sempre assim, e mesmo assim a garota ainda ficava nervosa. Ainda que no dia anterior tivesse ido dormir feliz com a ideia de que tinha recuperado a sua família, o gosto amargo da ignorância ainda pairava na sua boca. Por que um pronunciamento logo pela manhã?

Quando entrou na sala, notou estar todos os chefes das Guardas, menos o elfo. Inicialmente pensou que ele estava atrasado, mas estranhou quando a reunião começou sem ele. A tensão só aumentava dentro de si, mas Erika suspirou aliviada quando Miiko lhe disse que Ezarel estava em uma missão menor na floresta, repreendendo a si mesma por ter pensamentos tão negativos pela manhã só por ter sido chamada à fatídica Sala do Cristal. No entanto, as expressões de todos ainda não eram convincentes o bastante para que a ansiedade diminuísse mais.

Foi quando viu a reação do Valkyon e do Nevra sobre a poção do dia anterior, vendo os cenhos se fecharem e os lábios apertarem, contrariados. Foi quando percebeu que realmente algo estava muito errado. E quanto mais Leiftan e Miiko explicavam o que aquela poção de fato fazia, mais distante iam ficando as vozes dos dois. Lembrava da noite passada, as palavras, o que ele tinha feito, tudo fazia tanto sentido que se sentia burra por não ter desconfiado de nada. Era tudo tão claro como quando teve que fazer a poção para apagar a sua existência para a sua família. Por que colocaria o nome dele dentro de uma poção que também usava Água de lete? Ele tinha pensado em tudo para caso ela perguntasse, não ouviu Ezarel vacilar uma única vez enquanto respondia sobre a poção.

Estava sem fala. Mesmo passando o último mês evitando dirigir a palavra ao elfo, não era exatamente por ódio pela poção, ou pela Guarda de Eel que decidiu destruir a sua vida sem nem mesmo pedir a sua opinião. Já tinha se dado conta que os seus sentimentos eram muito mais de mágoa por se sentir traída do que por ódio, tinha confiado neles mais uma vez, principalmente nele, e errou de novo. Sentia raiva, mas não conseguia odiá-lo. Sentia mágoa, mas não conseguia ignorá-lo por completo quando se cruzavam. Ainda mais quando ele estava se esforçando tanto em conseguir perdão, de uma forma que nunca imaginou que veria.. Era surpreendente, de certa forma. Mas nunca pensou que ele pudesse fazer uma coisa tão drástica, assim tão repentinamente, quando finalmente as coisas pareciam estar no caminho certo.

— Não há.. nada a se fazer? — Erika pergunta mais baixo, o som da sua voz mal saía. Estava se sentindo confusa, uma estranha culpa pairava na sua mente, mesmo sabendo que não tinha exigido mais do que deveria. A guarda de Eel tomou a sua família, seu lugar na terra, eles tinham toda a responsabilidade de devolver o que tiraram. — É mais uma brincadeira de mau gosto do Ezarel não é? — ainda tentou contradizer, mas para sua surpresa, mesmo Leiftan balançou a cabeça negativamente, com um ar sombrio no rosto.

— Sinto muito Erika, mas está fora do nosso alcance. — o rosto sereno de Leiftan contrastava com uma voz convicta. Sentia os olhos marejarem lentamente, porém, ao contrário do que os chefes esperavam, o cenho da garota fechou totalmente, reprimindo aqueles sentimentos conflitantes dentro de si.

— Mas no que vocês estavam pensando!? — Erika caminha até a Miiko a passos firmes, encarando a kitsune de perto, que agora estava tão surpresa qie sequer sabia que expressão esboçar no rosto — Isso foi pelo quê? Para eu me sentir culpada em querer existir outra vez, é isso? Como você pôde usar uma pessoa desse jeito!?

Miiko estava boquiaberta. Mesmo que soubesse da possível reação da garota, ver aquilo de frente mais uma vez não deixava de lhe surpreender. Apertou os lábios, mordendo o lábio inferior, o cenho franzido.

— ..Eu não tive escolha. Como chefe de guarda, é dever de cada um de nós aqui manter a harmonia na Guarda de Eel e seus membros e protegidos, e isso inclui você. — Miiko falava em um tom sério, mantendo a postura de líder. No entanto, estava apertando o cajado nas mãos como se fosse o seu maior apoio ali, e podia-se ver o fogo azul crepitar de leve. Nada que passasse pelos olhos de Erika, então não era relevante. Manteria a palavra de assumir aquela decisão, mesmo que continuasse sendo vista como vilã. Quando viu a mão da garota subir outra vez na sua direção, apenas trincou os dentes. No entanto, o golpe não chegou.

— Erika, já foi o bastante — Nevra segurou a mão da garota no ar, e antes que fosse rechaçado, Erika notou que ele não estava tão calmo como ela esperava. Nunca tinha visto um rosto tão sombrio no vampiro, a frustração evidente no seu rosto. A sinceridade do maior não podia ser negada, Nevra também não sabia dessa missão e muito menos concordava com o que tinha acontecido. — Não há mais o que discutir. Não falamos a você sobre essa solução, mas sabemos o procedimento. Não há forma de dar certo se a pessoa for obrigada ou induzida. Se deu certo, foi porque o próprio Ezarel escolheu.

Miiko encarava o outro como se ele acabasse de revelar algo crucial na frente da garota, mas Nevra não se importou nem minimante. Apesar da fala controlada, Nevra virou o rosto, estalando a língua e soltando a mão da garota. Levou a mão a cabeça, bagunçando o cabelo freneticamente, como se tentasse entender tudo aquilo. Não havia ouvido nada sobre isso, não acreditava que ele não havia lhe contado sobre esse plano. Claro, não deixaria Ezarel fazê-lo se soubesse, por isso estava tão irritado. Por não ter percebido nada.

— Então... O que eu faço agora? — Erika se pronuncia depois de vários instantes no mais puro silêncio, a voz por um fio. Ainda mantinha a postura firme para não chorar ali mesmo, todos ali já haviam visto mais das suas lágrimas do que ela gostaria. O olhar de todos foi em sua direção, mas não os encarava, só de imaginar o olhar de pena de todos já lhe dava náuseas. Ainda queria acreditar que isso não chegaria tão longe se tão só não tivessem forçado a primeira poção em si, se nada tivesse acontecido desde o início, não precisaria passar por isso. Não queria ser esquecida, não por ele.

Mais um silêncio mórbido se abriu na sala. Não havia solução, todos sabiam que não havia. E quando tentou buscar os olhares de todos, Erika notou que ninguém lhe encarava mais, desviando o olhar para qualquer canto que não fosse os seus olhos. No entanto, se surpreendeu quando algo foi estendido na sua direção. Uma carta lacrada, apenas com o seu nome encima do envelope.

— Estava na porta do meu quarto de manhã. Foi por essa carta que entendi tudo, por isso não estava no seu quarto. — Miiko falava de uma maneira tão serena que parecia ter abandonado o posto de líder, estando ali apenas como uma pessoa qualquer, como alguém que sabia que tinha mais uma vez falhado.

Sem mais escolha ou vontade alguma de retrucar tudo aquilo, Erika pegou a carta e saiu da Sala do Cristal arrasada. Ninguém lhe seguiu, o que agradecia mentalmente, não estava com cabeça para consolo naquela hora. Teve a impressão de ouvir a discussão recomeçar dentro da sala, mas não estava mais com ânimo de pedir mais explicações. Fez todo o caminho de volta até o quarto, se jogando na cama. Seu pequeno Liclion vinha lhe dar um pouco de atenção, se aninhando do seu lado na cama, ronronando de leve ali. Lily era uma mascote amorosa, parecia ter um radar para quando estava triste, sempre chegava perto quando precisava. Isso lhe deu motivação para sentar na cama e abrir a carta que lhe deram. A caligrafia era a mesma que lembrava, sabia que não era mentira ou um truque da Miiko para amenizar mais o que aconteceu.

"Se eu deixei essa carta chegar até você, é porque deu tudo certo. Eu pensei bastante comigo mesmo, e concluí que estava sendo injusto com você, em terminar tudo dessa forma antes mesmo de começar algo, e principalmente por ter escondido tudo sobre a poção. Sei que vai ficar irritada comigo, mas não me bata quando me ver amanhã, eu realmente vou odiar te conhecer outra vez desse jeito. Eu resolvi escrever em vez de contar pessoalmente, porque sou um covarde. Eu nunca soube como agir perto de você, por isso apenas fugi.

Erika, não pense em se culpar pela poção. A culpa sempre foi minha. Se eu nunca tivesse errado, isso nunca aconteceria. Eu preferia nunca esquecer sobre sobre meu erro com você, mas se era a única forma de me consertar, eu podia abrir mão. Creio que possa ser honesto se for só dessa vez, mas eu me diverti nesses últimos meses. Nunca tinha me interessado tanto em alguém, a ponto de não saber como reagir e acabar fazendo besteira. Fui ingênuo em achar que estava certo em tudo, devia ter te ouvido em vez de seguir ordens... Mas fico feliz que ao menos você tenha me dado uma última chance. Embora ao menos dessa vez não tenha me divertido em me aproveitar da sua ingenuidade.

Sabe, eu.. Bem, não vou rabiscar nessa carta, já está tarde demais para fazer outra. Eu pretendia não deixar nada, mas acho que o nosso beijo de hoje mudou um pouco meus pensamentos, já que não podia pedir por uma despedida melhor. Eu não vou morrer de qualquer forma, então se puder, não se afaste de mim. Eu tenho certeza que vou voltar a gostar de você tanto quanto gosto hoje. Eu te disse não foi? No fim, as suas lembranças ainda estarão lá. Então ao menos lembre-se que me deve uma semana de rações de mel. Meu eu de amanhã ficará muito agradecido, mesmo na hora você sendo só uma humana aos meus olhos.

Então.. Tudo bem se eu acreditar só por hoje que você me perdoou de verdade?"

A garota aperta o papel nas mãos, deixando as laterais amassadas. Não conseguia acreditar no que tinha acabado de ler. Era surreal demais, pensar que tudo tinha realmente ido embora como num passe de mágica. Enquanto encarava o papel ainda incrédula, sentia um soluço vir repentinamente a garganta. Só então notou que estava chorando como não havia mais chorado desde que Ezarel tentava inutilmente lhe consolar nesse mesmo quarto. Por que esse mundo tinha sempre que ser tão injusto consigo? Quando finalmente sentia que conseguiria seguir em frente nesse mundo fantasioso, mais uma vez ele vinha mostrar que isso era apenas uma falácia. Não havia encanto algum ali, era apenas um mundo com magias, mas em nada era diferente da França.

Passou horas fechada no quarto apenas recebendo carinho da sua Lily, que não saiu para explorar nem quando pediu a ela, vendo o filhotinho se enroscar perto de si, deitando perto da sua cabeça. Ouviu algumas batidas na porta um pouco depois do almoço, mas não se deu ao trabalho de responder. De qualquer forma não queria ouvir consolo algum, nem mesmo se fosse das meninas ou do Leiftan. Não era o momento certo para isso. Como faria de agora em diante? O que as pessoas achariam disso?

Passou dois dias assim. Mas quando chegou o fim da tarde do terceiro dia, Erika por fim decidiu parar de se lamentar sozinha. Ainda estava triste, não havia o que fazer quanto a isso. Mas não viveria em miséria para sempre, não era do feitio da garota. Por isso depois de uma boa ducha, foi em direção ao salão principal sem temer encontrar o elfo, ou ao menos tentando não demonstrar tanto em seu rosto que isso era apenas uma grande máscara. Porque quando entrou no salão, como que por travessura do acaso, a primeira pessoa que encontrou com o olhar foi justamente quem ainda não tinha se preparado em nada para ver. Ezarel estava dividindo uma mesa junto de Nevra e Valkyon, conversando animado com os amigos, vendo os dois desviarem o olhar para ela e pararem de falar. Ainda chegou a ficar surpresa quando o olhos celestes a encararam levemente surpreendidos da mesa onde estava, o que lhe deu esperanças de tudo aquilo não passar de um teste da Guarda e uma das brincadeiras de péssimo gosto do Ezarel.

Mas quando viu a surpresa se desfazer e ouviu um inexpressivo e seco "Quem é você?" vindo do maior quando se aproximou, Erika entendeu que não havia mais motivos para negar. Não havia mais nada de si dentro de Ezarel. Naquela hora, apenas as palavras da sua última conversa do dia anterior ainda ressoavam na sua cabeça.

"Todas as lembranças ainda estarão com você quando tudo acabar.. Eu te garanto."

Notas finais
Well... fazem anos desde que publiquei uma fanfic na internet, tipo, 7 anos, então nem sei exatamente o que dizer, é como se fosse a primeira vez de novo mesmo :v Mas quando vi que um rascunho meu acabou finalizado, pensei: Why not? A ideia veio justamente no final do episódio 15, mas a vontade de terminar tudo antes de lançar o 16 não veio, então meio que deixei passar o momento por preguiça ALALÇKSJF Ainda estou me acostumando em perspectiva em terceira pessoa, então é provável que tenha vários deslizes na escrita porque eu realmente não tenho mais jeito para escrever assim, fazem anos que só escrevo em primeira pessoa ;-; Mas vou continuar treinando, embora talvez demore anos para eu postar mais outra história :v Enfim, espero que tenham gostado, eu particularmente gostei bastante de escrever e sou pouco dramática mesmo, não sei se ficou muito claro. Espero que sim rs (?
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!