Mitchell Academy: O colecionador de almas
2 Capitulo l
Notas iniciais
Capitulo I
Passou-se uma hora desde o desastre, e neste meio tempo a carrinha preta levou-me para casa. Ao meu lado viajava aquele homem até agora meu desconhecido, o qual me informaram que se tratava de um importante cardeal.
— Kayla nós temos muito que conversar. — Fez-se presente a imponente voz do cardeal. A questão no momento é, como é que ele sabe o meu nome e porque é que está com os meus pais. Não me lembro de alguma vez ter visto este homem na minha vida. – perguntas-te como é que eu sei o teu nome, não é? Bom, eu conheço-te há muito tempo. — disse-me com um sorriso no rosto. – Sei tudo sobre ti. O teu nome, idade, onde vives…
— Eu até acreditava se eu o tivesse visto alguma vez na minha vida. — Ao finalizar a minha frase, a carrinha parou. Saímos dela, entramos na minha casa e sentamo-nos na sala. Eu e os meus pais ocupamos o grande sofá de couro preto, enquanto que o cardeal se sentou na poltrona à esquerda do sofá.
— Tu nunca me viste porque não precisavas da minha ajuda…- Fez uma pausa e inspirou o máximo de ar que conseguia para depois expirar, numa tentativa, que ao meu ver, parecia preparar-se para falar algo sério.- … até agora.
-Até agora? – questionei. Desde o desastre que a minha mente deu um nó. Aquela imagem não me saía da cabeça, imensos corpos jaziam sem vida ao meu redor, banhados pelo seu próprio sangue.
— Kayla tu não és uma menina normal. Tu és especial. Sempre o soube, mas mantive-me longe para que conseguisses ter uma vida normal o máximo de tempo possível. Mas agora que os teus poderes se manifestaram, não há mais volta a dar. – Finalizou deixando-me cada vez mais confusa.
— P-poderes?! Isso é impossível, não existe nada dessas coisas.
— Então se não tens poderes, como explicas a morte dos teus colegas, sendo que foste a única que saiu viva da cantina? Já para não falar que tenho a certeza de que não os mataste de propósito? – Mantive-me em silencio, pois nada havia a se dizer. O cardeal tinha razão. Eu era a culpada daquele triste incidente, mesmo não o tendo provocado de propósito. O velho homem ao ver-me calada, sorriu vitorioso. – Tu tens poderes psíquicos. É um poder muito forte e perigoso se não o souberes controlar. Podes magoar alguém ou mesmo a ti própria. Conheces a Mitchell Academy, não? – acenei positivamente. – Eu sou o Cardeal Mitchell, fundei aquela escola para ajudar mais pessoas como tu. Para que consigam controlar, aprender e melhorar o seu dom. é uma escola católica, protegida do Vaticano. Os alunos aprendem também a usar o seu dom para o bem, para proteger os outros das forças malignas que vivem nas sombras da noite. O que te estou a tentar dizer é que vais ter que estudar lá. – Nada consegui dizer, limitando-me a encarar os meus pais. O olhar deles era como um incentivo para eu aceitar a minha nova realidade.
. . .
No dia seguinte dirigia-me para o aeroporto, com as malas feitas e a minha nova vida, rumo a Inglaterra. Olho distraidamente para a paisagem que passa rapidamente pelo vidro do carro. Ao meu lado viajava o Cardeal que me explicava com grande entusiasmo tudo o que me esperava lá.
— … vais ver que os professores são muito competentes e tal como vocês eles também são “escolhidos”. – Interrompi-o.
— Mas o que são os “escolhidos”?
— Os escolhidos são os que Deus selecionou para proteger a Terra dos males que se escondem nas sombras. São como uma espécie de anjos. Naquela escola, como deves imaginar, são todos católicos, ou habituaram-se a ser. Respeitamos a crença noutros deuses e na mitologia, mas todos têm de seguir a doutrina. No entanto exigimos apenas uma ida semanal à igreja e o uso de um terço. Este é o teu. – Entregou-me uma pequena caixa de veludo preta, no qual tinha um fio com uma cruz preta cheia de detalhes. – É crucial que a uses sempre, serve como identificação que pertences à academia. – Finalizou. Agradeci e prosseguimos em silêncio.
Nunca pensei um dia vir a estudar na Mitchell Academy. A informação que chega ao publico em geral é que é uma escola para sobredotados em que se entra somente por convite da direção. Realmente a escola é para adolescentes especiais, mas não são especiais do modo que eu imaginava.
. . .
Já era fim da tarde quando cheguei a Inglaterra, mais precisamente à escola, e me deparo com os portões ornamentados e com as iniciais da academia. A escola é um enorme castelo, rodeado por uma grande floresta. Os portões abriram-se permitindo a nossa entrada. O carro parou em frente da porta principal. Ao sair da viatura pude observar melhor o espaço. O local era florido, as árvores juntamente com os muros limitavam o terreno da escola, no qual estava preenchido por relva e passeios em pedra. No limite esquerdo erguia-se uma bonita igreja em pedra com um grande relógio numa das torres. Enquanto que no lado direito tinha o que parecia um ginásio com um circuito de obstáculos à volta. Subimos as escadas e na porta esperavam-nos uma senhora que aparentava ter os seus 40 anos, cabelos pretos presos num coque, alta e magra tendo a sua figura ainda mais alongada pelos saltos altos. Ao ver o Cardeal abriu um sorriso.
— Muito boa tarde tio. — disse a mulher docemente.
— Olá Sirena. — retribuiu com um sorriso. — esta é a tua nova aluna, chama-se Kayla. Kayla esta é a minha sobrinha e a diretora da escola Sirena Mitchell. Tenho a certeza de que agora estás em muito boas mãos. – disse enquanto eu apertava a mão à diretora.
— Sê muito bem-vinda Kayla. – Sorriu-me.
— Agora tenho de me ir embora, Sirena conto com a tua hospitalidade para que ela se sinta em casa. — despediu-se de nós e voltou a entrar no carro.
— Vem comigo Kayla. — disse a diretora Mitchell, abrindo passagem para o interior da escola. – aqui neste andar são todos os serviços como a cantina, biblioteca, cafetaria, enfermaria, a minha sala, sala de convívio e umas cabinas telefónicas. No 1º andar ficam as salas de aula, no 2º as salas dos clubes, no 3º e no 4º andar são os dormitórios, na cave é a piscina que usamos para as aulas de natação e nas traseiras são as salas especiais onde tratamos dos vossos dons. — acabou de me mostrar a escola e antes que eu pudesse agradecer ela diz:
— Mais uma coisa, aqui temos algumas regras. — disse alterando a expressão do rosto para a séria. – As compras feitas dentro e fora da escola são efetuadas com este cartão que é carregado pelos teus pais. O uso da cruz é obrigatório. Só podes sair da escola aos fins-de-semana, o toque de recolher obrigatório é às 10h e terás de ir à igreja pelos menos à quarta-feira. – Finalizou entregando-me o cartão, o horário e o resto do material. – As aulas começam às 8h30 e o teu quarto é o 152 e é no 4º andar. – Disse voltando ao seu sorriso.
— Muito obrigada Miss Mitchell. – Agradeci e observei a diretora a entrar no seu gabinete. Agora só tenho de chegar ao meu quarto. Olhei em volta e reparei que as minhas malas estavam à beira das escadas. Bom, pensei que o serviço seria completo, mas afinal não. Andei até elas e peguei em duas. Não conseguindo pegar em mais, resolvi que levaria aquelas em primeiro lugar.
— Precisas de ajuda? – assustei-me com a voz grave que vinha de alguém atrás de mim. Viro-me rapidamente para constatar que o dono da voz era um rapaz moreno e alto, dono de uns incríveis olhos verdes. – Desculpa se te assustei, não era a minha intenção. – declarou.
— Não tem problema, eu é que pensava que estava sozinha. E sim, uma ajuda não vinha a calhar nada mal. — sorri ao rapaz e aceitei a sua ajuda. Aproximou-se das malas que ainda estavam no chão e pegou nelas, subindo de seguida as escadas. Não tardei em segui-lo.
— Onde é o teu quarto? — questionou-me o moreno.
— É no 4º andar número 152. – Subimos os lances de escadas em silêncio, até que ele o quebra.
— Já agora chamo-me Grayson Morgan. – Apresentou-se.
— Kayla Carter, muito prazer. — disse dando o meu melhor sorriso.
— Há quanto tempo chegaste cá?
— Cheguei à cerca de uma hora. E tu há quanto tempo andas por cá?
— Cheguei há 3 anos. Não te preocupes, vais te adaptar bem aqui. As pessoas são simpáticas e é muito melhor do que andar nas escolas normais. — fiquei impressionada. Já cá está há 3 anos… imagino que nesse tempo tenha visto muito poucas vezes os pais. Pergunto-me quando voltarei a ver os meus.
— Espero que sim. – respondi ao seu incentivo e reparei que tínhamos chegado ao meu quarto. – Bem, é aqui o meu quarto. Muito obrigada pela ajuda Grayson.
— Ao seu dispor menina Carter. – disse fazendo uma vénia. Ri e retribuiu a vénia. – Vemo-nos por aí. – Acenou e desceu as escadas. Entrei no quarto e coloquei as malas dentro dele. Este era constituído por uma cama de solteiro média, do lado esquerdo tinha uma penteadeira, no centro um grande tapete branco felpudo, em frente uma grande janela com duas poltronas e uma mesa redonda e no lado direito uma estante para livros e uma secretária e as paredes do quarto eram rosas bebé. Passei o que restava da tarde a arrumar as coisas nos devidos lugares e fui-me deitar.
. . .
No dia seguinte levanto-me antes do despertador tocar. Fiz a cama e tratei da higiene pessoal. Fazia um pouco de frio e vesti umas calças de ganga, uns botins, uma camisa verde escura e um lenço preto. Peguei no horário e vi que pertenço à turma A e que vou ter História no primeiro tempo. Saí do quarto e avistei no fundo do corredor uma rapariga de estatura mediana com cabelo castanho quase loiro. Corro para alcança-la na esperança que soubesse onde fica a sala da turma A. Coloco a minha mão esquerda no seu ombro direito para chamar a sua atenção.
— Desculpa, mas sabes onde fica a sala da turma A? – a rapariga volta-se para mim e rapidamente percebe que nunca me tinha visto na escola. Pude-o perceber, pois a rapariga semicerrou os olhos tentando identificar-me.
— Eu sou da turma A, posso te levar à sala se quiseres. – disse-me. – És a nova aluna não és? Eu sou a Lilith Marvel – apresentou-se e estendeu a mão para me cumprimentar.
— Eu sou a Kayla Carter, muito prazer em conhecer-te. – Retribuí o aperto de mão. Lilith fez sinal para que a seguisse. Descemos os lances de escadas em direção ao primeiro andar, onde viramos à esquerda, avistando logo a sala com uma placa presa na porta de madeira escura a indicar a turma.
— Muito obrigada Lilith. – agradeci. Como era ainda cedo para a aula começar, entrei e sentei-me na mesa mais afastada, tendo como companhia as recordações dos últimos dias. O cardeal disse que a minha “magia” é perigosa e por isso tenho que a saber conter enquanto não aprender a controlá-la e a usá-la.
“Lembra-te Kayla, o teu dom, quando não bem controlado, funciona e é influenciado pelas tuas emoções. Controla as tuas emoções e não terás problemas nos teus primeiros tempos em Mitchell Academy.”
Só tenho de me manter calma durante uns tempos. Ok, não tem como ser difícil. Saí dos meus devaneios ao sentir movimentação na mesa à frente da minha e percebo se tratar da Lilith.
— Qual é o teu dom? – pergunta-me enquanto me observa.
— Poderes psíquicos. – remexo-me nervosa na cadeira. Ainda me custa a crer que isto é verdade e que é a minha nova realidade. Olho para Lilith e esta parece surpresa com a minha resposta.
— É um dom muito raro, aqui na escola são dois a contar contigo. O Lawrence passa cá pouco tempo, mas quando souber que tem uma igual a ele na escola, ficará muito feliz. – fico feliz em saber que existe pelo menos mais um como eu.
— E qual é o teu dom? — pergunto-lhe.
— Sou sobredotada, o meu único dom é ter um cérebro com mais capacidades do que o de um mero mortal. – riu-se. – Nada que se compare ao teu. – continuou. Não me importaria nada de ser sobredotada. Assim podia ajudar as pessoas e sem correr o risco de as magoar.
— Deve ser ótimo sermos sobredotados. Tens todos os motivos do mundo para te sentires mais inteligente que os outros. Uma mera conversa casual pode ser bastante aborrecida, quando podes estar a aprofundar ainda mais os teus vastos conhecimentos ou a ser útil para alguma grande e gratificante missão. Devem te achar arrogante ou que te irritas facilmente, mas isso é porque não compreendem que não podes desperdiçar as tuas qualidades em coisas banais e fúteis. E por outro lado acham-te bastante bondosa por gastares o teu tempo em prol dos outros. – conclui a minha visão sobre uma pessoa sobredotada. Lilith fica em silencio por uns momentos, a tentar absorver tudo o que eu lhe tinha dito.
— Gosto de ti rapariga. – quebrou o silêncio e sorriu. Sorri de volta enquanto esta se sentava na cadeira e entravam pessoas na sala.
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