Mistérios de Dezembro
10 Intensidade
Notas iniciais
ROMANCES MENSAIS
LIVRO XII – MISTÉRIOS DE DEZEMBRO
CAPÍTULO IX — INTENSIDADE
Natasha estava apavorada. Ela tentava se mostrar calma e indiferente, mas eu podia ver o quão tensa seu corpo estava, enquanto continuávamos a encarar a bela paisagem. Desvio o olhar do lago congelado e passo a encarar Natasha com maior intensidade. Por outro lado, ela permanecia evitando os meus olhos. Suspiro e me levanto. Eu estava inquieto. Esperei dez anos para reencontrá-la e ter essa conversa, mas agora que tenho a chance, sinto que as palavras se perderam em minha mente.
Havia tanto a se dizer. Tantas perguntas a se fazer. Ao mesmo tempo, eu me sentia indefeso e amedrontado. Porque por maior que fosse a minha ansiedade para ter todas as respostas que espero há uma década, ainda havia aquela parte de mim que me alertava que essa conversa traria de volta lembranças e sentimentos que estávamos ignorando desde que ela partiu sem olhar para trás e dizer um verdadeiro adeus.
No entanto, apesar de toda a minha curiosidade, eu odiava vê-la tão insegura próxima de mim. Eu queria ser o seu apoio, alguém que ela não tem medo de contar os sentimentos que ela tanto esconde assim como éramos anos atrás. Natasha e eu éramos a dupla perfeita. Fosse trabalhando ou apenas aproveitando o tempo com as crianças, tudo parecia certo quando estávamos juntos.
E eu queria essa conexão de volta. Meus sentimentos por ela não mudaram durante esses anos. Na verdade, a saudade os tornou ainda mais tenaz. Eu a amava loucamente e a desejava com igual intensidade, por isso, sabia que abordar tão bruscamente um assunto tão delicado quanto os acontecimentos de dez anos atrás não era uma boa ideia e só faria que nosso desgaste mental se tornasse ainda maior.
— Você se lembra quando eu te trouxe aqui pela primeira vez? – Pergunto e vejo um sorriso doce se formar em seus lábios com a lembrança.
— Sim. Era um dia de outono. As folhas estavam caindo e o Sol estava de pondo. O cenário se assemelhava a de uma floresta mágica. Tudo era tão lindo que me fez perder a fala por alguns segundos. – Comenta com um sorriso nostálgico. – Você preparou uma cesta de piquenique. E então nós nos sentamos aqui e começamos a imaginar um mundo onde eu não era uma assassina e você um bilionário excêntrico com uma lista gigantesca de inimigos. Criamos um mundo onde você, eu e... e as crianças poderíamos viver sem precisarmos nos preocupar com as interferências de Alexi.
Assinto e suspiro, sentindo o aperto em meu peito ao lembrar de Cooper e Lila. Eles eram crianças brilhantes e amorosas. Eu os amava. Um amor tão intenso que era difícil de explicar. Perdê-los foi o golpe mais doloroso e cruel que experimentei. Eu faria qualquer coisa para os trazer de volta a vida. Daria todo o meu dinheiro e a minha própria vida se fosse necessário sem nem mesmo pensar duas vezes.
— Eu sinto muito por não ter sido capaz de cumprir com a minha promessa. – Lamento com sinceridade e dessa vez é Natasha que se levanta. Ela vira de costas para mim e respira fundo, passando a mão pelo rosto. – Eu devia ter protegido você e as crianças.
— Não. A culpa foi toda minha. – A voz carregada de dor faz meu coração se cumprir. – Se eu tivesse ouvido os seus conselhos, nada disso teria acontecido. Eu não deveria ter me envolvido com Alexi. Eu... eu... a culpa é minha Clint. Achei que seria capaz de protegê-los, mas... eu fui ingênua.
As lágrimas passam a descer pelo seu rosto quando ela se vira para me encarar. Prendo minha respiração para não desmoronar na frente de Natasha. Puxo-a e a abraço com intensidade. Ela corresponde, afundando o rosto em meu peito. Natasha se entrega por completo ao choro. Fecho meus olhos e mordo meu lábio, compartilhando da mesma dor.
— Eles... eles eram seus... – Natasha soluça e hesita. Nós nos afastamos e posso ver tanta dor e arrependimento em seus olhos. Suspiro e assinto, consciente do que ela estava prestes a revelar, mas não conseguia externalizar.
— Meus filhos? – Completo, limpando as lágrimas de sua face. Natasha arfa e arregala os olhos, parecendo não acreditar em minhas palavras. – Sim. Eu sabia que eles eram nossos filhos, assim como também sabia que você estava grávida quando fomos atacados.
— Você... você sabia...? Por... por que não disse nada? Eu... eu... – Balbucia a ruiva, afastando-se de mim, completamente atordoada. Suspiro e tento me aproximar, mas ela se afasta mais uma vez. – Por que mentiu para mim, Clint? Por que nunca me disse que sabia que Cooper e Lila eram seus filhos? Como você descobriu isso?
— Bom, você deixou bem claro para mim que não queria que eu soubesse que eles eram meus filhos quando me contou que estava grávida e que o pai era Alexi. Eu sabia que isso era impossível, porque você conheceu Alexi um mês depois de termos feito amor e você ter fugido de mim. – Respondo, sentindo-me um pouco da frustração ao relembrar do caso.
— Aposto que se divertiu me fazendo de palhaça. – Ironiza Natasha e eu bufo, sem acreditar que ela estava distorcendo a situação. Dez anos haviam se passado e algumas coisas nunca mudam.
— Claro que não. O que eu deveria ter feito quando você apareceu depois de alguns meses dizendo que iria se casar com Alexi e que estava grávida dele? Eu até mesmo questionei sobre você ter certeza de que ele era o pai, mas você ficou ofendida com a pergunta e passou semanas sem atender as minhas ligações. – Respondo, suspirando. Ela me encara decepcionada. Isso me deixa ainda mais frustrado. – Você estava tão apaixonada por ele que nem mesmo era capaz de enxergar o quão sem escrúpulos era aquele desgraçado. Você o amava tanto que...
— Eu não amava Alexi. O que eu sentia por ele estava longe de ser amor! – Interrompe Natasha, alterada, algo que raramente acontecia.
— Então por que você nunca me dava ouvidos? Por que deixou que o relacionamento de vocês chegasse tão longe? Por que...
— Porque eu amava você e estava assustada! – Explode a agente, sentando-se no banco do gazebo, levando as mãos ao rosto. Ela respira fundo algumas vezes e finalmente me encara. – Quando eu descobri que estava grávida, eu fiquei apavorada. Eu era agente da CIA e você rodava o mundo, dizendo ser um historiador, quando na verdade estava mais para um caçador de recompensas. Nós éramos jovens e éramos alvos de inúmeros criminosos. Então, quando Alexi apareceu, ele foi a oportunidade de nossos filhos terem a chance de ter uma vida normal longe de toda a loucura que nos envolvíamos. Ele era agente da KGB assim como meu pai e tinha todo o governo russo ao seu lado para proteger as crianças. Eu era uma assassina que não era americana, mas também não era mais russa. Não quando eu tinha traído a minha nação para me tornar uma agente da CIA.
“Você nunca permitiria que eu afastasse as crianças se soubesse que eles eram seus filhos. Mas diferente do que aconteceu com nossos meninos da família Barton, eu não queria que eles fossem treinados para sobreviver. Eu queria que eles tivessem uma infância normal, sem a possibilidade de se tornarem um alvo, assim como aconteceu.
Foi por isso que eu fugi. Eu queria proteger nossos filhos e pensei que os escondendo na pequena Barnaul na Rússia, tudo seria mais fácil. Mas eu estava enganada. Um ano depois, quando você apareceu e encontrou as crianças pela primeira vez, eu soube que tinha cometido o maior erro da minha vida. A forma como vocês se olhara foi o bastante para eu querer voltar atrás de minha decisão. As crianças te amaram instantaneamente. Era como se eles sentissem que você era o pai delas. E foi nesse momento que percebi que nós poderíamos ser a família que nós tanto sonhávamos.
Mas era tarde demais. Alexi não demorou a perceber que eles eram seus filhos e a situação saiu do controle. Mesmo quando retornamos para Hawkins, ele continuou a me pressionar pelo nosso casamento. Terminar com ele não deixou as coisas mais fáceis. Ele passou a ficar mais violento e meu orgulho me impedia de pedir sua ajuda. E eu continuava a me submeter a certos tipos de situações, temendo que as crianças acabassem se tornando parte de seus surtos psicóticos.
Mesmo quando você conseguiu o prender, provando que ele era membro da HYDRA, meu coração me dizia que os ataques estavam apenas começando. Foi então que eu pedi a sua ajuda para conseguir que o orfanato em que você cresceu cuidasse deles, enquanto eu ainda não era capaz de garantir sua segurança. Não sabe o quanto foi difícil mentir para você, mas eu estava desesperada.
Nós então voltamos a nos aproximar e tudo voltou a ser perfeito novamente. Ainda que escondido de nossos amigos e família, passávamos o fim de semana com as crianças e quando eu menos percebi, eu estava morando na sua casa, planejando o nosso casamento e a história de que tínhamos adotado as crianças. Eu já não tinha mais coragem de contar a verdade. Covardemente, eu não era capaz de lidar com a possibilidade de você me odiar por ter escondido algo tão importante de você.” – Natasha morde o lábio inferior e parece lutar contra as lágrimas. – E por minha causa, eu não fui capaz de proteger nossos filhos.
— Você não teve culpa. Fez o que achava ser o melhor para os nossos filhos – Ajoelho-me diante de Natasha, apoiando-me em seus joelhos. Ela me encara fragilizada e eu a abraço mais uma vez. – Alexi é o verdadeiro culpado. Foi ele quem sequestrou Ben e o usou de isca para me atrair, enquanto matava Cooper e Lila. Foi Alexi quem a drogou e a espancou até que ficasse inconsciente e acabasse perdendo o nosso bebê. E era por isso que eu tentei o matar com as minhas próprias mãos. – Afasto Natasha e a encaro com um certo desespero em meu peito. – Por que me impediu? Se você não o amava, então por que não permitiu que eu fosse até o fim em minha vingança, Natasha?
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