Miyuki
1 Bela Felicidade
Notas iniciais
Reborn o encarava com aqueles olhos escuros como se pudesse fuzilá-lo a qualquer momento. Tsunayoshi sentia seu corpo se arrepiar pelo tom frio de suas palavras que o atravessavam como lâminas afiadas.
O mais estranho era que o Sawada se sentia bem com esse tipo de tratamento. Afinal, todos tinham seus dias ruins, não é? Estava convencido de que o outro o amava demais para tentar algo contra si, mas apenas por via das dúvidas — inconsciente provavelmente — tentava o máximo possível ser cuidadoso com as próprias palavras e gestos.
“Décimo nós iremos salvá-lo!” Salvá-lo de quem? Não conseguia entender seu amigo Gokudera. Era seu Reborn que precisava ser salvo de todas as acusações que eram postas em si sem o menor motivo.
O Sawada entendia — ou procurava saber — quem era a verdadeira vítima ali. Com certeza não era ele: Tsuna era tão culpado quanto os outros por ter se colocado no caminho do “trabalho” do outro.
Por causa do Sawada estavam tratando seu amado como um criminoso, por seu descuido estava sendo tratado como um refém que precisava ser resgatado.
Ele não queria ser resgatado.
Quando procurou com os olhos — discretamente é claro não queria preocupar o outro a respeito de si — alguma saída no prédio além da conhecida porta de frente, era apenas para reclamar contra todas essas acusações injustas. Não era para escapar.
Não podia escapar.
Não era porque tinha medo que Reborn, o homem charmoso que conheceu apenas aquele dia quando iria apenas fazer um pagamento no banco, fosse fazer algo contra a sua família, pois isso não era a intenção do outro.
Porém, se tentasse alguma coisa que fosse contra os planos de Reborn, o outro não teria escolha a não ser fazê-lo. Então se mantinha imóvel — e mesmo que quisesse não poderia se mover, pois estava amarrado no momento assim como outras pessoas que acabaram envolvidas na “confusão” — e casualmente vasculhando.
O movimento nervoso de seus olhos cessou quando Reborn teve a brilhante ideia de vendá-lo para que ele não precisasse enxergar aquela realidade que se encontrava.
Ah, era tudo o que queria. A realidade lhe dava medo e queria de alguma forma ser confortado. De qualquer maneira. Até mesmo uma pequena mentira bastava. Reborn não ficaria zangado, não era? Como não sabia seu nome... Apenas “amado” bastaria para que se sentisse mais seguro.
– Não precisa ter medo — Reborn tinha um tom de voz suave enquanto passava a venda pelo seu rosto e lhe bloqueando a visão. — Logo eu e você vamos nos livrar dessa encrenca. Se os policiais trouxerem o dinheiro que exigi...
– Sim... Posso pedir um favor? Pode me dar um abraço? — Tsunayoshi perguntou em um tom contido.
–... Você sabe em que posição está? — Reborn perguntou em um tom evidentemente confuso.
Tsunayoshi sentiu o homem se afastar e apenas pôde se encolher onde estava já que não poderia alcançá-lo.
Não era tão errado assim pedir um abraço ao outro não era? Mas o perdoaria.
Apenas Tsunayoshi poderia entendê-lo naquele momento. Era o único que poderia ajudá-lo também. Os outros estavam assustados demais. Sentia-se incrível. Era o único que não tinha acreditado nas mentiras que contavam por aí a respeito “dele”: o homem que dirigia palavras cortantes e de tom frio. Ele estava apenas em uma má fase, apenas isso.
Duas semanas tinham se passado desde que fora ao banco apenas para pagar uma conta que se esqueceu de pagar. Naquele fatídico dia em que teve sua liberdade enclausurada, quando encontrou pela primeira vez o homem que mudaria a sua vida para sempre.
Reborn, que mantinha o chapéu escondendo seus olhos na hora, estava em companhia de alguns amigos que seguravam armas assim como ele. O grupo havia anunciado um assalto e lembrava-se bem que seu primeiro impulso foi correr, mas suas pernas haviam se paralisado.
Recordava-se do terror que sentiu quando aqueles dedos tão gélidos quanto sua voz retirou seu chapéu e expôs aqueles olhos... De assassino.
Eram olhos tão escuros e nublados de um desejo desenfreado de poder... Um terrorista. Foi capturado ali mesmo, o abatendo como a presa fácil que era.
Amor à primeira vista? Amor à primeira vista.
Que absurdo era o que diziam! Reborn não era uma pessoa má... Ele, Tsunayoshi, era uma pessoa má. Se ele tivesse conseguido fugir naquele momento não estaria sendo um peso para Reborn. A única coisa que poderia fazer era ajudá-lo...
“Gokudera-kun. Apenas faça como ele pedir. Não torne as coisas mais difíceis.” Tsunayoshi disse quando Reborn pediu — ou exigiu? — que falasse com o amigo, dando provas de que estava vivo.
Sim! Desse jeito as pessoas poderiam ser convencidas de que Reborn era pessoa boa. Ele vinha cumprido o que tinha prometido...! Mas se pensava dessa forma porque então estava chorando?
“Idiota. Olha só o que você fez.” Reborn falou com raiva contida, após tomar o celular das mãos do outro e desligá-lo.
“Me desculpe...” Tsunayoshi sussurrou com tom arrependido que soou bastante sincero, tanto que o próprio se surpreendeu.
“Ei, Collonelo! Troca de lugar comigo esse garoto tá acabando com meus nervos” Reborn gritou ao seu companheiro.
O pânico se instalou imediatamente no interior do jovem vendado. Parecia ter uma certeza absoluta do caráter de Reborn, mas não poderia dizer o mesmo dos outros.
“Ora... Não aguenta? Eu sempre soube que era mais resistente que você.” Collonelo falou alto, já que estava do outro lado da recepção, e esboçou um sorriso sacana depois, mas Tsuna não pôde ver já que ainda estava vendado.
“... Esquece!” Reborn gritou de volta, desistindo daquela opção.
Nem por um instante tinha imaginado estar fazendo isso pelo outro, mas foi assim que Tsunayoshi assumiu. Tão rápido como veio, o pânico que sentia sumiu e ele sorriu minimamente, quando a sua vontade era de gargalhar de felicidade, mas não queria que o outro se assustasse.
Trazer desgostos ao outro era algo imperdoável a se fazer... Então porque certos pensamentos se passaram pela sua mente?
Reborn estava irritado. Detestava o receio que no momento sentia pelo Sawada. A palavra “vítima” deveria ser o suficiente para nomear aquele ser perto de si. Então porque o outro estava sorrindo como se fosse um alívio tê-lo por perto?
Com curiosidade acabou por tirar a venda que cobria aqueles olhos... Eram de um castanho claro afetuoso. Uma pessoa comum que tinha seus amigos, família, e problemas cotidianos. Nada particularmente forte devia ter acontecido em sua vida até aquele momento então o normal era que sentisse medo, pânico...
Mas o que havia naqueles olhos no momento era ânsia. Por contato para ser mais exato. Talvez contato com a realidade? Reborn deu um peteleco com o indicador na testa do outro.
– Volta pra terra, seu estúpido. — Reborn disse muito sério. — Quer que eu mate você?
Os olhos do outro se arregalaram de leve por um momento, mas logo voltaram ao estado normal: as íris castanhas se tornaram tão nubladas quanto às do outro, porém de uma forma diferente... De um afeto inexistente.
Mas era apenas no mundo dos sonhos que ele poderia encontrar uma luz.
Três semanas. O tempo corria ainda mais devagar quando não se estava com um relógio. Tsunayoshi apenas soube que havia transcorrido esse período de tempo pelos lábios de seu capturador.
Até ali alguns de seus colegas desafortunados já tinham ido “daquela para melhor” devido a fracassadas tentativas de fuga sendo uma parte delas detidas pelo próprio Tsunayoshi. Se antes era uma suspeita, a ideia de que a mente do jovem tivesse mudado desde que se enfiou ali, passou a ser certeza.
Falavam em “lavagem cerebral” devido à pressão que todos ali estavam sofrendo. Se era isso ou não, Reborn não poderia se importar menos já que com a ajuda de Tsuna as negociações, apesar de andarem mais lentamente do que gostaria, prosseguiam sem problemas.
Tsunayoshi não andava mais preso e tinha até sido permitido a andar armado, com o objetivo de dar um jeito nos “rebeldes” caso fosse necessário.
Reborn e ele não se desgrudavam, mas era mais pela insistência do segundo do que intenção do primeiro. Alguns de seus (ex) colegas suspeitavam que os dois mantivessem um caso entre si... O que era verdade, mas eles não precisavam ouvir os gemidos que o Sawada proferia pelo outro quando estavam ausentes dos postos originais.
Nada deveria mudar para Reborn, além do fato de que tinha um brinquedo novo para se distrair em meio à espera, Tsunayoshi era melhor que os outros, pois não punha resistência entre eles. Mesmo que o outro continuasse violento como sempre.
“Ele só está em uma fase ruim” Tsunayoshi repetia para si, e era como se conhecesse o outro há anos embora não houvesse nem completado um mês.
Quando soube qual era o nome daquele homem não conseguiu conter as gargalhadas que saíram de sua garganta causando, como havia imaginado antes, espanto no outro. E só um pouco viu que o outro relaxou...
Era o suficiente? Era o suficiente.
Completando um mês após o banco ser ocupado, em uma madrugada em que era difícil se manter acordado, os policiais invadiram o banco, resgataram os reféns, e atiraram naqueles que resistiram ao acordarem com o barulho feito pelo processo. Eles haviam entrado pela área que um dos criminosos, Reborn, patrulhava. Mas ele não estava lá.
Também deram falta de um dos reféns. Com o intuito de não deixarem nenhum dos criminosos escaparem, o delegado da região mandou um grupo pequeno em busca dos dois ausentes. Por qual motivo um criminoso levaria consigo um dos reféns e deixaria seus companheiros para trás?
Por uma história de amor era que não seria. Porém, após um ano desaparecido, Reborn Vongola apareceu novamente apareceu em Namimori. Para ser mais preciso, na delegacia da região. Foi com surpresa que os policiais reconheceram a face do foragido e ainda mais pelo mesmo estar a se render a eles sem resistência.
Quando indagado pelo paradeiro de Sawada Tsunayoshi, ele começou a chorar, uma ação atípica a si. Reborn contou que o jovem por livre e espontânea vontade decidiu acompanhá-lo para longe até que nos últimos dias, quando ele não estava olhando, escapou de suas mãos, mas Tsunayoshi estava perto e Reborn conseguiu achá-lo...
E o matou. O mais estranho desse relato todo era que mesmo quando estava sendo sufocado, o jovem estava sorrindo para o outro. Claro, Reborn poderia estar mentindo. Mas o delegado Hibari Kyoya tinha a impressão que o outro não teria motivos para mentir.
O que deixava a dúvida... O que estava motivando o Sawada a todas as suas ações até o momento de seu falecimento? Loucura? Reborn falou a respeito das mudanças que o Sawada começou a sofrer desde que foi preso a seu grupo... Poderia ser...
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