Misturando as coisas

1 Capítulo único


Notas iniciais
“A nossa amizade é muito importante pra mim, Niko... eu não quero correr o risco de perde-la” E se Félix tivesse dito "sim" quando ainda era cedo demais?

— Você não quer dormir aqui?

Diante de mais um convite de Niko, o que havia se tornado um hábito, daquela vez ele não espantou-se, Félix riu. Riu ao mesmo tempo que imaginou a possibilidade. Ele olhou o Carneirinho de cima a baixo enquanto passava o dedo mínimo na sobrancelha, seu gesto característico.

Fantasiou rapidamente o que poderia acontecer entre eles e logo a excitação o invadiu. Ele queria, Niko queria... e eles se davam tão bem, estavam tão próximos... então “por que não?”, ele pensou.

E ele sabia porque não. Mas, por alguma razão, a razão deixou de comandá-lo.

Félix continuava rindo enquanto Niko, fazendo um gesto com a cabeça, reforçou o convite. Ele ainda pensou em fazer uma piada e sar dali, explicar que achava melhor não misturar as coisas... mas "por que não?" ele pensou novamente. Eram dois adultos, que compartiam uma atração mútua. Ambos já estavam há um bom tempo sem nenhum parceiro, então... "por que não?", remoeu. E sem conseguir mais pensar racionalmente, arriscou... acabou dizendo sim.

Depois de uma brincadeira, sobre arrumar o quarto de hóspedes, Niko levou Félix para o quarto dele. Roupas foram ao chão, carinhos e beijos foram trocados, lambidas distribuídas e gemidos foram ouvidos, até adormecerem. Eles finalmente passaram a noite juntos, muito juntos.

Na manhã seguinte, durante o café e após a saída de Jayminho para a escola, Niko estava todo serelepe. Fazia planos, convidava Félix para sair com ele e as crianças e jantar novamente nos próximos dias. Após o jantar, Félix estava convidado a ficar para mais um round de deliciosas e ousadas atividades que iam varar a madrugada.

Para o Carneirinho, eles já tinham uma espécie de namoro.

Para Félix, namoro em nenhum momento, naquele momento, passava pela sua cabeça.

Já vestido, com a mesma roupa que usava na noite anterior, Félix recusou o convite e, enquanto levantava da mesa dizendo que precisava ir cuidar de muitas coisas, argumentou que tinha outros planos para as próximas noites.

Obviamente ele estava era fugindo de qualquer envolvimento. Compromisso, a uma hora daquelas, na sua vida e na situação em que estava, era algo impensável.

Niko ficou decepcionado.

— De tarde, então. Não quer ir ao cinema? Podemos ir e depois vir pra cá, faço um café e conversamos mais um pouco... eu e você... ali no sofá...

Félix acreditou que precisava deixar as coisas bem claras:

— Niko, calma. Eu tenho que... tenho muito o que fazer... enfim... quem sabe outro dia... mas não vamos marcar nada agora, tá?

— Então quando?

— Eu não sei...a gente marca. Eu te ligo. Agora levanta e vem abrir a porta pra mim.

— Félix, não vai saindo assim...

— Assim, como? Eu tenho que ir, criatura. Olha, eu devo ter salgado a Santa Ceia pra você não entender que...

Niko o interrompeu. Estava chateado, magoado é a melhor palavra.

— Félix, falemos sinceramente, nós passamos a noite juntos! Você está agindo como se nada tivesse acontecido...

— Carneirinho, eu sei bem o que aconteceu! E foi bom, admito que foi ótimo. Mas foi... foi uma noite. Foi uma ficada, Niko. Você já está fazendo planos como se tivéssemos um namoro.

— Fique sabendo que eu não sou uma pessoa que curte essas ficadas eventuais, de uma noite só, eu...

— Mas você que me convidou! Alías me convidou mais de uma vez. — Disse com o dedo em riste.

— Mas Félix, eu pensei... pensei...

— Niko... presta atenção. Rolou! Rolou, ok. Mas isso não significa que vamos casar. Sinceramente.

Niko abaixou a cabeça. Félix se aproximou, pegou na orelha dele e, enquanto fazia um carinho, falou:

— Carneirinho... não pensei que você fosse ficar assim tão sentido.

Niko parecia que ia chorar, virou-se e encarou Félix com os olhos mais penosos e pidões do planeta. Mas Félix foi firme, e foi o Félix que ele sabia ser. Tentou fazer piada com a situação.

— Eu sei que sou muito bom de cama, sei que meto maravilhosamente bem! Topo tudo, fizemos de tudo e eu adorei. E sei que você também adorou, do jeito que você gemeu isso ficou bem óbvio... mas Niko... não é pra tanto! Por que essa tristeza toda?!

Niko estava visivelmente abatido. Félx visivelmente inquieto, querendo sair dali, porque a situação estava ficando séria, envolvia sentimentos e ele não queria se envolver, ainda mais com sentimentos que ele não sabia lidar.

O Carneirinho mandou na lata:

— Félix, eu não sou dispensável, sabia?

— Criatura... eu sei. E sei que você ainda vai encontrar o homem ideal pra você, tenho certeza. E não é aquela Lacraia! Só que esse homem... esse homem que você merece, não sou eu.

— E se eu te disser que eu sinto que é você?

— Niko... Eu sou um nada, eu penso em deixar a cidade, eu...

— E se eu te disser que eu sei, sei que nós dois juntos podemos dar certo?

Félix balançou a cabeça em sinal negativo. Sem graça, e revirando os olhos, arrumou o cabelo, ajeitou a gravata, abotoou o paletó e começou a caminhar em direção à porta, como se estivesse sendo empurrado. E ele estava sendo empurrado para fora dali, pela insegurança e pelo medo.

— Olha, Carneirinho... eu tenho que ir. Eu queria que você abrisse a porta porque eu quero voltar... Mas já que você não vem, pode continuar tomando seu café, comendo suas torradas se quiser... eu mesmo abro então...

Niko continuou em silêncio, não levantou, não se mexeu. Félix até que tentou, mas não conseguiu ficar totalmente indiferente. No caminho até a porta ele parou e retornou até onde Niko estava. Inclinou-se por sobre ele e beijou-lhe a testa.

— Amigos? Hein? Continuamos amigos, certo? Vamos fazer assim, a gente pode repetir a transa qualquer dia desses...

Niko levantou de uma vez e saiu correndo dali da sala, foi em direção ao quarto enxugando lágrimas mas sem dizer nada.

Félix, por fim, perdeu a paciência. Aquilo que ele intuiu, quando pensou em dizer não e recusar o convite, agora voltou com força na sua cabeça. Félix sabia que não devia ter cedido ao desejo, devia ter poupado a bela amizade que eles estavam construindo, mas não o fez. Cedeu mesmo conhecendo Niko e a ele mesmo. Cedeu mesmo acreditando que não tinha como corresponder ao que Niko esperava de alguém.

Félix gritou na direção do Carneirinho:

— Eu sabia que isso ia acontecer! Eu não queria que nossa amizade acabasse! Eu sabia que você ia misturar as coisas... Niko...

Niko não retornou. Félix caminhou atrás dele e parou na porta do quarto a tempo de ouvir ela sendo trancada por dentro. Ele bateu algumas vezes.

— Carneirinho... Nikooo.

Niko não respondeu. Félix desistiu. Não ia insistir. Adriana lá estava na casa e provavelmente escutava tudo, mas nem era por isso. Era porque ele nem saberia o que dizer, ou o que fazer à partir daquele ponto. Aconteceu e foi bom, mas ele não tinha como, não sabia como, não se sentia capaz de corresponder às expectativas do Carneirinho.

Félix foi embora abrindo ele próprio a porta, mesmo que acreditasse que se a porta não fosse aberta pelo dono da casa, o convidado não retornaria mais.

Era um risco que ele ia correr.

Notas finais
Bem, mas todos sabemos que ele disse "melhor não" e foi pra casa tomar banho frio. Melhor assim pois a história tomou outro rumo
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!